terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Resenha #87 - Assembléia Estelar: Histórias de Ficção Científica Política (Org. Marcello Simão Branco)

Uma das metas para esse ano é ler mais livros de contos e livros de sequências de obras já resenhadas no blog. Então, "Assembléia Estelar: Histórias de Ficção Científica Política" é uma coletânea de contos de FC que abordam a política em algum nível. São contos selecionados pelo editor somados a contos estrangeiros que foram traduzidos, então ao lado de conhecidos nomes nacionais, como Roberto de Sousa Causo, André Carneiro e Carlos Orsi, temos Úrsula Le Guin, Orson Scott Card e Bruce Sterling. O organizador não tem nenhum conto no livro, mas sua introdução já é um artigo que faz um belo apanhado histórico da relação da Ficção Científica com a Política, resgatando o termo e as obras relacionadas a Utopias, passando pelas distopias incluindo as obras brasileiras. Contudo, as breves análises para justificar algumas obras (posso falar apenas das que li) são bastante falhas, como por exemplo resumir Fundação a uma defesa da democracia quando na verdade Asimov abertamente se inspirou num livro que narra a queda do Império Romano e a própria Fundação não tem nada de democrática. Os contos contam com uma breve biografia do autor e um breve resumo do conto que vamos ler e também são bem estranhos, algum equivocados e até desnecessariamente provocativos, afinal se o editor não gosta de um espectro político, poderia escrever artigo ou um conto, e não usar aquele espaço antes de cada conto para isso. Acho que prejudica a coletânea mas os contos continuam valendo por si e temos alguns muito bons, outros nem tanto o que deixa o total bastante irregular e, sinceramente, alguns contos sobraram e poderiam ter ficado de fora para deixar o livro mais enxuto.

Acabei invertendo a ordem que sempre faço, falando do livro em geral antes dos contos de forma individual, então vamos aos comentários conto a conto: 

A queda de Roma antes da telenovela (Luis Filipe Silva): Conto curto que mostra um futuro onde as decisões políticas do parlamento são completamente integradas a televisão num sistema online, parecido com um reality show. Nesse mundo Idílio, uma espécie de presidente da assembléia, trava diálogos sobre o funcionamento da democracia com Morais, um parlamentar a moda antiga. O contraponto de Moraes, como personagem é entre um regime tecnocrata, tão atendo as coisas miúdas que faz perder o foco de grandes realizações. A história tente mais a reflexão do que para a ação. 

Anauê (Roberval Barcellos): Conto de um subgênero que gosto muito: História Alternativa. Aqui temos um Brasil de 1980 que é governado pelos integralistas quando derrubaram Getúlio Vargas em 1938, e se aliaram aos nazistas. Infelizmente aqui, temos uma realidade alternativa bem construída mas mal justificada pela forma que o integralismo muda o Brasil. A adoção do Tupi-guarani como língua oficial é até aceitável mas o quase abolimento do uso do português não mesmo, mas o que mais incomoda é a questão racial dos judeus trazer tanta indignação aos integralistas (aliados de nazis), uma vez que existe uma longa tradição de germanófilos no integralismo. Sobre bases tão frágeis a história toda descamba para a ingenuidade, inclusive ressaltando defeitos como a construção dos diálogos e das cenas decisivas que ficaram pobres.

Gabinete blindado (André Carneiro): Membro de um grupo de resistência narra suas lembranças de forma fragmentada e intuitiva. A narração em primeira pessoa traz uma forma intimista que ajuda a dar forma mas o conto sofre pela falta de informação que nos deixa um pouco perdido em meio as reflexões. A introdução do conto, escrita pelo organizador, resume a história de forma bem impertinente o que influi na apreciação da história.

Trunfo de Campanha (Roberto de Sousa Causo): Noveleta inserida no mundo de Space Opera criado pelo autor, já publicada em mais de um livro e contos. O personagem principal é Jonas Peregrino combatente de elite que se vê envolvido em uma trama política quando recebe um convite de um proeminente político em ascensão, em um período de mudanças num pós-guerra contra uma raça alienígena. A trama que coloca o protagonista no jogo político é explicada demais, e explicar tantas coisas desse mundo não deveria ser função de um conto nem de uma noveleta, e sim instigar o leitor a buscar mais e esse algo a mais está disponível inclusive no site do autor. Outra coisa que atrapalha a apreciação é que Peregrino não apresenta conflito em praticamente nenhum momento do conto ao contrário de Fátima Feldman, a femme fatale clássica, e por isso a narração deveria acompanhar ela, pois ela quem se transforma ao cabo da história. Fora isso, o mundo é interessante e rico, mas gostaria de ver mais suavidade no passar de tanta informação.

Diário do cerco de Nova Iorque (Daniel Fresnot): Narrado como um diário, um escritor francês em visita a Nova York justamente em um momento de crise entre o prefeito da cidade, John Fillick e o governo federal que leva a um conflito armado. A narrativa prende o leitor com um ritmo e desenvolvimento maravilhoso que passa muita tensão e mostra o fanatismo levado a extremos.

Saara Gardens (Ataíde Tartari): Conto bastante curto sobre tramas politicas, em que um empreiteiro deseja colocar um político favorável a seu projeto imobiliário no deserto do Saara na presidência do governo global nas próximas eleições desbancando a favorita que é ambientalista. Acredito que abordagens desse tema exijam mais palavras pois o gosto dessas histórias está na complexidade que o conto não alcança, mas vale pelas referências a política brasileira.

Era de aquário (Miguel Carqueija): O conto traz um momento rotineiro de um político que vai fazer uma palestra numa universidade porém em um mundo onde assassinatos políticos e crises sociais são comuns. Conto com ritmo bom mas sem picos de emoção, vale pela reflexão por imaginar uma linha que ainda não cruzamos por aqui (ou já?!)

A evolução dos homens sem pernas (Fernando Bonassi): Conto sem diálogos, apenas descrições mas o faz de forma bem feita, pintando um quadro gradativo da evolução humana levando para um caminho bizarro numa metáfora crítica carregada de ironias. Vale a leitura pelas provocações que podem causar ao leitor e que vão bater de frente (ou não) com suas convicções políticas.

