terça-feira, 28 de agosto de 2018

Resenha #73 - O Espadachim de Carvão (Affonso Solano)

O Espadachim de Carvão de Affonso Solano, é uma aventura em um mundo de Fantasia de 2013. Uma leitura leve que busca ser principalmente divertido, mas ao mesmo tempo tem a mesma missão difícil de qualquer livro de Fantasia: criar um mundo novo que seja atraente para o leitor. O autor usa e abusa de referências da cultura pop para conectar o leitor com o mundo de Kurgala, onde se passa a história.

A história conta sobre Adapak, alternando duas fases de sua vida. Uma conta sobre sua infância como filho de "Enki’När" (um dos quadro deuses de Kurgala) aprendendo sobre a vida, recebendo ensinamentos de seu pai e seus mestres e cuidadores, Barutir e Telalec. A outra parte é como Adapak busca respostas sobre sua origem enquanto foge de misteriosos atacantes que repetem como zumbis a palavra "Ikibu". Em meio a sua busca para resolver esse mistério muita aventura por cidades barulhentas, navios piratas, romances em um mundo perigoso e mágico com um protagonista inocente e em fase de amadurecimento.

A obra tem dois destaques que chamam a atenção: primeiro são as raças imaginadas pelo autor. Cabe ao leitor decidir se elas são mal descritas ou se a descrição sucinta delas atiça a imaginação do leitor, mas elas são muito interessantes e estranhas e remetem a revelação final do livro. O outro destaque,é o fato de Adapak ser um leitor voraz da série de livros "Tamtul e Magano", uma das muitas referências a influência dos livros de outros livros de Fantasia, brincando com a ideia dos clichês e os assumindo para que a obra não se leve tão a sério. E isso torna acaba servindo como um aviso ao leitor de obras pesadas de Fantasia para que não olhem o livro pelo que ele não é, nem por isso cheio de méritos e diversão.

Recomendo como uma leitura rápida e despretensiosa.

Existe uma sequencia deste livro que pretendo ler e resenhar no blog.
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quarta-feira, 6 de junho de 2018

Resenha #72 - Dies Irae (Coletivo Tesla)

Hoje a resenha é da HQ brasileira Dies Irae de autora do Coletivo Tesla que produz quadrinhos independentes no RS e é formado por Frank Tartarus, Rafael Rodrigues, Adam Mariani, Thiago Danieli e Luciana Lain. Originalmente a série foi publicada no meio virtual em 2014 e em 2016 saiu a versão encadernada completa. A versão que adquiri foi em uma feirinha independente pelas mãos de Frank e do Adam.

Diferente dos livros que resenho, o visual da edição importa pois é através dele que absorvemos grande parte da história e aqui temos muito talento e capricho. A capa é em alto relevo e já percebemos tratar-se de uma história de conteúdo adulto. Para falar a verdade, conversando com os autores, anunciei que preferia uma história séria e sem final feliz e então Dies Irae foi colocada em minhas mãos.

A premissa é simples e ousada: Deuses de todas as culturas estão caindo mortos do céu e a história desenvolve a reação de pessoas comuns e de governos ao redor do mundo ao fenômeno. É instigante ver a tecnologia de um mundo tecnologicamente mais desenvolvido (parece se passar cerca de 20 anos no futuro) incapaz de explicar qualquer coisa e a abordagem filosófica fluir tanto nos traços e quanto nas caixas de texto. Um trabalho tão bom que deixa vontade de ler mais quando acaba. Muito recomendado. 
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segunda-feira, 28 de maio de 2018

Resenha #71 - O Incrível Congresso de Futurologia - Stanislaw Lem

O Incrível Congresso de Futurologia (1971), é uma Ficção Cientifica escrita pelo escritor polonês Stanislaw Lem, conhecido pela obra Solaris (já resenhada neste blog). Diferente do tom de mistério e solidão de Solaris, nesta obra Lem é extremamente irônico ao retratar a burrice da burocracia e a incapacidade de comunicação e compreensão entre as pessoas. 

A história segue Ljon Tichy, um estudioso que esta para participar do Congresso de Futurologia numa nação da América Central quando uma rebelião no país é deflagrada e Tichy acaba ferido e depois sendo congelado. Acordando mais de um século depois, nos anos 2080, Tichy se vê obrigado a lidar com um novo mundo, cheio de termos novos. Aqui temos uma dimensão da incapacidade de comunicar-se. O mundo tornou-se uma farmacocracia, onde todos se beneficiam do uso de substâncias químicas psíquicas para uma infinidade de usos: ler livros, aprender atividades, informar-se e entreter-se com ilusões sólidas. Contudo Tichy acha que alguma coisa está errada o que o motiva a escrever um relato e é nesta forma que a obra se apresenta. Não há capítulos e as únicas divisões são as partes datadas pelo próprio personagem em um diário, já que outras temos partes soltas de diálogos e grandes parágrafos de explicações.

