segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Resenha #206 - Olhos de Centauro (Lady Sybylla)


"Olhos de Centauro" é um romance de Lady Sybylla, que escolhe um assunto espinhoso para transpor em uma space ópera: o terrorismo. A space ópera é geralmente o subgênero da FC onde as aventuras espaciais acontecem, inclusive é a forma que popularizou naves espaciais, pistolas de raio laser e raças alienígenas. Contudo, temos aqui uma abordagem mais humana realmente interessada em especular sobre como seria a colonização espacial sob os ditames atuais. A colonização de novas áreas, interesses comerciais e políticos colidindo diretamente com o bem comum.

O prólogo, mostra Indara, personagem do conto "Mais um dia glorioso em Tau Ceti" em uma missão para os terroristas e uma outra referência ao conto "Missão Infínity", evidenciando que fazem parte de um mesmo universo. O trecho com Indara já chega mostrando a autora a que veio.

Acompanhamos o tenente Markus Hogstad que é retirado de suas férias e promovido com uma missão no mínimo ousada: comandar uma ocupação militar na base de Toliman, em Alfa Centauro que passa por uma crise, sob acusação de apoio a terroristas de Próxima Centauro, que é independente. O maior perigo da missão é que a ocupação militar possa ser considerada uma afronta a Soberania Madjen, grupo terrorista que assumiu vários ataques grandiosos que já ceifaram milhões de vidas. Hogstad vai ter que lidar também com as pressões de seu próprio governo em uma delicada balança política que envolve os direitos de exploração de Alfa Centauro. Hogstad busca auxílio do seu estado-maior, convocado entre alguns colegas com que já havia servido. Contudo, nada o preparou para a teia de relações políticas em um caldeirão de tensão.

A escrita da autora mantém a sensação de que alguma coisa muito ruim vai acontecer a qualquer momento, afinal acompanhamos o general Hogstad que em poucas horas na base, antes que pudesse estabelecer defesas efetivas, tenha que lidar com uma enxurrada de contratempos logísticos e políticos. A trama tem um ápice empolgante e ousado, que revela grande parte da fina teia de acontecimentos que Hogstad sequer suspeitava. A sensação, ao fim da leitura, é de querer saber o que vai acontecer com o protagonista. Não acho que convêm contar o final, mas ainda que ele não surpreenda o leitor - como me surpreendeu - certamente vai deixar pensando sobre o pior do ser humano não importa o lado da agressão. Não sei se haveria uma sequência, mas as reflexões sobre o livro vão demorar a sair da cabeça.








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segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Resenha #205 - O Último Desejo (Andrzej Sapkowski)


"O Último Desejo" é a primeira obra do universo de fantasia do polonês Andrezj Sapkowsky que já era muito conhecido regionalmente e depois da série de jogos The Witcher alcançou fama mundial. Para a grande maioria dos novos fãs os livros ainda são um mistério e esta é a melhor obra para começar a conhecer as aventuras do bruxo carrancudo e mulherengo, que tem uma série nova na Netflix, baseada inclusive nesta obra, principalmente.

Neste livro temos um apanhado de contos que mostram as primeiras aventuras de Geralt de Rívia, um bruxo. Neste mundo, um bruxo é um ser humano modificado magicamente para ganhar força e resistência sobrehumanas para servir numa ordem de guerreiros que dominam algumas artes mágicas para combater monstros. Os monstros e lendas desse mundo são baseados na cultura eslava e vamos reconhecer muitas das histórias clássicas dos contos de fada em versões mais aproximadas ao que se contava antes de serem adocicadas ao extremo na Disney. O mundo é sujo cheio de seres mágicos, magos, reinos sedentos de poder e trapaceiros de todo tipo.

Os contos são intercalados por Geralt buscando abrigo com uma sacerdotisa chamada Nenneke e as conversas com ela e outros personagens acabam introduzindo as aventuras dos contos, que podem ser lidas em separado mas tem um gosto todo especial em ser lidos juntos na sequência pois vemos o personagem ser construído depois de apresentado. É sabido que o livro é bastante introdutório em relação a toda a saga, que é composta quase toda de romances. Já fui fisgado e vou ter que ler todos os outros.  
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segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Resenha #204 - Oceanïc (Waldson Souza)


"Oceanïc" é um romance de Ficção Científica de Waldson de Souza, lançado pela Dame Blanche em 2019. O livro é dividido em quatro partes, sendo as três primeiras, com um narrador diferente e a última repetindo um deles. A primeira parte segue Jonas um funcionário de um restaurante Fast Food, cansado da rotina, quando revê um antigo amor (Rafael) com o qual não terminou bem. O reencontro provoca uma torrente de emoções que acaba nublando a percepção de outras coisas estão acontecendo mas quando, junto com o Jonas, percebemos que já é tarde. As outras partes abordam novos personagens e não acho interessante revelar muito, para não entregar demais. Enquanto conhecemos os personagens sabemos que as cidades da Terra existem sobre enormes criaturas que vagam pela superfície que guardam um mistério que não encoraja ninguém a descer das criaturas. Oceanïc é uma das maiores dessas cidades, tomadas por megacorporações que fazem experiências com "voluntários", sabemos disso através de Tamires que trabalha na limpeza de uma instalação controlada pela maior das corporações de Oceanïc.

