terça-feira, 16 de julho de 2019

Resenha #99 - Último Refúgio (J. M. Beraldo)

"Último Refúgio" de J. M. Beraldo é a sequência de "Império de Diamante", livro de fantasia brasileiro que levou o prêmio Argos de 2016 e foi muito merecido, pois trouxe algo diferente para a Fantasia escrita no Brasil, cheio de referências a África, desde o sistema de magias, passando pelos personagens negros e grandes impérios até a geografia do continente. Nessa sequência, contudo, o autor nos leva a um novo continente nesse mesmo universo em uma aventura com seu protagonista Rais Kasim. 

Kasim é em o "Último Refúgio" um refugiado da guerra travada em Myambe e trabalha como mercenário contratado pela Companhia mercantil de Último Refúgio, a maior cidade do continente de Panjekanaverat. Também temos Vema Thevar, uma onironauta e amante de Kasim vinda de uma família de refugiados de segunda geração. Ambos acabam sendo arrastados para uma conspiração que vira uma jornada pelos mistérios no continente. Kasim é encarregado de investigar um líder revoltoso que está organizando os trabalhadores do porto da cidade chamado Chidi, enquanto isso Vema é recrutada pelo mestre dos onironautas Nyx para criar um sonho mais amplo e detalhado jamais visto.

Temos um mundo totalmente diferente de Myambe, no lugar da seca, religiões fortes e do sólido Império de Diamante. Em Panjekanaverat há uma raça ancestral porém decadente (os Panjek) em uma cidade cosmopolita sustentada tecnologicamente por três grandes casas de arte: A arte da Carne, onde quirurgiões englobam a função de médicos e fazem manipulações no corpo com uma ética peculiar, ou seja, fazem cirurgias, implantes e até criam raças funcionais (como os makaras - bestas de carga que circulam cotidianamente na cidade); a Arte dos Planos, usa energia taumatúrgica para criar máquinas especiais que trazem suas versões de avanços tecnológicos que conhecemos da nossa vida moderna, mas podem criar coisas bizarras como um robô para transportar uma cabeça semiviva; e a Arte da Mente, são onironautas que navegam e moldam sonhos e removem pesadelos, explorando o limites da mente e as barreiras entre as dimensões. Os lideres dessas casas são panjeks chamados de maharashans mas estes dividem poder e influência com o prefeito da cidade, Vayk Varna que tece uma série de alianças políticas e comerciais para se manter no poder. Essas tecnologias e o ar cosmopolita da cidade mais a situação de imigrantes de Myambe (continente que já conhecemos) dá camadas adicionais de profundidade para a cidade expandindo o mundo de forma inteligente.

A leitura é bastante fluída e o autor continua contando uma historia consistente sem desvios desnecessários. Assim como no primeiro livro, temos várias partes do texto dedicadas a entender melhor este mundo novo, pois há um novo sistema de magias que em Panjekanaverat é mais complexo deixando Myambe com aspecto provincial em comparação. O autor optou por menos personagens principais, e por mais páginas para dar mais profundidade aos protagonistas e é aqui que Vema brilha na história assim como o continente que é um personagem em si. Com o fim da leitura, Panjekanaverat nos deixa saudades assim como Myambe me deixou. Agora, resta esperar o próximo livro e que ver se haverá um novo continente a ser explorado ou se teremos um retorno aos que já conhecemos. Que venha o terceiro livro!
Leia Mais ››

terça-feira, 18 de junho de 2019

Resenha #98 - Ás Moscas, armas! (Nelson de Oliveira)

Ás Moscas, armas! de Nelson de Oliveira (a.k.a. Luiz Brás), é uma coleção de contos muito sucintos, criativos e instigantes. São 25 contos em apenas 120 páginas. Na maioria ocupam apenas duas páginas. Sem medo de viajar pelos recantos da imaginação e da alma humana, o livro pede uma leitura saboreada e reflexiva. O estilo do autor é avesso a enrolação, preferindo a concisão e profundidade nos pensamentos e também pela criatividade nas histórias que podem te levar para qualquer lugar e essa é uma constante na obra e nas outras resenhadas no blog: Oneironautas do autor junto com Fábio Fernandes, Anacrônicos e Sabixões e Sabixinhos.

Vamos falar brevemente de cada conto, depois do conjunto. O livro abre com "A preponderância do pequeno" em que um frequentador da casa de campo do senhor Maxwell descreve seu dono refletindo sobre suas diferenças, os parênteses guardam a sinceridade. "Daltonismo" acompanha uma briga de casal embalada pela obra de Machado de Assis, sobre a não/traição de Capitu. Em "Ah!" Rubens passa mal e Ana Maria não sabe o que fazer. Depois o mundo vira luz. Todos viram luz. O conto nos faz imaginar eventos da escala pessoal até a global. Uma sensação que o autor passa em Anacrônicos. "Antes do Verão, depois da primavera" conta sobre o achado de Carlos e Joana: um baú de tesouros cheios de lembranças perdidas. Objetos simples mas que despertam memórias. O conto nos faz pensar sobre espaços entre as coisas e as coisas que se perdem lá.


"Amor", faz um retrato do lado dolorido do amor. Em "Baile de Máscaras", o alfaiate Zacarias Sepúlveda Bezerra é acusado de  um crime que não cometeu no dia de Natal e sua execução será transmitida pela TV. Conto usa os elementos do justiçamento e é um bom exemplo da literatura do autor na sua capacidade de instigar. "Entre paredes murmuramos sombras que nos assustam" é um pensamento corrido, escrito sem parágrafos, numa sentada só. Uma explosão de sentimentos. "Jaqueline in the box" nas primeiras linhas, Jaqueline foi apenas um bebê abandonado numa caixa de papelão, mas com com o passar do tempo ela se tornou uma caixa de papelão mais que qualquer outra coisa. O conto carrega numa linguagem infantil, de alguém que se esconde de sua dor já que não tem mais sua caixa para protege-la. "Lua, 1969" é um conto sobre duas entidades que conversam e se confrontam sobre a saúde de uma criança quando o pouso do homem a Lua era transmitido na televisão. É bastante enigmático, a ponto de eu ter entendido pouca coisa dele.

