segunda-feira, 5 de abril de 2021

Resenha #177 - Viajantes do Abismo (Nikellen Witter)


“Quando o caos tomou conta de tudo o que conhecia, Elissa Faina Till passou a acreditar que o prenúncio do desastre estivera encerrado em um minúsculo grão de areia. Aquele mesmo que ela havia retirado das dobras da saia de seu vestido de casamento numa terça-feira, quando o experimentou pela primeira e única vez.”

Assim começa a primeira parte do romance Viajantes do abismo, uma ficção científica steampunk escrita pela historiadora gaúcha Nikelen Witter. Já conversamos sobre outra obra da autora − Guanabara Real: a alcova da morte − que Nikelen escreveu junto com Enéias Tavares e A.Z. Cordenonsi, mas aqui ela brilha sozinha em outra obra steampunk. Desta vez, ao invés do tom aventureiro predominante no subgênero e da abundância da estética neovitoriana, temos uma abordagem mais voltada à reflexão sobre o meio-ambiente, ao mesmo tempo em que a autora faz um trabalho mais profundo de construção de sua protagonista.

Acompanhamos a história de Elissa, que vive na cidade de Alva Drão e está prestes a se casar com Larius Grey, um político em ascensão dentro do partido governista que está no poder da Tríplice República, quando é abandonada no altar. Passado algum tempo, Elissa tenta seguir sua vida como curandeira, quando a guerra entre governistas e independentistas chega a sua família. Obrigada a fugir, Elissa encontra a amizade de Tyla, dona de um bordel na cidade de Alephas, de uma menina misteriosa que aparece e desaparece como uma alucinação e de um andarilho que sempre traz o caos por onde passa.

Nesse mundo steampunk, a estética das tecnologias a vapor aparece em detalhes, e há pouca menção à estética neovitoriana, o que pode descontentar o leitor mais apegado a essas convenções do subgênero. Elissa evolui de moça submissa até se afirmar em um mundo completamente desfavorável, ao mesmo tempo em que a guerra logo se relaciona à degradação das áreas verdes, pelos desertos que se expandem em grande velocidade. A amizade com Tyla e com a irmã cientista, Teodora, tem forte papel nessa transformação. Infelizmente as duas personagens receberam pouco espaço. A história pedia uma relevância maior delas, ainda mais por se tratar de uma obra extensa, que se permitiu a abertura de alguns arcos secundários.

A decisão de concluir a história em um único livro agrada muito em um mercado empanturrado de narrativas divididas em trilogias, ou em séries, com primeiros volumes meramente introdutórios. Desta forma, as trezentos e quatro páginas de Viajantes do abismo fluem bem, pois a escrita é atraente, com reflexões maduras. Outra coisa que agrada é a trama rica em acontecimentos relevantes, que conectam os elementos construídos minuciosamente na primeira metade do livro. Isso não deixa que os acontecimentos soem forçados, por mais malucos que sejam. O leitor que ao abrir o livro espera encontrar uma mera aventura steampunk para admirar a estética elegante terá uma grata surpresa ao encontrar uma jornada de autoconhecimento e também da valorização do mundo.
Leia Mais ››

segunda-feira, 29 de março de 2021

Resenha #176 - Tempos de Fúria (Carlos Orsi)


"Tempos de Fúria" é uma coletânea de contos de um dos melhores contistas em atividade na Ficção Científica e nesse livro temos o autor em sua melhor forma. Os contos tem em comum o uso da violência sem restrições, a tendencia de misturar FC com o terror e a engenhosidade e criatividade nas histórias que tanto nos fazem amar este gênero. Resenhei a segunda edição que vem com mais contos e a seguir vou comentar os contos em separado.

"Imagem e Semelhança" acompanha um sujeito perturbado por usa obsessão em alcançar a Deus, não poupando ninguém, nem o investigador que é aprisionado e passa grande parte da narrativa ouvindo toda a jornada do protagonista. É como um vilão contando seu plano maléfico que acompanhamos a história e o autor consegue prender o leitor instigando a curiosidade sobre o desfecho. 