Waldson criou um mundo muito genial de tão curioso e interessante. Começamos com uma narrativa intimista que depois expande para um mundo bizarro e somados as histórias de outros personagens formam uma história maior. Somos brindados com analogias totalmente pertinentes com nossa realidade e ao mesmo tempo nos submergem tanto em personagens bem trabalhados quanto em um mundo rico e interessante. É muito agradável ver o relacionamento homossexual tratado com a naturalidade que é característica, bem como a história de uma mãe que tem que lutar contra o mundo para reconstruir sua vida. É uma das propostas da editora, abrir espaço para essas narrativas e aqui o objetivo foi alcançado com muita qualidade. O livro exige uma sequência, ainda que o fechamento seja satisfatório, deixa muitas perguntas no ar e espero uma sequência que explique os mistérios dessas cidades monstruosas.


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segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Resenha #203 - Aventura Atômica (Ernan Batencour)


"Aventura Atômica" é uma novela cyberpunk de Ernan Batencour (pseudônimo) que parece fazer uma sátira dos clichês cyberpunks. A história mostra John Karsten que é sequestrado por uma família de mafiosos para fazer um roubo na sede de uma equivalente da ONU, que apenas ele poderia executar. Ele conta com astúcia e uma amiga/ajudante de cabelo roxo e, no assalto, encontra uma criança com equipamentos eletrônicos misturados ao seu cérebro que é uma experiência secreta que causaria muitos estragos em mãos inescrupulosas. Praticamente a mesma história de Turner em Count Zero de William Gibson, mas numa versão aventuresca (quase satírica) como o próprio título sugere. A leitura é leve, despreocupada e vai agradar quem não quer nada profundo para ler. O final procura trazer algo diferente mas que acaba não condizendo com o tom quase escrachado que trata os clichês cyberpunks. Não tenho certeza se houve a intenção de sátira. Espero que sim pois seria a única justificativa para profusão de clichês e ainda assim isso também não tem nada de novo. Pessoalmente prefiro um cyberpunk que se leve a sério, ainda que não rejeitaria automaticamente uma sátira desde que buscasse subverter tirando um sarro dos clichês e não apenas reproduzindo-os.
 
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segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Resenha #202 - Suell: A Revolução Silenciosa (Rômulo Kiffer)


"Suell: A Revolução Silenciosa" é uma das últimas leituras da minha Corrida Kindle Unlimited do ano passado, onde li vários livros em ebooks em 30 dias. O livro é uma novela cyberpunk com uma história bastante aventuresca e inocente de um punhado de rapazes que de alguma forma se envolvem com Suell, a líder de uma facção que quer acabar com todas as facções da comunidade para findar as guerras de gangues. A forma como farão isso é a mais óbvia: hackear servidores de dados. São seis capítulos, e cada um segue um dos membros do grupo as vésperas da grande operação. A escrita é ágil e correta, sem brilho que funcionaria melhor numa HQ. As artes do livro são sensacionais, tanto a capa quanto as que ilustram a abertura dos capítulos e é definitivamente a melhor coisa do livro. É uma boa leitura de praia, mas para um cyberpunk eu sempre espero mais!
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segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Resenha #201 - A Penúltima Verdade (Philip K. Dick)


"A Penúltima Verdade" é um romance de Philip K. Dick, um autor recorrente do blogue pelo simples fato de ser o meu favorito. Isso ocorre pelas suas histórias estarem envoltas de enredos interessantes, quebras de paradigmas da realidade e uma escrita aparentemente simples. 

A história começa em 2035, com Nicholas St. James, presidente do abrigo subterrâneo de Tom Mix, um dos muitos que protegem a população da Terra enquanto os Wes-Dem e os Pac-Peop travam uma guerra que já dura 13 anos com exércitos de robôs. São os únicos capazes de combater na superfície contaminada pelas bombas atômicas deflagradas no início do conflito. Os habitantes ficam sabendo das novidades do conflito através de Talbot Yancy, o líder supremo dos Wes-Dem que enfrentam as forças inimigas do Marechal Harenzany. As populações dos abrigos tem a missão de produzir robôs para que eles combatam na linha de frente. 

