segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Resenha #110 - Amália atrás de Amália (Marco Aqueiva)


"Amália atrás de Amália" é uma das varias obras de Ficção Científica brasileira que estão sendo lançadas pela Editora Patuá na coleção Futuro Infinito. A novela de Marco Aqueiva é a uma daqueles histórias em que a forma é um elemento ativo da história. As 81 páginas da obra podem levar a errônea primeira impressão de tomá-la por uma leitura rápida de praia. Contudo, Amália atrás de Amália exige do leitor muita atenção aos detalhes, sensibilidade e principalmente pensar fora da caixa. A narrativa é não-linear o que pode desagradar o leitor casual, mas recompensa quem aceitar se aventurar por sua loucas páginas.

A história gira entorno de Amália, que vive em um Brasil futuro cercada de tecnologia (chips neurais, biotecnologia) e violência. A violência de uma ditadura, de perder tudo e ser perseguida por ser quem ela é mas nem Amália sabe quem é, porém sabe que quer sua filha. Racionalizar a história para além disso é parte do sabor de acompanhar Amália, e deixo para o leitor.

A estrutura é basicamente não-linear. Os capítulos são curtos e o autor não manda um manual para organizá-los, mas a sensação de fuga e perseguição é constante. Momentos inebriantes e líricos logo são cortados por alguma urgência o que confere agilidade a leitura mas a não-linearidade obriga a retornar capítulos inteiros atrás de algum detalhe perdido. Preferi ler todo o livro uma segunda vez para encontrar os detalhes que julguei pouco importantes, que na verdade ajudam a entender o geral, o que valeu muito a pena. O mistério é instigante, o que acabou me fazendo reler assim que virei a última página. Foi uma experiência bem atípica de leitura, pois não estou acostumado a esse estilo de literatura-arte e acabei apreciando bastante o estranhamento que me causou. Recomendo!
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terça-feira, 5 de novembro de 2019

Resenha #109 - Carbono Alterado (Richard Morgan)

"Carbono Alterado" de Richard Morgan é uma obra de 2002 que buscou revitalizar o cyberpunk trazendo seus elementos clássicos (alta tecnologia/baixa qualidade de vida num capitalismo selvagem na forma de um romance policial noir) sem se apoiar numa sátira de algo ultrapassado, ou podemos dizer também, que é um cyberpunk que se leva a sério. O livro veio ao Brasil na carona do lançamento da série na Nexflix.

A história segue Takeshi Kovacs, um Emissário (agente especial da ONU) treinado mentalmente para se adaptar a qualquer um dos mundos colonizados e ocupar capas diferentes. No futuro imaginado pelo autor, no século XXV, a humanidade já colonizou diversos planetas e venceu a morte conseguindo encapsular os dados correspondentes as nossas lembranças e a personalidade, podendo ser reintroduzidos em um novo corpo, chamado de "capa", através de um cartucho. Contudo, nesse mundo apenas os ricos conseguem "viver para sempre", ou seja, viver vários séculos trocando as capas quando querem. 

Takeshi vem de um dos mundos colonizados, chamado apenas de "O Mundo de Harlan", onde os povos eslavo e japonês foram predominantes na colonização e nunca tinha pisado na Terra até que foi morto. Décadas depois foi reencapado num corpo caucasiano na Terra e lhe foi ofertado um trabalho de investigação de assassinato por Laurens Bancroft. A vitima do crime é ele próprio. Bancroft é um "Matusa", rico o bastante para comprar a própria vida eterna. Takeshi, sem melhor opção, se joga na investigação mergulhando nos submundos de um planeta que não conhece tendo apenas seu treinamento mental de Emissário.

Os elementos do cyberpunk estão todos ali: uma história noir detetivesca, uma femme fatale, conflitos de interesse com ricos, submundos de crime. O principal é a alta tecnologia principalmente no sentido biológico e químico e a baixa qualidade de vida, mostrada na própria condição frente aos poderosos de Takeshi e da família Elliot. E toda essa tecnologia e as devidas interações são o ponto alto da obra. 

A trama é bem convincente e trabalhada, e não é complexa demais para um livro grande. Tudo é narrado na primeira pessoa e em um livro de 490 páginas dá bastante espaço para trabalhar o personagem de Takeshi, porém o personagem ficou repetitivo em sua masculinidade e parece que sofre de uma necessidade compulsiva de se mostrar como tal. Afinal, um mundo onde o prazer virtual é de fácil acesso e a possibilidade de estar um corpo do outro gênero é facilitada, os personagens são estranhamente presos na heterossexualidade. Além da ausência de homossexuais e de todas as mulheres serem nada mais que  passivas/histéricas/ardilosas/frágeis em maior ou menor grau, é apenas contraditório uma sociedade tecnologicamente avançada e uma mentalidade de 1930. E tudo isso não acontece pela falta de menção ao sexo. Uma das várias cenas de sexo de Takeshi é detalhada em vários detalhes, por conta do uso de uma droga que compartilha os estímulos e sensações entre os dois usuários enquanto transam.

