segunda-feira, 20 de junho de 2022

Resenha #240 Floresta é o nome do mundo (Úrsula Le Guin)


"Floresta é o nome do mundo" da Úrsula Le Guin é o terceiro livro do Ciclo Hainnish que chega ao Brasil em Português-BR, já havia sido traduzido em Portugal pela Europa-América. Foi uma excelente notícia pois estava difícil imaginar, que a Editora Aleph iria voltar a publicá-la mesmo já tendo publicado "A Mão Esquerda da Escuridão" e "Os Despossuídos".

Acompanhamos o encontro civilizacional dos Humanos da Terra com os nativos de Athshe. Distante 27 anos da Terra, os colonos da Terra impõe uma dominação brutal, ao modo europeu com os nativos indígenas. Da intenção para extrativismo, ao uso de trabalho escravo, os athesheanos não conhecem o uso da violência para aqueles que reconhecem como humanos (ou yumanos, na língua deles) enquanto que os colonos reduzem a animais, chamando-os de "creechies" - de criatura.

Apenas Raj Lyubov demonstra interesse em um intercâmbio cultural com os nativos. Dessa forma conhece Selver que após ter sua esposa estuprada e morta por Don Davidson, o típico brucutu que tem prazer na violência e mostra ao longo do livro como é desprezível. São esses os três narradores que intercalam a obra. Selver tem um papel crucial pois sua vivência o coloca como líder de uma revolta que pode por em risco a colônia yumana e nem uma comissão de emissários de outros planetas parece ser capaz de frear essa onda de violência que se anuncia.

Os hainianos, são a raça originária dos povos retratados nas obras de Le Guin, inclusive os humanos da Terra, porém essa civilização perdeu contato com suas colônias e elas se esqueceram umas das outras, de forma que todos são humanos. Em "Floresta é o nome do mundo" estamos no início da criação da Liga dos Mundos, com base na criação do anísvel, uma máquina capaz de comunicação interplanetária instantânea. Contudo, nem mesmo a jovem Liga pode evitar o confronto que se anuncia. Chama a atenção a relação dos athesehanos com os sonhos que os colocariam como um dos seres mais importantes para a Liga dos Mundos.

De volta a obra, Úrsula foi muito competente em colocar os dilemas ambientais, do colonialismo, ecologia em uma obra tão maravilhosa como triste, como de fato foi a história do colonialismo europeu, mas que pelo seu caráter ficcional, infelizmente envelheceu bem, permanecendo atual, pois uma vez que aprendemos algo, não podemos mais voltar atrás. 
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segunda-feira, 13 de junho de 2022

Resenha #239 - Diário Simulado (Delson Neto)


"Diário Simulado" de Delson Neto foi a minha primeira aquisição de livro exclusivamente digital, uma vez que a Plutão Livros tem trabalhado apenas neste formato. Um marco pessoal pois, desde que adquiri meu leitor Kindle, li apenas livros gratuitos e pelo sistema de empréstimo Kindle Unlimited. Como não poderia deixar de ser, essa aquisição foi um cyberpunk brasileiro. Subgênero que sempre estou catando algo para ler e não me decepcionei aqui.

Acompanhamos Shura, que vive em Nova Avalon, num futuro indeterminado. Após cair no fogo cruzado, durante um atentado terrorista, ela se vê no meio do conflito. Recrutada tanto pelo departamento de polícia quanto pelos neodruidas. Shura é uma personagem muito bem construída, antes de mais nada, pelas suas reflexões em forma de diário antes de cada capítulo. Durante a história, Shura se mostra impulsiva, reprimindo emoções em meio a vida atribulada. Nenhum de seus familiares de sangue, a ajuda, e ela encontra esteio emocional apenas em Violet, sua namorada, que serve de contraponto para sua impulsividade, que aflora quando as duas estão longe uma da outra. Já em Trisha, sua melhor amiga, a apoia em tudo, ainda que essa amizade não tenha sido tanto posta a prova.