Você acreditou nessa história? Então, você foi enganado, assim como todos os habitantes dos abrigos de ambos os lados. Tudo não passa de uma farsa. A superfície radioativa? Está tomada por áreas verdes e restam poucas áreas contaminadas. A guerra? uma mentira contata para manter o povo nos abrigos. Os Robôs? são usados como serviçais de uma elite que divide lotes imensos de terra. Talbot Yancy? Sua aparições são resultado de um programa que insere discursos escritos por alguns profissionais dessa elite que estão a serviço de Brose e são chamados de Yancyman. E Nicholas St. James é incumbido da missão de subir a superfície e conseguir um pâncreas artificial para o único mecânico que consegue manter as cosas funcionando no abrigo Tom Mix. Acompanhamos também Joseph Adams, um dos escritores dos discursos de Yancy que após uma discussão com um jovem talento entre os Yancyman, David Lantano, acaba envolvendo-se em uma trama cheia de assassinatos e disputa pelo poder sobre a figura de Talbot Yancy. Adams segue numa busca pela verdade atrás da fábrica de mentiras.

A obra usa o medo da guerra atômica apenas como pano de fundo e ironicamente acabou ajudando o livro anão ficar tão datado, pois geralmente as tecnologias cotidianas nas obras de PKD são bastante ultrapassadas, mas ninguém pode ser culpado de não prever a tecnologia digital em 1964. Uma 3GM tem potencial para regredir qualquer avanço civilizatório, quando não sua aniquilação. A tecnologia de órgãos artificiais está perdida e monopolizada por Brose que apesar de ser tratado como um vilão não permite que traçamos uma linha entre bons e maus. PKD é muito competente em colocar todos os personagens nas áreas cinzentas e somado a boa trama faz um livro muito bom, apesar não temos o melhor do autor, pois aqui falta os momentos mais lisérgicos que caracterizam seus livros. Recomendo a leitura, mas não para que se tire uma base do que é a obra de PKD, mas para os colecionadores como eu é um prato cheio!
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segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Resenha #200 - Fractais Tropicais (Nelson de Oliveira Org)


"Fractais Tropicais: O Melhor da Ficção Científica Brasileira" é uma antologia que já foi lançada como a mais importante da FCB. A obra tem dimensões ambiciosas, tanto pelo tamanho quando pela variedade de autores que percorrem todos os períodos (chamadas Ondas da FC). O que une os contos é a proposta de ser um apanhado histórico da Ficção Científica Brasileira, que é dividida em três ondas. A obra começa com um prefácio muito instrutivo e inspirado do organizador que ao mesmo tempo situa qualquer leitor pouco familiarizado com a FCB quanto traz reflexões interessantes para quem já percorre os caminhos da FC. O autor foi bastante perspicaz em inverter a ordem de leitura dos contos, colocando os autores atuais para serem lidos primeiro e os mais antigos depois. Vamos analisar conto a conto. Os testos sublinhados são comentários retirados de postagens de antologias já publicadas no blogue.

3ª Onda

Além do Invisível (Cristina Lasaitis) - É o primeiro conto do livro e o primeiro conto do seu sensacional "Fábulas do Tempo e da Eternidade" que já resenhamos aqui. "Além do Invisível" aborda um amor conectado a internet em realidade virtual. Marcos e Maya depois de um ano juntos em um amor intenso resolvem mostrar sua verdadeira identidade. A condução do conto é delicada, sem pressa e com um final muito bonito e melancólico. 

O Templo do Amor (Ana Cristina Rodrigues) - Conto retirado de Portal Neuromancer, narrado na primeira pessoa, por um assassino entre dois templos, o da Morte e o do Amor. Ele recebe um contrato para assassinar Ophra, a sacerdotisa do templo do amor, para que uma nova sacerdotisa assuma. Uma caçada cheia de ressentimento começa.

Cão Um está desaparecido (Lady Sybylla) - Conto segue Sashi, um soldado de Becha I que acorda após um bombardeiro e não consegue encontrar o Meca (Cão 1) que devia proteger. Ela percorre o campo de batalha onde cruza com os horrores e uma guerra futurista em ambos os lados e começa a questionar se está do lado certo da guerra.

Menina Bonita Bordada de Entropia (Cirilo S. Lemos) - Conto já resenhado aqui. É um conto de Cirilo S. Lemos que entraria facilmente na categoria Weird Fiction, "Ficção Esquizita" que busca o estranhamento estético. Na história, uma menina é encontrada em alto mar, ferida quando é salva por uma embarcação tripulada por demônios e um capitão robô, que impede que a menina seja servida de almoço pelos sonhos mas a menina frágil não é o que parece. A construção é muito eficiente em causar estranhamento e é muito rica em provocar imagens em nossa mente e vale muito a pena ser lida. 

Metanfetaendro (Alliah) - Conto tem o estilo experimental do new weird e segue uma artista cheia de dúvidas. Conto repleto de figuras de linguagem através de Geometria não-euclidiana. De fato um conto difícil de acompanhar, pois escolhe um caminho ousado. Difícil de entender mas me instigou o suficiente a buscar o livro (homônimo) para ler os demais contos.

Da Astúcia dos Amigos Improváveis (Santiago Santos) - Conto oriundo do blogue Flash Fictions, que traz uma história de guerra cheia de revelações. Os humanos vão a guerra contra os Drokkarianos com a ajuda de seres incorpóreos, chamados de celestiais que nos ajudam na guerra mas após o primeiro dia em campo de batalha com uma missão fracassada acabou levando o protagonista a caminhos que mudarão a forma de ver os lados da guerra.