A série adaptou bem o clima noir, as personalidades dos personagens, e preferiu esticar a subtrama da família Elliot o que acabou deixando a série um pouco arrastada da trama principal pois já temos muitos flashbacks de Takeshi no livro e muitos mais na série. O livro consegue ser mais objetivo pois conta sua história na primeira pessoa, já a série divide o tempo de tela para as outras subtramas. Um ponto para a série foi o personagem que é a IA do hotel onde Takeshi se hospeda. No livro o Hendrix pouco se destaca, mas na série Poe aparece mais e ficou muito bom, a mudança, provavelmente se deve ao fato de Edgar Allan Poe já ter sua obra como domínio público, ao contrário de Jimmy Hendrix. A série capricha no visual mas acaba falhando em não acelerar o ritmo já lento do livro. O final da série é bem diferente do livro, e o do livro ficou melhor. 

Carbono Alterado falha na ausência, principalmente uma curva de aprendizado consistente para o protagonista. Espero que o próximo volume as coisas evoluam, pois apesar de tudo o mundo é atraente demais para não ler o próximo número.
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terça-feira, 29 de outubro de 2019

Resenha #108 - A Máquina Preservadora, Parte 2 (Philip K. Dick)

Segue o comentário sobre cada conto do segundo tomo da coletânea "A Máquina Preservadora". A parte um você encontra no link.

Mercado Cativo (Captive Market): Conto mostra a rotina aparentemente pacata da Senhora Edna Berthelson que carrega sua camioneta com mantimentos que vende semanalmente, em local discreto a todos do seu vilarejo, enquanto num futuro recente e pós hecatombe nuclear um grupo de sobreviventes é abastecido de comida e peças para sua nave de fuga para Vênus. Um negocio vantajoso para ambos. O conto fala sobre a ambição mesquinha pelo lucro que cega para todas as outras coisas importantes da vida. O final conta com a ironia macabra do autor em relação ao destino dos personagens.

Esta Triste Terra (Upon the Dull Earth): Silvia deseja ardentemente se unir a uma raça de seres alados que devoram sangue. Seu namorado, Rick tenta dissuadir Silvia mas esta parece ceder a um desejo irresistível. Então, Silvia consegue sua transformação, e no dia seguinte Rick fica transtornado com o que ela lhe conta sobre o resultado. Suas ações rasgam o tecido da realidade em algo parecido com uma tragédia grega entre dois apaixonados que não podem ficar juntos, ou não querem, fica a dúvida. Conto tem toda a estranheza que o autor traz de costume. 

O Síndroma da Fuga (Retreat Syndrome): John Cupertino é parado pela polícia por excesso de velocidade e então é reencaminhado ao seu psicólogo, Dr. Hagopian, que tenta convencer Cupertino de que John não matou sua esposa Carol. O conto narra Cupertino em uma paranoia extrema, ponderando a realidade ao seu redor e investigando se realmente ele matou Carol, apesar de conversar com ela mais de uma vez. Dick costuma abordar a quebra de barreiras onde a realidade é subestimada, e neste conto entretanto o foco é na culpa do protagonista e como sua mente se sabota sem qualquer limite. 

Os Rastejadores (The Crawlers): Ernset Gretry é um agente do governo responsável por investigar um fenômeno estranho no interior dos EUA. Trata-se de pequenos seres gosmentos, parecidos com lesmas gosmentas e com rostos humanoides. Gretry descobre que estes seres se reproduziram muito rápido e dedicam-se a construir galerias subterrâneas e parecem pacíficos e se não molestados. O plano do governo para conter a praga e devolver as terras aos donos é colocar todos os espécimes em uma ilha onde poderiam continuar a construir. O conto tem um final bastante aberto e deixa muita coisa nas entrelinhas, o que não é comum nos contos do autor, mas vale bastante a leitura e nos faz pensar em coisas esquisitas.

Oh, É Tão Bom Ser Um Blobel! (Oh, to be a Blobel!): mostra a vida de George Munster, veterano de uma guerra contra uma raça alienígena, os bolhos de titã. Á narrativa é cheia de ironias utilizando o estranhamento entre a forma humana e a forma de vida unicelular dos bolhos para mostrar nossa incapacidade de conhecermos uns aos outros bem como expor os valores familiares burgueses do relacionamento. Há uma dimensão política do conto, sendo uma crítica aos rumos dos EUA que "assimilam" características dos países com que entram em guerra, como a Alemanha Nazista e, depois, o Vietnã (uma crítica a chamada, "Guerra de corações e mentes"). Uma forma muito criativa de explorar a polissemia da Ficção Científica. Formas de vida parecidas com os bolhos aparecem em Clãs da Lua Alfa, porém sem sofrer a mesma repulsa dos personagens. Conto também publicado na Coletânea Minority Report.