"Górgona" é dividido em duas partes, a primeira fala de uma profecia, usando de tom lírico e a segunda é um papo de bar com um escritor e tem um tom grotesco. É um conto de interpretação bem abstrata mas arrisco-me a entendê-lo como uma forma de mostrar os homens ameaçados pelo poder das mulheres que não veem da força. "Ninfas" pinta um quadro de caçada e fuga, sedução e armadilha. "Fora do quarto à noite", Edgar é um bombeiro idoso aposentado que imagina derreter tudo a sua volta. Conto de difícil interpretação, talvez seja sobre como ficar sozinhos e sentir-se repulsivo/destrutivo. "Inveja" brinca com os rótulos usando rótulos para nomear personagens invejosos. Usa a repetição de forma que fica divertido. "O Homem só" fala sobre Alberto um homem solitário, que não consegue transar com sua amante, pois tem mais prazer com suas fantasias do que na interação com outras pessoas. "Propósito" é uma página de elogio a Darth Vader mas desenha mais o admirador que o admirado. "Odor" descreve cientificamente a mais irracional das atrações. 

"O que eu faria se estivesse no meu lugar" é um conto circular que brinca com a alteridade de um rapaz que quer dar um presente para a namorada. "Quinze Minutos" pinta apenas com diálogos a correria diária, e com a repetição da rotina. É divertido e uma leitura ágil. Pequenas Reminiscências perdidas" conto curto gira entorno de Priscila e Rodolfo, num suspense que envolve até o fim. "Ruas" viagem onírica nas ruas de São Paulo, dominadas por diferentes animais domésticos e de rua. O narrador em primeira pessoa, não aprece ter uma raça definida. "Três tristes tias" cotidiano de três idosas cheias de manias, suas ações contrastando com as falas de um sobrinho que aparece apenas nelas enquanto as irritações das senhoras moldam a percepção de seu mundo. "Avenida Roshamon" temos um punhado de versões de um atropelamento. Fato distorcido e torcido muitas vezes, no boca a boca. "O que mais há a dizer?" faz pensar sobre quando as palavras são retidas e despejadas. "Um sujeito meio esquisito" um conto muito esquisito.

O livro é bastante aleatório nos assuntos, mas sempre girando entorno do insolito. Apesar das poucas palavras, é preciso ler e refletir antes de seguir o próximo conto. Não é uma leitura de praia, mas um mergulho profundo. Recomendado! 
Leia Mais ››

terça-feira, 11 de junho de 2019

Resenha #97 - Planeta do Exílio (Úrsula K. Le Guin)

"Planeta do Exílio" (1966) é junto com "O Mundo de Rocannon" uma das primeiras obras publicadas pela autora e faz parte do ciclo Hainnish que contam histórias que se passam em vários planetas onde a Liga dos Mundos busca intercâmbio cultural com planetas com menos tecnologia e complexidade civilizacional. É possível notar a qualidade da escrita da autora já neste livro do seu segundo livro e, lendo os seguintes, como evoluiu nas posteriores até chegar nas obras de maior sucesso: "A Mão Esquerda da Escuridão" e "Os Despossuídos". 

A história se passe no planeta Eltanin, também chamado de Alterra, 600 anos terrestres depois que a Liga dos Mundos abandonou milhares de colonos sem restabelecer contato novamente. Os alterranos que remanesceram estão definhando lentamente em sua cidade - Landin - enquanto convivem com seus vizinhos, os Tevar. São nativos do planeta ao qual a Liga estabeleceu contato quando da sua chegada mas hoje apenas aturam os alterranos devido as condições climáticas. Existe muito preconceito entre os dois povos, mas a chegada de um inverno terrível, num planeta em que as estações do ano duram uma geração inteira, e uma invasão em massa organizada pelos hostis Gaal, obrigam aos tevaranos e alterranos lutarem lado a lado. Em meio a esse conflito, Hiff Rolery, uma neta do líder tevarano Wold e Jakob Agat, o líder dos Alterranos se apaixonam e tentam selar uma aliança entre os povos para o iminente ataque dos Gaal. Contudo, apenas Agat parece disposto a passar por cima do preconceito para isso.        

A característica mais marcante da obra é a habilidade em misturar Ficção Científica e Fantasia, assim como vimos em O Mundo de Rocannon. A obra é essencialmente Ficção Científica, pois os colonos usam tecnologia avançada ainda que limitada pelas regras da Liga dos Mundos de não sobrepujar os nativos e todo o pano de fundo da própria da Liga dos Mundos. O elemento de Fantasia fica por conta de toda a ambientação e baixa tecnologia do mundo de Eltanin que remete muito a Fantasia medieval. Úrsula consegue mesclar os dois ambientes de forma coesa e escreve tudo isso em personagens com uma boa evolução e complexidade para um livro tão curto. Nesse ponto pode não agradar muito ser curto demais e as coisas se resolverem um tanto rápido, mas levando em conta que é a segunda obra da autora (a primeira foi lançada no mesmo ano) e que as obras seguintes são melhores trabalhadas, nos mostra que Úrsula Le Guin no início de sua carreira ainda é excelente! Enfim, recomendo a obra para quem quer saber mais da Liga de Todos os Mundos, que gosta de uma boa mistura de FC e Fantasia e que quer apreciar uma boa escrita.