Shura vive no limiar do real em um mundo tomado por simulações, sendo que para os neodruidas, ela é imposta como forma de opressão, o que dá ares de Philip K. Dick a obra. Contudo, não temos uma escrita prolixa sobre o mundo das simulações, mas boas reflexões que entranham-se com muita coesão no mundo futurista. Acredito que acima de tudo temos uma boa história em um livro bom tanto para novatos quanto veteranos na FC.
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segunda-feira, 6 de junho de 2022

Resenha #238 - A quinta dimensão (Clare Winger Harris)


"A quinta dimensão" de Clare Winger Harris é uma das histórias da autora que surgiu nas antigas revistas pulp dos anos 1920 nos Estados Unidos e que está sendo celebrada pela editora Cyberus com vários lançamentos de contos na Amazon. Este é um dos contos que foram lançados e o segundo da autora resenhado aqui.

"A quinta dimensão" é um conto curto onde acompanhamos Ellen e John, um típico casal estadunidense conversando no café da manhã. Ellen tenta convencer o marido de que tudo que acontece ao seu redor é uma de muitas repetições e tenta provar a sua teoria. John não dá muita atenção até Ellen presenciar um acidente trágico na vizinhança e tentar convencer de que algo terrível pode acontecer com ele. Tudo é muito simples nesse conto, as situações e os acontecimentos, sendo a parte complexa a teoria que Ellen usa para explicar o tempo cíclico, que seria algo que me lembra a visão do cosmo pela civilização Maia. Algo que, a própria Ellen entende, bate frontalmente com a ideia de progresso. Tive um gostinho das loucuras de Philip K. Dick mas num estilo mais contido da autora.
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segunda-feira, 30 de maio de 2022

Resenha #237 - O Exército de Mutantes, Perry Rhodan 6 (W. W. Shols)


[As resenhas do blogue não costumam ter spoilers, mas para esta série não teremos esta preocupação. Pois ela será escrita pensando em trocar ideia com os leitores que já leram as obras. Além disso contar o enredo das primeiras histórias não constitui grande prejuízo para quem deseja começar a série, mas de qualquer forma fica o aviso]

"O Exército de Mutantes" é o sexto volume da série Perry Rhodan, que diferente do que o título aponta não explora muito os mutantes, porém joga na trama algo que já se esperava após o encontro com inteligências amigáveis (arcônidas), que seria uma invasão de inteligências hostis (cena retratada na capa). Contudo, antes dessa revelação, acompanhamos o recrutamento de Homer Adams, um especulador financeiro que vai ajudar a Terceira Potência a integrar-se usando de táticas que poderiam ser consideradas criminosas ou desonestas. Somando-se isso ao caráter aparentemente segregado do Exército de Mutantes, a Terceira Potência, como Estado independente em meio as grandes potências funciona, ao menos até o momento, como uma Força-tarefa independente para proteção da humanidade. 

Rhodan não precisa superar as potências imediatamente, pois acredita que elas vão perder a razão de existir pela força de seu exemplo, ainda que nesse episódio, quando Homer entra a Terceira Potência, vemos que esta pode andar por uma área cinzenta de moralidade e nem sempre pelo caminho da virtude. Acredito que esta seja a maior contribuição deste episódio para a série, mais que a formalização do Exército de Mutantes.
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segunda-feira, 23 de maio de 2022

Resenha #236 - A Rainha do Ignoto (Emília Freitas)


"A Rainha do Ignoto" de Emília Freitas é uma das primeiras obras de ficção fantástica no Brasil. Publicada pela primeira vez em 1899, porem caiu no ostracismo justamente pelo caráter fantástico e arrojado demais para o naturalismo dominante na literatura brasileira. Emília mistura os elementos fantásticos aos da cultura regional do norte e nordeste para falar sobre a situação das mulheres em uma sociedade que as coloca de lado, as inferioriza e subjuga.

A história começa pelo olhar do Dr. Edmundo, um bom vivant que veio assumir as posses dos pais ricos no Passo das Pedras, no Ceará, quando conhece Carlotinha, uma bela, recatada e do lar, que logo se apaixona por ele. Porém em uma andança pela noite, Edmundo se encanta pela misteriosa Funesta, também chamada de Fada do Areré. Obcecado pelo mistério, Edmundo consegue disfarçar-se até a Ilha do Nevoeiro, local escondido da sociedade onde a Rainha do Ignoto governa uma sociedade utópica de mulheres, que atuam pelo bem em missões disfarçadas na sociedade.