O Que os Mortos Têm para nos Dizer (Wath the Dead Men Say): se passa em um futuro onde os mortos podem conversar com os vivos, se mantidos sob certas condições de temperatura. John Barefoot é o RP do recém falecido megaempresário Louis Sarapis, que pretende continuar influenciando sua empresa e aliados políticos enquanto estiver semivivo. Contudo os agentes de conservação não conseguem estabelecer contato até que sua voz começa a aparecer em todos os aparelhos de rádio, telefone e TV. A base da história foi aproveitada posteriormente em Ubik, onde o personagem Herbert Schoenheit reaparece. Publicado também na Coletânea Minority Report.

Paguem ao Impressor (Pay the printer): Após uma guerra nuclear, chegaram a Terra os pacíficos billtongs, seres disformes que parecem gosmas e que tinham a capacidade de replicar objetos a partir das cinzas que existiam por toda parte e uma seiva que sai deles. Desde então os objetos que copiavam passaram a ser usados ostensivamente para reconstruir o que sobrou da civilização. Desde carros, roupas, partes faltantes das ruínas de prédios até taças outros utensílios diários. Até que um dia, tudo que foi copiado pelos Billtongs começaram a perder consistência e se desfazer, levando a população das colonias ao desespero. O conto parece ter ma mensagem contra o consumo desenfreado e alienado, pois os humanos desaprenderam a confeccionar tudo que usam. Vemos, outra vez, a Ficção Científica para ironizar algo completamente atual, tanto na época do conto como agora.  
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terça-feira, 22 de outubro de 2019

Resenha #107 - A Máquina Preservadora, Parte 1 (Philip K. Dick)

A Máquina Preservadora (The Preserving Machine) é uma coletânea de contos de Philip K. Dick lançada em dois volumes pela lendária editora Argonauta, responsável por trazer centenas de obras de Ficção Científica para a língua de Camões, sendo que muitas obras só podem ser encontradas traduzidas por conta desta coleção. Aqui temos um belo compilado de contos do autor, alguns já encontraram republicações no Brasil conforme apontamos os que já traduzimos. Para um colecionador e aficionado pelo autor como eu, deparei com algumas inevitáveis repetições em relação ao que já foi lido e resenhado aqui, mas foram apenas quatro contos, e os comentários foram transcritos pois acabei pulando esses contos na hora de ler essa coletânea. No mais, vou comentar os contos do primeiro volume individualmente e numa próxima postagem os do segundo volume.

A Máquina Preservadora (The Preserving Machine): Conto curto que dá nome a coletânea. Doc Labirinth é um senhor ocupado com a preservação da cultura da nossa sociedade a longo prazo, em especial com a música, pois para o Doc é a mais frágil de preservar. Doc projeta uma máquina capaz de dar forma viva as músicas que considera mais dignas de serem preservadas, como Bethoven, Mozart, Schubert, Wagner entre outros do estilo clássico. A máquina recebe partituras e devolve formas de vida parecidas com animais inéditos ainda que lembrem os que já existem. Contudo, as coisas começam a sair de controle de Doc. O final faz uma reflexão bem humorada sobre natureza humana, não necessariamente impactante mas carregada da ironia característica de Dick.

O Jogo de Guerra (War Game): funcionários de uma importadora de brinquedos avaliam produtos vindo de Ganimedes para o mercado da Terra. São eles: Um jogo de realidade virtual onde soldados invadem uma cidadela, uma fantasia de cowboy e uma variante do Monopoly chamada Syndrome. O propósito dos brinquedos é obscuro aos personagens e ao leitor também, não percebem a ideologia guerreira de seus importadores mesmo nos brinquedos vetados. Contudo, a ideologia mais sutil e eficiente está justamente no brinquedo aprovado.

E Se Benny Cemoli Não Existisse? (If There was no Benny Cemoli): O conto se passa no século XXII cerca de 20 anos depois de uma guerra que regrediu a tecnologia na Terra, quando da chegada do GRUC, uma organização inter-sistema vindos de Alfa-centauro para restabelecer relações com a Terra e ajudar em uma reconstrução tecnológica. Paul Hood, chefe do GRUC, reativa o homeojornal New York Times para que sua chegada seja noticiada a todo planeta. O homeojornal, funciona a partir de um computador central e autônomo no subsolo (por isso preservou-se durante a guerra, mesmo inativo), e junto as noticias de chegada de Hood e o GRUC, passa a noticiar uma revolta chefiada por Benny Cemoli em Nova York. O mistério começa quando Hood não encontra nenhum rastro de Cemoli, nem de sua revolta, quando vai até Nova York. O conto trata da manipulação da mídia e vislumbra um mundo de comunicação global em, praticamente, tempo real e traz uma trama complexa mas bem contada em tão poucas páginas.