Segue a ordem cronológica das obras do Ciclo Hainnish, junto com o ano de publicação de cada obra:
- Os Despossuídos (The Dispossessed) – 1974;
- Floresta é o Nome do Mundo (The Word for World Is Forest) – 1976;
- O Mundo de Rocannon (Rocannon’s World) – 1966;
- Planeta do Exílio (Planet of Exile) -1966;
- A Cidade das Ilusões (City of Illusions) – 1967;
- A Mão Esquerda da Escuridão (The Left Hand of Darkness) – 1969;

- The Telling – 2000;
Leia Mais ››

terça-feira, 4 de junho de 2019

Resenha #96 - Espaço Eletrônico (Philip K. Dick)

Estamos de volta para falar de outra obra de Philip K. Dick, "Espaço Eletrônico" (The Unteleported Man) foi escrito em 1964 e lançado no Brasil em 1971 no selo de FC Urânia da antiga editora Brugueria. Eram edições de baixo custo, de bolso e hoje é a única opção para se ler em nossa língua, mas como bom fã do autor, aceito de bom grado a rinite provocada por suas 160 páginas amareladas. Esta novela teve uma segunda versão "Lies Inc." escrita alguns anos depois, ainda sem tradução para a língua de camões. Foi uma leitura rápida e emocionante de uma obra da primeira fase do autor.

A história se passa em 2014 em uma Terra superpovoada poe 7 bilhões de habitantes. Após a descoberta de um planeta habitável, o nono planeta da estrela Formalhaut, chamado Whale's Mouth, a imigração em massa parece uma solução. A empresa de Rachmael von Applebaum era a líder no mercado de transporte de colonos inter espaciais até uma nova tecnologia encurtar o tempo de transporte de 18 anos para 15 minutos. Porém nenhum imigrante retornou para contar como era o planeta. Rachmael, desesperado pela falência da empresa, quer provar que Whale's Mouth é uma farsa e então busca a ajuda da empresa Lies Inc. para reter a maior nave da empresa chamada Onphalos. 

O clima de paranoia em relação o mistério de Whale's Mouth é bem estabelecido e o livro tem bastante ação, principalmente depois que o mistério desenvolvido e o suspense acaba. O autor ainda não tinha inserido os elementos de conflito com a realidade que o fizeram ser conhecido, pois o autor ainda estava em sua fase mais "pulp". É um livro que vale a pena ser lido se você conseguir encontrá-lo, mas tem mais valor para quem quer completar a coleção do que para o leitor casual ou para quem quer começar a ler o autor.
Leia Mais ››

terça-feira, 28 de maio de 2019

Resenha #95 - Mona Lisa Overdrive (William Gibson)

Mona Lisa Overdrive é o livro que encerra a Trilogia do Sprawl de William Gibson, que iniciou com Neuromancer e continuou com Count Zero. No primeiro livro Gibson nos apresentou a matrix, e o conceito de ciberespaço, a alta tecnologia com baixa qualidade de vida que caracterizam o cyberpunk. Na sequencia, as inteligências artificiais derivadas das transformações na matrix nos apresentaram os Loa, divindades do Vodu muito poderosas. Na conclusão da saga, temos de volta os elementos predominantes nos dois livros.

A primeira coisa que notamos é a estrutura narrativa de acompanhar vários personagens em separado que convergem para uma mesmo final onde suas histórias se cruzam, como em Count Zero. Dessa forma, acompanhamos Kumiko Tanaka a filha de um membro da Yakuza enviada a Londres pelo seu pai para protegê-la de um conflito na organização. Ela fica na casa de Swain, um ambicioso homem do submundo. Angela Mitchell, que depois de ter sido salva por Turner no livro anterior, agora é uma estrela da mídia mas que luta para se livrar da influência do Loa. Mona, uma prostituta que é contratada para uma transformação corporal. É viciada em drogas e faz pouca ideia de onde está se metendo.  Também temos Gendry e Cherry, um cowboy e uma paramédica que cuidam de um misterioso homem preso ao ciberespaço. Por fim, temos a volta de Molly Millions que está sendo perseguida por uma IA vinda de seu passado.

A escolha por várias linhas narrativas e praticamente todas elas guiadas por mulheres é muito bacana, pois dá um sentido de catarse no seu fim, contudo aqui as coisas demoram mais para engrenar, pois o livro (e a trilogia também) vão chegando ao final e as explicações não aparecem. Porém quando aparecem e a sequência final na fábrica são excelentes apesar de muito curtas. Muita coisa acontece ao mesmo tempo e não conseguimos apreciar de forma adequada porque o texto fica muito corrido. Isso já era um problema em Count Zero, mas aqui fica mais evidente pois temos mais linhas narrativas e resoluções de toda uma trilogia.

Apesar de todas essas ressalvas, quem chegou até aqui é porque gostou minimamente dos outros livros e então vai conseguir gostar deste também. Não se trata apenas de sua importância conceitual (já marcada na história pelo primeiro) mas também como história. Recomendo a leitura com peça essencial para aprofundar o cyberpunk.

Leia Mais ››

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Resenha #94 - Sombria (André Vianco Org.)

Sombria pode parecer mais uma coletânea de contos de terror criada por editoras pequenas que quase ninguém vai ler, e em parte é, mas também tem algo que é muito importante para mim. Foi a primeira onde tive um conto de minha autoria selecionado. Além do motivo pessoal, Sombria tem outro diferencial das demais coletâneas de contos que quase ninguém vai ler: Não foi uma coletânea de vanity press, em outros termos, não paguei para publicar. Na época da seleção, entre fins de 2015 e inicio de 2016, estava desempregado e sem condição alguma de desembolsar qualquer valor para ter 5 páginas de qualquer coisa num livro e isso foi crucial para enviar meu conto para a seleção de André Vianco (através de sua escola de escritores Vivendo de Inventar), que saiu pela editora Empírio em 2017.

O livro conta com 42 contos que giram em torno do Terror/Suspense e do conceito de Sombrio, além de serem ambientados no Brasil urbano. O organizador, na época da seleção para a antologia, fez uma live pela internet para explicar os termos e fazer uma propaganda dos cursos já que metade das vagas para publicação seriam de seus alunos e outra metade de pessoas de fora. Achei justo, principalmente em comparação as editoras vanity press, que infestam o mercado. 