Dominado por uma curiosidade quase obsessiva, Edmundo consegue a ajuda de Probo, para entrar infiltrado na Ilha do Nevoeiro, de forma que pela sua visão acompanhamos primeiro como é a Ilha e como se organizam as Paladinas, e depois, episódios em que as Paladinas ajudam infiltradas na sociedade, mulheres que são maltratadas e enganadas por homens. A literatura que costuma dar o lugar de traiçoeiras e manipuladoras as mulheres, tem um tratamento diferente, as mostrando o lado leal e o lado manipulador de homens, que muitas vezes brincam com seus sentimentos.

O livro tem um final bastante melancólico, mas que faz um excelente contraponto entre a utopia com a realidade. Nos anos 1980 a obra ganhou uma segunda edição, que foi um verdadeiro resgate. Por financiamento coletivo, vieram mais duas edições relativamente recentes. Uma pela Editora Wish e outra pela Editora Fora do Ar, e amsi duas outras exclusivamente digitais. Além de uma antologia baseada na obra. As Artes Mágicas de Ignoto.
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segunda-feira, 16 de maio de 2022

Resenha #235 - Tau Zero (Poul Anderson)


"Tau Zero" de Poul Anderson é um dos clássicos da ficção científica hard, chamada assim por sua aproximação com as ciências exatas, como a física, química e também das ciências biológicas, para separá-las da ficção científica soft onde estariam as obras amparadas pelas ciências humanas. Hoje essa classificação é antiquada pois as ciências humanas não tornam o debate menos complexo ou profundo e quem já cursou qualquer curso superior de humanas sabe bem que não é nada soft.

Classificações a parte, a física é o foco de nossa aventura pelo espaço. Imagine a Teoria da Relatividade afetando a idade dos astronautas em viagens espaciais. Longe da gravidade terrestre, do nosso sol ou até de alguma estrela, os tripulantes de uma nave envelheceriam relativamente de forma muito mais lenta. Com base nessa suposição Poul Anderson imaginou uma nave, Lenora Chirstine com o objetivo de colonizar uma estrela na constelação de Virgem, há 32 anos-luz de distância, no século XXIII. Já era esperado que após 5 anos de viagem, para os passageiros da nave, sejam 33 anos para a Terra. O que já torna a missão praticamente uma missão só de ida. Contudo, um imprevisto, um choque com uma nebulosa impede os sistemas de frenagem funcionar obrigando a nave a aumentar a sua velocidade aproximando-se do valor Tau, que quando chega a Zero é o mesmo que a velocidade da luz. Apesar de não haver tecnologia (nem no mundo do livro, muito menos no nosso) para igualar a velocidade da luz, o valor de contração Tau é a única forma de estimar uma velocidade em escalas tão elevadas. O autor explica bem melhor que eu no livro. No que tange a aventura, o drama dos passageiros é que o tempo na começa a passar relativamente muito mais depressa que o esperado, enquanto a nave cruza o espaço cada vez mais veloz. Distante no tempo e no espaço. Com pouca esperança de encontrar qualquer lugar para colonizar.

A nave é composta por 25 homens e 25 mulheres, entre cientistas e tripulação da nave. Apesar de acompanharmos mais Reymont, o oficial com poderes de polícia, na nave. A nave Lenora Christine é a grande protagonista, pois é em seu ambiente e a sua missão que mobilizam todos os acontecimentos do livro. Podemos fazer questionamentos baseados no conhecimento atual da física, mas ela ainda é suficientemente sólida para os propósitos de extrapolação do livro e ajudam a deixá-lo divertido. Os personagens são pouco trabalhados, mas podemos sentir bem o clima geral de pressão e depressão que vai tomando conta da nave. Os homens ficam ora agressivos, ora apáticos/estoicos enquanto as mulheres dão ataques histéricos, o que faz o livro envelhecer mal. Enquanto a pressão psicológica vai exigindo mais da tripulação, Reymont acaba sendo um esteio de sobriedade e vontade de viver em meio a apatia. Algo que me lembrou outra FC: a relação entre Perry Rhodan e os Arcônidas. Em outras palavras, Reymont é o típico herói espacial: valente e forte tanto física quanto psicologicamente, plenamente capaz de desbravar mundos, colonizando-os.

