segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

Resenha #270 Crônicas de Le Chevallier: Le Chevalier e o Pêndulo da Morte (A. Z. Cordenonzi)


"Crônicas de Le Chevallier: Le Chevalier e o Pêndulo da Morte" é um dos episódios de uma série de quatro contos que complementam a narrativa do romance Le Chavallier e a Exposição Universal. Cada conto tem como protagonista os quatro personagens principais do romance, antes de cruzarem seus destinos no livro. Após já ter falado sobre o conto da Juliette, vamos ao conto referente ao protagonista da série, o próprio Le Chevalier em uma aventura antes da história do livro.

O conto é bastante curto e narra uma aventura que começa no seu ponto mais crítico. Numa homenagem ao clássico do terror, Edgar Allan Poe, encontramos Le Chevalier preso numa cama sob o pêndulo da morte, uma lâmina que desce lentamente para partir a vítima ao meio, literalmente. Situação essa que foi repetida no cinema a exaustão, por exemplo no filme 007 contra Goldfinger onde o espião é ameaçado com um laser ao invés de uma lâmina. Talvez nem todos saibam que tudo se originou do clássico de Poe.

Como podemos imaginar, nosso herói escapa (afinal de contas ele precisa estar vivo para estrelar no livro) mas antes disso é contado como ele se meteu nessa situação, do chamado do Bureau até a perseguição a sua tia, que está por trás de toda a trama. É um conto curto mas divertido e serve como porta de entrada ao mundo que o autor construiu. Recomendo ser o primeiro a ser lido, antes do romance e dos demais contos, e isso é muito fácil de fazer. Os contos estão de graça na Amazon!


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segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

Resenha #268 O Último Ancestral (Ale Santos)


"O Último Ancestral" é uma ficção científica afrofuturista de Ale Santos que saiu pela Harper Collins em 2021. O Ale Santos, para quem curte podcast, sabe que ele apresenta o Infiltrados da Cast e do Ficções Selvagens. A obra é o mais recente e, certamente o maior lançamento literário de ficção afrofuturista no Brasil até o momento. Isso já podemos medir pelo alcance que a obra ganhou até o momento. O livro foi lançado pela editora Harper Collins e é um lançamento pouco comum por ser ficção científica, afrofuturista e de autor brasileiro. Elementos que separados já tem dificuldade para ter espaço numa editora grande, combinadas então nem se fala. Mas contra todas as estatísticas, “O Último Ancestral” está ai.

O livro se passa num futuro distante no Distrito de Nagast - que parece ser o Rio de Janeiro – onde acompanhamos Eliah, um ladrão de carros especialista em fugas que vive em Obambo, uma favela onde vivem quase todos os negros, segregados pelo governo de Nagast. Na cidade, dominam o Cygens, ciborgues que rejeitaram seu lado humano, acumulando poder até se tornar a casta dominante da cidade. Eles instauraram uma ditadura segregacionista que persegue a população de Obambo e qualquer manifestação religiosa.

Isso fez com que a fé fosse totalmente esquecida pela população de Obambo e os que demonstrassem qualquer traço de mediunidade eram recolhidos para a Liga da Saúde Mental de nunca mais voltam. É esse perigo que Eliah tem que enfrentar quando sua mediunidade desperta e ele precisa aprender a dominar suas habilidades para defender o povo de Obambo.

O afrofuturismo da obra é bastante evidente quando temos uma obra em que a grande parte dos personagens são negros e que lutam tanto pela própria sobrevivência como também a lutar por algo a mais. Também temos o afrofuturismo na mistura de ficção científica com fantasia que fluiu muito bem na obra. Aliás, ela flui durante a leitura em diversos aspectos. Os elementos fantásticos científicos, na tecnologia Cygen, na estética cyberpunk com tatuagens que ativam equipamentos. O autor não se perde em explicações para unir os elementos tecnológicos e os de fantasia urbana, onde os espíritos se manifestam digitalmente. Tive uma agradável lembrança de Count Zero do William Gibson, onde as entidades da Matrix se identificaram com os loas do Vodum, mas em “O Último Ancestral” o corre o inverso. São as entidades – aqui tiradas das religiões de matriz-africana no Brasil - que se manifestam no mundo digital.