Roog (Roog): Conta história de um cão chamado Boris, que sente uma ameaça rondando a frente da casa dos seus donos num pacato bairro suburbano. Conto bastante subjetivo, que segundo o próprio autor fala de lealdade e sobre a incapacidade de Boris transmitir seu alerta e de como é considerado incômodo ao tentar transmiti-la. 

Veterano de Guerra (War Veteran): David Unger é um veterano de uma grande guerra do século XXII e vive amargurado com a derrota da Terra contra colonos humanos de Marte e Vênus, que tenta sempre contar seus feitos na guerra porém quase ninguém lhe dá ouvidos, até que em meio a protestos por conta do desemprego, quando o dr. Patterson em uma consulta descobre que Unger deveria ter 15 anos do ano de 2184,  e não 85 e que a guerra interplanetária de 2185 é um evento futuro. Seria Unger um viajante involuntário do futuro? Começa um jogo de interesses entre o dr. Patterson, seu médico, o líder politico radical Gannet, V-Stephens um venusiano entre outros para impedir a guerra ou para virá-la para o lado da Terra em meio a crise eminente entre os povos. 

O Melhor Lugar de Reserva (Stand By): Quando uma frota alienígena desconhecida é detectada se aproximando do Sistema Solar, o Unicefalon, o computador administrativo com poderes de presidente dos EUA, fica inativo. Então, Max Fischer, o substituto humano escolhido pelo sindicato assume o cargo, porém logo uma crise se instaura pois um Jim Bribski um comunicador famoso de rádio tenta armar uma reeleição para ocupar a presidência. O conto faz uma sátira política que elege presidentes babacas em tempo de internet e como a tecnologia não cria uma ferramenta que não melhora tudo por si só. Conto que vale pelo desenvolvimento e não pelo final.  

E Lá ao Fundo Vivem os Wubs (Beyond lies the Wub): Peterson é o imediato na nave espacial do comandante Franco, quando Franco encontra um wub, um ser que Peterson adquiriu numa das paradas do cargueiro. A medida que os tripulantes estabelecem contato com o wub, a tripulação de divide entre os que querem devorá-lo por ser parecido com um porco de 200kg, como o capitão Franco e os que querem mantê-lo vivo, como o imediato Peterson, pelo wub ser inofensivo, sensível e inteligente. Conto fala sobre a adaptação e a violência e tem um final muito criativo e inspirado que pode tirar um sorriso do rosto. 

Recordações Por Atacado (We Can Remember It for You Wholesale): Conto que serviu de inspiração para o filme Vingador do Futuro, que começa apresentando Douglas Quail, um "assalariado de merda" que não tem o tamanho de Schwarzenegger mas deseja ir a Marte. Então, recorre a Rekordações para receber um implante de memória de como teria sido a viagem. Após complicações no procedimento a estória segue um rumo diferente do filme. O conto aborda o que restaria de nossa identidade se pudéssemos manipular as nossas lembranças e experiências de vida. Publicado também Coletânea Vingador do Futuro e na Coletânea Minority Report.
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terça-feira, 15 de outubro de 2019

Resenha #106 - Guanabara Real: Alcova da Morte (Enéias Tavares, Nikelen Witter e A. Z. Cordenonsi)

Esse romance foi escrito a seis mãos pelos gaúchos Enéias Tavares, A.Z. Cordenonsi e Nikelen Witter. Todos os três já têm obras de steampunk publicadas, e juntaram forças para criar um novo universo retrofuturista, usando a cidade do Rio de Janeiro do final do século 19 como cenário e personagem, com direito a máquinas diferenciais, carros a vapor e próteses mecânicas. Mas também onde a magia influencia o destino dos personagens, ainda que de forma oculta do cotidiano, tudo isso em meio a um mistério detetivesco. A obra faz uma bela celebração da diversidade, sem colocá-la como o motor da história.

São vinte e um capítulos, sete de cada autor. A trama é protagonizada por três agentes da agência particular de investigações Guanabara Real, que no ano de 1892 é contratada para investigar um assassinato ocorrido durante a festa de inauguração da estátua do Cristo Redentor, financiada pelo poderoso Barão do Desterro.