Apesar da obra ser curta, a falta de divisões e o texto ser muito descritivo, impedem da obra fluir como poderia. Os parágrafos são densos, como já é estilo de Lem, e o peso nas descrições atrapalham a leitura. A obra tem um tom mais leve e satírico no início, com as piadas sobre a Guerra Fria, com as instituições e como elas rapidamente conseguem perder sentido, vão tornando-se densas entre o meio até a revelação final.

A obra tem uma adaptação cinematográfica baseada (Congresso Futurista - 2013), que traz personagens diferentes vivendo em um mundo parecido. O filme se favorece de uma historia mais dinâmica e mais dramática, divergindo da ironia em quase todo o filme. O mundo das drogas estão lá ainda que sem o peso das reflexões apuradas de Lem apresenta no livro. Ambas as obras estão recomendadas, mas principalmente ler o livro antes do filme.
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segunda-feira, 2 de abril de 2018

Resenha #70 - Kindred - Laços de Sangue

Kindred, Laços de Sangue é a primeira obra traduzida para o Brasil de Octávia Butler, primeira mulher negra a ser consagrada como escritora de Ficção Científica, e trouxe para o gênero o tema do racismo e do feminismo em suas histórias. A obra, escrita originalmente em 1979, chega com um imenso atraso (considerando, também, que a autora faleceu em 2006) mas também em um momento necessário no Brasil.

O tema da viagem no tempo, nas mãos de Octávia ganha uma dimensão social e histórica que da vida aos personagens. A história segue Dana, que ao completar 26 anos muda-se com seu marido, Kevin, para um novo apartamento em Baltimore. Então, é inexplicavelmente tragada no tempo e levada ao sul escravista dos Estados Unidos, algumas décadas antes da Guerra Civil. Dana descobre que sua aparição está ligada ao pequeno Rufus, filho do fazendeiro Tom, descendente direto de Dana. Quando Dana salva Rufus da morte suas vidas ficam atreladas e Dana obriga-se a viver fora de seu tempo para garantir a própria existência.

A obra é narrada em primeira pessoa pela protagonista, Dana, que não apenas serve como nossos olhos do presente contrastando com o passado, mas uma personagem que muda com a história e a sente na pele de maneiras horríveis. Rufus também se desenvolve na obra, mostra um homem da sua época tentando, as vezes ser diferente, outras mostrando o pior lado do ser humano.

A reconstrução histórica das dinâmicas sociais do período é brilhante. A tensão entre senhores e escravizados e entre os próprios escravizados estão lá com toda a força. A intensidade dos sofrimentos tornam a leitura muito impactante e até difícil de prosseguir, ao mesmo tempo que Octávia coloca tudo isso numa escrita que dispensa as formas prolixas e fala de forma contundente e direta, prendendo o leitor pelas mais de 400 páginas do livro. Obra mais que recomendada.
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terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Resenha #69 - Os três estigmas de Palmer Eldrich (Philip K. Dick)

"Os três estigmas de Palmer Eldrich" é um dos romances emblemáticos de Philip K. Dick em sua fase psicodélica, mas basta ler um dos livros para saber que PKD é bem mais que o mero lado recreativo da química mas sim uma porta de entrada para as reflexões filosóficas que permeiam toda sua obra. 

A estória se passa num futuro (2016, que já é passado para nós) onde a Terra está superaquecida e superpopulosa, onde os ricos podem desfrutar de um paraíso tropical na Antártida. A exploração espacial já rendeu diversas colônias espalhadas no sistema Solar, onde a vida é difícil e o recrutamento é compulsório. Uma da saídas dos colonos é o consumo de Can-D, uma droga alucinógena que "traduz" ambientes em miniatura, onde os usuários vivem uma vida de consumo no melhor estilo "American Way of Life" no corpo de Barbie de Pat Insolente. Esse mercado é explorado pelo traficante Leo Bulero que vende a droga para os colonos sob vistas grossas da ONU. A estória começa com a chegada de Palmer Eldrich e uma nova droga que ameaça o império de Bulero, a Chew-Z. Bulero recorre a seu funcionário, Barney Mayerson, um precog* que trabalha como consultor de moda para os ambientes em miniatura, utilizados pelos usuários de Can-D. 