Outro aspecto que me agradou foi o bom uso das gírias pelos Obambos. (algo que se mal feito poderia ter colocado tudo a perder). As falas são ágeis e objetivas, combinando com personagens que, afinal de contas, estão em uma guerra pela própria vida. O sentido de urgência ajuda num livro que é um page-turner (como se diz nos EUA daquele livro que te faz virar páginas, prendendo o leitor). Aliada a linguagem fluida, temos capítulos curtos que nos permitem acompanhar várias linhas narrativas que vão se encontrando ao longo do livro.

Aliás, os personagens secundários são bem bacanas. É muito fácil gostar de Hanna (a hacker cheia de personalidade) e praticamente impossível ficar inferente ao Zero (que fascina como todo anti-herói, inclusive toma para si, o protagonismo em diversas situações ao longo do livro). Vale destacar também o trabalho gráfico do livro, que veio em capa dura, com as primeiras páginas dos capítulos com letras brancas e fundo preto, além das artes muito bacanas e também por um preço razoável em comparação a outros equivalentes.

Contudo temos uma obra que apesar de fechar uma história completa, é a primeira de uma série ou trologia, ou seja, precisaremos de mais livros para fechar a jornada do Eliah. Pessoalmente não gosto do formato de trilogia, que depende de outras obras para contar a história toda do protagonista, mas uma vez que o universo do livro me fisgou, não me resta alternativa a não ser esperar o próximo livro que já tem nome: “A Divindade Digital”. Além de uma sequência o livro tem chances de sair das páginas literárias para outras mídias. E aqui estaremos de olho.
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Resenha #269 Base em Vênus, Perry Rhodan 8 (Kurt Mahr)


[As resenhas do blogue não costumam ter spoilers, mas para esta série não teremos esta preocupação. Pois ela será escrita pensando em trocar ideia com os leitores que já leram as obras. Além disso contar o enredo das primeiras histórias não constitui grande prejuízo para quem deseja começar a série, mas de qualquer forma fica o aviso]

"Base em Vênus" é o oitavo livro da série Perry Rhodan. Onde finalmente entramos na exploração planetária. Uma das marcas da série. Após a invasão pelos DIs no volume anterior, Perry Rhodan decide que é a hora de buscar tecnologia para estabelecer a sua Terceira Potência, não apenas entre as outras potências, mas para melhor cumprir sua missão de defender a Terra de novas ameaças externas. Para isso, Rhodan convoca uma missão exploratória a Vênus pois já havia indícios de que poderia encontrar algo valioso lá. Mas antes disso, a Good Hope, nave auxiliar do cruzador arcônidas, e principal nave que Rhodan tem ao seu dispor, no momento, faz uma parada na Lua para investigar novamente os destroços do cruzador arcônidas destruído em busca de material que pudesse ser aproveitado para a construção de uma nova frota estelar. Chegando lá, Rhodan encontra a Greyhound. Uma nave estadunidense idêntica a Stardust, que havia chegado antes com o mesmo objetivo que Rhodan: obter tecnologia arcônida.

Após um leve embate, tudo é decidido muito rapidamente, com Rhodan convocando os americanos para a Terceira Potência. Achei estranho uma traição deste nível ser perdoada tão facilmente, ainda mais após uma provocação feroz do Comandante da missão, Michael Freyt. De qualquer forma, Rhodan acompanhado de alguns mutantes, os arcônidas Crest e Thora; e os astronautas estadunidenses, partem para Vênus. Lá encontram uma fortaleza escondida na floresta e são recebidos por um raio de sucção (equivalente ao raio trator de Star Trek) e uma mensagem em uma língua desconhecida e após uma fuga, decidem pousar longe da origem do raio, para que possam investir contra a fortaleza a pé mesmo.