"Estes 15 minutos" um papo de bar no pé de uma favela carioca entre um membro do Comando Vermelho e um malandro viajado desencadeia uma onda de assaltos usando a distorção da realidade como subterfúgio. O autor consegue aliar o cenário e personagens bem brasileiros com quebras da realidades no estilo de Philip K. Dick e o final guarda boas surpresas. 

"Questão de Sobrevivência" é um cyberpunk como deve ser escrito para o cenário brasileiro. Pinta a divisão favela e asfalto, interesses políticos e personagens marginalizados, trabalhos perigosos bem ambientado no Brasil. Na historia acompanhamos um grupo de milicianos interceptando uma carga de leite materno que se torna vital para as crianças da comunidade pois as mulheres do "Campo Fidel" estão contaminadas pela radioatividade. Conto publicado também no Livro Assembléia Estelar resenhado aqui.  

"Pressão Fatal" se passa numa estação de pesquisa na órbita de Vênus onde o detetive Henri Bernardin investiga a morte de um membro da tripulação. A narrativa segue um tom e estrutura detetivesca tendo Bernardin um Sherlock Holmes, excêntrico, sagaz e sempre com uma resposta lógica quando contrariado. 

"Planeta dos Mortos" conta a história de um soldado em sua primeira missão de campo em Vênus, com o objetivo de investigar uma estação de pesquisa durante o processo de terraformação do planeta. 

"Desígnios da Noite" acompanha Marco, um gladiador moderno que busca vingança pela morte de sua ex-esposa com muito sangue e um mistério envolvendo uma seita astrológica.

"A Aventura da Criança Perdida" é um thriller de espionagem que faz vários personagens girarem em torno do desaparecimento de uma criança. O conto é curto, o que não favorece a construção dos personagens mas puramente do enredo e da ironia que marca o destino de alguns personagens. 

"Colosso de Bering" brinca com universos alternativos quando um escritor em crise criativa encontra um amigo que havia falecido há dois meses e conta tudo que viu. O final tem uma sutileza sutil que com uma palavra muda tudo.
Leia Mais ››

segunda-feira, 22 de março de 2021

Resenha #175 - Gigante Pela Própria Natureza (Nelson de Oliveira)


"Gigante Pela Própria Natureza" é um romance de Nelson de Oliveira que concorreu ao prêmio Kindle em 2020. A obra apresenta várias subversões surrealistas na linguagem literária, das descrições mais corriqueiras até a estrutura da história. A história começa com um homem que se envolve com uma mulher negra-índia-amarela-branca e torna-se mulher para ter um filho com ela. A criança é imensamente poderosa e sábia e logo se se perde dos pais que o buscam numa jornada insólita onde encontram vários personagens da nossa cultura. O livro é cheio de referências e é fácil ficar confuso (no bom e no mal sentido) em meio a elas, pois elas vem acompanhadas de várias quebras de perspectivas, abusando da ideia de que o romance sabe que é um romance, ironizando a adoção de clichês, elevando o nível de absurdismo para níveis que tornam o livro muito divertido, ou dependendo do leitor que não se interesse por algo tão subversivo e fora do convencional, muito confuso. Eu tive a experiência do tipo divertida e quem tiver Kindle Unlimited aproveite e se jogue nessa leitura!
   
Leia Mais ››

segunda-feira, 15 de março de 2021

Resenha #174 - Atemporal (Cláudia Roberta Angst. Org.)


"Atemporal" é uma antologia de contos da editora Caligo, que lança livros fora da esfera viciosa dos vanity press pois há a preocupação com o que coloca nas páginas além de vender papel. Desta vez temos uma antologia sobre viagem no tempo. Não necessariamente focado na Ficção Científica mas com contos que usam o artifício para explorar áreas mais voltadas as humanidades que as ciências como a física.