Ao longo da estória acompanhamos duas linhas narrativas: a primeira é a de Barney Mayerson vendo sua carreira profissional, pela qual deixou a esposa, ruir em meio a nova concorrência com a chegada de Eldrich. Dick consegue dar sensibilidade ao drama de Barney em meio a uma trama de intrigas enquanto o personagem, aparentemente bem estabelecido, busca seu lugar no mundo. A outra linha narrativa é o embate entre Leo Bulero com Eldrich, onde vemos dois tipos de "vilão", um o gangster tradicional, ao qual é integrado a sociedade e outro, na forma de Eldrich, um mal alienigena e estranho. Dick retrata em Eldrich um tipo de deus cruel ou, ao menos, muito distante do deus cristão de amor ou severidade. Este poder das drogas, seja a fuga pela Can-D ou a experiência transcendental da Chew-Z, se conecta com seu uso religioso mesmo que seus usuários não busquem ativamente com este sentido. Isso aparece na forma que se usa a droga Can-D: masca-se o alucinógeno observando dois bonecos do tipo Barbie e Ken, que se tornam avatares para a viagem a um mundo consumista que sequer existe mais na Terra. Algo relacionável a alucinação coletiva digital que Gibson se referiria, décadas depois. Isso acontece, pois, o autor trabalha muito com a intuição ao construir o seu mundo. O calor insuportável da Terra está mais ligado ao medo/fuga/covardia da sociedade que com o Aquecimento Global. Tudo isso em meio a constantes questionamentos do que é realidade e ironias escrachadas como a da "terapia de evolução", nas quais os habitantes da Terra pagam um bom dinheiro para serem melhores e capazes. Algo mais ligado ao status do que realmente uma evolução num sentido mais profundo.

O constante questionamento do que é a realidade, uma marca do autor, aparece com toda a força nessa estória. Personagens que se descobrem fantasmas de outras realidades possíveis, avatares e noções de realidade que brincam com a barreira entre o sagrado e o profano conduzem as jornadas dos personagens, principalmente a de Mayerson. A experiência de Can-D, algo intuitivamente parecido com a internet, é elevada com a Chew-Z. O uso dessa droga traz a experiência de ser parte de algo maior ou, em outras palavras, de ser a ilusão na mente de outro. Recomendo como leitura para iniciados na obra do autor. Para quem tem a mente fechada em relação ao uso de drogas eu não recomendo o leitor para o livro.

*Precogs são paranormais com a habilidade de ver o futuro. Eles enxergam todas as possibilidades de futuro e identificam as que tem maior probabilidade de acontecer. Eles são bastante recorrentes nas estórias de Philip K. Dick, apesar de serem mais lembrados no conto "Relatório de Minorias", que rendeu o filme Minority Report.
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terça-feira, 14 de novembro de 2017

Resenha #68 - O Alienado (Cirilo S. Lemos)

A meta de voltar a ler/resenhar mais fica bem mais fácil lendo livros como O Alienado (2012), romance de Cirilo S. Lemos. É uma leitura para quem não tem medo da sensação de pisar em falsoVejo nela tudo de positivo que a literatura de Ficção Científica brasileira pode oferecer de bom ao leitor. Temos uma obra com uma série de referências que foram tão bem digeridas e devolvidas ao leitor que confere uma aura de clássico. Essa ousadia felizmente foi aliada a qualidade resultando num grande livro que só não é mais falado, certamente por ser brasileiro.

A forma conta mais aqui do que a estória. O romance se apresenta com fragmentos de momentos diferentes da vida do protagonista com nome de filósofo, Cosmo Kant. Temos, no seu presente, um abalo após ver um sujeito sair do seu espelho enquanto é perseguido pelos Metafilósofos uma espécie de ceita que controla a distópica Cidade-centro com mãos de ferro e máscaras de couro. Em outros fragmentos, há momentos da infância de Cosmo e trechos de um romance que ele chegou a rabiscar, além de criativas passagens em quadrinhos. A cada trecho, cabe ao leitor montar o quebra-cabeças. Temos o efeito constante de relembrar das partes anteriores, que recebem novos sentidos a medida que a trama se (des)enrola. Temos um excelente uso das referências, a personagem Maria Cecília é um bom exemplo disso. Ela se parece com as mulheres das histórias de Philip K. Dick (manipuladoras, soando como a voz da consciência) e a forma como ela se encaixa na estória eleva o uso de um arquétipo manjado de personagem.