Tudo é contado do ponto de vista dos três protagonistas, na primeira pessoa, que são interrompidos em alguns momentos por epístolas e recortes de jornais que os heróis leem durante a história. Inclusive podemos ver a posição política de dois jornais diferentes, ao noticiarem misteriosos desaparecimentos: o jornal A República apoiando as autoridades do governo e a Tribuna Popular discursando para o povo.

Cada capítulo é escrito alternando a voz dos protagonistas: uma mulher, um negro e um índio, ou seja, os cidadãos de segunda classe, aos olhos do patriarcado branco.

Maria Teresa Floresta é a dona da agência Guanabara Real. É cheia de contatos pela cidade, principalmente entre os pobres e marginalizados, e tem um faro investigativo apurado. Ela também promove a harmonia entre os diferentes temperamentos de seus associados e amigos da agência. Nikelen Witter, autora também de Territórios invisíveis, trouxe a influência de Agatha Christie para a construção do mistério.

Firmino Boaventura é um engenheiro positivista que acredita na ciência para resolver crimes, e de certa forma o olhar científico é um modo de autoafirmação, contra o preconceito que sofre por ser negro e pela prótese mecânica que substitui a mão direita. O personagem de A.Z. Cordenonsi, autor também de Le Chevalier e a exposição universal, é a influência do steampunk na obra.

Remi Rudá, personagem de Enéias Tavares, é quem traz a influência lovercraftiana ao livro, por ser um especialista em ocultismo, alguém que domina as artes da magia. É descendente de indígenas, com gostos extremamente requintados, e vive em constante tensão com Firmino pela discrepância de suas especialidades. É de Enéias Tavares o premiado romance A lição de anatomia do temível Dr. Louison.

A diversidade social aparece na obra de maneira bastante fluída, apesar de não ser o centro da trama. Há os protagonistas que se unem pelos seus diferentes conhecimentos e habilidades, principalmente as de Maria Teresa, que conhece muito bem as áreas marginalizadas onde nasceu e cresceu. Entre os coadjuvantes, o destaque é a requintada Madame Leocádia, uma transexual dona do prostíbulo mais luxuoso da capital da recém-proclamada república.

Quanto à trama, é bem amarrada, porém sem muito espaço para maior complexidade, tanto pelo espaço que os passado pessoal dos protagonistas ocupa nas páginas quanto pela própria característica de prólogo de uma série que certamente se estenderá por mais livros. Algo que aliás é atiçado pelo final aberto e surpreendente.
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terça-feira, 8 de outubro de 2019

Resenha #105 - A cidade e as estrelas (Arthur C. Clarke)

"A cidade e as estrelas" de Arthur C. Clarke, de 1957, foi baseado em uma novela de duas décadas antes. A obra consegue trazer temas e extrapolações ainda relevantes hoje mesmo passado mais de meio século depois de escrita, ainda que tenha elementos bem calcados no seu tempo Clarke consegue extrapolar a Guerra Fria buscando soluções sempre além disso. A história se passa milhões de anos no futuro e o texto consegue transmitir muito bem essa distância temporal. 

Acompanhamos Alvin, que vive numa metrópole isolada do resto da Terra e do universo chamada Diaspar. Nela, a cidade é governada por um computador central e a morte foi derrotada completamente e os habitantes dedicam seu longo tempo de vida para seu próprio prazer, sem compromissos ou laços familiares fortes. O poderoso Computador Central de Diaspar provê comunicação instantânea, inclusive com hologramas sólidos e interações a distância muito mais complexas que a ainda distante internet. Apesar de todas essas benesses, os habitantes de Diaspar são desencorajados a sair da cidade baseados num acordo de paz lendário com antigos inimigos chamados apenas de Invasores, que aceitaram não atacar a Terra desde que não voltassem a explorar o espaço. Contudo, Alvin quer conhecer o mundo e o universo que há fora de Diaspar.

Infelizmente se faz necessário um spoiler que acontece antes da metade do livro, quando o mundo parece bem estabelecido: A cidade de Lys é encontrada por Alvin vasculhando uma antiga estação de transporte nos subterrâneos de Diaspar. Na cidade, Alvin encontra Hilvar que se torna um grande amigo. Lys se mostra uma outra Utopia de harmonia com a natureza, cultivo de plantas e criação de animais e apesar de ainda lidarem com a morte, desenvolveram habilidades telepáticas. Ambas as cidades são extrapolações das ideologias da Guerra Fria, de um lado Diaspar se apresenta como um shopping center dos sonhos, um templo voltado ao prazer entediado de tanto consumo enquanto Lys é uma comunidade autogestionada de contado pacífico com a natureza. Ainda que também sejam isolacionistas e temerosos em relação aos invasores. Alvin atua, com sua curiosidade, no  rompimento dessa barreira contruí há milhões de anos.