Começa uma das primeiras aventuras de exploração planetária da série. Algo que se repetirá em vários episódios e influenciaria Star Trek, por exemplo. O cenário que a expedição encontra em Vênus é basicamente uma grande selva amazônica com dinossauros e animais enormes e grotescos. Cabe lembrar que este era o imaginário dominante sobre o planeta até dia 12 de dezembro de 1962, quando a sonda estadunidense Mariner 2 acabou com as probabilidades de haver vida no planeta. “Base em Vênus” foi escrito entre 1960-62 e foi um dos últimos exemplares dessa “velha Vênus”, essa visão romântica do planeta.

Como era de se esperar, o passeio em Vênus não foi agradável. Até gostei de parte da exploração com a tentativa de contato com uma raça de focas com algum intelecto, mas o tratamento da personagem Anne Sloane, a mutante com poder de telecinese, foi muito mal escrito. Mesmo com seus poderes, ela foi basicamente à donzela a ser salva por Rhodan e quando não estava desacordada, estava cansada ou chorando ou gritando por ajuda. De fato, um tratamento tão ultrapassado quanto à visão antiquada do planeta. O livro perdeu muito com isso.

Porém a revelação no final deu uma levantada na obra. Acompanhamos um certo “comandante” a espreita, dentro da base, sondando as intenções dos exploradores antes de tomar medidas violentas pois eles reconhecem a tecnologia arcônidas que carregam mas hesitam por não ver nenhum arcônidas com eles. Crest e Thora estão na Good Hope dando apoio. Então após capturar o teleportador Tako Takuda e sondar seu cérebro, o Comandante e Rhodan conseguem estabelecer contato amistoso e revelar a história da base. A Base de fato pertenceu a uma colônia arcônida 10 mil anos atrás, que tentou colonizar a Terra, mas foi destruída junto com um continente inteiro. Confirmando que o continente de Atlântida existiu. Além disso, o comandante revelou ser um cérebro positrônico de grande capacidade e se colocou a disposição de Rhodan, pois reconheceu sua liderança.

Não há como negar a conveniência deste achado em Vênus, mas não foi algo tirado da cartola pelos roteiristas da série. Crest já havia mencionado algumas vezes que já havia indícios de que os arcônidas haviam passado pelo sistema solar, mas os registros oficiais haviam se perdido. Logo, o achado da Base em Vênus, é um achado arqueológico até para Crest e Thora, mas além disso uma fonte de recursos que vão acelerar os planos de Rhodan para unificar a humanidade de forma inestimável. E Rhodan vai precisar.
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segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

Resenha #267 Crônicas de Le Chevallier: Juliette e a Cruz Azul (A. Z. Cordenonzi)


"Crônicas de Le Chevallier: Juliette e a Cruz Azul" é um dos episódios de uma série de quatro contos que complementam a narrativa do romance Le Chavallier e a Exposição Universal. Cada conto tem como protagonista os quatro personagens principais do romance, antes de cruzarem seus destinos no livro. Como os contos não foram numerados, escolhi a personagem que mais gostei deste livro: Juliette.

No seu conto, aprofundamos ainda mais as origens desta personagem. Sua vida no orfanato e o que levou a empreender um roubo audacioso até para os ladrões mais bem preparados. Juliette opera de um esconderijo que a protege de um mundo que não se importa com crianças de rua que rende cenas muito boas com seu amigo que é apaixonadinho por ela. Somado a dinâmica do assalto, faz o conto parecer maior do que ele é. Sem contar a homenagem a um dos maiores ladrões da literatura que não convém contar para não atrapalhar a surpresa mas para quem já conhece o personagem não vai se surpreender. O conto é curto em páginas mas é muito bem escrito e mostra que com uma personagem bem trabalhada as coisas fluem naturalmente na leitura. 