Vale apontar que, para uma estória complexa e não-linear (que pode assustar o leitor casual) não temos aqui o pedantismo do infodump (contextualizações excessivas). Temos o essencial para entendermos os elementos distópicos, a troca de identidades e o questionamento da realidade. Este último é um tema recorrente no meu autor favorito, Philip K. Dick e aqui vemos o mesmo tema numa forma própria. Foi uma experiência muito boa ler tudo isso em nossa língua (sendo mais específico, em uma obra não-traduzida) e com nosso modo de falar. Isso descomplica o que não precisa ser complicado e deixa o caminho livre para mergulhar nesse labirinto bem construído. Quando ao final, temos as questões resolvidas e deixa um bom impacto após a leitura, algo como: "Cirilo, seu fdp!".
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terça-feira, 31 de outubro de 2017

Resenha #67 - Anacrônicos (Luiz Bras)

Um livro é especial quando você o recebe de presente ou quando ecoam na sua mente após a leitura. "Anacrônicos" é especial para mim pelos dois motivos. A novela de Ficção Científica brasileira, foi lançada este ano de forma independente por Luiz Bras (pseudônimo de Nelson de Oliveira) que é encontrado nas redes pelo vulgo Paisagens Personas

Em primeiro lugar, Anacrônicos é extremamente bem escrito. Passa um desconforto pela forma narrativa que usa, como se você relembrasse momentos vividos contando em sua própria cabeça. Essa distorção na percepção do tempo acompanha os personagens, um grupo de jovens, que tentam lidar com a aparição de mortos-vivos (que não são zumbis) mas seres sintéticos "de um tipo de borracha industrial" extraídos das lembranças dos entes mais queridos que passam a ocupar os cômodos das casas e repetem ações das mais triviais diária e inexoravelmente. O foco é na dimensão íntima dos personagens, conseguindo abarcar o sentimento de caos no mundo todo. Tudo isso abarcando ironias, dores e desespero das pessoas que tentam levar suas vidas meio ao cotidiano e o caos que toma conta. A estória se passa num futuro próximo, quando todos nós estaremos um pouco mais velhos, se vivos. Temos uma aula de como situar uma estória no futuro sem forçar, sem infodump. Para uma sociedade que vive fugindo do seu passado, cansada de carregar o peso da própria bagagem, e o revive de forma cada vez mais ordinária, o livro é muito pertinente.

A forma do texto é curta e reflexiva, seria um erro chamar de prolixo pois ele tende a ser desconfortável (se você espera uma narrativa linear padrão). Vejo contundência e um potencial para quem puder refletir sobre si mesmo e o passado. Enfim, um livro curto que desafia qualquer busca pelo consumo rápido já é uma ironia em si. Pontos para o autor!

P.S.: O autor mantém um blog com resenhas de livros de ficção científica brasileira, que está se tornando um verdadeiro acervo de impressões do que é produzido no Brasil! Vale a leitura. https://ficcaocientificabrasileira.wordpress.com/
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quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Resenha #66 - O Feitiçeiro de Terramar (Ursula K. Le Guin)

Olá! Retorno para resenhar outro livro, e como sempre procuro fazer, alternando entre livros de estilos diferentes dentro do que gosto de ler. Desta vez, saindo do clássico cyberpunk para a Fantasia. Contudo antes de encarar um tijolão de fantasia clássico optei por uma breve mas profunda viagem que Ursula Le Guin traz em O Feiticeiro de Terramar. Diferente das discussões densas de Os Despossuídos ou A Mão Esquerda da Escuridão, temos um direcionamento para um público mais jovem sem perder a jornada de descoberta do protagonista. 

A estória conta sobre Gavião, ou Ged, um grande mago de Terramar, antes de ser um grande mago. Gavião aprende desde muito novo as artes mágicas porém se torna rapidamente arrogante, rancoroso e impulsivo até que se torna vítima de um grande erro que o obriga a partir numa jornada que o leva a vários cantos desse mundo. Terramar é tomada por ilhas, onde vemos um mundo ricamente criado pela autora que nos dá olhos de viajante enquanto acompanhamos Ged. Essa riqueza nos tira das dicotomias manjadas e abre horizontes como um marinheiro pelo mar desconhecido. A jornada de Ged pelo autoconhecimento é a formação de seu caráter, ao qual acompanhamos minuciosamente sua transformação, desde a infância até o mago clássico, comumente apresentado já em sua melhor forma.

A relação da autora com a palavra (para além do obvio, por ser uma escritora) aparece na importância que ela tem para o mago. Afinal é com ela que ele conjura feitiços. É com ela também que se dá nome as coisas e as pessoas, o meio para o conhecimento, a cultura dos povos que habitam esse mundo e sem ela o mago é impotente. Algumas palavras passam pouco percebidas na obra, são as pequenas subversões aos clássicos que tornam a obra muito relevante, como a cor de Ged e dos violentos invasores do império Karg. O que mostra que um livro para jovens não significa ser raso ou simplificado. Contudo, o fato da estória ser curta e centrada no mago Gavião, deixa os demais personagens com pouco espaço e evoluírem. Há pouco espaço para subtramas, ainda que o encontro com um dragão rendesse um conto isoladamente. O mapa e o posfacio são materiais auxiliares preciosos que vieram nesta edição. A própria autora comenta a importância deles e visualizar no mapa nos submerge neste mundo e num livro que não chega a 200 páginas ganha ainda mais importância. Vale a leitura para ficar longe da fantasia batida das batalhas e guerras e próximo da magia no seu estado mais bonito.
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domingo, 15 de outubro de 2017

Resenha #65 - Reflexos do Futuro (Bruce Sterling - Org.)