A escrita de Clarke é bastante agradável, dando uma boa forma as suas ideias fantásticas que são o forte de sua obra. Além do mais é autor clássico em uma obra clássica da Ficção Científica que envelheceu bem e ainda merece atenção dos novos leitores. Recomendado!
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terça-feira, 1 de outubro de 2019

Resenha #104 - "Tempo Desconjuntado" (Philip K. Dick)

"Tempo Desconjuntado" (Time out joint, 1959) foi escrito por Philip K. Dick onde ele trabalha com a ideia borrar os limites entre o real e o irreal. A história acompanha Ragle Gumm, um veterano da 2GM de meia idade que vive numa pequena cidade nos anos 1950 com a irmã Margo, o marido Vic Nelson e o sobrinho. Ragle vive de forma acomodada, sem emprego fixo e sua única renda são as premiações semanais de um concurso de jornal onde é o grande campeão, acertando todas as respostas há cerca de dois anos. Raegle mesmo acostumado a fama gerada pelo concurso desconfia de que é o centro de tudo que o rodeia. Desde mensagens misteriosas em tiras de papel, a comunicações de rádio amador do seu sobrinho. A paranoia leva Ragle a duvidar de todos a sua volta.

A história conta com uma reviravolta que muda o cenário e surpreende bastante, mesmo que o cenário não tenha envelhecido bem, com exceção dos diálogos com delinquentes juvenis que simularam bem a nova realidade, me agradou bastante. Quanto a escrita, é direta e com sutis ironias características do autor e ele trabalha a ideia de paranoia até a revelação. A obra é uma edição recente da Suma, que publica obras de Philip K. Dick não tão conhecidas, já que os maiores clássicos foram publicados pela Aleph nos últimos anos. A Suma fez um trabalho de luxo com capa dura que dá muita vontade de ler e mesmo não sendo um dos clássicos, ainda é uma leitura relevante da coleção do autor.    
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terça-feira, 24 de setembro de 2019

Resenha #103 - Tempo Fechado (Bruce Sterling)

"Tempo Fechado" (Heavy Weather, 1994) é um livro de Ficção Científica escrito por Bruce Sterling, um dos criadores do movimento cyberpunk nos anos 1980. Na década seguinte, escreveu Tempo Fechado que ainda mostra um mundo cercado por alta tecnologia e baixa qualidade de vida, contudo o foco é no desastre climático causado pelo desenvolvimento desenfreado do capitalismo.

A história é contada na visão de Jane e Alex Unger, quando Jane sequestra o irmão de uma clínica de tratamento de um problema pulmonar terminal de Alex no México. Jane leva Alex até o Texas onde Jane vive junto a Trupe Intempestiva. Um grupo de cientistas e aventureiros que caçam tornados na região desértica do Texas e Oklahoma liderados por Jerry Mulcahey, um matemático e meteorologista que acredita na chegada de um furacão escala F-6. Tão poderoso, que está acima da escala Fujita, que vai de F-1 até F-5.

A leitura é bem fluída e mostra um livro que envelheceu bem como extrapolação do futuro pois a pauta climática já é uma realidade há, no mínimo, uma década. Também conservou alguma atualidade na sua linguagem, pela forma como os personagens hackeiam as coisas, "to hack" no original, "fuçar" na tradução, mais que a linguagem é a atitude cyberpunk que se mantém como nos livros clássicos mas agora abordando um novo cenário. 

Enquanto assistimos as notícias da Amazônia arder em chamas e vemos toda essa irresponsabilidade que os personagens apenas lamentam impotentes, acontecendo no nosso tempo. Na história, o evento que simboliza o estado catastrófico do clima é chamado de Tempo Fechado e acontece pouco depois de 2015, na visão de Sterling. Talvez não aconteça um evento que seja um marco para sinalizar tal catástrofe, mas sim um processo contínuo do capitalismo produzindo morte por lucro.  

A história é incomodamente parecida com o filme Twister, roteirizado por Michael Crichton. Uma trupe de aventureiros perseguindo um quase mítico tornado F-6 na região Texas e Oklahoma. Inclusive a cena da vaca voando estão em ambas as histórias, cena essa que trouxe muita atenção ao filme na época, lançado um ano depois do livro. Não encontrei nenhuma referência direta ao livro de Sterling, no filme. Fica o questionamento e a estranheza pela semelhança. O livro é recomendado pela ação que diverte bastante, pela extrapolação muito válida, pela atitude cyberpunk e pela boa escrita de Sterling.  
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terça-feira, 27 de agosto de 2019

Resenha #102 - "O Profanador" Philip K. Dick

"O Profanador" (The man who japed) de Philip K. Dick foi lançado em 1956. É uma obra do início da carreira do autor. Acompanhamos, na história, Allen Purcell o dono de uma agência de propaganda que trabalha para a Telemidia, o único órgão estatal de comunicações na ditadura da Reclamação Moral. Resultado de uma guerra devastadora iniciada em 1987. Esta ditadura religiosa e totalitária, é baseada numa reconstrução pós-guerra com uma vigilância no comportamento ao extremo.  