A chamada para os contos buscava concatenar três conceitos básicos: O de "Sombrio", o de "Brasil" e o de "Urbano". Ficou implícito que seriam do gênero de Terror, ou próximo, e essa linha foi seguida com sucesso. O cenário se passar no Brasil já foi ignorado por uma pequena parte dos contos pois alguns soaram enlatados estadunidenses, com muitos estrangeirismos passando longe de terras tupiniquins. O conceito de "Urbano" foi o mais ignorado pois foi estabelecido a preferencia por contos em cenário urbano e alguns contos fazem exatamente o inverso, o que dá uma impressão ruim de que alguns contos foram tirados da gaveta (o que não é sempre ruim) e mal adaptados, quando são, a coletânea. No geral, os contos conseguem se manter num eixo em comum, como se espera numa coletânea temática. 

Agora vamos ver os contos avaliados um a um. Foram impressões anotadas a leitura de cada um e reunidas na parte que segue. No fim vou listar meus favoritos.
    
1-A Carta (T. C. Oaks): Um relato, como que encontrado numa garrafa no oceano, de um homem solitário em um mundo tomado por zumbis. O protagonista escreve uma carta contudo suas emoções em relação a sua amada oscilam muito para quem está com uma convicção de que irá se arriscar a encontrá-la, pois a carta é escrita em um único momento. Envolvente mas pouco sombrio.

2-A mãe de Cássio (Margareth Brusarosso): Cássio e seu irmão mais novo Salvador são dois meninos que moram com a avó e vão visitar a mãe que está em um hospício por acreditar que um demônio a persegue e então Cássio vê que sua avó tem uma boneca estranha no quarto. Conto bem simples e razoavelmente envolvente, senti falta de um peso na participação da avó.

3-A bruxa no espelho (Osmildo Antônio): Greg conta em retrospectiva, ao seu psiquiatra, como sobreviveu a um massacre de adolescentes em uma casa amaldiçoada. História batida com um bom mistério e resolução. Os nomes dos personagens (como: Cal, Pit, George, Greg) tiram um pouco a força do conto dando a ele uma cara de enlatado americano.

4-A garota do Breu (Ingo Muller): Um motorista do aplicativo Breu, Anagrama para Uber, faz uma corrida para uma moça quando taxistas aparecem e não sabem lidar com a concorrência. O conto com sabor gostoso de "causo", bem adaptado a meio urbano do Brasil, atual pelo uso de aplicativos de corrida e também a realidade da vida de trabalhador autônomo.

5- A garota no espelho (Eduardo Velásquez): Danilo parece acostumado a conversar com Alexandra, uma menina que vive em algum lugar dentro dos espelhos. Conto criativo, na história e na forma com que é contada. Sucinto, simples e misterioso.

6-A próxima (Tereza Cristina Lima): Menina suicida é salva de tentativa de suicídio por mãe católica e pai médico. Conto com mistério bem envolvente em relação a motivação da protagonista e uma resolução muito boa. Terror puxado ao psicológico e bem ambientado no Brasil.

7-Alice na casa assombrada (Arthur Tribuzzi): Alice é uma menina que está de mudança com seus pais para uma casa nova, mas ela não está nada feliz com a novidade. Na sua primeira noite seu urso de pelúcia Angus torna-se animado e tem uma ideia. O conto é bem narrado e passa a urgência no momento certo mas a ideia da casa assombrada como foi posta soa pouco brasileira, tampouco universal e mais terror padrão estadunidense.

8-Aquilo que não se vê (Helena Soares): Um padre chega a uma pequena cidade no sul do Brasil para um caso de exorcismo. Conto usa da sutileza e da sugestão para surpreender no final. Acredito que tenha funcionado comigo.

9-As cartas não mentem! (Felipe Oberon): Uma menina lê uma carta misteriosa da sua tia, Dona Iraci, para seus amigos. Conto com aquele gostinho bom de "causo" e que usa bem o artifício da carta para criar e desenvolver o mistério.

10-Asas da Vingança (Franco Nogueira): Conto clássico de vingança, mas que capricha na sua forma e é repleto de boas escolhas. Quando Esperança, a irmã mais nova de Coragem, é morta de forma brutal, sua irmã se torna Vingança. O conto sabe passar as informações minimas e necessárias com um bom estilo.

11-Baixo Augusta (Jack Cavalaria): Jovem de classe média cai no conto do boa noite Cinderela mas quando acorda seus problemas apenas começaram. Conto é bastante frenético mas não é nada sombrio, estando mais para o divertido na maioria das vezes. É muito bom mas desencaixado da proposta da coletânea.

12-Caçador de monstros (Aline Basoli): Um autointitulado caçador de monstros trava um diálogo consigo sobre como eliminar mais um monstro em São Paulo. Conto bem construído praticamente só com diálogos, o que é muito bacana mas o mistério do conto é rapidamente perceptível e infelizmente ele não avança muito mais que isso.

13-Carrancas (Paulo Souza): Felipe é um jovem que vai a uma cidadezinha em Alagoas pelo testamento de seu tio, último parente vivo que lhe deixou uma casa na cidade. A cidade histórica de Penedo se mostra macabra pelas pessoas e pelas carrancas, imagens que existem em todas as casas da cidade. Conto envolve bem o leitor e o final esperado não é menos assustador por causa disso.

14-Cascos e Cruz (Irene Syrogiannis): Pastor Maurício foge pelas ruas do Rio de Janeiro perseguido por uma besta descomunal enquanto reavalia seus próprios pecados. Conto sobre vingança, escrita seca e sem exageros que me agrada. Boa história.

15- Clube da Lobotomia (Davenir Viganon): Conto de minha autoria nessa antologia. O conto narra, em primeira pessoa, sobre como um rapaz conheceu uma mulher de cabelos roxos nas baladas paulistanas e como ela mudou sua vida para sempre. Tudo regado a drogas, sexo e um clube secreto. Procurei atender aos requisitos da edição que eram: a história deveria se passasse no Brasil, em ambiente urbano e que tivesse um clima sombrio, sem necessariamente ser terror. O conto tem tudo isso e alguma influência do cyberpunk. Não ouso me dar nota, apenas espero que leiam esse conto, algum um dia!