"Amélia" (Ana Maria Monteiro) segue a pequena Amélia, de férias onde passa a encontrar uma mulher do futuro com a qual desenvolve uma amizade com sua versão do futuro. Uma singela e bonita homeagem a Amelia Earhart, a primeira mulher a tentar uma volta no globo pelo ar e que desapareceu nessa tentativa no Oceano Pacífico.

"À Roda no Meu Quarto" (José Angelo Rodrigues) parte para o surrealismo onde os tempos se sobrepõe onde um escritor prefaciando Xavier da Maistre e o próprio num mesmo quarto, nos traz uma visão diferente do tempo. Infelizmente não conheço a obra de Maistre e temo que algum significado mais profundo tenha me escapado, porém o conto já vale pela viagem surrealista. 

"A Última Viagem de um Homem Sem Fé" (Jorge Santos) traz um viajante do futuro que retorna aos tempos bíblicos para encontrar sua amada numa desesperada tentativa de encontrá-la. Sua jornada tem momentos bem construídos ainda que tenha um final, em parte óbvio.

"Buraco de Minhoca" (Paula Giannini) usa o mundo infantil para adocicar uma história de perda familiar onde uma menina encontra sua versão adulta e tentam se entender para ajudar sua mãe a curar de sua doença. O conto nos põe a dúvida de que tudo possa ser fruto da imaginação da menina e a interação entre as duas é alegre sem deixar de trazer a profundidade do drama que a menina está passando. A habilidade em entrelaçar essas duas camadas já vimos no seu livro que resenhamos no blogue.

"Gênio" (Marco Saraiva) conta a história de um cientista maluco, o profº Lúcio Veras, que é encontrado morto na universidade onde trabalha e de seu amigo, Sérgio, um dos poucos que conseguia lidar com sua personalidade difícil. Então, Sérgio descobre que o profº Veras, não era apenas maluco, mas que também esteve certo sobre sua pesquisa.

“O paradoxo do avô” (Victor O. de Faria) mostra um avô preso em uma repetição trágica: ter de salvar sua neta de ser atropelada e parar no hospital apenas para ser levado de volta e tudo se repetir. Diferente das histórias deste tipo onde o protagonista precisa reviver o momento da morte de alguém querido e só conseguir escapar da repetição quando obtém sucesso, o avô deste conto precisa deixar sua neta morrer para parar este ciclo. Esse diferencial já vale o conto.

“Pandorga” (Eduardo Selga) relata a viagem no tempo acidental de uma caravela portuguesa, numa narrativa cheia de lirismo e significados sobre o Brasil.

“Prisioneiro do tempo” (Antonio Stegues Batista) vai para o outro lado, o da ação frenética de dois homens disputando o amor de uma mulher voltando no tempo e arriscando tudo.

“Quinze minutos” (Ricardo Labuto Gondim) faz sua reflexão sobre a viagem no tempo através do escopo da loucura e da paranoia de um escritor que largou tudo e não consegue se estabelecer na carreira, sem saber o quanto do seu sofrimento é causado pela frustração ou realmente algo fantástico está acontecendo.

“Tempo negado” (Claudia Roberta Angst) acompanha uma mulher madura que se apaixona por seu aluno, para quem dá aulas particulares, e não sabe o quanto disso é real ou imaginação causada por um amor mal resolvido de seu passado. O clima romântico é bem balanceado com o mistério encarnado pelo jovem aluno.


Leia Mais ››

segunda-feira, 8 de março de 2021

Resenha #173 - Eu Estou Vivo e Vocês Estão Mortos (Emmanuel Carrere)


"Eu Estou Vivo e Vocês Estão Mortos: A Vida de Philip K. Dick" do biógrafo Emmanuel Carrére conta sobre a vida do meu autor favorito e faz de forma muito criativa, incorporando elementos de romance e análise enquanto relata momentos importantes da vida do autor que ficou conhecido pelos seus romances e pela sua relação com as drogas.