A pedra que canta (Henrique Flory): Outro conto de História Alternativa, o que me agrada bastante. Conta a história de Gabriel, uma criança doente que recebe um implante cirúrgico que o permite ver os pontos fracos de estruturas e é utilizado em uma missão de sabotagem em uma guerra do Brasil contra a Argentina. Ótimo desenvolvimento, história e personagens.

O dia antes da revolução (Ursula K. Le Guin): Noveleta conta as memórias da revolucionaria anarquista Odo no planeta Urrás, um dia antes de uma grande revolução. Essa história, se passa mais de 600 anos antes do livro clássico da autora, "Os Despossuídos" (Meu livro favorito de FC, sim o primeiro!). Além da escrita muito acima da média, característico da autora, o conto não tem momentos de ação nem picos de tensão tendendo mais a reflexão, afinal estamos nas memórias de uma idosa mesmo que seja uma idosa prestes a desencadear um evento de grandioso que levará ao exílio em Anarres mas ai já é a história do livro. No fim das contas, vale muito a leitura para quem conhece o livro, para quem não leu serve como prólogo.

O grande rio (Flávio Medeiros Jr.): Conto de ficção científica com viagem no tempo por excelência. O assassinato de John Kennedy é planejado com anos de antecedência por um Arauto do futuro em missão para salvar a humanidade de uma guerra catalclismica. História excelente, que vai acrescentando camadas de acontecimentos sem se perder e que mexe com o imaginário de conspiração que envolve o acontecimento. Gostei bastante!  

O originista (Orson Scott Card): História se passa no mundo do clássico de Asimov: Fundação (Mais precisamente entre o primeiro e segundo livros), seguindo Leyel Forska, cientista de uma rica família nobre de Trantor, quando tem seu pedido de entrada na Fundação negado pelo Hari Seldon e em meio a isso Leyel realiza um estudo linguístico a respeito da origem do homem. O desenvolvimento do conto é complexo e envolvente, Card segue os passos de Asimov surpreendendo com um final maravilhoso. O conto é o mais longo do livro, contudo a escrita flui muito bem. Vai ser difícil não pensar no mundo de Fundação sem lembrar desse conto tamanha a forma com que ele se encaixa na trilogia original.

Questão de sobrevivência (Carlos Orsi): O caos social se instala na São Paulo de 2030. Doenças radioativas levam uma comunidade organizada e controlada por um partido de esquerda. Nesse mundo, um assalto a um carregamento de leite materno por um grupo de resistência mostra o lado mais triste dessa realidade. Gostei do conto ser embebido de cyberpunk puxado muito mais para o lado "punk" do que "cyber", pois foca no aspecto mais social e cruel de um futuro distópico e caótico.

Vemos as coisas de modo diferente (Bruce Sterling): Resenhado nessa postagem do blog. Que este fim abrupto fique como um convite a explorar mais o blog.


Leia Mais ››

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Resenha #86 - O Hobbit (J. R. R. Tolkien)

"O Hobbit" é um dos livros mais conhecidos de J. R. R. Tolkien, depois do épico "O Senhor dos Anéis". É aquele tipo de obra que inspirou praticamente todos autores de fantasia e tem todos as características conhecidas que os outros autores buscaram copiar e/ou subverter. Trata-se de um livro de Fantasia sobre uma longa jornada narrada para um público infantil. É um ritmo que puxa para a oralidade, como um livro para ser lido para uma criança. Isso significa que o leitor adulto precisa estar consciente da linguagem que o livro emprega e sua forma. É bastante descritivo e o narrador sabe que está narrando uma estória, ao invés de simplesmente contá-la.

A estoria é a de Bilbo Bolseiro, um Hobbit, que é convidado pelo Mago Gandalf para acompanhar 13 anões a recuperar seu tesouro ancestral guardado pelo temível dragão Smaug. Grande parte do livro é dedicada ao longo caminho que os aventureiros tem de enfrentar encontrando Trolls, Elfos, Homens, Aranhas gigantes e, claro, muitos Orcs. Uma tipica jornada do herói, como sistematizada décadas depois por Joseph CampbellO contexto da 1ª Guerra Mundial aparece no livro quando a batalha dos cinco exércitos é construída pelos desentendimentos e pela busca do tesouro entre quase todas os tipos de seres que aparecem no livro.

O livro foi um sucesso tão grande que foi solicitada uma continuação que acabou se tornando "O Senhor dos Anéis" obra máxima do autor e uma das mais conhecidas obra de Fantasia. O que pode desestimular o leitor é a pouca presença de diálogos e as longas descrições até a construção frágil dos personagens secundários. Contudo a construção de mundo é imersiva em virtude dos detalhes.
Leia Mais ››

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Resenha #85 - Os livros apócrifos (Org. Rubem Cabral)

"Os livros apócrifos: antologia de histórias inspiradas na Bíblia" da Editora Cáligo é uma coleção ousada de contos tirados da mitologia cristã, muitas vezes subvertendo acontecimentos conhecidos mostrando versões alternativas de episódios conhecidos, algo parecido com a História Alterativa na Ficção Científica, mas aqui com acontecimentos mitológicos. Há também, releituras nos tempos modernos, climas conspiratórios e romances acalorados. As leituras são muito variadas muito bem distribuídas nos oito contos dessa coleção. Vamos olhar cada conto individualmente, antes do conjunto:

Metamorfoses (Raione L. P.): Pavel é um agente de Estado na Checoslováquia em plena guerra fria que fica obcecado por manuscritos apócrifos escritos pelo próprio Jesus de Nazaré. Conto ambienta muito bem o clima de intrigas palacianas, delações que podiam levar uma condenação a morte, deixam o clima pesado. O que já é um atrativo do conto em si. As revelações de Jesus feitas a Judas são interessantes e entram muito bem no clima do conto contraponto a religião e o comunismo do país naquela época. 

O Irmão mais novo (Rubem Cabral): Caim deveria matar Abel para mostrar como a inveja e o assassinato são pecados abomináveis, mas nesse conto Abel encontra uma oportunidade de mudar seu destino para salvar seu irmão do exílio e de si próprio. O autor vai longe na criatividade da história, invadindo os meandros da mitologia cristã e nos entregando uma história surpreendente. Quem já conhece Rubem Cabral pela resenha que fiz de Linha Tênue aqui no blog já sabe da qualidade e criatividade do autor.