16-Complexo de Judas (Jefté Gabriel): João em um ato de raiva matou Madalena e seu amante e pede ajuda para Alan, seu amigo. Conto desenlaça um mistério maior entre os dois. O autor cria uma boa tensão e ressalto para o uso da tecnologia que influi na história, algo básico e muito esquecido para escrever uma história que se passa atualmente. O final é satisfatório.

17-Corpos (Branca): Clara é uma jornalista de imprensa marrom que investiga um caso de transferência de corpos, quando seu sogro, com quem não se dá bem, tem uma dica que pode levar até Ágata, a bruxa que alega ser capaz de fazer tal feitiço. Premissa já explorada, mas sempre apavorante. O mistério e destino de Clara são óbvios mas o conto vale pela boa condução.

18-De volta ao moinho (Clóvis M. Fajardo): Edson é um jornalista que investiga fenômenos paranormais, o que o leva até uma cidade pequena onde supostamente havia uma ceita que poderia levar até o livro dos mortos, o Necronomicon. Narrativa segue os passos de Lovercraft mas infelizmente não consegue adaptar a linguagem ao Brasil contemporâneo de forma natural, infelizmente soou genérico.

19-Desculpa (Rodrigo Sicário): Cíntia e seu marido, João, saem para jantar com a filha dele, Karina, do casamento anterior. Cíntia tem todos os motivos para estar irritada até que uma tragédia acontece. Conto se desenvolve muito bem durante todo o conto até o final excelente e tocante. Aplausos ao autor.

20-Desespero (Jonatha Victor Chagas Pereira): Maicom e Sandra vivem em seu apartamento em Fortaleza quando seu filho de colo some. Conto narra a perseguição frenética e trágica a seu filho. História crua e cruel, retratando um medo muito comum dos pais e extrapolando ao máximo, mas pouco mais profundo que isso.

21-Do outro lado da rua (Lucas Bustamante Van Wijk): "Leonardo trabalha duro num escritório de advocacia em Belo Horizonte. Numa noite em que voltava muito tarde para casa, é cercado por mistérios da noite que se confundem com seu cansaço. O conto se mantém misterioso até o fim, sem fazer referência direta a nenhuma lenda urbana em específico. É um bom conto, escrita correta e com um bom final. Talvez, aberto demais pois umas linhas a mais para explicação cairiam bem.

22-Doce Garota (K. Leine): Kaique mora em um condomínio tranquilo quando conhece Diana, a cuidadora do filho dos vizinhos novos. Após um breve envolvimento entre os dois a verdadeira face de Diana parece revelando um crime. Conto envolvente mostrando um mal não-sobrenatural. Interessante sucinto mas a revelação final não é suficiente boa para que o conto seja ótimo, apesar de bem escrito.

23-Encontro com a morte (Pollyana Koga): Ladrão invade casarão de casal para roubar joias e se depara com um terror inimaginável. Conto frenético que nos faz saborear cada momento como se fosse uma respiração, e o final nos deixa imaginativo, para que o leitor complete.

24-Eu não estou lá (Oghan Crann Criath): Homem sente que está indo a loucura quando enxerga sombras em seu apartamento. A narração em segunda pessoa é o grande diferencial do conto aumentando a paranoia do personagem e a relevação final apesar é boa, mas o  que atrai no conto é o desenvolvimento competente em trazer paranoia e angústia nos pequenos detalhes.

25-Fantasmas da Vida (Gabriel Walsh): Susana é uma menina pobre que vende geladinhos após seu pai morrer de câncer, que no dia de Natal é salva de bandidos pelo misterioso Etrom. Conto apela bastante para o drama, com clichês bastante óbvios, não indo muito além disso.

26-Fazendo as malas (Clayton Adriano Aleixo dos Anjos): Alan está no centro de São Paulo com um velho misterioso, mas logo vai descobrir o que aconteceu. Conto baseado nos diálogos e nas sensações do protagonista. Consegue manter o suspense mesmo com uma história comum, pois aqui a forma fez tudo valer a pena.

27-Fé (Ricardo André): Ela tem fé mesmo depois de perder o marido e o filho pelos desígnios do senhor. O conto narrado em primeira pessoa usa muito bem o único ponto de vista para sugerir que o que a protagonista do conto relata não foi exatamente daquela forma. Além de sombrio, é atual e bem escrito.

28-Final Feliz (Alex Rebonato): JC Ramos é um escritor de sucesso, com 15 livros publicados, quando a sua esposa pediu o divorcio. Ela era o seu pilar e na sua casa no interior do Espírito Santo ele tentaria voltar com ela. O conto é um caso clássico de traição. Os elementos do mistério estavam muito óbvios assim como o final.

29-Gatos (Rubem Travassos): Criança que mostra sinais de psicopatia, tenta lidar com as novas namoradas do pai solteiro. Conto clássico de psicopatia infantil, desenvolvimento linear com mistério e final óbvios.

30-Gavetas (José Gaspar): Uma mulher narra suas impressões do seu último encontro. Conto sucinto e direto mas bastante envolvente. É o menor conto do livro e mostra como a economia de palavras pode ser benéfica.

31-Hora azul (Rafael Lima): Misterioso homem narra sua visita para uma garota, que é objeto de obsessão. O grande atrativo é a narração em segunda pessoa, no tempo passado. A forma é interessante pois consegui preservar o suspense mesmo sem uma história elaborada. Bom conto.

32-Natureza Morta (Carlos Sanches): Um garoto filho de um vendedor ambulante, encontra conforto na vida dura com seu novo cachorro, o Trombada. Até que Lúcio, um pintor sinistro aparece na feira. Conto faz boa menção ao clássico Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde e isso conta mais sobre o conto do que gostaria. Bom conto.

33-Noites de Inverno (Sylvio Kappes): Isabela vive sozinha e triste em Porto Alegre. Tem seu celular roubado de um mendigo mas o mendigo, que se mostra sinistro, a persegue. Conto consegue traçar um quadro de solidão e violência da metrópole com aquele elemento de sobrenatural que nunca se revela totalmente o que me lembra Joseph Conrad. Muito bom!