Olá leitores, onde quer que estejam após minha longa ausência, estou de volta tentando retomar o blog. Fiquei sem postar pois não estava conseguindo concluir leituras para resenhar. Isso ocorreu por diversos motivos desinteressantes para vocês (trabalho + preguiça), pois nenhum está ligado a Ficção Científica ou Fantasia. Enfim, vou retomar os trabalhos, pois tenho planos (mediocremente audaciosos) de retomar o ritmo de leituras a um minimo para voltar a postar regularmente. Para este retorno, nada melhor que um clássico do meu subgênero preferido, o Cyberpunk.
O livro é "Reflexos do Futuro", coletânea organizada por Bruce Sterling. É a única tradução conhecida para a língua de Camões para "Mirroshades", a coletânea Cyberpunk por excelência. Nela, Bruce Sterling começa com uma introdução que não apenas introduz aos 12 contos mas ao Cyberpunk como movimento cultural, na qual chamava-se, no seu início, apenas de "O Movimento".
Pretendo abordar conto a conto, mas antes falar da obra em geral. A tradução é muito estranha, não pela tradução em português-PT, mas pela constante tradução de coisas intraduzíveis que poderiam ser mantidas em inglês. Isso atrapalha a leitura de certos contos, pois há jogos linguísticos, gírias e referências a cultura pop que passam batidas e que fazem parte da forma de escrever dos cyberpunks. Pulando-se a esses detalhes a leitura compensa, pois as histórias valem a pena, todas elas. Vamos tecer um breve comentário conto a conto.

O contínuo de Gernsback (William Gibson): Este conto já foi resenhado, isoladamente no blog. Confira aqui.

Olhos de Serpente - Snake Eyes (Tom Maddox): George Jordan é um veterano de guerra estadunidense num futuro próximo indefinido (que poderia ser muito bem 2017), que teve um aparato militar implantado no cérebro chamado Serpente. Então, o governo o abandonou e George recorre ao submundo para remover o dispositivo, o que o leva a uma companhia pirata sediada na órbita terrestre. A dicotomia entre o fetichismo militar e a repulsa pelo aparelho implantado tornam o conto muito fiel ao que se imagina do cyberpunk.

A pecadora - Rock on (Pat Cadigan): A única mulher participante da coletânea nos traz um aventura frenética de uma pecadora (sinner, numa analogia a sintetizador) talvez rápida demais talvez por ser uma introdução do seu romance futuro, "Sinners". É interessante ver a relação da música com o cyberpunk neste conto e o tom escrachado e sensual (sensorial e sexual) da narrativa. Muito bom.

Contos de Houdini (Rudy Hucker): Não há nada nessa estória que remeta aos estereótipos do cyberpunk e acredito que o autor do conto sequer os buscou, contudo esta curta estória resume a vida agitada do futuro próximo (o nosso presente?), cercada pela câmera do Realitty Show da vida real. Posso estar falando besterias mas esse "slice of life" de Houdini dispensou demais alegorias.

400 rapazes (Marc Lidlaw): Em um futuro com uma sociedade destruída acompanhamos um menino mudo, membro de uma gangue, entre muitas, onde elas dominam o que sobrou da civilização. A narrativa constrói rapidamente sobre neologismos, gírias (tradução atrapalhou muito nesse ponto) e um ambiente underground. Esse ambiente undergound é a característica que mais remete ao cyberpunk como imaginamos. 

Solstício (James Patrick Kelly): Tony Cage fez, muito jovem, fortuna na industria de drogas recreativas e decidiu gastar uma parte dessa fortuna em um clone feminino seu (Wynne) e, desde então, passou metade de cada ano congelado almejando estar adulto quando ela estivesse adulta também. O conto desenrola a relação de Tony e Wynne e, do passado de Tony que o fez gerar sua fortuna e por uma obsessão do personagem pelo Stonerange. O personagem não tem carisma, o que prejudica o envolvimento com a estória (enquanto entretenimento), mas é competente em passar toda a solidão de Tony e sua relação doentia é desconfortável de se ler, ponto para o autor. 