A história me fisgou, por gostar de ficção científica, onde a parte científica é bem explicada e entendemos ela com facilidade, o que ajuda muito a embarcamos na história. Contudo, é fácil entender que o leitor médio se desgoste do tratamento dos personagens que é, na falta de palavra melhor, mediano, mas suficientemente instigante para nossas próprias reflexões. O final me pareceu um pouco corrido mas de certa forma inevitável em relação ao desenvolvimento e considero satisfatório. Talvez satisfatória até demais. Certamente uma excelente obra da FC e recomendo a leitura.
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segunda-feira, 9 de maio de 2022

Resenha #234 - Alarma Galatico, Perry Rhodan 5 (Kurt Mahr)


[As resenhas do blogue não costumam ter spoilers, mas para esta série não teremos esta preocupação. Pois ela será escrita pensando em trocar ideia com os leitores que já leram as obras. Além disso contar o enredo das primeiras histórias não constitui grande prejuízo para quem deseja começar a série, mas de qualquer forma fica o aviso]

O impossível acontece! Num ataque de surpresa, as superpotências terrenas destruíram, na superfície lunar, a nave dos arcônidas, uma raça semelhante aos homens, que domina um grande império galático. Apenas dois arcônidas sobreviveram ao ataque e encontram-se em segurança junto a Perry Rhodan, o homem que descobriu a nave dos arcônidas e, com o auxílio dos recursos tecnológicos infinitamente superiores dos mesmos, formou a Terceira Potência. Perry Rhodan impediu a guerra mundial que há tanto tempo ameaçava a humanidade. E agora, quando um novo perigo, vindo do espaço cósmico, desencadeia o Alarma Galático, mais uma vez a Terceira Potência realiza uma intervenção decisiva.

"Alarma Galático" é o quinto volume da série Perry Rhodan. Neste volume um grande percalço acaba se tornando uma oportunidade de solidificar a Terceira Potência, frente aos outros governos da Terra. O episódio se divide em três momentos. No primeiro acompanhamos o teleportador Tako Takuda disfarçado para adquirir materiais para que a Terceira Potência possa construir uma nave capaz de fazer cumprir o trato que Perry Rhodan fez em nome da humanidade. É uma parte com espionagem que termina de forma inusitada, com Tako fazendo um acordo com um sindicato de metalúrgicos.

No segundo momento, Perry Rhodan ativa um Alarme Galático, um dispositivo das naves arcônidas quando são destruídas que envia um esquadrão automatizado para dizimar em retaliação ao Império Arcônida. Perry faz uma invasão, retornando o ritmo de espionagem deste volume, para encontrar Alan Merchant e pedir apoio por uma causa maior. O que acaba tornando todo o esforço de Tako inútil, mas providencial visto que as naves automatizadas chegariam muito antes das peças por via ilegal.

Na terceira e derradeira parte, descobrimos que a base automatizada que enviaria as naves robôs, enviaram uma nave do povo Fantan. Rebeldes do Império Arcônida. Rhodan manobra a nave para interceptá-los da única maneira que consegue: dizimando os inimigos em combate. Interessante como a descrição dos Fantan procura enfatizar suas características não humanas, como se eles não fossem sencientes. Para que sua forma repulsiva torne Perry Rhodan menos assassino, uma vez que nenhum fantan sobreviveu a incursão. Apesar de tudo, Rhodan tem motivos concretos para usar o medo de um ataque externo para colocar as potências terrenas ao seu lado e validar cada vez mais a Terceira Potência. Plano que vai ganhar corpo com "O Exército de Mutantes".
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segunda-feira, 2 de maio de 2022

Resenha #233 - O destino de poseidônia (Clare Winger Harris)


"O destino de Poseidonia" de Clare Winger Harris é uma das histórias da autora que surgiu nas antigas revistas pulp dos anos 1920 nos Estados Unidos e que está sendo celebrada pela editora Cyberus com vários lançamentos de contos na Amazon. Este é um dos contos que foram lançados e o segundo da autora resenhado aqui.