34-O Farol (Luana Frota): Garota vive numa cidade praiana perto de Fortaleza com pai e mãe. Ela está pouco adaptado até que  uma estranha vestido de preto vira sua confidente. Conto traz uma abordagem interessante da Morte pela reação da protagonista. Bom conto!

35-O preço do Sonho (Pedro Palaoro): Eleonor é uma cantora e compositora  que vive na Cidade Baixa em Porto Alegre, até que de passagem pelo Parque Redenção encontra um sujeito misterioso que o faz uma oferta que lhe trará tudo que sonhou, mas por um preço. O conto traça o caminho clássico da tentação mas o final ficou um pouco forçado, sem um preparo envolvente que merecia.

36-Pecados em Escarlate (Eduardo Novaes): Firmino, um velho escravizado do período imperial, relembra seus erros em seus momentos derradeiros antes da morte. A ambientação no passado dá frescor a coletânea contudo tudo parece uma mera introdução de algo maior que um conto em si. Ainda assim, muito bom!

37-Rosário (Rodrigo Tavares): Rosário acorda de manhã antes de seus pais e ruma para a floresta onde entrega-se aos ensinamentos de bruxaria. Conto narra o início e o fim de uma bruxa, é bem narrado. É como se tentasse sublimar, passar do início ao fim sem um meio.

38-Sombra (João Peçanha): Homem acorda sem memória e é perseguido por uma sombra e assolado por um medo inominável. O suspense é bem construído e o autor nos conduz bem até a a revelação final que é muito bem boa.

39-Teu futuro te condena (Aldenor Pimentel): Bebê assolado por uma profecia de que se tornará um assassino desde que nasceu, encontra seu momento crucial. Narrado como uma profecia dá uma forma maravilhosa para o conto, sem usar o máximo de palavras. Ótimo conto!

40-Vermelhas como sangue (Emily Cheryl): Mary vai ao interior de Minas Gerais para visitar sua irmã e sobrinho que sofrem violência do seu marido, Meseias porém quando ela chega na cidade, o sobrinho Guilherme está sozinho e sujo nas ruas da cidade. Gostei muito da história, mas acho que o conto pode ser melhor lapidado, pois não consegue estabelecer o suspense entregando muito cedo o final da história, tirando seu impacto.

41-Vulto (Vagner Neubert): Marcos está no hospital com sua esposa grávida prestes a parir, quando vê um vulto sombrio pelos corredores. Marcos sente que a vida de seu filho podia estar em risco. Conto deixa sua explicação em aberto e a forma como o suspense foi construído o torna uma excelente leitura. Muito bom!

42-Dentes (Andrei Simões): Nirril Lutho é um jovem bonito, rico e popular até que seu corpo passa por mudanças que não lembram em nada a puberdade. Conto muito criativo, parece ter influência em Chuck Palahniuk e prende a atenção do inicio até seu final. Maravilhosamente bizarro!

Destaques: 42-Dentes (Andrei Simões); 41-Vulto (Vagner Neubert); 39-Teu futuro te condena (Aldenor Pimentel); 38-Sombra (João Peçanha); 33-Noites de Inverno (Sylvio Kappes); 30-Gavetas (José Gaspar); 27-Fé (Ricardo André); 26-Fazendo as malas (Clayton Adriano Aleixo dos Anjos); 19-Desculpa (Rodrigo Sicário); 13-Carrancas (Paulo Souza); 10-Asas da Vingança (Franco Nogueira) e 05-A garota no espelho (Eduardo Velásquez).
Leia Mais ››

terça-feira, 14 de maio de 2019

Resenha #93 - A Máquina do tempo (H. G. Wells)

Estamos de volta aos clássicos, e agora vamos resenhar uma obra de um dos autores mais importantes da Ficção Científica, por ser um dos seus precursores. "A Máquina do tempo", é tão impactante que criou um subgênero na Ficção Científica. Histórias sobre viagens no tempo se tornaram populares graças ao sucesso dessa obra e hoje é um recurso narrativo utilizado a exaustão, principalmente pelos quadrinhos e cinema - vide o último filme dos Vingadores. 

A história é bastante simples. O narrador é um amigo do homem que é referido apenas como "Viajante do tempo" que narra para este e seus amigos a descoberta de um maquinário feito por esse homem que promete fazer viagens temporais. No outro dia, o Viajante no tempo volta em farrapos e conta como foi viajar para o ano 802.101. Esta forma abre precedente para que tudo não passe de lorota do nosso Viajante.  

Uma vez acreditando no Viajante, temos a vida animal na Terra reduzida a seres humanos frágeis, frívolos e estranhamente felizes chamados Elois. Esses pequenos seres, não conseguem ajudar o Viajante a recuperar sua máquina, que some logo depois de sua viagem. Na sua busca, o Viajante descobre uma outra raça de humanos, os medonhos Morlocks. Como a narração aponta, o protagonista retorna ao seu tempo, mas não antes de avançar até o mais perto do fim da Terra e do Sol que consegue. 

Wells consegue nos transportar para uma visão potente e viva em muito poucas palavras. Obviamente pelo texto curto, as soluções, principalmente a final, parece um pouco apressada, mas nem por isso estragam a obra pois a aventura em si não é o principal mas o mundo que ele encontrou na viagem e as reflexões que seguem. 

A edição é a 4º da Francisco Alves e tem uma introdução sensacional de Jorge Luiz Borges. Vale a pena ler por ser um clássico e pelas reflexões. Recomendado!
Leia Mais ››

terça-feira, 7 de maio de 2019

Resenha #92 - Espadachim de Carvão: As Pontes de Puzur (Affonso Solano)

"Espadachim de Carvão: As Pontes de Puzur" de Affonso Solano é a continuação de Espadachim de Carvão que expande o continente de Kurgala, adicionando elementos de outra era na história do continente pois a história volta ao passado. Desta forma o personagem principal acaba sendo o ladrão da raça Ushariani chamado Puzur, ao invés de Adapak.