Em breve trarei mais resenhas destes contos, que ainda vão abordar separadamente o fiel amigo d'O Cavaleiro, O Persa; da agente russa que ajuda o agente no livro e do próprio Le Chevallier. O mais bacana é que os quatro contos estão de graça na Amazon e o livro está bem barato (a editora AVEC volta e meia coloca os livros de graça então vale a pena ficar de olho.)
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segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Resenha #266 Olho de Vidro: Manguetown (Raphael Fernandes e Vitor Wiedergrün)


"Olho de Vidro: Manguetown" é uma HQ da Editora Draco que expande o universo criado para um áudio jogo da Rede Geek. Sobre o podcast interativo ainda não consegui ouvir mas a HQ já está lida e é sobre ela que vamos falar hoje. Ela tem o roteiro de Raphael Fernandes e artes de Vitor Wiedergrün e se passa num Brasil cyberpunk em 2162 que após uma guerra nuclear devastou os maiores países do mundo. Apesar de relativamente poupado (São Paulo é uma mancha radioativa no mapa), o Brasil acabou sendo dividido em Brasil do Sul e Brasil do Norte. Sendo o lado Norte bem evoluído com tecnologias verdes e o Sul dominado por corporações como num bom cyberpunk.

É na fronteira desses Brasis que fica a Nova Sampa, a capital do Brasil do Sul, na divisa dos antigos Estados de Minas Gerais e Bahia, mais precisamente Juazeiro e Petrolina. Lá conhecemos Bidu, um malandro que é um guia turístico dos clandestino para os turistas do Norte. Nesta história Bidu vai oferecer ajuda a um ex-namorado dono de uma companhia de teatro anarquista que está sendo perseguido pela Polícia Privada depois de uma peça de protesto contra uma corporação poderosa na cidade. Bidu vai mexer seus pauzinhos e parece ter um excelente plano para salvar seu ex.

A história é curta mas boa o suficiente para conhecer esse mundo. Uma releitura muito brasileira do cyberpunk com versões esteticamente nordestinas dos clichês mais conhecidos do subgênero adicionados da figura do malandro, bem conhecida por aqui. Adorei os desenhos, o traço e as cores, que souberam usar o tema pastel do nordeste com o super colorido do cyberpunk. Cores que entraram na obra por conta do sucesso do financiamento coletivo que chegou a 400% do valor pretendido e uma das recompensas foi que a edição seria com o miolo colorido, e de fato seria uma pena que toda aquela cor se resumisse aquela capa maravilhosa. A história deixa um gosto de quero mais e espero poder ouvir logo esse podcast e ler mais histórias desse universo, pois a combinação funcionou muito bem!
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segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Resenha #265 Invasão Espacial, Perry Rhodan 7 (Clark Darlton)


[As resenhas do blogue não costumam ter spoilers, mas para esta série não teremos esta preocupação. Pois ela será escrita pensando em trocar ideia com os leitores que já leram as obras. Além disso contar o enredo das primeiras histórias não constitui grande prejuízo para quem deseja começar a série, mas de qualquer forma fica o aviso]

"Invasão Espacial" é o sétimo volume da série Perry Rhodan, que nos traz uma aventura bastante ágil onde nosso herói e seu Exército de Mutantes enfrentam a ameaça de uma invasão pelos DIs, Deformadores Individuais, uma raça insetoide que tem a habilidade de trocar de espírito com humanos. Habilidade essa que usam para tentar extinguir a humanidade. Esse mote de invasão nos remete ao clássico Invasores de Corpos de Jack Finney, mas os invasores aqui agem em escala global, procurando posições chave entre governantes e cientistas.

Esse episódio explorou muito bem as habilidades dos mutantes, que apesar de poderosos, não são uma solução instantânea para a ameaça dos DIs. Perry Rhodan precisou coordenar esforços e agir com cautela para finalmente conseguir eliminar os invasores que quase detonaram uma quantidade colossal de combustível radioativo. O destaque vai para Ernst Ellert que se sacrifica para a equipe mas não morre devido aos seus poderes de transportar seu espírito/consciência, seja lá o que for pelo tempo. Porém, como desta vez o fez de forma reativa, seu espírito foi arremessado pelo espaço-tempo e ele tornou-se um vagante perdido no tempo em um diálogo, no mínimo intrigante, com uma inteligência chamada Gorx.