Em O destino de Poseidonia, acompanhamos George um astrofísico que vê seu interesse amoroso, Margareth sendo conquistado pelo misterioso Martell. George, tomado pelo ciúmes, começa a investigar Martell e acaba encontrando evidências de seu envolvimento em eventos estranhos na Terra, como a diminuição dos níveis dos oceanos, o desaparecimento de uma aeronave (a Pégasus) e, também, de um transatlântico, o Poseidonia.

Sabemos que as histórias das revistas pulp tinham bastante preocupação em trazer uma virada no final dos seus contos, mostrando que seu protagonista estava errado na forma de pensar. Ao fazer essa leitura, me peguei tentando adivinhar o final e falhando miseravelmente. A autora não perde tempo explicando a razão de todos os eventos espetaculares e isso acabou deixando os contos envelhecerem melhor, o que não signifique sem todos envelheceram bem. Porém se o leitor se deixar levar pelo absurdo e apenas embarcar no mistérios, será recompensado.
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segunda-feira, 25 de abril de 2022

Resenha #232 - Fanfic (Bráulio Tavares)


"Fanfic" de Bráulio Tavares é uma coleção de contos do autor que é um dos melhores contistas da Ficção Científica brasileira. Aqui encontramos várias flash fictions, contos curtos que se tornaram a especialidade do autor em seu tempo de colunista diário no Jornal da Paraíba. Também temos alguns contos maiores, sendo o último, uma noveleta.  

Finegão Zuêra abre a coleção com uma pequena peça de experimentação linguística, para desestabilizar o leitor. O Homem que Perdeu Seu Reflexo acompanha o desaparecimento de um homem pela curiosidade da única pessoa que ainda se lembra de sua existência. Haxan é um conto cyberpunk que consegue trazer muita verdade nos personagens marginalizados ao narrar um pequeno grupo de jovens em uma noite de andanças reais e virtuais. Sete OVNIS é uma ficção curta em sete parágrafos onde cada um pinta retratos de pessoas comuns ao redor do mundo avistando o primeiro contato com vida alienígena. Fenda no Espaçotempo mostra seu Claudionor recebendo dois viajantes temporais. O conto curto ainda guarda uma revelação na última palavra. Concerto Noturno é um conto embebido no insólito onde Hugo Clementino, um pianista voltando após um concerto num país da Europa Oriental encontra o impensável quando volta ao seu quarto de hotel. A Estética Eliminacionista é outra flash fiction, que narra um método artístico que nos faz pensar na literatura como arte.

The Ghost in the Machine é um dos contos mais robustos da coleção. Acompanhamos Palídron, Yawin e o Professor Zohn em uma missão na Terra em um universo cheio de raças e culturas para levar o Professor a um ponto não revelado no início. O rítmo é ágil e o conto vem acompanhado de 28 notas que tanto podemos ignorá-las sem perder o fio da história, quando fazer pausas para conhecer melhor as coisas exóticas daquele mundo. Tudo isso num clima bem humorado das antigas ficções pulp dos anos 30-40. A participação de Trupezupe do primeiro conto é de deixar uma pulga atrás da orelha.

Universos Tangenciais é como se fosse um sonho narrado, bastante imersivo. Já em A Arca temos um conto de monovocalismo, que é uma modalidade em que todo o conto é escrito com uma única vogal. A Demanda do Bosque Sombrio traz um herói quixotesco que repudia os pobres mas que diferente dos moinhos podem revidar. A Propósito da Decifração Quântica nas Regiões Periféricas da Consciência é uma viagem pelo tecido rachado da realidade, tanto pela forma fantástica quanto pela mais cruel das realidades no Brasil. Ver um tema que aprendi a apreciar tanto em Philip K. Dick com uma abordagem tão própria quanto a de Bráulio Tavares é primoroso. 