Os três dias (Fábio Baptista): O que teria acontecido no intervalo de 3 dias entre a morte e ressurreição de Jesus? O conto preenche essa lacuna com um texto leve, fluido com boas doses de sarcasmo pelo personagem Lúcifer que rouba a cena. A introdução com os homens que foram crucificados ao lado de Jesus também é muito bem feita e enlaçada na narrativa ao longo do conto. 

A Torre de Nimrod (Valentina Silva Ferreira): Versão alternativa da Torre de Babel, que é o mito usado para explicar as muitas línguas que nós usamos. Na versão da autora Deus está fraco demais para impedir os planos do Rei Nimrod que ordena a construção da torre. O conto nos prende para sabermos até quão longe os planos do rei vão.

Epístola de Pilatos (José Geraldo Gouvêa): Pitatos assume a narrativa, em primeira pessoa, deste momento decisivo na vida de Jesus de Nazaré quando é oferecido o perdão para um de três criminosos na Páscoa, mas algo sai diferente do conhecido na Bíblia. A escrita ganha muita personalidade pela personalidade de Pilatos e a visão romana dos acontecimentos em forma de carta.

Salomão e a Rainha das Luzes (Cláudia Roberta Angst): O conto dá vida e cor numa versão  romântica do encontro entre a Rainha de Sabá (Makeda) e o Rei Salomão. Na bíblia, não há referência do romance entre os dois mas na tradição etíope (onde acredita-se que tenha se localizado o reino de Sabá) além do romance, um filho também foi gerado desse encontro e é essa versão popular e levemente picante, que a autora desenvolve o romance do conto.

O Evangelho Sangreal (Bia Machado): Conto curto onde é exposta a visão de Maria Madalena sobre o material apócrifo mais conhecido dos últimos tempos: A evidência de que Jesus e Maria Madalena fossem um casal com filhos. A narrativa em primeira pessoa tem aquele clima bacana de revelação e "bastidores" desse segredo que dão um tempero especial ao conto.

A Escada de Jafar (Gustavo Araújo): Voltamos aos tempos modernos, na Palestina sitiada por Israel onde temos uma versão da conhecida história de Esáu e Jacó, aqui Namir e Jafar, onde a transposição dos momentos principais com a modernidade e a questão Israel/Palestina foi feita com muito apuro histórico, sem perder a emoção do drama familiar. O autor sabe trazer o sentimento na sua escrita como constatamos na resenha que fiz do seu romance, Pretérito Perfeito

Vem (Diogo Bernadelli): Para encerrar a antologia, o Apocalipse cristão, trazido para o que sobrou das terras brasileiras na pele dos últimos sobreviventes abandonados numa comuna, que vive num prédio abandonado mas não estão sozinhos. O conto traz uma atmosfera intimista onde a falta de esperança toma conta de tudo. Confesso que achei o final um pouco confuso mas também não sei estimar até onde a falta de leitura minha desta parte da bíblia interferiu. 

A edição tem abordagens bem variadas mas todas foram muito bem escritas e a pouca quantidade de contos mostra que não é um livro com páginas demais. Cada conto ajuda a integrar um todo de abordagens muito bacanas da bíblia. Tudo isso numa edição física muito bonita, com capa, letras em formatação que brincam com a estética de documentos sagrados e antigos. Sei como é difícil ao leitor aceitar recomendações de coletâneas, pois não faltam edições de vanity press pagas (que compromete a qualidade), que além de possuírem temas genéricos que costumam ser ignorados para caber mais gente. Contudo, aqui temos uma pérola em meio a tantas coisas de genéricas por ai e eu recomendo muito.

Geralmente não coloco link de venda de livros, mas por ser uma editora pequena, fora dos grandes círculos, e honesta com autores e leitores tem que ser incentivado, ainda mais quando o preço está muito bom. 
Link para o site de venda do livro: https://caligo.lojaintegrada.com.br/os-livros-apocrifos-antologia-rubem-cabral-org
Leia Mais ››

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Resenha #84 - Selva Brasil (Roberto de Sousa Causo)

"Selva Brasil" (2010), de Roberto de Sousa Causo é uma Ficção Científica brasileira de História Alterativa. É um desdobramento da literatura de FC, que imagina os rumos políticos, sociais e/ou tecnológicos se certos acontecimentos importantes fosse de outra forma. Já temos uma tag razoável de resenhas e postagens sobre História Alternativa, incluindo a resenha da obra mais famosa da História Alternativa: "O Homem do Castelo Alto" de Philip K. Dick.

O "e se" de Selva Brasil é quando o então presidente Jânio Quadros perpetrou seu plano de invasão das Guianas contando que os EUA iriam apoiar o Brasil contra a coalizão de ingleses, franceses e holandeses os estadunidenses se voltam contra o Brasil, lançando o país numa guerra de atrito onde perdemos uma parte da Amazônia apesar do apoio militar da URSS e outros países da America Latina como a Argentina. Passados mais de 20 anos nessa guerra de atrito chegamos a 1993 quando sargento Roberto Causo, sim o protagonista é a versão do próprio autor nesta realidade, está em missão de substituição de tropas na fronteira com as Guianas e embrenha-se entre guerrilheiros desertores e no mistério escondido na selva que joga o EB contra os melhores soldados dos EUA.

O que chama a atenção da obra é que em muito poucas páginas o autor traz uma coerente realidade alterativa no plano político e seus desdobramentos, bem como uma alterativa de sua própria história, onde o autor de fato serviu ao exército mas não seguiu carreira como o seu duplo. A escrita é ágil e direta, o que é excelente para descrever a ação militar, com jargões de valorizam a ambientação do meio militar, que não conheço mas fica a prova de quem sabe. O que fica faltando para completar essa realidade é o ambiente social dessas décadas após a invasão das Guianas, mas a ambientação nas selvas brasileiras, longe das grandes cidades, camufla habilmente. Fica a vontade de ver mais histórias ambientadas nessa realidade pois ficou muito criativo e com diversas aberturas para uma continuação. 
Leia Mais ››

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Resenha #83 - Império de Diamante (J. M. Beraldo)

"Império de Diamante" (2015) é um romance de fantasia do João Beraldo, o primeiro da série "Reinos Eternos" que venceu o prêmio Argos em 2016 e não foi a toa: o mundo criado foge do padrão da fantasia medieval baseado na Europa e coloca sua aventura em Myambe um continente baseado na cultura africana e indiana.