O Apanhador do Tempo (Márcia Olivieri) - Conto começa com um tom de tribunal com um homem admitindo sua culpa. O desenvolvimento mostra que o destino do planeta está para mudar e tudo é sobre imortalidade.

Aníbal (Andréa del Fuego) - Aníbal mostra, em forma de lenda, um fim da raça humana como conhecemos, sobrevivendo dentro de outras formas de vida. O conto brinca mais com os termos da Ficção Científica que especula propriamente, porém é o suficiente para fornecer uma boa viagem a quem não se fixar tanto na validade dos termos. Particularmente, adorei a viagem!

A Última Árvore (Luiz Brás) - Tudo gira entorno da última árvore do planeta. A sua volta uma favela, cercada por uma redoma e partes de um robô cobiçadas pelo "dono" da favela em constante luta contra outras fações. Os temas da ecologia e um humor sutil, característico do autor, permeiam esse conto sensacional. Conto cheio de brasilidade sem tirar o olho de questões universais. Você pode ler o conto aqui.

Quinze Minutos (Ademir Assunção) - Unabomber está chegando. Sua chegada/invasão a Terra é narrada de forma urgente e enquanto o autor explora sobre o que se trata tudo isso. O último parágrafo é revelador mas não explica demais. A pressa impressa na forma de mensagens urgentes é alternada por uma poesia louca e embaralhada que entendemos no final.

Cibermetarrealidade (Tibor Moricz) - O mundo é de metal, cada ser com sua função. Tudo está em constante autoreparo mas para um engenheiro que ronda a cidade a autoconsciência é um risco de ser considerado, ele próprio, uma falha. O conto se equilibra bem entre uma metáfora e reflexões sobre consciência, num fluxo gostoso de ler e complexo ao mesmo tempo.

Los cibermonos de Lacombia (Ronaldo Bressane) - Conto é um relato em portunhol de um agente temporal em sua última missão na busca de um desertor que usa a tecnologia do futuro para fazer justiça com as próprias mãos. Dá-se entender que o português é uma língua morta e a ação se passa toda na Colômbia (ou Lacombia). A narrativa é carregada de humor, inclusive no seu desfecho. A obra faz parte da obra Mnemomáquina e o conto só fez meu interesse pelo livro aumentar.

2º Onda

O molusco e o transatlântico (Bráulio Tavares) - Um dos contos mais extensos da antologia e vale a pena. Acompanhamos um explorador espacial brasileiro em uma missão internacional pelo espaço em um estilo que lembra 2001, tanto pela forma de narrar quanto pela viagem profunda em um contato alienígena. Contudo, não se apegue nessa comparação. Bráulio vai por um caminho bastante instigante e parece que não vai levar a lugar nenhum até as últimas linhas, quando entrega um final de deixar pensando bastante.

Paradoxo de Narciso (Ivanir Calado) - Um cientista consegue regressar no tempo e encontra a si mesmo. A atração entre o eu experiente que tem sucesso no seu invento e o seu eu jovem que ainda estava lutando para conseguir desenvolver o invento que o levaria até o passado. Temos o paradoxo de narciso explicado na forma deste conto muito intrigante com um final muito irônico. Ironia que carrega o conto do início ao fim.

Visitante (Carlos Orsi) - Uma fada guerreira chega a uma terra estranha e é conduzida por ser (que narra a história) programado para recepcionar bem sua visitante mas os encantos da fada atrapalham sua programação. Parece maluco e de fato é, mas um mundo pós muitas coisas que é construído e ampliado a cada resposta que a visitante obtém. Conto deixa o leitor preso nesse mundo estranho e a condução é segura revelando cada camada aos poucos. 

Ostraniene (Lucio Manfredi) - Acompanhamos um agente em contato estreito com um chefe straiter da Ostraniene (chamado Zósima) uma organização oriunda da queda do bloco socialista que vivia em equilíbrio com a rival Malta mas quando Zósima deseja um chip com informações, a Ostraniene passa a realizar ataques pesados e cheios de alta tecnologia. O protagonista contudo parece ter a chave para derrotar Zósima. O conto prende pelo desenvolvimento que gera uma tensão bacana e soma bem com a estranheza de basicamente tudo. Tem referencias legais a Neuromancer, principalmente na metade final. 

Galimatar (Fábio Fernandes) - É certamente o trabalho mais otimista que já li do autor, que imaginou um mundo onde pudesse existir algo tão sensível e interessante como a linguagem Galimatar. O conto fala sobre uma Xamanesa que encontra um homem azul (pós-humano) em Adis Abeba, capital da agora EtiPópia. A história simples é envolta de uma construção de mundo em hábitos tão bem narrados que conseguem segurar o interesse do leitor até o fim.  