O livro engrena uma sequência de narrativas curtas com Um Só Seu Filho explora o último desejo de um religioso que livre de todas as amarras faz um último pedido inusitado. A República do Recurso Infinito volta a explorar as rachaduras da realidade com a queixa de um cidadão com a burocracia. Novamente me cativou pelo tema que me encanta aliado ao estilo próprio do autor que fisga o leitor em poucas palavras. No Labirinto nos traz uma viagem que certamente foi vivida em sonho pelo autor, que tem um subconsciente tão criativo quanto seu consciente. O Vale da Maldição acompanha um grupo de exploradores de uma sociedade pós-apocalíptica que encontraram um artefato de tempos longínquos. A narrativa explora bem a estranheza dos exploradores enquanto tentamos identificar de onde vem os elementos da história. Gronk é uma peça bem humorada em que um ser estranho, parecido saído d'A Metamorfose de Franz Kafka não para de perturbar um humano. Aquele de Nós é um conto sobre um organismo que ignora a individualidade. Me fez relembrar a leitura de Homo Deus do Harari. O Polvo consegue prender com um enredo simples mas muito bem conduzido. Uma pesquisadora londrina é a primeira a questionar sobre o real causador do sumiço dos animais de um laboratório e, para fechar essa seção de minicontos, A Ilha do Meio que é outra peça tirada dos sonhos do autor, onde uma ilha é serrada ao meio mas um morador de um dos lados tenta observar o que há no outro lado.

Frankenstadt faz uma versão tecnológica da história clássica de Mary Shelley acompanhando um imenso monstro e repensando o que o torna um ser individual. Narrado de forma instigante até um final eletrizante, literalmente. Encerrando a coletânea O Molusco e o Transatrântico já foi publicado várias vezes. Eu li pela primeira vez na antologia Fractais Tropicais, já resenhada neste blogue: Acompanhamos um explorador espacial brasileiro em uma missão internacional pelo espaço em um estilo que lembra 2001, tanto pela forma de narrar quanto pela viagem profunda em um contato alienígena. Contudo, não se apegue nessa comparação. Bráulio vai por um caminho bastante instigante e parece que não vai levar a lugar nenhum até as últimas linhas, quando entrega um final de deixar pensando bastante.
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segunda-feira, 18 de abril de 2022

Resenha #231 - Rússia Steampunk: Batalha de Astana (André Wielgosz)


"Rússia Steampunk: Batalha de Astana" de André Wielgosz é uma aventura steampunk cheia de ação, com uma construção de mundo vasta e instigante, cheia de alternativas históricas ricas. O autor é historiador e membro do Conselho Steampunk e podemos ver essas duas influências se aliarem ao caráter fantástico de sua ficção retrofuturista.

Acompanhamos a história do prisioneiro 112.358 que está passando por um treinamento na Sibéria para reintegrar-se as forças militares do Império Russo em 1851. A comandante é a Marechal Ekaterina Romanova que abdicou do trono para comandar em campo. Logo descobrimos que o recruta 112.358 é o ex-tentente Andropov, enviado a Sibéria por traição em uma missão em Paris e recebe uma chance de provar seu valor em uma missão em Astana.

O formato de noveleta, em um livro de 60 páginas, toma a boa decisão de focar na ação e conseguiu colocar camadas para quem se dispuser a contemplar o contexto histórico alternativo. Há uma corrida armamentista que movimenta uma Guerra Fria entre os impérios russo e britânico, que se tornam objetivos das missões dos personagens que querem apenas sobreviver. Contudo, o leitor que deseja apenas ação estará bem servido. 
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segunda-feira, 11 de abril de 2022

Resenha #230 - O milagre do lírio (Clare Winger Harris)


"O milagre do lírio" de Clare Winger Harris é considerada a história mais famosa da autora que surgiu nas antigas revistas pulp dos anos 1920 nos Estados Unidos e que está sendo celebrada pela editora Cyberus com vários lançamentos de contos na Amazon. Inclusive com distribuição gratuita por alguns dias. Isso se repetiu com vários contos e consegui aproveitar vários dos seus contos. O primeiro deles que li foi "O milagre do lírio" que não foge as principais características das histórias contadas naquele tempo: histórias ágeis, com reviravoltas estrambólicas e com finais que buscam impressionar o leitor. Apesar de se aportarem na ciência do seu tempo, os leitores costumavam enviar cartas questionando a relevância dos aspectos científicos levantados pelos autores.