A história é complexa, mas o autor conduz o leitor com bastante habilidade, sem pressa e sem enrolar. Tudo começa há 20 anos quando o guerreiro mercenário Rais Kasim se auto-exila após uma batalha perdida contra as tropas do Imperador de Diamante em sua última conquista. No continente de Myambe o Império de Diamante, suprimiu culturas e conquistou todos as nações entorno de seu imperador, mas os rumores de que o império está caindo vão colocar quatro personagens principais numa trama para derrubar o império, 20 anos depois. Rais Kasim, um mercenário de Myambe que depois de décadas fora do continente volta para pegar trabalhos liderando um grupo de mercenários estrangeiros; Mukthar Marid, guerrilheiro rebelde que luta fervorosamente pelo fim do império; Adisa, um jovem sacerdote da Ordem de Bronze que recebe poderes do imperador para servi-lo; e Zaim Adoud, o governante da província de Abechét que se vê esquecida pelo império e envolta de intrigas com os nobres locais.

Na imagem 2: Mukthar Marid, Adisa, Rais Kasim e Zaim Adoud.

Os quatro personagens são bem construídos e bem diferentes entre si o que traz várias visões do mundo de Myambe, e o cenário diferente do medieval/fantasia europeizado instiga e justificaria uma torrente de descrições, mas o que temos é um livro sem enrolações em que a trama política e a ação. A magia é presente no livro e bem embasada nas religião e mitologia africana, nos poderes dos primogênitos e suas máscaras de contas (como se fossem orixás vivos na terra) e nas vestes, nos ritos e superstições. Senti falta do animismo que é bem presente na religiosidade africana mas cabe lembrar que o livro não é uma transposição mas uma inspiração na África.

A leitura não nos deixa cair no sono das descrições, tanto apenas pela novidade do mundo mas pela agilidade da escrita do autor, onde coisas acontecem o tempo todo, o que me fez, particularmente, ler o livro muito rápido. O livro também traz uma moralidade cinza, que além de ser uma escolha mais madura ajuda a não entregar quem vai viver ou morrer na história, pois realmente tememos pela vida dos personagens preferidos.

Império de Diamante é daqueles livros que nos faz viajar pelo mundo, e nos faz querer visita-lo novamente ao fim da leitura. O livro está mais que recomendado, não apenas pela sua ambientação que traz frescor ao padrão da Fantasia, mas pela história bem construía, bem amarrada e com gosto de querer saber mais desse mundo.

Mapa de Myambe.
Leia Mais ››

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Livros de Philip K. Dick - Resenhados pelo blog!

Quem acompanha o blog sabe que sou fã do Philip K. Dick, então resolvi condensar numa única postagem todas as resenhas que já fiz do autor e todas que pretendo fazer, com os livros ainda não lidos da minha coleção. Vou atualizar essa postagem a medida que fizer novas resenhas. Os livros que já tem resenha possuem link e os que não tem resenha mas que estão na minha estante, tem um resumo. A lista com livros para baixar eu deixe em outra postagem.

ROMANCES
LOTERIA SOLAR (1955)
"Solar Lottery" (1956). À medida que a confiança na estabilidade econômica e na velha ordem social se desmoronava, uma nova base para a sociedade tinha de ser descoberta pelos Governos. O Minimax preencheu essa necessidade, uma espécie de elaborada loteria solar, baseada em jogos de azar, que abrangia o sistema de nove planetas. Uma loteria que oferecia, como prêmio, poder e posição social, em vez de bens de consumo, sendo o prêmio máximo o próprioo posto de interrogador-chefe. E, contudo, mesmo o interrogador-chefe tinha de lutar constantemente contra desafiadores e assassinos públicos. A única segurança real consistia no lendário décimo planeta do sistema solar, um fabuloso mundo para lém do universo conhecido.. (Ainda sem resenha nesse blog)

O PROFANADOR (1956)
The Man who Japed (1956). A guerra e a fome tinham sido abolidas através da Reclamação Moral; a paz e a prosperidade eram a regra - de fato, eram obrigatórias. Comissões de bairro, robots informadores e milícias de jovens esbirros garantiam que toda a gente "gostasse" da Reclamação Moral. Allen Purcell, o novo diretor da Propaganda e Recreação, tinha sempre sido feliz neste mundo. Pelo menos assim o pensava até que entrou na caça generalizada ao profanador louco que andava a pregar partidas insultuosas ao governo. É que nessa busca do escarnecedor herético, Purcell descobriu porovas que o apontavam como culpado. Se era verdade, como é que ele o fizera? E como poderia enfrentar todo o peso de uma sociedade escandalizada se fosse descoberto? (Ainda sem resenha nesse blog)

A MÁQUINA DE GOVERNAR (1960) Leia nossa resenha

O HOMEM DO CASTELO ALTO (1962) Leia nossa resenha


A ESPERA DO ANO PASSADO (1963) 
No livro "À Espera do Ano Passado" viajamos a um futuro próximo, e encontramos uma humanidade que se move no espaço interplanetário, mas que se encontra espartilhada numa guerra aparentemente invencível contra um inimigo alienígena. O seu incerto futuro está depositado nas mãos de um único homem, Molinari, uma figura enigmática e obscura. Mas conseguirá este líder supremo da humanidade salvá-la de um fim catastrófico? (Ainda sem resenha nesse blog)


OS TRÊS ESTIGMAS DE PALMER ELDRITCH (1964) Leia a nossa resenha


A PENÚLTIMA VERDADE (1964)
A obra descreve uma população toda vivendo no subsolo da Terra convivendo com imagens falsas feitas pelo governo, onde se vê uma Terra devastada. Porém a terra está intacta e desfrutada por uma elite. (Ainda sem resenha nesse blog)

CLÃS DA LUA ALFA (1964) Leia nossa resenha


ESPAÇO ELETRÔNICO (1964)
Terra, ano 2014. Sete bilhões de pessoas procuram uma solução para os problemas que a explosão demográfica gerou. A solução é trasladar parte dos habitantes do planeta para os campos verdejantes de Whale's Mouth, o nono planeta do sistema Fomalhaut, imagem que uma campanha promocional faz chegar aos televisores. Mas a neocolônia distava 24 anos-luz da Terra. O sistema Telpor, no entanto, resolveria o problema fazendo a viagem em 15 minutos. Milhões de pessoas já haviam percorrido este caminho eletrônico, mas ninguém retornara para contar a verdade. (Ainda sem resenha nesse blog)