O destaque negativo vai para o discurso de Rhodan para a necessidade cega para a construção de armas como único caminho possível para a Terceira Potência. Até entendo que a situação da 3ª Potência exija um mínimo armamento, mas achei mais do mesmo da Guerra Fria que pretendiam superar, com a filosofia de unir a humanidade. Unir para que? Entrar em guerra com outras espécies? Nem todas as outras raças serão hostis e alheias a diplomacia neste universo, então o Império Galático de Rhodan será apenas uma megalomania expansionista? Ficam estas dúvidas.   

Destaco também, o final do livro com uma revelação de que Alan D. Mercant, chefe da espionagem do Ocidente e aliado de Rhodan fora enganado pelas autoridades do próprio país que quebrou o acordo com a Terceira Potência. Foi um livro curto e ágil, que poderia ter explorado melhor as variáveis de uma invasão pela raça DI mas entregou bem o que se propôs. 
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segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Resenha #264 Encruzilhadas (Pedro Viana)


"Encruzilhadas" de Pedro Viana (hoje assina como Pedro Crunivel) é uma coleção de contos que tem como tema principal o destino. São sete contos que tem uma linha muito fina com o sobrenatural e dependem de você acreditar nos seus depoimentos. Os contos estão presentes no mesmo universo, mas não para montar uma narrativa única, como num romance fix-up (como em Território Lovercraft, pro exemplo) mas para evidenciar essas linhas de destino que se cruzam caprichosamente o tempo todo. 

O Grande Clapton é o conto de abertura e o mais curto do livro. Acompanhamos uma investigação sobre um caso da morte do mágico conhecido como Grande Clapton, que supostamente morreu durante um de seus truques, porém como parte dos mistérios de um mágico esta morte passou a ser contestada. É difícil falar mais sobre o conto sem estragar as revelações que são de tirar um riso do canto da boca ao final da leitura.

A Vidente acompanha a história de Cordélia, uma vidente charlatã bem sucedida, que começa a revisitar as mágoas do passado. Sua maior dor é a filha que abandonou e nunca mais conseguiu rever. Contudo, o destino abriu uma porta que a coloca entre a vida de uma inocente e um serial killer. Achei a protagonista muito bem desenvolvida o que ajudou muito na segunda metade do conto para termos a empatia necessária para nos envolvermos com seu dilema.

A Bailarina acompanha Douglas, um pacato funcionário de uma loja de móveis que encontra uma boneca em uma venda de garagem para dar de presente de aniversário a esposa, Rosa. Porém, o presente continha uma maldição de conceder os mais perigosos desejos. No caso de Douglas, uma esposa bonita, rica que o sustentasse para que ele não precisasse trabalhar. Novamente temos o autor abrindo espaço no conto para trazer o outro lado de um personagem que aparentemente é apenas mais um escroto genérico, mas com seus dramas e nuances, ainda que não sirvam de desculpa para suas atitudes e caráter o tornam crível e palpável. Isso nos deixa mais curioso a respeito da jornada sinistra de Douglas.

A Coisa no acampamento acompanhamos Calebe que acorda com seu marido Rodrigo e não o reconhece mais. Passamos então as cartas deixadas para Calebe escritas por Rodrigo que é militar e comandante de um pelotão que está investigando uma área que foi isolada por causa de um fenômeno paranormal. O formato de carta é muito bem explorado pelo autor tornando este um dos contos deste livro que mais me envolveu.

Para você com meu eterno amor acompanha Camilo Sampaio em seu recente luto pela perda de sua esposa. Amanda era a médium do casal enquanto Camilo tinha conhecimento de ocultismo e ambos faziam investigações paranormais. Porém uma semana após a morte de Amanda, Camilo recebe um pedido de uma mulher para que o investigador salvasse sua filha de um demônio. Camilo, entre a dor do luto e a negação de sua vocação, acaba aceitando investigar e se descobre em uma trama envolvendo a polícia, demônios e um espirito protetor. Como no primeiro conto, as revelações são importantes, mas aliadas ao bom desenvolvimento dos personagens e uma trama que de fato não sabemos onde vai chegar. Meu conto favorito do livro.  