Puzur é mencionado no primeiro livro como o primeiro possuidor conhecido das três espadas lendárias: Igi e Sumi (que vemos no livro anterior com Adapak) e Lukur (Que Telalec usa para rastrear Adapak) e sua estória começa quando o ladrão vai entregar o produto de um roubo a ricaços e tudo dá errado. Na fuga, encontra uma cocheira chamada Laudiara que passa a ser sua companheira nessa aventura na qual encontra uma ordem religiosa de fanáticos entre outros mistérios, mas não apenas isso. No primeiro romance temos uma estrutura interessante de revezar o passado do protagonista com o presente. Nesta sequência, a obra intercala o que aconteceu com Adapak com a história do ladrão ushariani.

O livro conta com trechos escritos como carta, o que acho sempre bem vindo, e contém o mapa de Kurgala, que quase sempre faz falta num livro de fantasia. A escrita continua ágil e leve apesar da diversidade de raças travar um pouco a leitura numa história tão curta. O aspecto ruim do livro é que ele acaba sendo uma transição de um livro que ainda não tem previsão de sair. Aguardemos.
Leia Mais ››

terça-feira, 30 de abril de 2019

Resenha #91 - Dezoito de Escorpião (Alexey Dodsworth)

Dezoito de Escorpião de Alexey Dodsworth é um romance de Ficção Científica brasileira, vencedor do prêmio Argos 2015. A obra consegue combinar tanto uma obra de ficção clássica com uma ambientação no Brasil de forma muito sólida.  

Na história, acompanhamos vários personagens que invariavelmente sofrem com a sensibilidade eletromagnética alem de seus próprios contextos sociais, sendo os principais: Arthur, Laura, Lionel e Martin. Todos acabam sendo convidados pelo misterioso Dr. Ravi Chandrasehkar para habitar a Vila de Mahipu, um vilarejo indígena onde a organização secreta Areté abriga vários "Eleitos" portadores da sensibilidade para estudos. A história remonta diversos momentos do tempo, dos anos 1920 até 2070, passando pela descoberta de uma estrela gêmea do sol, a 18ª estrela em brilho da constelação de escorpião até pela busca de novas forma de vida inteligente no universo.

O que chama a atenção é a desenvoltura em criar uma ficção científica brasileira em que não se pauta no que acontece nos Estados Unidos, o que é bem vindo pois o complexo de vira-latas torna isso tudo mais inusitado que deveria. Outra qualidade bem vinda são as histórias dos protagonistas antes de se cruzarem, sem muito moralismo contam histórias tristes e pesadas e muito bem trabalhadas. Contudo, a história em si não desenvolve de forma conclusiva e isso se justifica pela continuação que se molda a medida que o livro vai terminando.

Acreditava que o livro terminaria em si, pois estava com planos de terminar as sequencias de obras já lidas e não de iniciar mais outra. Isso vai ter que ficar com o próximo livro, mas este vai ficar na minha mente por um tempo.Recomendo a leitura e muito!
Leia Mais ››

terça-feira, 16 de abril de 2019

Resenha #90 - Lotaria Solar (Philip K. Dick)

Estamos chegando perto da resenha de número 100, e não queria chegar a tantos livros lidos e comentados no blog sem ler o primeiro livro do meu autor favorito, Philip K. Dick. A obra desta semana é Lotaria Solar (Solar Lottery) de 1956. Esta obra se encontra em português apenas na sua forma lusitana editada pela Europa-América na coleção FC, que junto com a clássica Argonauta traduziram e publicaram centenas de livros de Ficção Científica. Muitas destas obras, assim como "Lotaria Solar", ainda são as únicas forma de encontrar livros em português. Homenagem e reconhecimento feitos, vamos a nossa resenha.

Passado séculos no futuro, por volta de 2203, apesar de termos sido capazes de colonizar os nove planetas, a humanidade desmoronada socialmente pela queda dos governos, busca reerguer-se sob a base do Minimax, uma máquina que calcula aleatoriamente, sorteia e nomeia o cargo mais alto da administração humana, o cargo de Interrogador-chefe. Este cargo, contudo, não dava grande conforto pois segundo a lei, pretendentes ao cargo poderiam propor desafios de morte, enviando assassinos públicos e desafiadores ricos para eliminar o Interrogador-chefe.

Nesse mundo acompanhamos Ted Benteley, um operador juramentado e, até então, crente no sistema de juramentos (algo como suserania e vassalagem medieval) que busca um novo senhor para servir e o encontra no atual Interrogador-chefe, o rico e poderoso Reese Verrick. Então, o Minimax resolve sortear novamente o prêmio máximo dando o cargo para Leon Cartwright, um servidor simples, de baixa classe e meia idade, e adepto do culto a Preston, um profeta que dizem habitar um décimo planeta, um local não abrangido pelo Minimax. A partir daí dá-se uma caçada pública ao novo Interrogador-chefe, onde Reese Verrick desafiará com um assassino público e um plano ousado.    

O autor cria um mundo socialmente absurdo e conduzido por uma máquina elaborada em determinar o aleatório, que gera uma mania generalizada por amuletos animistas. Uma possível alegoria para o racional sendo usado para irracionalidades. Algo como o avanço tecnológico de metralhadora bem sucedida em causar mortes durante a 1GM. Além do sistema de suserania e vassalagem que regem as relações entre as classes nesse mundo. Apesar dos cálculos avançados de reorganização social, a ideia do prêmio acaba acirrando as desigualdades, gerando a maior discrepância que é a figura de Verrick, um homem muito poderoso e ambicioso que não mede recursos para voltar a ser Interrogador-chefe. Cargo que praticamente não é explicado, sequer exemplificado, pois seus ocupantes são descritos apenas como seres que tentam se defender dos assassinos públicos, defendidos pelo Corpo, um grupo de telepatas que agem como segurança pessoal do Interrogador-chefe.