ANDROIDES SONHAM COM OVELHAS ELÉTRICAS? - (1968) Leia nossa resenha


UBIK - (1968) Leia nossa resenha


O LABIRINTO DA MORTE (1968)
Num futuro em que a existência de Deus (o Fabricante de Homens. o Intercessor. O Caminhante na Terra) e seu oposto (0 Destruidor da Forma) já foi provada cientificamente, em que se estabeleceu contato eletrônico com a divindade, um grupo de homens e mulheres estão perdidos num planeta deserto, sem possibilidades de pedir ou receber socorro. Estão sujeitos à ação de forças misteriosas, estão sendo mortos por essas forças, presos a angústias e sentimentos milenares, que atravessaram o passado e continuam no futuro. Mas o que está acontecendo de fato em Delmak-O? A ilusão é realidade ou a realidade é ilusão? Labirinto da Morte é uma obra inteligente e instigante, repleta de suspense, que prenderá e surpreenderá o leitor até a última página. (Ainda sem resenha nesse blog)

NOSSOS AMIGOS DE FROLIX-8 (1969)
Philip K. Dick choca sonhos privados contra as batalhas públicas em um romance de ritmo rápido e provocante que, finalmente, aborda a nossa salvação, tanto como indivíduos e como um todo. (Ainda sem resenha nesse blog)


FLUAM, MINHAS LÁGRIMAS, DISSE O POLICIAL - (1970) Leia nossa resenha


REFLEXO NA ESCURIDÃO - (1973) Leia nossa resenha

O DEUS DA FÚRIA com ROGER ZELASNY (1976)
O Deus da Fúria (Deus Irae), escrita em colaboração com um autor não menos importante: Roger Zelazny. Depois da III Guerra Mundial, a Comissão de Energia Atómica, que a engendrou, fez nascer uma nova e misteriosa religião, em que o chefe da Comissão é adorado sob o título de Deus Irae, o Deus da Ira - o Deus da Fúria.
Arrastados involuntariamente para uma perigosa peregrinação cujo objectivo é a descoberta de Deus Irae, Tibor McMasters, um pintor de murais, não não tem braços nem pernas, sabe por que foi escolhido, mas não consegue compreender o que ele - um herético vulnerável e inválido - poderá fazer para auxiliar a conspiração desesperada da nova Igreja Cristã. Pete Sands, um jovem cristão designado secretamente para proteger Tibor, sente a sua crença em perigo e pergunta a si próprio o que fará se Tibor encontrar de facto um Deus. (Ainda sem resenha nesse blog)

VALIS - (1978)
A vida de Horselover Fat sempre foi repleta de paranoia e episódios depressivos. Apesar de tentar ajudar os amigos, nunca obteve muito sucesso. Presa de sentimentos confusos e pensamentos intrincados, ele ocasionalmente flertava com a ideia do suicídio. Mas tudo muda quando Fat (ou Phil, a distinção nem sempre é clara) é atingido por um intenso feixe de luz rosa. A partir de então, dá início a uma verdadeira jornada pessoal para entender o que aconteceu; se foi um momento de loucura ou se, de fato, uma entidade divina se revelou para mostrar-lhe a verdadeira natureza do mundo. Transitando entre a mística religiosa, o gnosticismo e a tecnologia extraterrestre, Fat sai em busca de um messias reencarnado que já teria passado pela Terra e acaba percebendo que as fronteiras da realidade começam a ficar cada vez mais difusas. Um dos últimos livros escritos por Philip K. Dick, Valis espelha o conjunto de experiências e ideais teológicos do autor. Sua narrativa quase autobiográfica, repleta de digressões filosóficas e religiosas, é leitura absolutamente essencial para compreender a visão de mundo de um dos mais geniais escritores de ficção do século 20. (Ainda sem resenha nesse blog)


A INVASÃO DIVINA (1981)
Vencer o confronto final entre o bem e o mal é a missão de Emanuel, um menino de dez anos. Mas ele não é uma criança qualquer. Emanuel é o próprio Deus que retorna a Terra, vindo do longíquo planeta de metano, CY30-CY30B. Criado pelo profeta Elias, Emanuel é obrigado a frequentar uma escola especial devido as lesões cerebrais causadas por um acidente automobilístico que vitimara sua mãe. Na escola, Emanuel conhece Zina, uma menina com poderes sobrenaturais, que lhe revelava Sua natureza divina, a razão de Sua existência em nosso planeta e Seu envolvimento com ela. (Ainda sem resenha nesse blog)

A TRANSMIGRAÇÃO DE TIMOTHY ARCHER (1982)
O bispo Timothy Archer é o mais carismático dos chefes da Igreja da Califórnia, um sincero defensor da verdade, disposto a modificar, ou mesmo a abandonar os mais secretos dogmas da fé cristã, disposta a defender que as mais célebres palavras de Cristo se encontravam registadas duzentos anos antes de Ele ter nascido, disposto, até, a ser julgado como herético. A morte arrebata-lhe os que lhe são mais queridos: o filho, Jeff, e a amante, Kirsten, mas Timothy Archer não deixará que nada interfira na prossecução da sua busca. (Ainda sem resenha nesse blog)


COLETÂNEAS DE CONTOS


SONHOS ELÉTRICOS 
contosPeça de Exposição (Exhibit Piece); Autofab (Autofac); Humano é (Human is); Argumento de Venda (Sales Pitch); O fabricante de gorros (The Hood Maker); Foster, você já morreu (Foster You're Dead); A coisa-pai (The Father-thing); O planeta impossível (The Planet impossible); O passageiro habitual (The Commuter); O enforcado desconhecido (The Hanging Stranger). Leia nossa resenha.


VINGADOR DO FUTURO
contos: Vingador do Futuro (ou Podemos recordar para você por um preço razoável - We Can Remember It for You Wholesale); A mente alienígena (The alien mind); Revanche (Return Match); Não julgue pela capa (Not by its cover); A formiga elétrica (The Electric Ant); A pequena caixa preta (The little Black Box). Leia nossa resenha.