Petra (Greg Bear): Petra é um conto bizarro, que se lido hoje seria facilmente classificável como "New Weird", e que não tem nada do que se espera quando se fala de cyberpunk. Trata-se de um mundo onde Gárgolas de pedra e humanos convivem em tensão e preconceito. Há poucas mulheres, que são freiras, e há híbridos de gárgolas com humanos, que são tratados como a escória dessa sociedade. O dilema de ser metade não-humano é totalmente pertinente ao cyberpunk mas numa roupagem gótica, uma das partes que formaram o cyberpunk. O conto é repleto de reflexões sobre o mundo e a busca por ídolos mas vai decepcionar aqueles que esperam implantes neurais e samurais urbanos. De alguma forma, isso vale para quase todos os contos do livro. 

Até que as vozes humanas acordem (Lewis Shirner): Não sei explicar o quão malabarismo da minha parte seria descrever este conto como um biopunk, por mostrar experiências genéticas bizarras ou que tenha a qualidade de ter um mistério razoável na estória, mas a estória parece deslocada, até em meio as estórias que se distanciam da estética conhecida do cyberpunk. Ainda sim, está longe de ser um conto ruim.

Zonalivre - Freezone (Jon Shirley): É o maior texto do livro. Aqui a estória se passa numa cidade ancorada na costa da África onde a unica lei é a lei do capitalismo mais selvagem. Nela acompanhamos a estória de Rickenharp, líder de uma banda medíocre que busca estar sempre fora da moda. Retrata bem a sensação de deslocamento do sujeito na cidade mas a noveleta peca na construção de uma estória envolvente. O protagonista foge loucamente, mas parece que se trata apenas movido por sua paranoia. Fica valendo mais pelo turismo pela cidade cyberpunk como imaginamos (e mais interessante) bem descrita, apesar de algum infodump no início, e personagens que não contribuem para a estória se tornar interessante.  

Vidas de pedra - Stones Live (Paul di Fillipo): Stone vive na "Confusão", local que resume toda a baixa qualidade de vida do futuro cyberpunk. O autor passa toda o imediatismo de uma vida quase animal e sem sentido, que não o da própria sobrevivência. Até que um dia Stone recebe uma proposta de emprego da misteriosa empresária e passa a ver o mundo com novos olhos e aprende a raciocinar. O conto mostra uma transformação muito interessante em Stone que culmina um bom final.

Estrela Vermelha, Órbita de inverno (Bruce Sterling e William Gibson): O conto se passa num futuro onde a URSS venceu a corrida espacial colocando o primeiro homem em Marte, contudo esses dias gloriosos já são passado. A estação espacial Soyus está prestes a ser desativada pelo politburo mas o Coronel Korolev, herói celebre por ser o primeiro homem em Marte e comandante da estação espacial, não quer encerrar sua missão de décadas e dá início a um motim. O que chama a atenção no conto é a perspectiva de abandono da corrida espacial e de declínio da URSS antes de sua queda. Contudo, a realidade se revelou mais rápida que qualquer um poderia imaginar: A URSS caiu em 1991, poucos anos depois da escrita do conto (metade dos anos 1980). Outra coisa curiosa, são os EUA descritos como uma nação em decadência também, o que me faz imaginar que este conto é do mesmo universo que o outro conto de Sterling (Vemos as coisas de modo diferente). Quanto a forma como os soviéticos são retratados, segue a cartilha sem muita imaginação: O protagonista soviético que se amotina (Coronel Korolev) é um individuo honrado e desiludido com o governo, o que choca de frente com a burocracia estatal que o reprime. Os estadunidenses, em sua rápida aparição, são oportunistas e aventureiros. Esse aspecto reduz a estória a uma versão FC dos livros de Tom Clancy (principalmente "A Caçada ao Outubro Vermelho") e eu esperava mais da dupla William Gibson e Bruce Sterling num conto juntos, mas está longe de ser um conto ruim, pelo contrário, vale a leitura e muito.    

Mozart de Óculos Espelhados (Bruce Sterling e Lewis Shirner): Conto divertidíssimo. Dois viajantes do tempo retornam ao passado onde encontram Mozart jovem e o apresentam a própria música antes de tê-las composto. Resultado: Mozart, não se interessa mais em compor e quer apenas fazer sucesso no nosso tempo com versões sintetizadas de suas próprias músicas. Nenhum viajante do tempo demonstra qualquer senso de responsabilidade com a alteração da história e a mudança de fatos parece inalterar o lugar de onde os viajantes vem, o "Mundo Real". O conto conversa, usando o humor, com a a fluidez da pós-modernidade. Há colagens de diversos tempos da história, de Maria Antonieta lendo Vouge até um General de Genghis Khan, como mercenário numa Harley. A falta de perspectiva com o futuro que os habitantes desse passado é um ponto interessante no conto, uma vez que todos sabem como seriam os eventos, como a Revolução Francesa, e que aquilo nunca irá acontecer da mesma forma.