Purcell odeia esse mundo que o sufoca mas também almeja um cargo na Telemidia. Então recebe o convite para o cargo de Diretor Geral. Ao mesmo tempo Purcell tem certeza ser o responsável pelas profanações a estátua do Major Streiter, herói da Reclamação Moral. Contudo, Purcell não consegue se lembrar dos momentos em que expressou sua revolta como se estivesse adormecidos, ou então, cobertos pelo medo de ter sua vida nessa sociedade destruída.

O livro é uma leitura rápida e mostra o universo utópico-decadente sem muitas inovações, mesmo em 1956, em tempo foi uma primeira tentativa de de Dick de inserir seu humor característico numa novela. O resultado está longe de ser notável como em Ubik, mas ainda sim é um bom trabalho do autor, mesmo abaixo dos seus clássicos.
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terça-feira, 6 de agosto de 2019

Resenha #101 - A Redenção do Anjo Caído (Fábio Baptista)

"A Redenção do Anjo Caído" do Fábio Baptista foi lançado em e-book na Amazon em 2017 e em papel em no mesmo ano pela editora Cáligo. Li a versão em papel pois ainda sou o chato do livro de papel (e do blog escrito também) ainda mais com a capa para a edição de papel que é muito bonita, assim como toda a edição. O livro é uma fantasia que não tem medo de abordar a mitologia cristã, que para boa parte dos brasileiros não é mitologia mas sim a verdade absoluta, o que potencializa muitos atritos por manipular a fé de forma artística. Não satisfeito, Fábio também mexe com outro tema que desperta muitas paixões: a política, com muitas referências sutis como passos de elefante. Fábio se mostra destemido ao colocar a mão na merda e tirar ouro em forma de literatura.

Lúcifer, na história, também conhecido como a Estrela da Manhã, após milênios ocupando o trono das trevas concluí que nada pode fazer para vencer a guerra que declarou a Deus, pois este é onipotente, onipresente e onisciente. Baseado na premissa de que sua derrota é inevitável e decretada antes de começar, Lúcifer resolve entregar os pontos, literalmente desistir. Contudo, Deus não pretende entregar a redenção sem que Lúcifer tenha um arrependimento genuíno e condiciona a redenção a tarefa de que Lúcifer passe um tempo no mundo dos homens e faça o bem para os outros. Como seria de se esperar Lúcifer passa por "dificuldades", para ficar na superfície.

Avançar mais na história seria entregar parte da graça do livro, pois existe a mitologia que é de conhecimento relativamente comum e existem os momentos criados pelo autor e é justamente a expectativa de ver onde Fábio inventa e onde é mitologia. Temos vários momentos de ambos e a forma como o autor amarra e dá sentido a tudo a medida que a história muda radicalmente em várias partes.

A leitura é muito fluída, devido a habilidade do autor, e alterna momentos divertidos, principalmente se você rir com os deboches de Lúcifer. Alias, o carisma do personagem e um dos maiores atrativos do livro e é muito difícil não torcer por ele e por outros personagens. Os personagens secundários são muito críveis, desde a senhora que vende cachorro-quente que situa bem nossos pés no chão até os estoicos anjos e os cruéis demônios. No mais, a obra é um entretenimento de primeira qualidade, principalmente por não ser um entretenimento vazio, mas bem construído, amarrado e concluído com um final muito bom! Recomendado com urgência pois precisamos ler mais obras boas escritas no Brasil em Fantasia e Ficção Científica!
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terça-feira, 30 de julho de 2019

Resenha #100 - O Homem Demolido (Alfred Bester)

"O Homen Demolido" de Alfred Bester foi o primeiro vencedor do primeiro Prêmio Hugo (em 1953) e desde então tornou-se um clássico que influenciou vários autores como Philip K. Dick. Nesta obra temos uma perseguição policial frenética e inteligente, mas também uma antecipação do homem multifacetado dos tempos atuais. Na história, o futuro é tomado por telepatas chamados de Pexsen ou Psicodiafanistas. Graças ao trabalho de policiais telepatas há décadas ninguém é assassinado. Tudo começa quando Ben Reich, um rico empresário, concorrente de D'Courtney, planeja assassina-lo para acabar com a concorrência. Contudo Lincon Powell é um policial habilidoso que empreende uma caçada atrás de Reich, mas Reich também se preparou para lidar com policiais telepatas mas Reich não contava com uma testemunha: Barbara D'Coutrney, filha de Craye D'Coutrney vítima de Reich.