A máquina do saudosismo (Ataíde Tartari) - Acompanhamos um homem que devido a leucemia, decide congelar-se até um futuro onde pudesse ser curado. Quando o descongelamento dá certo, séculos depois, ele acaba sentindo muitas saudades do seu tempo a ponto de não conseguir socializar com as pessoas do seu novo presente. 

Estrela marinha no céu (Finisia Fideli) - Conto curtíssimo e sensível sobre tudo que poderia nos alcançar quando olhamos para o céu. Há um pano de fundo de história mas vale mais pelas reflexões.

As múltiplas existências de Áries (Finísia Fideli) - Este não é tão curto quando o anterior, mostra uma vida de um ser extraterreno que habita o corpo de um funcionário do Banco do Brasil. É um retrato rotineiro do ponto de vista de um ser extraordinário. As finas ironias, fazem desta uma leitura muito agradável. 

Coleira do amor (Gerson Lodi-Ribeiro) - Félix perdeu sua amada Theresa mas não consegue aceitar a perda pois tem um sistema inibidor instalado que o impede de parar de amá-la. O conto tem momentos finais muito tensos, que envolvem violência sexual. Apesar do exagero na descrição das cenas, consegue fazer uma boa discussão sobre o livre-arbítrio, em relação aos sentimentos, e o pós-humano.

A sereia do espaço (Jorge Luiz Calife) - Uma astronauta francesa é capturada por uma forma de vida misteriosa em Tritão, lua de Netuno. Depois acompanhamos Gustavo, namorado da francesa, que se promove o primeiro contato com essa nova forma de vida. Conto bastante instigante, mas com uma história bem simples, recheada de imagens bem construídas. Bom conto.

Tempestade Solar (Roberto de Sousa Causo) - Conto faz parte das aventuras de Shiroma, compiladas em Shiroma: Matadora Ciborgue, já resenhado no blogue. Neste conto Shiroma vai atrás de vingança contra seus tutores, Tera e Tiago. Foi um dos pontos altos do livro e, como conto isolado, é uma bela peça de ação. Gosto muito desta série. 

Acúmulo de Skinnot em Megamerc (Ivan Carlos Regina) - Conto que pinta com cores absurdas algo do cotidiano. O estilo do autor é bastante sarcástico e contundente, de uma forma que ao procurar o fantástico basta uma ida as compras para ver que tudo está ao nosso alcance.

Quando Murgau A.M.A. Murgau (Ivan Carlos Regina) - Nesta outra participação do autor, conhecemos os Murgau, uma raça alienígena com três gêneros em um conto que fala sobre o amor livre. Instigante e belo. 

O dia em que Vesúvia descobriu o amor (Octávio Aragão) - Vesúvia é a história de uma nação que poderia ser o Brasil. Além da referência ao vulcão que destruiu Pompéia, temos uma história de um colapso. É um conto bastante cheio de jogos de linguagem e referências. 

Caro senhor Armagedon (Fausto Fawcett) - Retirado do livro "Cartas do fim do mundo", o conto é uma carta ao Armagedon, pois este furou seu compromisso de terminar com o mundo, após tanto preparo por uma empresa contratada pelo sr. Armagedon. O tom de indignação dos empresários dá combustível para uma explicação de todos os preparativos, falando sobre nosso mundo. A linguagem é fluida e quase sem pausas. É a primeira leitura do autor, após Santa Clara Poltergeist. O estilo próprio, eloquente e inquieto está nesse conto também.

1º Onda

O Grande Mistério (André Carneiro) - Conto narra uma trama política em que o sexo é parte do jogo, e tudo é tratado com uma naturalidade diferente. Isso faz realmente sentirmos em um lugar distante no tempo e essa sensação é o maior atrativo do conto.

A Ficcionista (Dinah Silveira de Queiroz) - É uma narrativa metaficçional, em que o controle criativo de vários autores estão sob controle de uma invenção que aglutina as pautas das ficções. Um dos contos mais extensos da edição. Preciso reler para captar melhor as nuances e melhora minha impressão do conto.

Chamavam-me de Monstro (Fausto Cunha) - Conto é um relato de um habitante de Ghrh que está na Terra tentando se adaptar as proporções tempo, espaço e prioridades alimentares enquanto ocupa de corpos humanos até bancos de praça. O relato também conta das diferenças entre o seu planeta natal e contextualiza uma guerra que coloca o ser humanos como sequer dignos de nota. Lembra bastante a sensação que o Guia do Mochileiro das Galáxias busca passar sobre a humanidade mas de uma forma que me agradou muitíssimo mais - apenas relevem que não sou fã da saga de Douglas Adams.

O Elo Perdido (Jeronymo Monteiro) - Flávio e Berenice realizaram o sonho de ter um filho porém ele nasceu muito diferente. O doutor Bernstein não sabe se trata-se de uma mutação mas suspeita que seja tudo tenha relação com o elo perdido. O conto narra a vida de Carlos e a adaptação de seus pais a condição única do filho. 

Morte no Palco - (Rubens Teixeira Scavone) - Conto bastante introspectivo sobre um último suspiro no espaço. Acompanhamos as reflexões do protagonista sobre o universo e sobre momentos com sua família. Conto para se ler devagar, saboreando as frases e esquecer o enredo.