O que chama a atenção logo nos primeiros capítulos é o estilo que introduz partes narradas como se fosse um romance. Alguns diálogos e pensamentos de Philip K. Dick como se fosse um personagem de ficção. A ideia de mesclar sua vida com a ficção na forma da narrativa tem muita relação com a própria forma que PKD tinha de se relacionar com as ideias que expressava em seus livros sobre a realidade - ou a ausência dela. Vemos esse caminho se aprofundando nesse livro a medida que acompanhamos a história de Dick enquanto escreve os seus livros e a forma como Carrére os usa como fontes para entender sua vida. É ai que podemos encontrar ao mesmo tempo o grande diferencial da obra com seu maior defeito.

As principais obras são esmiuçadas para que o autor acrescente suas reflexões a entender PKD, o que consegue mostrar o quão ele era profundo, paranoico e perturbado como consegue literalmente estragar a leitura de qualquer obra mencionada durante o livro. As obras mais relevantes tem seus enredos contados (até aqui, tudo bem) até o fim do livro e analisadas exaustivamente, de forma sensacional, se você já leu a obra. Contudo, o livro exige que você tenha lido muitas obras para não tomar spoilers violentíssimos e mesmo se você já leu muitas obras do autor como eu, fui obrigado a desviar de páginas inteiras para chegar ao fim sem saber o final de livros que ainda estão na minha estante. Tudo isso sem um aviso. Ok! Sei que é difícil contar a história da vida de um autor como PKD, que teve sua vida tão intrinsecamente ligada a suas obras, seria muito malabarismo desviar de todos os spoilers e no fim das contas é melhor já ter uma boa bagagem de leitura de suas obras para começar essa aqui, mas um aviso (que só as resenhas podem fazer) se faz necessário. Sendo assim para ajudar os que tem dúvidas se/quando devem ler esta biografia vou deixar uma lista de livros que são analisados profundamente nessa obra para que o leitor se prepare ou ignore consciente do que vai ser spoilado (vou colocar no final do texto).

Já você que leu boa parte das obras, pode esperar que uma biografia de um escritor comum não pode ser mais instigante que suas obras, contudo Dick escrevia muito sobre sua visão de mundo e depois, em seus últimos anos, literalmente uma exegese buscando uma cosmogonia, que encontramos resumida em VALIS. Carrére esmiúça bem o pensamento de Dick, obviamente não decupa a sua exegese (exigiria um ou mais livros só para isso), mas traça os caminhos mentais que o levaram a acreditar em parte das ideias que trabalhou nas suas principais obras. Tal profundidade pode fazer parecer que estamos lendo uma sequência de ensaios sobre as obras, o que torna esta biografia uma leitura atraente para fãs de Dick e um potencial estraga prazeres para quem não leu tantos livros assim. Pessoalmente, procurei ler todos os livros de PKD que pude antes de começar esse e valeu muito a pena!

Segue a lista de livros mencionados que tem seus finais revelados em "Eu Estou Vivo e Vocês Estão Mortos: A Vida de Philip K. Dick" 

Olhos no Céu / Eye in the Sky
Tempo Desconjuntado / Time out Joint
O Homem do Castelo Alto / The Man in the High Castle
Os Clãs da Lua Alfa / Clans of Alphane Moon
Tempo em Marte / Martian Time-Sleep
Os Três Estigmas de Palmer Eldritch / The Three Stigmata of Palmer Eldritch
Andróides Sonham Com Carneiros Elétricos? / Do Androids Dream of Electric Sheep?
Ubik / Ubik
O Labirinto da Morte / The Maze of Death
Reflexo na Escuridão (Homem Duplo) / A Scanner Darkly
VALIS / VALIS

Contos
Jogos de Guerra / War Games
A Fé de Nossos Pais / Faith of Our Fathers







Leia Mais ››

segunda-feira, 1 de março de 2021

Resenha #172 - Salvem as Crianças (Luiz Brás)