O livro tem apenas 200 páginas e com ritmo frenético, ágil e Bester consegue fazer com que algo relevante sempre esteja acontecendo, nada fica gratuito. A velocidade de comunicação dos telepatas também é bem escrita e um exercício de imaginação do futuro muito interessante e relevante, pois apesar de não existir telepatas no nosso presente, temos comunicação rápida e em tempo real influenciando diretamente as relações sociais. Contudo, o principal dessa obra é imaginar as várias camadas de personalidades emergindo e submergindo em conflito, dando profundidade aos personagens. O mundo criado por Bester influenciou bastante Philip K. Dick e as semelhanças para mim que já li bastante de PKD são bem aparentes: Telepatas (Pexsens/Precogs), homens atormentados e de identidade fraturada e ocupação avançada do Sistema Solar.

O livro não tenta pintar uma mudança drástica no futuro, nem para a utopia nem para distopia, tampouco com a tecnologia com a exceção dos computadores utilizando cartões perfurados. O resultado é um livro que envelhece muito bem, com uma leitura ágil e bem vinda.
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terça-feira, 16 de julho de 2019

Resenha #99 - Último Refúgio (J. M. Beraldo)

"Último Refúgio" de J. M. Beraldo é a sequência de "Império de Diamante", livro de fantasia brasileiro que levou o prêmio Argos de 2016 e foi muito merecido, pois trouxe algo diferente para a Fantasia escrita no Brasil, cheio de referências a África, desde o sistema de magias, passando pelos personagens negros e grandes impérios até a geografia do continente. Nessa sequência, contudo, o autor nos leva a um novo continente nesse mesmo universo em uma aventura com seu protagonista Rais Kasim. 

Kasim é em o "Último Refúgio" um refugiado da guerra travada em Myambe e trabalha como mercenário contratado pela Companhia mercantil de Último Refúgio, a maior cidade do continente de Panjekanaverat. Também temos Vema Thevar, uma onironauta e amante de Kasim vinda de uma família de refugiados de segunda geração. Ambos acabam sendo arrastados para uma conspiração que vira uma jornada pelos mistérios no continente. Kasim é encarregado de investigar um líder revoltoso que está organizando os trabalhadores do porto da cidade chamado Chidi, enquanto isso Vema é recrutada pelo mestre dos onironautas Nyx para criar um sonho mais amplo e detalhado jamais visto.

Temos um mundo totalmente diferente de Myambe, no lugar da seca, religiões fortes e do sólido Império de Diamante. Em Panjekanaverat há uma raça ancestral porém decadente (os Panjek) em uma cidade cosmopolita sustentada tecnologicamente por três grandes casas de arte: A arte da Carne, onde quirurgiões englobam a função de médicos e fazem manipulações no corpo com uma ética peculiar, ou seja, fazem cirurgias, implantes e até criam raças funcionais (como os makaras - bestas de carga que circulam cotidianamente na cidade); a Arte dos Planos, usa energia taumatúrgica para criar máquinas especiais que trazem suas versões de avanços tecnológicos que conhecemos da nossa vida moderna, mas podem criar coisas bizarras como um robô para transportar uma cabeça semiviva; e a Arte da Mente, são onironautas que navegam e moldam sonhos e removem pesadelos, explorando o limites da mente e as barreiras entre as dimensões. Os lideres dessas casas são panjeks chamados de maharashans mas estes dividem poder e influência com o prefeito da cidade, Vayk Varna que tece uma série de alianças políticas e comerciais para se manter no poder. Essas tecnologias e o ar cosmopolita da cidade mais a situação de imigrantes de Myambe (continente que já conhecemos) dá camadas adicionais de profundidade para a cidade expandindo o mundo de forma inteligente.

A leitura é bastante fluída e o autor continua contando uma historia consistente sem desvios desnecessários. Assim como no primeiro livro, temos várias partes do texto dedicadas a entender melhor este mundo novo, pois há um novo sistema de magias que em Panjekanaverat é mais complexo deixando Myambe com aspecto provincial em comparação. O autor optou por menos personagens principais, e por mais páginas para dar mais profundidade aos protagonistas e é aqui que Vema brilha na história assim como o continente que é um personagem em si. Com o fim da leitura, Panjekanaverat nos deixa saudades assim como Myambe me deixou. Agora, resta esperar o próximo livro e que ver se haverá um novo continente a ser explorado ou se teremos um retorno aos que já conhecemos. Que venha o terceiro livro!
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