Neste vídeo, que saiu no Diário de Anarres, no YouTube, falo do livro de uma forma geral




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segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Resenha #199 - Marighella #livre (Rogério Faria, Ricardo Sousa, Jefferson Costa)


"Marighella #livre" é uma HQ da Editora Draco de 2020. Tem roteiro de Rogério Faria e desenhos de Ricardo Sousa e Jefferson Costa. A HQ não foi feita para fazer média com o leitor, muito menos se desculpar de qualquer coisa. É uma celebração e uma biografia dos momentos mais intensos da vida do guerrilheiro que foi preso diversas vezes apenas por ser comunista. Apesar de Marighella ser mais conhecido por sua trajetória durante a Ditadura Militar, onde entrou para a guerrilha armada, a história mostra momentos onde foi torturado na era Vargas, mostrando que a tradição do autoritarismo não nasceu em 1964. A história vai e vem no tempo enganchando momentos até o ápice trágico. A opção pelos desenhos em preto e branco ajuda o leitor a entrar no clima de época e valoriza principalmente a sequência final. Não adianta nada curtir a estética cyberpunk e seus heróis revoltosos e cheios de atitude e ignorar nossos próprios exemplos de revolta.

Marighella Vive!
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segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Resenha #198 - Blade Runner 2019 p1 (Michael Green, Mike Johnson, Andres Guinaldo)


"Blade Runner 2019" é uma HQ lançada no Brasil pela Excelsior em 2020. Roteirizada por Michael Green (Roteirista do filme Logan e Blade Runner 2049) e Mike Johnson (Já roteirizou HQs de Batman, Superman e Star Trek) e com artes do espanhol Andres Guinaldo, que já desenhou mais de 185 histórias dos principais estúdios de HQ. Trata-se do volume #1 que reúne 6 das 12 publicações em capa dura. As páginas finais falam de quatro volumes no total, além de uma sequência Blade Runner 2029. Contudo, até agora só encontrei a primeira parte. Particularmente não gosto de publicações seriadas e só percebi o #1 quando abri a encomenda (culpa minha, eu sei), prefiro um volume único a ter que aguardar sabe-se lá quanto tempo para o próximo volume. Contudo, uma vez que esse é um dos meus universos preferidos e o volume já estava na minha mão, parti para a leitura e não me decepcionei.

Achei as artes bonitas, puxadas para o realismo. A história seque a linha de sempre dos cyberpunks: uma pessoa fudida, numa cidade fudida aceita um trabalho fudido e enfrenta vilões fudidos. Gostei da linha investigativa do início, do raciocínio, dos métodos e dos questionamentos de Ash (a protagonista) e entregaram bem os motivos e as consequências da sua situação. As cenas de ação achei um pouco forçadas, com a Ash derrotando inimigos como se fosse o Rambo. O forte dela é a investigação e não o combate. Voltando as artes, gosto mais das artes que passam a dureza da vida de Ash (felizmente isso acontece na maior parte dos quadros) ao invés de mostrar sua beleza, como na segunda capa do volume. O lado ruim é não saber o fim da história após virar a última página, mas como disse, a culpa foi minha mesmo. 
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segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Resenha #197 - Vaporpunk (Org. Gerson Lodi-Ribeiro e Luis Filipe Silva)


"Vaporpunk - Relatos steampunk publicados sob as ordens de Suas Majestades" foi a primeira antologia da série Mundo Punk, que além de um segundo volume, trouxe antologia de Dieselpunk, Solarpunk e Cyberpunk sendo uma das minhas séries de antologias favoritas. Este volume optou por poucas histórias e de maior fôlego, noveletas, buscando se aproximar de outro subgênero: História Alternativa. Ambos os subgêneros tem pontos de contato, como a ideia de reescrever o passado e imaginar como teria sido, mas ao contrário da HA, o Steampunk não tem obrigação com o realismo podendo inserir personagens de livros como pessoas e até elementos mágicos elevando o hibridismo com outros gêneros e subgêneros, como o Terror, a Fantasia. Se começarmos com o livro Steampunk original A Máquina Diferencial de William Gibson e Bruce Sterling, já notamos que apesar de basear-se em algumas premissas da HA, a inserção de personagens tirados de livros já mostra que o Steampunk já nasceu com uma identidade própria. Infelizmente a estética do movimento é ainda muito atrelada a glamourização da era vitoriana revisitada pela tecnologia a vapor, e nem tanto pelo aspecto crítico que Sterling e Gibson trouxeram do Cyberpunk, que é o lado punk, da atitude e rebeldia. Steampunk tem muito mais a ver com fumaça derretendo os pulmões de operários das fábricas que trajes de gala com adereços metálicos.