Folhas e Sombras conta a história de Paula, uma escritora que após um romance de sucesso, não conseguiu repetir mais o sucesso e, depois, sequer terminar um romance novo para tentar reencontrar o sucesso. Além do fracasso na carreira como escritora, Paula estava separada do marido e morando numa casa alugada em péssimo estado. Após um sonho, entretanto, Paula começa a escrever um romance sem saber das consequências e do preço a pagar. Não há mistério sobre o que amaldiçoa Paula, mas quem e o que será feito dela é o suficiente para manter a atenção do leitor. Muito bom!

Sob os olhos do tempo é o conto que conclui o livro e é a única história que se passa no futuro. Sandro é um investigador aposentado de uma época em que ainda havia assassinatos. Um velho companheiro, ainda na ativa o coloca de volta a ativa para resolver um assassinato de um cientista polêmico. Os caminhos da investigação tornam este o conto que mais me surpreendeu no livro, pois fugiu do conto de investigação padrão e se aprofundou no mundo sobrenatural que permeia todo o livro. Foi um bom encerramento!
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terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Resenha #263 Um cântico para Liebowitz (Walter M. Miller Jr.)


"Um cântico para Liebowitz" é uma das distopias mais importantes da ficção científica. Escrita pelo ex-combatente estadunidense da 2GM, Walter Miller Jr. ela aborda de maneira irônica e pessimista sua visão da civilização humana como insistentemente autodestrutiva. O catolicismo do autor e suas experiências como aviador na guerra, estão muito presentes neste livro. 

A obra reuniu três crônicas, que juntas mostram três momentos da civilização humana após um holocausto nucelar. Como muitas obras escritas durante a Guerra Fria, (Um cântico para Liebowitz é de 1960) o medo de uma guerra nuclear entre EUA e URSS era muito presente no imaginário da época. Contudo, o autor consegue centralizar a civilização em suas histórias e manter o livro atual e relevante. Sua visão de uma civilização cíclica e autodestrutiva, consegue transmitir a densidade que a reflexão merece somadas a forma irônica e muitas vezes tragicômica em vários momentos.

A primeira parte é Fiat homo, (Faça-se o homem) e se passa 600 anos após o fim da civilização como conhecemos e acompanhamos a vida do novato Francis da ordem do Beato Liebowitz, quando este encontra documentos escondidos em um antigo abrigo nuclear que são vestígios da antiguidade. O mundo reconstruído sobre as cinzas da era moderna é uma sátira da medievalidade europeia, onde os copistas preservam o conhecimento mesmo sem saber o seu significado. Esses documentos são reunidos e guardados hermeticamente são chamados de Memorabília. Estes documentos são os únicos registros preservados de uma era em que todo o conhecimento e os letrados eram caçados, destruídos e mortos.

A segunda parte, Fiat lux, (Faça-se a luz) representa o renascimento, onde um escolástico cientista Matteo procurando estudar os documentos da Memorabilia, na abadia de São Leibowitz e poder fazer avanços científicos com eles. Contudo, em meio a guerra entre duas potências militares emergentes de Denver e Texarkana, coloca em perigo este potencial cientifico. Por fim, a última parte, Fiat voluntas tua (Faça-se a tua vontade) se passa 700 anos após a segunda parte e mostra a humanidade evoluída tecnologicamente, explorando planetas e também envolvida numa guerra fria entre duas potências nucleares. Acompanhamos o abade de São Leibowitz organizando uma missão para colonizar um planeta de alfa centauro, com missionários que levarão a Memorabília, tendo em vista o conflito nuclear como inevitável.

O autor consegue deixar uma sensação de desperdício constante e não deixa de ironizar a ciência que se coloca como única aliada da razão, quando muito conhecimento foi preservado com ela e muitas inovações científicas partiram destes conhecimentos mas em contrapartida o avanço científico resultou apenas na destruição sem fim. Desta forma, longe de um pessimismo vazio ou uma crítica simplista, temos nesta obra uma reflexão poderosa sobre a medievalidade europeia e a religião em nosso tempo, mesmo que nosso autor puxe sua sardinha para o catolicismo.