MINORITY REPORT - A NOVA LEI
contos: Minority Report (Relatório de minorias); Em Jogos de Guerra, (War Game); O que dizem os mortos, (Wath the Dead Men Say); Ah, ser um Bolho! (Oh, to be a Blobel!); Podemos recordar para você por um preço razoável (We Can Remember It for You Wholesale); A fé de nossos pais (Faith of Our Fathers); A história que acaba com todas as histórias (The Story to End All Stories); A formiga elétrica (The Electric Ant); A segunda variedade (The second variety); O impostor (Impostor). Leia nossa resenha.

REALIDADES ADAPTADAS
contos: Lembramos para você a preço de atacado, Segunda variedade, Impostor, O relatório minoritário, O pagamento, O homem dourado e Equipe de ajuste. (Ainda sem resenha nesse blog)


 
A MÁQUINA PRESERVADORA I e II
contos: A Máquina Preservadora; O Jogo de Guerra; E Se Benny Cemoli Não Existisse?; Roog; Veterano de Guerra; O Melhor Lugar de Reserva; E Lá ao Fundo Vivem os Wubs; Recordações Por Atacado; Mercado Cativo; Esta Triste Terra; O Síndroma da Fuga; Os Rastejadores; Oh, É Tão Bom Ser Um Blobel!; O Que os Mortos Têm para nos Dizer; Paguem ao Impressor. (Ainda sem resenha no blog)
Leia Mais ››

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Resenha #82- Oneironautas (Fábio Fernandes e Nelson de Oliveira)

Vamos abrir os trabalhos de 2019 com uma breve resenha de um livro breve: "Oneironautas" da dupla dinâmica Fábio Fernandes e Nelson de Oliveira, o Gordo e o Magro da Ficção Científica brasileira que se juntaram nesse livro para uma viagem surrealista no mundo dos sonhos, como o título sugere ao fazer referência ao deus grego dos sonhos.

O livro foi escrito em capítulos alternados de 300 palavras cada, onde os acontecimentos começam a ficar cada vez mais loucos e divertidos mas nem por isso deixamos de ter uma história: Nelson e Fábio se encontram na Festa Eterna em 2066 onde navegantes dos sonhos se encontram e são encontrados também. A partir daí a coisa desanda e descamba para as situações mais insólitas, divertidas e encharcadas de referências da cultura nerd em geral. Como num teste de "quais filmes que você viu?", a não ser que você gabarite sempre, alguma coisa vai se perder, mas nada que uma releitura não resolva. 

Aliás, a releitura é tão recomendada quanto a leitura, pois pode ser feita sem pressa alguma, pois o livro é bem curto, como a remanescência de um sonho que tentamos relembrar com detalhes mas com a vantagem que neste sonho em forma de livro podemos reler sem esperar o sono chegar.
Leia Mais ››

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Resenha #81 - Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley)

"Admirável Mundo Novo", (1931) de Aldous Huxley, junto com "1984", de 1949, de George Orwell e "Fahrenheit 451" (1953) de Ray Bradbury formam o trio de distopias clássicas conhecidas também como Ficção Cientifica Social. Seguindo os passos da Utopia de Thomas Morus em usar a ficção para pintar um mundo ideal com alto teor político, com a diferença de que o mundo pintado por Huxley, Orwell e Bradbury são os mais terríveis possíveis, onde além de mostrarem os medos de sua época temos vislumbres do que temos hoje, dando as três obras tons proféticos que não eram necessariamente pretendidos pelos seus autores.

Agora voltando-se para "Admirável Mundo Novo", Huxley nos mostra um mundo 700 anos no futuro onde a dominação se dá desde antes do nascimento dos seres humanos. Todos são produzidos em série e condicionados genética e comportamentalmente a aceitarem suas posições na sociedade e a nunca questionar. Trata-se de uma via de dominação sem  base na violência explicita e vigilância absoluta, como em 1984, ou retirando os meios de pensamento mais complexo, como em Fahrenheit 451, mas impondo uma felicidade artificial induzida pela droga oficial, o Soma.

Na obra, podemos dividi-la em duas partes: na primeira, acompanhamos Bernard Marx, (o nome Marx não está lá de graça) um cidadão desajustado pelo seu físico não ser igual aos de sua classe que resolve procurar fora da civilização respostas para seus anseios e nisso somos apresentados ao mundo distópico da obra. Na segunda parte, conhecemos John um "selvagem" de uma reserva histórica onde ainda resistem as instituições e tradições de nosso tempo como o casamento, família e nascimento natural de bebês. John assume o protagonismo da história com seus questionamentos e todo choque que sua presença causa nesse Admirável mundo novo.

A escrita de Huxley é bastante ágil e nos apresenta o seu mundo com bastante naturalidade, o mundo já impressiona por si. Ainda que a leitura seja truncada na segunda metade da primeira parte,  quando John assume a história o livro melhora muito até o seu desfecho. Considero que Huxley vai mais longe que Orwell, pois ele expõe com mais precisão o lado não-violento sua imaginação distópica da dominação do homem pelo homem. O que pode atrapalhar o leitor nessa jornada são as muitas referências a obra de Shakespere, pois é com suas obras que o Selvagem John se comunica com o mundo. O livro é bem aproveitado mesmo sem essas leituras, mas acredito que algo da experiência se perca sem elas. Ainda assim é um livro essencial para quem aprecia Ficção Científica e/ou aprecia ficção pelo teor político, e confesso que já deveria ter lido a muito tempo mas antes tarde que nunca.
Leia Mais ››

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Resenha #80 - As Águas-Vivas não sabem de si (Aline Valek)

"As Águas-Vivas não sabem de si" é uma FC de 2016 escrito por Aline Valek. É um pouco diferente das obras de FC publicadas no Brasil pois não tem o apelo ao nicho de leitores. O que é bem vindo, pois apesar de importante existir um nicho de escritores/leitores de Ficção Científica, tampouco é saudável ficar restrito apenas a ele. A obra é competente em trazer densidade na construção dos personagens e na criatividade em muitos momentos na narração.

A protagonista é Corina, uma mergulhadora experiente contratada para testar um novo traje de mergulho em águas profundas. Na estação Auris, ela e a equipe vão explorar sinais de cachalotes e se deparam com mistérios abissais e conflitos internos que vão movimentar a trama.