A Fazenda-relógio (Octávio Aragão) - O livro abre com uma história curta, que traz as máquinas a vapor em 1880 substituindo em massa os escravizados da fazenda Nossa Senhora Conceição em Jundiaí, mais outras nove fazendas através do Barão de Mauá e Dom Pedro II. Os escravizados, agora livres, iniciam uma revolta pelo abandono e a falta de lugar para eles nessa nova sociedade mecanizada. Ambrósia começa o conto vendo a primeira fazenda queimar sob a ira da revolta. Conto tem uma trama instigante que expande para além dos limites da fazenda e chega a alta cúpula da corte. É estranho a chegada das máquinas ser em 1880, pois a escravidão já estava entrando em colapso sendo o choque com a chegada das máquinas exagerado. Se essa chegada se desse ao menos quatro décadas antes, o impacto seria mais interessante. Contudo, esse detalhe está longe de estragar o conto.

Os oito nomes do deus sem nome (Yves Robert) - É uma noveleta de espionagem onde dissidentes portugueses auxiliam um francês e um inglês a descobrirem o segredo de Portugal se elevar a potência que rivaliza com a França e a Inglaterra. Desses, é sabido que a Inglaterra desenvolveu as máquinas a vapor e a indústria pela Máquina Diferencial e os franceses desenvolveram a telecinese e a inteligência com agentes altamente capacitados, contudo ninguém sabe o segredo de Portugal e quando o grupo descobre que o rei vai conferenciar secretamente em sua casa de campo é que o grupo parte em missão para descobrir o segredo. A primeira cena do conto já dá indícios bem claros que o poder português é obtido através de feitiçaria africana. Isso acaba entregando mais do que o razoável para manter o suspense, ainda que o final seja bastante surpreendente e catártico.

Os primeiros Astecas na Lua (Flávio Medeiros Jr.) - A novela conta de uma missão do governo francês para investigar a primeira missão espacial inglesa em um Séc. XIX imaginado entorno de uma guerra fria entre França e Inglaterra, tendo Jules Verne e H. G. Wells como ministros das ciências de seus países. O mundo construído é bem imaginado mas as inserções das homenagens (muitos personagens dos livros aparecem no gabinete de guerra francês) foi bastante atropelada, sem adicionar a trama de fato, principalmente os que se ligam a obra de Verne, enquanto as homenagens ao Wells foram mais coesas pois é onde se passa boa parte da ação. O trabalho acabou se tornando posteriormente um livro de contos (Homens e Monstros, 2013) e não um romance, mas quando resenhar este livro linkarei devidamente aqui! 

Consciência de Ébano (Gerson Lodi-Ribeiro) - Jorge Anduro é convocado para entrar em um grupo secreto da nação de Palmares, que guarda e gere seu maior segredo e trunfo militar e estratégico. Trata-se de uma criatura mitológica que foi treinado por Zumbi, um Dentes Compridos, um vampiro. O agente não aceita a ideia de um vampiro como aliado e arma um plano para eliminar o que considera um mal. O conto é ambientado com excelência, acertando em cheio ao pensar em modos de tratamento e traços culturais originais para os palmarinos, o que facilita a apreensão desta história alternativa. O que fica devendo são os motivos do protagonista para a traição, que ficaram pouco trabalhados, mas nada que comprometa a história. 

Unidade em Chamas (Jorge Candeias) - O famoso diálogo atribuído a Ernest Remingway ("Quem estará nas trincheiras ao teu lado?/ E isso importa?/  Mais do que a própria guerra.") embala a noveleta do português Jorge Candeias. Seguimos Sidônio, um oficial do corpo aéreo luso nas vésperas da invasão francesa, que alastrava-se no velho continente. Neste mundo os irmãos Gusmão desenvolveram a tecnologia a vapor criando as passarolas. Naves movidas a gás e ar quente que conseguiam elevar as naves. Eram um segredo militar que era operado apenas por alguns destacamentos até que por ordem do rei, as companhias dos Minorcas (como os portugueses brancos eram chamados pejorativamente) e os Coloniais (africanos, indianos e brasileiros) foram forçados a formar um único corpo aéreo para atuar na defesa do reino dos franceses. Acompanhamos Sidônio que descreve sua adaptação aos novos companheiros numa relação cheia de atritos principalmente por causa do racismo. O desenvolvimento dessa relação toma praticamente toda a extensão da novela no treinamento e formação das naves que eram sempre mistas, deixando a ação apenas para o final. A cena final é de tirar o fôlego e quase compensa do desenvolvimento extremamente lento, principalmente porque não foca em nenhuma relação em específico. Sidônio não faz nenhuma amizade digna de suas próprias notas o que o deixa como um narrador pouco interessante. Contudo a impressão final levanta muito a apreciação ao final da leitura.

A Extinção das Espécies (Carlos Orsi) - Acompanha um jovem naturalista inglês (provavelmente Charles Darwin) em suas andanças pela América do Sul, onde encontra a guerra de domínio na patagônia contra os indígenas mapuches na Argentina em um mundo em que o elán existe e é derivado do vis viva (termo de Leibnitz) e o domínio dessa tecnologia (por Luis Adolfo Morel, personagem de Adolfo Bioy Caseres) aliado a tecnologia de um alemão, fabricante de autômatos eleva o nível da crueldade do massacre. É interessante ver o mesmo conceito explorado em um dos contos de "Campo Total" e não vou dizer qual pois a revelação é importante e vale a pena saber.