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segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Resenha #262 O Esplendor (Alexey Dodsworth)


"O Esplendor" (2016) é uma obra que podemos classificar como Hard Sci-Fi, pelo enfoque na especulação usando as ciências exatas e biológicas, como as grandes obras clássicas dos mestres da ficção científica, como Arthur C. Clarke ou Asimov, por exemplo. Uma qualidade que adoro nas obras deste autor é a capacidade de nos submergir em grandes passagens de tempo e contemplações de proporções gigantescas. Contudo, Alexey faz isso com uma identidade própria, sem perder de vista as raízes brasileiras mesmo que sua história se passe distante daqui no tempo e espaço. Ou seja, temos uma ficção científica hard sem o mofo das histórias clássicas de décadas atrás.

A historia se passa em Aphriké, um planeta banhado pela luz de seis estrelas que o impede de conhecer a escuridão da noite. Lá vivem seres melaninados em uma sociedade de telepatas que desconhecem a privacidade e o próprio conceito de dormir. Porém tudo está prestes a mudar com o nascimento de uma criança capaz de sonhar e dormir. Como trata-se de um livro longo, o autor usa bem o espaço para nos inserir nas estruturas sociais de Aphriké onde o trabalho é dividido Ilês - um tipo de guilda ou soviete, porém em uma estrutura muito mais rígida. Contudo este é um mundo dividido. De um lado a capital é Irridiscente onde o líder o Supreme 1920 lidera com suposta benevolência e do outro Kalgash, onde vivem um povo rebelde liderados por Lah-Ura 23.

A estrutura rígida de Irridiscente os isolaram a ponto de não acreditarem haver nada além do próprio planeta e negarem a existência do universo. Tal pensamento é considerada uma heresia do povo de Kalgash. O Esplendor é uma história complexa mas que entrega todos os elementos para que possamos compreendê-la, logo não é prolixo, muito menos é desnecessariamente complicado. Contudo, vai exigir do leitor atenção para que possamos viajar pelas estruturas sociais e entender o que de fato está em jogo para os personagens. O livro fecha muito bem com a obra anterior, Dezoito de Escorpião formando um dueto bem amarrado, mas nem por isso o torna um pré-requisito para a leitura de O Esplendor. A verdade é que Dezoito de Escorpião acaba funcionando tanto como continuação quando como prequela a Esplendor tanto que o primeiro livro já entrou para a lista de releituras. Este universo criado por Alexey é bastante rico e gostoso de acompanhar, felizmente está para sair uma HQ ambientada neste universo chamada Saros 136 e certamente veremos aqui no blogue!
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segunda-feira, 21 de novembro de 2022

Resenha #261 Savage Worlds nº1 (Jerry Souza)


Savage Worlds é um projeto de Jerry Souza, expandindo sua publicação principal, a fanzine Profecia, agora focado no gênero "Espada e Feitiçaria". Essa edição é distribuída gratuitamente tanto na forma física como na digital. Obviamente a edição física é distribuída de acordo com a tiragem que o editor se dispuser a imprimir. O leitor pode ler e cadastrar-se para receber os números físicos, em "www.profeciacomics.com".

Neste primeiro número acompanhamos o início de duas histórias, a primeira é com um personagem conhecido no meio independente, Peryc, o mercenário dos pampas que vive num mundo pós apocalíptico que faz uma homenagem a Conan, mas que a cada história vai ganhando personalidade. A história é baseada no romance Crepúsculo do editor Jerry Souza, de 1990. Não achei informações sobre a obra, mas temos um vislumbre de que seja uma história de piratas pelo início se passar no mar onde Peryc trabalha como marinheiro e acaba sendo desafiado por um soldado profissional. Gostei muito do traço, ressaltando a selvageria deste mundo e dos momentos de reflexão que abrem bem o apetite pelo desenvolvimento. Continuo acompanhando os volumes seguintes que serão resenhados aqui.