A ambientação de exploração no fundo do mar não é novidade mas a abordagem faz toda a diferença: a busca pelo desconhecido, me remete a Solaris de Stanislaw Lem, mas o desconhecido se apresenta de forma muito mais sutil que na obra de Lem, pois existem capítulos muito criativos com pontos de vista inusitados e filosóficos que evitam que a Ficção Científica fique sutil demais. Os dramas de Corina e dos demais membros da Auris são bem apresentados mas não tão desenrolados na trama, o que de fato não chega a prejudicar a obra pois evita que o livro se estendesse demais e acertar o prumo nos mistérios, que são o que mais instigam saber. 

A edição como um todo é muito bonita e bem feita. A escrita busca mais sensibilidade e filosofia que a linguagem científica, e as voltas no passado e reflexões podem desagradar quem espera grandes movimentações na história ou o lado aventuresco de uma expedição científica. Para quem estiver disposto a mergulhar em si, como eu me dispus quando fiz a leitura, "As Águas vivas não sabem de si" é uma boa pedida.
Leia Mais ››

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Resenha #79 - Memórias póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis)

Por que resenhar um livro clássico da literatura brasileira em um blog de Ficção Cientifica (e Fantasia)? Basicamente pelo mesmo motivo que resenhei Número Zero de Umberto Eco e A Metamosfose de Franz Kafka: não tenho (nem pretendo ter) outro blog de literatura, então posto neste aqui mesmo. Contudo, Machado de Assis é irresenhável, devido a quantidade de estudos densos a qual suas obras já foram dedicadas, sendo assim  possível apenas recomendá-lo e dar alguma porção de motivos.

É com essa intenção que venho-lhes dividir algumas considerações sobre  "Memórias Póstumas de Brás Cubas". A história tece uma narrativa autobiográfica sobre a vida de Brás Cubas que uma vez morto resolve tecer suas memórias, ou seja, temos um narrador morto. Esse ponto de vista inusitado dá um sabor irônico e filosófico a leitura. Machado busca com isso fugir tanto do Romantismo (pelo excesso de fantasias) quanto do Naturalismo (pela necessidade de explicar tudo cientificamente). Afinal de que importa saber como Brás Cubas trouxe a tona memórias depois de morto? Porque ele trata de assuntos mundanos conhecendo a eternidade e o que há do outro lado da vida?

Tudo isso regado a pessimismo, e um pouco ou talvez muito de biografia do próprio autor que assim como Brás Cubas, não deixou filhos e, até o momento em que escreveu este livro, não havia alcançado fama. Pois antes de encontrar a própria morte, Machado de Assis ainda viveu para ser o primeiro presidente da Acadêmia Brasileira de Letras.

A leitura da obra acaba sendo influenciada negativamente pela obrigatoriedade de sua leitura nas escolas, o que tira muito da potencialidade de captar o humor e ironia de seu pessimismo. Mas como aproximar o leitor escolar dos clássicos é outra conversa. Para aqueles que conseguiram desfrutar dos seus escritos, encontram um excelente livro que, sempre tem lugar na lista de releituras, pelas ironias que passam desapercebidas na primeira leitura. Deixo, além da minha recomendação, a cativante dedicatória do início do livro: 

“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas.”
Leia Mais ››

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Resenha #78 - As Tumbas de Atuan (Ursula K. Le Guin)

"As Tumbas de Atuan" de Ursula Le Guin é a sequência de um clássico da Fantasia, "O Feiticeiro de Terramar", mas não é uma sequência padrão em que mostra mais uma aventura de nosso herói, ao menos não em sua visão. A história segue Tenar, uma menina que é recrutada para ser a sacerdotisa única do culto sombrio dos Inominados e passa a se chamar Arha, onde passa a viver reclusa em função de seu sacerdócio. Uma de suas funções é guardar as tumbas de Atuan, local de deuses inomináveis e tesouros mágicos.

Uma das coisas que pode decepcionar o leitor é que Ged, o lendário mago do primeiro livro, demora bastante a aparecer e ao desavisado pode não entender que este não é um livro sobre Ged, mas sobre Tenar. Outra diferença é que a primeira história se passa explorando as ilhas de Terramar, enquanto a sequência se passa praticamente na ilha onde Tenar vive reclusa. Logo, o que pode desmotivar o leitor é apenas uma falsa expectativa em relação ao livro.

"As Tumbas de Atuan" mostra uma protagonista com profundidade e simplicidade, como no primeiro livro, mas de forma diferente do primeiro porque não se trata da sequencia aventuresca padrão de Fantasia, e sim uma nova jornada sobre o ser humano do início ao fim. Ao fim do livro, somos brindados com mais um pósfácio da autora em que ela esmiúça as diferenças e semelhanças entre Tenar e Ged, muitas delas em função do gênero, mostrando que esta é uma ótima sequência para quem tiver o coração aberto para o novo.  
Leia Mais ››

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Resenha #77 - Sonhos Elétricos (Philip K. Dick)

"Sonhos Elétricos" é uma bela surpresa para quem aprecia a obra de Philip K. Dick, pois é fruto de uma série de adaptações inéditas de contos para a série de mesmo nome da Amazon. Nesta resenha vamos comentar cada um dos 10 contos em separado, seguido de um breve comentário do respectivo episódio da série sem fornecer spoilers de nenhuma das produções. 

Peça de Exposição (Exhibit Piece): George Miller vive três séculos no futuro onde é um historiador fascinado pelo século XX, pelo sonho americano e pelos valores de liberdade e riqueza. Miller é curador do museu de História e acaba se transportando para os anos 50 onde passa a viver feliz, mesmo consciente das duas realidades. O conto encerra com o melhor do humor irônico do autor. No episódio da série (Vida Real), no entanto, opta por um caminho mais dramático para mostrar uma policial lésbica atormentada por uma perda que busca um simulador de outra vida tão real, a de um homem, empresário que passa a questionar sua realidade, achando que é a policial do futuro. A série muda todos os personagens e história pegando apenas o fio condutor do personagem viver em duas realidades.

Autofab (Autofac): O conto mostra um grupo de sobreviventes num futuro pós-guerra tentando parar a produção de uma fábrica automatizada que tem devastado os últimos recursos naturais mesmo tendo se passado anos do fim da guerra. O diferencial aqui é como a Inteligência Artificial se mostra desastrosa, não por se rebelar contra o ser humano mas justamente por fazer o que lhe foi designado. A autofab produz bens de consumo, seguindo o objetivo máximo de produção programado pelos próprios humanos. Uma alegoria simples mas contundente para o capitalismo desumano e desenfreado. Casa bem com as reflexões de Chamayou em seu Teoria do Drone, resenhado neste blog.