"Salvem as Crianças" é um conto de Luiz Brás disponível na Amazon no formato e-book. O conto é uma distopia que parte da premissa de uma Ditadura de extrema-direita através de uma Universidade governada por um Reitor Ditador. O conto tem o mesmo ritmo narrativo de Anacrônicos: ágil, eletrizante, seguindo algumas linhas que se convergem e interagem até a conclusão e sem gastar uma palavra fora do que interessa. Essa última, uma característica na qual costuma-se definir um conto como tal. O tom irônico da construção do mundo é afiado com o atual contexto político e mostra como o autor foi sagaz em escrevê-lo em 2017. O momento ideal para ler esse conto é o quanto antes.
Leia Mais ››

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Resenha #171 - Frankenstein (Mary Shelley)


"Frankenstein" de Mary Shelley é considerado o primeiro livro de Ficção Científica já escrito pois estabelece a discussão do que é ser humano através de um evento fantástico derivado da ciência. Ainda que a ciência usada não seja o foco do livro e não seja explicada como nas histórias da Ficção Científicas que vieram depois, sem ela teríamos apenas uma obra do fantástico como as que já circulavam em seu tempo. 

A história já é conhecida vagamente pois é muito referenciada na cultura pop, mas nada que invalide a leitura, muito pelo contrário. "Frankenstein" é leitura obrigatória para quem gosta de Ficção Científica, e para quem está de passagem pela estante dos clássicos. Nela temos Victor Frankenstein que está em uma expedição rumo ao polo norte. Victor vive atormentado e arrependido por um monstro que o assombra e está em sua caçada. Começamos com um relato em cartas (o livro todo é escrito de forma epistolar) de um marinheiro civil narrando como conheceu seu amigo Victor Frankenstein, depois segue num relato do próprio Victor de como criou o monstro (que não chega a receber um nome) e como o renegou depois de ficar arrependido do sucesso de seu experimento. Contudo o monstro passa a persegui-lo colocando em risco a vida dos seus familiares. Mesmo sendo um livro tão antigo prefiro não dar spoilers. 

Shelley pinta o monstro de forma misteriosa e indireta tanto que o nosso visual é moldado pelas primeiras adaptações do cinema. O livro trava diálogos muito interessantes sobre a própria criação da vida e nos faz pensar sobre quem é o monstro e também o quanto de vítimas e algozes temos dentro de cada um de nós, trazendo uma alteridade para a obra que a colocou como um clássico da literatura em geral.
Leia Mais ››

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Resenha #170 - Mata-Mata (Zé Wellington)


Excepcionalmente hoje, vou fugir da Ficção Científica e afins, para falar de "Mata-mata". Uma novela, parte de um projeto multimídia do escritor e roteirista de HQs cearense Zé Wellington. Já resenhado aqui pelo excelente Cagaço Overdrive. O conto resgata a época da pistolagem no Ceará para os dias atuais, quando um assistente social se envolve com um pistoleiro aposentado que se viu obrigado a voltar a ativa. Os pistoleiros se envolviam na política local matando desafetos políticos, além de outros contratos para quem mais pedisse. O material consiste basicamente na novela, que conta a história do início ao fim; de um áudio que simula um podcast apresentado pelo assistente social entrevistando o pistoleiro e de uma trilha sonora - por Rafael Cavalcante - exclusiva para o projeto. A gravação do podcast acontece na história, e os principais eventos são contados na novela, mas a entrevista conta tudo com mais detalhes e é bem convincente. 

Quando a história, ela tem um inesperado (ao menos para mim) clima tarantinesco, principalmente pela forma que a violência aparece. O autor consegue envolver uma aura de ameaça ao pistoleiro, de um perigo que parecia extinto mas estava apenas adormecido. É um western nordestino com uma história bem montada, sucinta, direta e grossa. Apesar do assunto pesado, a leitura é muito leve e tem toques de humor bem vindos. É possível entender a história, apenas lendo a parte escrita, mas colocar a trilha enquanto lê e parar tudo para ouvir o podcast é a receita ideal para mergulhar nesse mundo. Então minha recomendação é aproveitar, caso não tenha lido o conto, e usar todas as mídias disponíveis. Ainda mais que estão de graça em uma página própria: https://matamata.iradex.net/.
Leia Mais ››

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Resenha #169 - Viva mais um dia (Lady Sybylla)