Hoje, as histórias soam como que saídas da série "Além da imaginação", e a revelação final de "O milagre do lírio" mostra bem isso. A história conta sobre a humanidade que trava uma luta contra uma evolução dos insetos que devoram lavouras e depois disso, as instalações que sustentam os humanos, além dos próprios humanos. Cada capítulo avança séculos na história e com a passagem do tempo, as comunicações evoluem e a raça humana consegue travar contato com os seres de Vênus que enfrentam um problema parecido. A resolução impressiona bastante e, como dito anteriormente, parece algo saído de "Além da imaginação", ou melhor dizendo, podemos ver a influência da literatura pulp na série. No mais é uma história divertida e bacana de ler, se você levar em consideração a época e contexto em que foi escrita.
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segunda-feira, 4 de abril de 2022

Resenha #229 - A Cor do Infinito (Editora Cyberus)



"A Cor do Infinito" é uma pequena coletânea de contos afrofuturistas, contando com apenas três contos. A proposta é sensacional pois é sempre bom ver que o afrofuturismo ter mais publicações e autores diferentes, criando e publicando histórias. Já faz um tempo que estou acompanhando as publicações, como podem notar neste blogue, principalmente dos autores Fábio Kabral e da Lu Ain-Zaila, os mais destacados autores do subgênero.

Nesta pequena coletânea, não há o que posso acrescentar, apenas aprender com os autores que demonstram saber onde querem chegar com o texto. Contudo, no que tange a literatura em si, os contos poderiam estar melhor lapidadas, pois as narrativas estão um tanto brutas. No primeiro conto "O Rei do Congo" de Lia Rodrigues, conta a história de Joel que volta formado em Direito para o interior do Espirito Santo, visitar seus pais passa por um processo de reconexão com suas raízes. A autora capixaba traz uma narrativa envolvente e bonita. Não há muita ficção científica porém o conto é bem conectado com o fantástico fechando bem o arco do protagonista.

Em "Anseio do Rei" de Wilson Carvalho, soa confuso por foca em um momento muito curto num fluxo de consciência do protagonista Nadlu momentos antes de um ritual religioso onde encara uma dúvida sobre usar ou não drogas para desempenho. Pesquisei sobre a festa com o termo usado no conto, Dongada mas achei apenas referência a Congada, que se encaixava na descrição do conto. Não sei se é uma mesma forma de referenciar a mesma festa ou se é outra ou, ainda, se é um erro de digitação. Quando tiver a informação retifico o comentário. Por fim, "O que querem as filhas e os filhos da África?" da gaúcha Diônvera Coelho da Silva, narra uma grande quantidade de eventos, desde o encontro entre o caboverdiano Bonami e a brasileira Aduke que tem uma filha chamada Oyri e seu papel como cientista após a extinção das abelhas. A história é boa porém detalha muito o início dos pais de Oyri e atropela os acontecimentos decisivos com a filha, deixando o conto inconstante. Gostaria de ver uma versão com a segunda metade do conto mais detalhada e extensa para imergir melhor neste futuro bacana de imaginar.

A ilustração da capa de Andrew Derr é muito bonita e chama a atenção para a leitura, porém alguns detalhes da edição poderiam ter sido vistos pela editora, como por exemplo, no último conto. Quando a autor menciona grupos como "ele/ela", é algo simples que uma leitura de apoio poderia ter evitado e isso é trabalho da editora. Também senti falta de um pequeno texto de apresentação da organização do livro e inclusive uma apresentação do editor, afinal quem escolheu e juntou esses contos? Espero ver mais cuidado com os autores nas próximas edições pois são estes detalhes que fazem toda a diferença.
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