Esse absurdo social, as mostras de pseudoentidades, o uso irracional da racionalidade são elementos incipientes nessa obra e, sinceramente, que bom que é assim pois PKD tem uma evolução nos temas e dá mais profundidade as suas histórias que são muito melhores, apesar desta ter me agradado bastante pelas intrigas e ação. Recomendado.
Leia Mais ››

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Resenha #89 - A Cidade das Ilusões (Ursula Le Guin)

A Cidade das Ilusões (1967) é o terceiro livro de Ursula Le Guin do ciclo Hainnish, aquele que se passa no mesmo universo dos livros mais conhecidos da autora: "A Mão Esquerda da Escuridão", "Os Despossuídos" e o menos conhecido, "O Mundo de Rocannon", resenhados aqui. Também já titulada como "Viagem no Tempo", a edição que li é da Editora Argonauta em português lusitano, que ficou bastante palatável aos olhos brasileiros o que facilitou bastante a apreciação da leitura.

A história se passa na Terra, muitos séculos no futuro, depois de entrar na Liga dos Mundos e das guerras que a isolaram de outros planetas humanos, obrigando as populações a ficarem em pequenas tribos impedidas do progresso como conhecemos por causa dos Shings, os imperadores do mundo conhecidos como essencialmente mentirosos. Numa dessas tribos, Falk é abrigado, sem memória inclusive da origem e de sua aparência notoriamente alienígena (cor clara e olhos amarelos como um felino). Após cinco anos recluso reaprendendo tudo, com o que a tribo podia lhe oferecer Falk decide explorar o mundo e encontrar a verdade sobre si e é ai que a jornada começa e nela se compõe toda a narrativa do livro.

Quem já leu algumas obras da autora sabe que a escrita e a imaginação é o forte e aqui não é diferente. Apesar de considerado não tão bom quanto os livros mais conhecidos, cabe citar uma diferença positiva entre as outras obras já resenhadas da autora: Temos um mistério intrigante a respeito de quem é Falk, e após as revelações que vão acontecendo durante o livro. Elemento que não pautaram os outros livros da série e não são comuns nas obras da autora. Achei algo bem vindo. O ponto negativo é o final que ficou, senão em aberto, com possibilidades de contar mais o que acontece, mas ai voltamos a característica da autora de se ater a jornada e a mudança do personagem do que explicar o contexto geral de tudo.

Recomendo a leitura porque a obra se basta (para quem vai ler apenas este livro) tanto quanto traz mais informações sobre a Terra e a Liga dos Mundos para quem, como eu, quer ler todos os livros do ciclo. Para esses, é leitura obrigatória! 

Segue a ordem cronológica das obras do Ciclo Hainnish, junto com o ano de publicação de cada obra:
- Os Despossuídos (The Dispossessed) – 1974;
- Floresta é o Nome do Mundo (The Word for World Is Forest) – 1976;
- O Mundo de Rocannon (Rocannon’s World) – 1966;
- Planeta do Exílio (Planet of Exile) -1966;
- A Cidade das Ilusões (City of Illusions) – 1967;
- A Mão Esquerda da Escuridão (The Left Hand of Darkness) – 1969;
- The Telling – 2000;
Leia Mais ››

terça-feira, 12 de março de 2019

Resenha #88 - Count Zero (William Gibson)

Estamos de volta a Matrix, depois de muitos livros lidos e resenhados aqui no blog desde Neuromancer, agora vamos para a sequência do clássico da trilogia do Sprawl de William Gibson "Count Zero". A história se passa nove anos depois dos acontecimentos de Neuromancer com personagens novos exceto pelo Finlandês (único personagem que aparece na trilogia). 

Temos três personagens principais que intercalam contanto suas próprias histórias até que a trama junta todos nos momentos decisivos. O primeiro é Bobby Newmark, conhecido por Count Zero/Conde Zero um rapaz que sonha em ser um cowboy do ciberespaço (que chamaríamos hoje de Hacker) e acaba se deparando com uma nova tecnologia de chips que o coloca na mira de uma conspiração; Marly Kushkova, uma especialista em arte contratada por Josef Virek, um milionário excêntrico belga, para encontrar uma caixa misteriosa capaz de criar uma nova tecnologia de chips; e Turner um mercenário a serviço da corporação Hosaka incumbido de resgatar um engenheiro de chips da empresa concorrente que deseja desertar.

A escrita de Gibson melhora sensivelmente nesta sequência, isso deve ajudar a apreciação para quem achou Neuromancer um pouco truncado, contudo o regresso ao mundo já conhecido também auxilia pois o autor não precisa retomar todos os conceitos que já havia criado na obra anterior. Acredito que Gibson usou melhor o espaço necessário para criar o mundo, já construído aqui, para cuidar melhor da trama e dos personagens. Bobby Newmark ficou ótimo, um alívio cômico que funciona e com uma função importante história. Turner tem profundidade muito maior que os brutamontes costumam ter (mas afinal estamos num livro) e Marly foi escrita de forma sensível em contraponto a Josef Virek um bilionário que vive por aparelhos e deseja ser um ser da Matrix, abandonar a humanidade (um protótipo de Bigend, o milionário belga de trilogia Blue Ant). 

A diferença maior diferença entre as duas obras é a estrutura da trama, substituindo a linear de Neuromancer por três linhas narrativas que se encontram. De forma geral, temos o mesmo efeito da obra anterior, Gibson trouxe nos anos 80 um mundo que se passa no nosso presente imaginando a o ciberespaço modificando totalmente na nossa vida e ao expor sua visão acabou contribuindo para moldar o próprio futuro que acabou se concretizando no nosso presente, obviamente não em todos os detalhes mas na essência. Um exemplo divertido é a expressão "wilson" que é um equivalente ao "noob" de hoje. 

Em Count Zero, Gibson consegue ser mais objetivo e colocar mais ação o que torna a leitura mais prazerosa. Recomendo muito a leitura e que venha Monalisa Overdrive o ultimo da trilogia!
Leia Mais ››