"Viva mais um dia" é uma novela de Ficção Científica de Lady Sybylla publicada originalmente no wattpad e depois na Amazon, na forma de e-book, a forma na qual li a obra. A autora já é conhecida pelo seu blogue Momentum Saga e aqui traz uma de suas primeiras histórias e já mostra a qualidade de alcançou nas obras maiores. Aqui temos a história de uma mulher que acorda sozinha sem a memória, tendo como companhia apenas uma cachorrinha. Seguindo o animal, que parece se lembrar de tudo, chegam até uma casa familiar e em meio a todo caos silencioso consegue se abrigar ali até que é abordada por um homem estranho que diz conhecê-la.

A história se divide em dois momentos bem distintos: no primeiro tente mais ao terror e ao suspense e no segundo tende totalmente a uma Ficção Científica, quando conseguimos entender o que está acontecendo. Pela novela ser curta o suspense não se estende demais e consegue prender com a tensão e depois com as reviravoltas. O final lembra muito os finais malucos que vemos em Philip K. Dick e me agradou bastante.
Leia Mais ››

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Resenha #168 - Shiroma: Pheonix Terra (Roberto de Sousa Causo)


"Shiroma: Pheonix Terra" é um noveleta que é sequência direta do livro "Shiroma: Matadora Ciborgue" de Roberto de Sousa Causo e inicia um novo ciclo de histórias que haviam se encerrado na coleção de contos que antecedeu. O livro Shiroma: Matadora Ciborgue, apesar de ser uma coleção de contos parte inéditos parte escritos especialmente para a obra, tem uma sequência que dá uma cara de romance que fechado, esta noveleta é como uma introdução a uma sequência de novos contos e começa respondendo algumas perguntas deixadas ao fim do último conto. Como é possível presumir, Shiroma sobrevive ao último confronto (dã) e escapa com uma coleção de artefatos do planeta que era a sua base de operações, e busca estabelecer contato com Torgo Borkien um comerciante de arte do distante planeta Pheonix Terra, que fica intrigado com a coleção de Shiroma (obviamente sob disfarce) que tem em sua posse mais peças do que o total conhecido até então. É nesse clima de desconfiança, ganancia e artigos de valor quase inestimável que Shiroma busca levantar fundos para combater seus inimigos e perseguidores no mundo do crime.

O mundo explorado por Shiroma é o mesmo que ambienta as histórias do capitão Jonas Peregrino, compondo o universo GalÁxis, que imagina um futuro com vários planetas explorados, contatos com várias povos alienígenas, mas ainda com a humanidade fendida politicamente em diversas alianças na Terra. O universo conhecido é dividido em Zonas de Expansão Humana, que são círculos concêntricos, que são mais movimentados de acordo com a proximidade com a Terra. Pheonix Terra está na Zona 3, considerada distante, só não mais que a Zona 4. As aventuras de Shiroma orbitam mais os submundos, onde as habilidades implantadas por seus antigos tutores são extremamente valiosas, mas agora Shiroma está por conta própria pela primeira vez. A protagonista continua interessante e bem construída e é impressionante ver como os contos, este e os anteriores continuam repletos de escolhas acertadas da parte do autor, que não permite que Shiroma vire uma boneca sexualizada invencível que vive aventuras de ação sem sentido mas uma mulher complexa, interessante e que se desenvolve um pouco a cada conto. Aguardamos por mais contos e pelo encontro com Jonas Peregrino!
Leia Mais ››

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Revista Magazine de Ficção Científica - Arquivo Histórico

O autor e leitor Rubens Ângelo iniciou recentemente uma iniciativa para resgatar e preservar uma das revistas mais importantes da história da ficção científica brasileira: a Magazine de Ficção Científica editada por Jeronymo Monteiro. A ideia é simples, converter e disponibilizar gratuitamente quantos números possíveis das revistas impressas em e-books. O objetivo desta postagem é, além de divulgar e parabenizar a iniciativa, oferecer um link adicional dos arquivos, caso o original tenha se perdido. Rubens explica tudo com detalhes, na primeira postagem do projeto no seu blogue. Deixo o link para você acessar e obter mais informações.