Extra: Esta obra foi resenhada em vídeo no canal Terra Incógnita, do Fábio Fernandes, que fez uma verdadeira aula sobre Cyberpunk.
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terça-feira, 16 de maio de 2017

Resenha #64 - Pretérito Perfeito (Gustavo Araújo)

Pensei dua vezes antes de resenhar "Pretérito Imperfeito" neste blog, por ser dedicado exclusivamente a Ficção Científica e a Fantasia e não se tratar de uma obra que se encaixaria imediatamente no que convencionamos chamar de "Fantasia" ainda que o livro não tenha tal pretensão. O fantástico não é exclusividade de nerd e achei melhor expandir os horizontes e mostrar o fantástico onde quer que ele esteja. Eis então a resenha de "Pretérito Perfeito", romance nacional escrito por Gustavo Araújo e publicado pela editora Caligo.

Meu exemplar foi um presente da Maria Santino (que por sinal escreve muito bem também) e uma surpresa maravilhosa. Isso, por dois motivos: O primeiro, já sabia da qualidade do autor pelos contos que publica nos desafios literários do blog Entre Contos (dos quais participo há mais de um ano) e, o segundo, por haver uma boa parte dedicada a escrita epistolar. Pretérito Imperfeito atendeu minhas expectativas. Divagações a parte, vamos a estória.

Na estória acompanhamos Toninho, um menino tímido e em conflito com o pai, Seu Pedro. Ele gosta de observar pássaros e tem um refúgio na floresta nos arredores da fictícia cidade de Porto Esperança, no Paraná. Nesse refúgio ele acaba encontrando Cecília: Uma menina inteligente e que gosta de escrever. Ela também busca abrigo por conta de seu pai que está envolvido em atividades misteriosas e que ela mesmo não compreende. Os encontros entre Toninho e Cecilia, são permeados por cartas de Cecilia a sua amiga Carol e garantem um aprofundamento da personagem, há uma referência assumida a Anne Frank. A relação de Toninho com seu Pai é bem desenvolvida a medida que a estória dele também é contada.

O pano de fundo acontece em dois tempos, nos anos 1930, durante a Intentona Comunista e os anos 1960, e durante a Ditadura Civil-militar de 1964. O contexto histórico não sufoca o drama dos personagens mas sim cumpre a função trazer a dureza daqueles tempos com a doçura da infância. Elementos que Gustavo traz de forma intensa através dos seus personagens. Difícil acertar a mão com este tipo de estória sem soar piegas ou apelativo, contudo este livro fez sérias rachaduras no meu coração de pedra. A qualidade da escrita é inegável. Gustavo consegue fazer cenas simples, cheias de significado e emoção. Nessa obra acredito que encontramos Gustavo no melhor momento. Digo isso pois o autor é um excelente contista, mas muito melhor romancista.

Difícil falar mais correr o risco de estragar a experiência da leitura, pois a minha introdução a resenha já adianta que existe um elemento do fantástico na estória e o os textos introdutórios também não adiantam muita coisa. Contudo, o livro não é depende das reviravoltas pois tem uma narrativa muito consistente e envolvente para quem se deixar levar. Acredito que a única coisa que pode atrapalhar a apreciação da obra é esperar dela algo que ela não é. Vale ler de mente aberta, ainda mais para quem tentar comparar com as obras que costumo resenhar aqui. Enfim, o livro está mais que recomendado.

Para uma resenha, com spoilers e muito mais qualificada que a minha recomendo a de Eduardo Selga. https://entrecontos.com/2015/10/02/o-menino-que-queria-lacar-a-lua-resenha-de-preterito-imperfeito-eduardo-selga/
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terça-feira, 9 de maio de 2017

Resenha #63 - Jogo Terminal (Floro Freitas de Andrade)

"Jogo Terminal" é uma Ficção Científica Brasileira, escrita por Floro Freitas de Andrade publicada em 1988 pela editora Melhoramentos. A arte da capa e o cenário da estória sugerem um cyberpunk, porém nem tudo que tem chips é cyberpunk.

A Estória se passa em um Brasil que a séculos não existe mais. Os territórios e a vida social e politica que conhecemos foi alterada. Tudo gira entorno de uma inteligência artificial que governa o mundo, chamada M-Max. Os humanos são apenas tolerados e utilizados para estudos. Roval, o protagonista da estória é um deles. Ele  é um escritor e como pessoa sensível (é o que se espera de escritores) acaba sendo um objeto da atenção de M-Max, que sabemos ser uma máquina que almeja sentir. A estória se passa praticamente toda dentro do "ovo quadrado", a cabine onde Roval vive confinado. Tão preso que não se tem ideia de como é a vida fora dali.