A segunda história, se chama "Mundos em Conflito" e abre as "Crônicas Proféticas de Brandar". Trata-se de uma história bastante curta onde nosso herói começa preso por um império que o força a aceitar uma proposta sob pena de castigos terríveis. Aguardo a segunda parte pelo desenvolvimento que promete bastante.
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segunda-feira, 14 de novembro de 2022

Resenha #260 Sombras e Ecos (J.M. Beraldo)


"Sombras e Ecos" é a terceira obra de fantasia da série Reinos Eternos, que iniciou com o sensacional Império de Diamante protagonizado pelo mercenário Rais Kasim, o sacerdote Adisa, o fanático Mukthar Marid e o estadista Zaim Adoud em Myambe, seguido de Último Refúgio onde continuamos a acompanhar o mercenário Rais Kasim e sua namorada Vema Thevar. Agora voltamos a acompanhar Kasim, que agora não é mais Rais e foge do seu passado novamente e desta vez vai parar em Duralan no extremo sul do mundo. 

Duralan é uma cidade portuária de um continente gelado - desta vez é baseado na mitologia himalaia e polinésia. Assim como as áreas habitadas no extremo norte, temos uma longa noite e um longo dia com seis meses cada. Na época noturna o porto é fechado pelo clima congelante, e é nessa situação que Kasim se encontra. Ele recebe a missão de proteger Huirau Huepo, um locchava (historiador de memórias do governo) capaz de acessar as misteriosas memórias que perambulam pela cidade. Podem ser vistas e ouvidas mas não podem ser tocadas. Contudo, uma delas aparentemente causou a morte de uma locchava e Huirau foi destacado para investigar o caso.

Somos apresentados a um novo continente, com sua própria geopolítica e cultura muito bem exploradas pelo autor durante a obra, nos proporcionando uma viagem fascinante e fantástica. Diferente dos outros livros da série, temos uma trama policial focando, não em aventuras separadas que se encontram no final do livro, mas nos dois protagonistas tentando se ajudar, resolvendo suas diferenças culturais e de afinidade enquanto procuram o assassino da locchava. O pano de fundo político dos Onze Reinos e as demais potências do continente é bem explorado e se torna interessante pois contribuem para as perguntas que os investigadores fazem e se deparam, pois o assassinato logo ganha uma dimensão política muito forte.

Acredito que o autor dividiu bem o protagonismo entre Kasim e Huirau, mesmo sabendo que a centralidade da série é de Kasim e a deste livro de Huirau. Gostei também da característica episódica do livro pois não temos um ciclo fechado de Kasim e ainda espero vê-lo em muitas aventuras. Enquanto a próxima aventura não vem, lerei o livro de contos "Oceano dos Mil Deuses"!

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segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Resenha #259 Juca Pirama (Enéias Tavares)


"Juca Pirama" Enéias Tavares é outra obra de seu universo Steampunk, iniciada em Lições de Anatomia do Temível Dr. Louison. Desta vez a aventura se passa em São Paulo, ou melhor São Paulo dos Transeuntes Apressados e tem um ritmo bem diferente das suas outras obras. Como dito no prefácio, a intenção era de uma obra que funcionasse também no audiovisual e assim temos uma obra ágil na escrita, ainda que emule o modo de falar do séc. XVIII, e tem um enredo mais simples.

Desta vez não temos um personagem clássico da literatura brasileira adaptado ao universo Steampunk, mas as referências e o paralelismo do herói Juca Pirama do poema clássico, com este personagem novo funciona muito bem. Ao início de cada capítulo temos um trecho importante do poema abrindo o capítulo. Conhecemos Juca Pirama, um anti-herói brasileiro, um jovem malando que tenta se virar com o que tem, com as habilidades das ruas, marginalizado por essência, dotado de uma vontade de viver imensa. Temos um personagem carismático que se viu envolvido em uma trama de assassinados e sede de poder. As reviravoltas podem até ser revolvidas pelo leitor mais atento mas aqui a aventura é o elemento mais apurado. Sempre fui crítico do Steampunk que aprecia a estética pela estética e esquece o elemento transgressor que faz o "punk" fazer sentido. Nosso protagonista, tanto deste livro como do poema clássico de Gonçalves Dias, são dignos da herança de rebeldia do precursor do subgênero, A Máquina Diferencial.
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