Revista Magazine de Ficção Científica nº 2 | Sci-fi Tropical

Eis os meus links, que vão baixar os arquivos, caso link do post original esteja quebrado. Se este link estiver quebrado também, deixe uma mensagem avisando. Espero estar aqui para poder resolver o problema. Vou atualizar os links conforme o projeto tenha andamento. No mais, replico algumas observações importantes sobre este arquivo: 

Este arquivo foi feito para a preservação da memória da ficção científica no Brasil e destina-se à pesquisa e aos fãs. Sua venda portanto é proibida. 

O texto foi digitado em sua integralidade, revisado e adaptado para o novo acordo ortográfico brasileiro. Foram incluídas também dezenas notas explicativas, para auxiliar a compreensão de alguns termos muito específicos e aumentar a imersão de leitura. 

A ilustração de capa foi mantida e restaurada. As propagandas internas da revista foram descartadas para manter o tamanho do arquivo o menor possível, de forma a facilitar sua circulação e otimizar a leitura em smartphones e tablets.

Revista Magazine de Ficção Científica - Nº 2

Formato EPUB

Formato MOBI (Kindle)

Leia Mais ››

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Resenha #167 - Nova York 2140 (Kim Stanley Robinson)

"Nova York 2140" é a primeira obra de Kim Stanley Robinson a ser traduzida para terras tupiniquins. O autor estadunidense é consagrado pela sua trilogia sobre Marte (Red Mars, Blue Mars e Green Mars) que ainda não tem tradução no Brasil. 

A obra é uma verdadeira colcha de retalhos multicultural de uma Nova York do futuro onde as histórias se cruzam várias vezes numa rede que por fim acaba contando a história da própria cidade num período turbulento. Tudo isso em meio a um cenário onde aquela geração teve de lidar com as consequências catastróficas do derretimento parcial das calotas polares. O suficiente para aumentar cerca de 15 metros o nível do mar, inundando a baixa Manhattan e invariavelmente danificando ou destruindo todas as cidades costeiras do planeta. 

Não se trata de um livro pós-apocalíptico, como poderia-se esperar, e sim de como as pessoas ainda conseguem toca a vida apesar de tudo. Mostra as novas tecnologias que mantém os prédios protegidos da degradação da água, experimentos comunitários dos prédios, como o capitalismo lidou com a crise das áreas alagadas, como vivem nas áreas mais pobres. Enfim, o autor usa vários personagens para compor uma ideia de como seria essa Nova Iorque do futuro, caótica, perseverante e sobrevivente. O autor opta por um equilíbrio entre a distopia pintada pelas mudanças climáticas e a utopia quando nos dá esperanças de um futuro melhor. Sem nenhum exagero em cada elemento, essa opção deixa a história extremamente palpável soando muito verdadeira. O autor constrói a história de forma calma e por personagens críveis, pessoas comuns. Passando da policial linha dura a dois pivetes que cresceram nas ruas. De uma influenciadora digital ecológica a um investidor da bolsa de valores. Ainda passando por um sombrio síndico Sérvio-croata e uma advogada sindicalista de um prédio onde moram todos esses personagens, o Met. O autor não se poupa de colocar suas preocupações ambientais, presentes na própria especulação e preocupações políticas, quando aborda a especulação imobiliária e a característica predatória e gananciosa do capitalismo de mercado.

O leitor pode estranhar tantas histórias iniciadas, principalmente na primeira parte e adicionadas pela presença de um locutor que fala diretamente com o leitor, o "cidadão", mas essas vozes tem a mesma função da escolha do autor de uma cidade tão cosmopolita: Nova Iorque como representante de todo o planeta e aquele punhado de cidadãos como representantes daquela cidade. O resultado é o que o autor chama de "comédia dos comuns", cidadãos comuns contanto uma história com personalidade e cheia de verdade, dentro de uma especulação muito consistente. Vale a leitura!
Leia Mais ››