Humano é (Human is): O conto se passa num futuro onde a vida é difícil e vive em guerra contra povos de outros planetas. Lester Herrick, um cientista frio e cruel com sua esposa Jill, que volta muito diferente após uma missão no planeta Rexor IV. O conto é curto e foi adaptado fielmente na série, exceto pelos nomes dos personagens que foram trocados e teve mais cenas (provavelmente para caber na média de tempo dos episódios da série), que não desviam da linha central do conto: "o que é ser humano?". Menção a Bryan Cranston interpretando Silas Rex no episódio.

Argumento de Venda (Sales Pitch): O conto acompanha Morris, um desiludido trabalhador atormentado pela vida pacata e esmagado pelo cotidiano repetitivo. Este cotidiano é representado pela pervasividade da propaganda na nossa vida. Temos o melhor da ironia do autor quando um AICAD, um empregado doméstico robô, entra no apartamento de Morris e não aceita não como resposta a proposta de se vender como produto. A ironia é levada até o limite no fim do conto. Ótima leitura! Já no episódio da serie (Crazy Diamond) fez pequenas alterações nos sonhos de Morris, interpretado por Steve Buscemi (ao invés de Alfa Centauri, velejar no mar sem destino) mas o AICAD foi substituído por uma androide femme fatale que o impele a buscar seus sonhos, o que deixou o episódio mais dramático e menos irônico, descaracterizando a forma de comunicação de Philip K. Dick.

O fabricante de gorros (The Hood Maker): Conto mostra um mundo vigiado ao extremo. As mentes podem ser lidas por mutantes telepatas, chamados de teeps, mas uma tecnologia simples e barata (os gorros) pode bloquear a habilidade dos teeps e colocando em risco o seu domínio e o regime como um todo. O conto tem uma virada excelente no fim das contas que mostra uma esperança pouco habitual nas suas histórias. No episódio da série, de mesmo nome, ao invés do ponto de vista do fabricante de gorros e de um membro pacato do governo, a adaptação mostra uma teep e Morris, um agente da lei (Richard Madden, o Rob Stark de GoT) investigando e perseguindo o fabricante. Infelizmente o aspecto politico mais interessante sobre a liberdade/privacidade X segurança é colocado em segundo plano, e o foco acaba sendo na teep que enfrenta preconceito ao servir a força da lei. Isso acaba por empobrecer a narrativa de forma geral.

Foster, você já morreu (Foster You're Dead): Mike Foster é um garoto que vive uma era de alta tecnologia mas com o temor de uma guerra nuclear e todos buscam adquirir um abrigo em suaves prestações. Contudo, o pai de Mike é o único da cidade que resiste a onda de consumo desenfreado pelo medo e não quer ter um abrigo. O conto aborda a falta de comunicação entre as gerações, e como o desejo de consumo devasta uma criança e uma sociedade, saciado ou não esse desejo. O ponto forte é o drama do protagonista. No episódio da série é o mais distante do conto de toda a temporada. Permanece, contudo o drama da falta de comunicação entre pai/filho, aqui com duas personagens mulheres. Neste futuro, os EUA estão divididos em duas regiões onde numa vive-se com privacidade, simplicidade e com pouca tecnologia, de onde uma representante viaja com sua filha até o outro lado, completamente vigiado e ultratecnológico. A menina se deslumbra com a tecnologia mesmo sob os protestos da mãe, gerando conflito e uma trama que infelizmente soou forçada pela ingenuidade da protagonista, e uma virada na história previsível.  

A coisa-pai (The Father-thing): O argumento do conto é parecido com o do livro Os invasores de corpos de Jack Finney (resenhado neste blog), mas aqui protagonizado por uma criança que descobre que seu pai foi tomado por um organismo alienígena. O conto é simples e aborda a questão de forma emocional, e passa longe da questão política do "invasor alienígena/estrangeiro" e fica na questão emocional, de um menino que descobre que seu pai virou um monstro. O episódio preservou sabiamente o núcleo do conto, colocando no nosso tempo mas sem ousar mais. Acho que justamente aqui a ousadia seria mais bem vinda nesa adaptação. Destaco a atuação de Greg Kinnear que ficou sinistro sem soar forçado no papel de Coisa-pai.

O planeta impossível (The Planet impossible): Conto curto porém emocionante. Num futuro onde a existência da Terra virou uma lenda, uma senhora de 350 anos está disposta a tudo para visitar o planeta. Andrews e Norton, pilotos de uma nave de aluguel, aceitam o trabalho mesmo não acreditando que a Terra exista, mas Philip K. Dick quebra a expectativa de realidade dessa história de forma emocionante. O episódio adapta e estende esse conto de forma igualmente emocionante e ainda traz elementos novos. Destaque para a Geraldine Chaplin, como a senhora do conto. 

O passageiro habitual (The Commuter): Neste conto Bob Paine, um pacato funcionário de uma estação de trem fica intrigado com Macon Heighs, uma estação de trem que não existe. Sua obsessão o leva a um lugar que o faz questionar a realidade. É uma abordagem clássica do autor que reflete sobre linhas temporais e decisões. O conto curto foi ampliado para caber no tempo de tela e as adições não comprometem o argumento geral, apesar da escolha do tamanho curto para essa da história por Dick tenha sido bem acertada.

O enforcado desconhecido (The Hanging Stranger): Ed Loyce encontra na rua de sua pacata cidade um homem enforcado numa placa de publicidade. Por que ninguém se importa com aquele homem? Quem era ele? O que ele fez para estar ali? São as perguntas que atormentam Loyce pois todos a sua volta o consideram anormal por se importar. O conto aborda dois temas muito caros para o autor: Empatia e paranoia. Temos apenas a visão de Loyce e por ele ser o único a pensar daquela forma somos levados a duvidar também do que ele vê. Ed Loyce é perdeu a noção da realidade ou nós é que baseamos nossa realidade num consenso da maioria? Temos aqui o Philip K. Dick em seu estado mais provocador. O episódio da série (Matem todos eles), faz uma abordagem politica da falta de empatia, em referência a Trump e o neofascismo de cada dia. Então não temos nada que remeta ao fantástico (alienígenas vistos por Loyce) mas temos exposto o núcleo duro do conto que mostra o monstro que habita em todos nós na sociedade.
Leia Mais ››