Somos conduzidos, durante a narrativa, somente pelos pensamentos de Roval. Infelizmente intercalando da primeira para terceira, sem aviso e sem motivo aparente. Isso pode ser uma questão de estilo da escrita, mas acredito que aqui atrapalhou a imersão na estória. Acompanhamos a rebeldia contra a máquina (o não-humano) e contra o que já fomos um dia, o que confere um ar de pessimismo a obra, característico das distopias.

O autor faz muitas referências ao momento final da ditadura no Brasil, que permeia o momento da obra no final dos anos 1980. A escolha da ocupação de Roval (escritor) acabou tornando a trama frágil e com pouco proposito. Temos muitos insights de Roval: alguns interessantes e outros maçantes mas tudo dentro de um desenrolar lento e isso é muito ruim para um livro de 125 páginas. A princípio, esperamos um duelo com uma inteligência artificial superior, mas M-Max acaba ficando escanteado da estória e a trama não se desenvolve até o momento do fatídico encontro entre Roval e M-Max.

A trama para o tempo todo para descrições das estórias que Roval escreve. Elas são, forma de enxertos na narrativa contemplativa de Roval. Nesses enxertos, Roval desenvolve personagens melhor que o próprio Roval é desenvolvido como tal. Entre eles: Robledo, presidente corrupto do Brasil; Gerrard, exilado da mesma ditadura na França; José, um homem cego que é traído pela mulher e Hans, um cientista que faz uma descoberta incrível com sua pesquisa em vaga-lumes. As páginas finais dão conta de amarrar a es estórias de Roval entre si, e com a estória de Roval e M-Max, mas tudo isso a custa de um desenvolvimento lento e que apenas flertou com a Ficção Científica. Tanto que capa do livro menciona ser uma "fábula sobre a liberdade". Esperava que fosse exagero de um editor desaviado pois, a fábula tende a passar a mensagem em detrimento da estória mas infelizmente é o que acontece nesta obra.

P.S.: Uma curiosidade sobre esta obra é que não consegui nenhuma informação sobre o autor ou de outra obra escrita por ele. Talvez fosse um pseudônimo. Se você souber de algo, comente no blog.
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terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Resenha #62 - Estação Perdido (China Mieville)

Estação Perdido é uma das obras mais conhecidas de China Mieville e a primeira da trilogia Bas-Lag, que ainda tem "The Scar" e "Iron Council", que ainda não foram lançadas no Brasil. Ela é um dos marcos do chamado "New Weird", subgênero da literatura fantástica que busca causar estranhamento e os mundos de China Mieville exatamente assim.

Estação Perdido, em especifico, é uma Fantasia Urbana passada na cidade fictícia de Nova Crobuzon. A estória começa com Yagahrek, um membro da raça Garuda, que contrata o cientista Isaac Grimnebulin para construir invento que possa fazê-lo voar novamente. Há Lin, a namorada Kephri de Isaac, que mantem um romance indiscreto. As coisas começam a dar errado quando um dos experimentos e Isaac foge do controle, ameaçando toda a cidade de Nova Crobuzon. Esta, em verdade, é a protagonista da estória.

Mieville conduz o leitor a uma verdadeira exploração sensorial, antropológica e social pela cidade. É sensorial porque é possível sentir cada tipo diferente de fedor que ela exala, influência do Steampunk; Antropológica, pois existe uma coexistência tensa entre as diversas raças e suas culturas perpassando as relações entre os personagens. Além dos humanos, existem Garudas [homens-pássaros], Keprhis [uma raça de insetos onde apenas as mulheres são antropomórficas e inteligentes], Vodyanois [especie de homens-sapo], entre outros. Todos eles foram tirados de diversas culturas, como o deus egípcio Keprhi, porém nada foi aproveitado de sua mitologia; e é social devida as relações sociais repressivas dos mandantes de Nova Crobuzon, que não poupa os cidadãos condenados a terrível punição de serem "Refeitos", ou seja, passar por transformações mágicas medonhas como castigo ou para se tornarem armas ciborgues do governo.

Neste aspecto, a influência política de esquerda do autor se faz presente, mas não chega a ser invasiva. Torna-se muito perceptivo apenas aqueles que procurarem ativamente por elas, portanto não se trata de uma excepcionalidade. Nenhum autor deixa suas posições na gaveta quando resolve escrever um romance. A crítica social é latente e considero muito bem vinda, para pensar nossas cidades e nossa sociedade, mesmo se tratando de um mundo de fantasia.

O destaque desta obra, contudo vai para a cidade de Nova Crobuzon, como personagem. Quem conclui a leitura de Estação Perdido, certamente ficará com a impressão de ter viajado para uma cidade, conhecido seus moradores, ruas e vivido alguns de seus dramas. É muito mais do que viagens assépticas, cheias de selfies em monumentos que se faz presencialmente hoje em dia, não é verdade?!
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