O Dia da Besta (Eric Novello) - Se passa num Brasil com tecnologia apurada na eminencia da Guerra do Paraguai e a Princesa Isabel é uma aviadora aliada a piratas e a influência de Napoleão III e a chegada de uma nova arma que pode sair de controle. O conto é bastante divertido, ainda que não tenha qualquer preocupação científica ele compensa pelo carisma dos personagens. Acompanhamos o Conde de Taunay e seu fiel amigo, Carenza, um exímio atirador e junto com a Princesa Isabel investigam misteriosos ataques de uma besta sedenta de sangue.

O Sol de Cada Dia (João Ventura) - Conto baseado na vida do padre Manuel Antônio Gomes, conhecido por Padre Himalaya pela sua altura, que foi um dos primeiros pesquisadores do uso da energia solar, chegando a desenvolver um pyrheliophero, que tinha diversas aplicações energéticas, de metalurgia até um carro movido a energia solar. A história carece de problemas para o protagonista resolver e os que aparecem tem pouco impacto no enredo.
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segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Resenha #196 - Revista Mafagafo 1ª Edição (Jana Bianchi org.)

 

A Revista Mafagafo é uma das mais importantes revistas de FC e Fantasia do Brasil. Publica contos de forma gratuita com uma excelente produção, edição e artes lindíssimas. Começando com os mafagafos fofos e misteriosos e as artes internas que captam bem os contos. O diferencial é que os contos são publicados em partes. São cinco contos, divididos em quatro partes que foram publicados mensalmente. Uma experiência bem diferente, que deve ter sido especial para quem acompanhou e aguardou o lançamento de cada parte. Infelizmente (ou não) pude ler todas as partes em sequência, o que não é a mesma coisa, por isso não vou comentar as edições em separado, mas vou dividir pelos contos.

Tons de Rosa (Fernanda Castro) é uma narrativa que consegue dar vida a Lenda do Boto. Acompanhamos Maíra, uma assistente social que busca ajudar os ribeirinhos paraenses a evitar mortes por afogamento. As famílias se consolam com a crença de que as crianças que se afogam, na verdade, são filhos do boto. Maíra decide investigar, esse mistério que junto com a ambientação imersiva do clima e cenário da amazônia tornam o conto muito envolvente. A escrita de Fernanda Castro nos transporta ao cenário, diálogos francos e sinceros dos personagens os tornam muito críveis e a condução da trama colocam esse conto como o melhor da edição, na opinião deste que vos bloga.

<deletado> (Rodrigo Assis Mesquita) é uma FC cyberpunk que conta a história de <deletado>, um programador que desenvolve um software que registra a história em tempo real, mas passa a ser vítima de um complô envolvendo um sinistro uso do programa, terroristas que tem suas identidades e registros completamente apagados do sistema. A narrativa é tradicional porém permeada de elementos que parecem registros e ações de um computador. Já sabemos o destino de <deletado> , foi deletado, algumas ações dele são editadas e reescritas, imergindo a leitura em linhas de código de programação. Essa ideia não foi apenas muito criativa mas também foi bem aplicada.

Pé de Coelho (Eric Novello) traz uma história ambientada no universo de seu livro Neon Azul. Acompanhamos Diana, que está buscando informações sobre um mafioso conhecido como Alquimista. O conto se passa praticamente num local de encontro com uma possível fonte, uma sinistra pessoa vestida de coelho. São revividas antigas mágoas envolvendo o mafioso, o pai de Diana num acerto de contas. O conto é envolvente, num jogo mental de gato e rato em que as posições mudam a todo momento. Diálogos bem feitos e o mistério na figura do coelho conseguem prender o leitor. Já me interessei pelo livro desse mundo, Neon Azul.

Encantadores de Dragão (Rodrigo Van Kampen) é uma fantasia sobre dragões e uma menina que queria ser uma Maga, quando é convidada por Hugo, um mago encantador de dragões que a recruta como assistente. Contudo a torre onde Hugo vive não é nada do que ela imaginava e Maiara enfrentará um grande desafio com ajuda da Gnoma Berg. Conto tem uma trama boa e um tom juvenil que refresca a alma. Indicaria para qualquer jovem ler.

Eterna: A Cidade Proibida (Roberto de Sousa Causo) O último conto da revista é um Steampunk no mesmo universo do conto do autor na antologia Steampunk da editora Tarja de 2009. Nessa nova aventura de Ulisses Brasileiro, tenta se refugiar em Eterna, uma cidade hipertecnológica camuflada no interior do Brasil. O local parecia um refúgio mas uma cisão no governo da cidade pode ajudar os planos do vilão Robert Robida, um pirata arqui-inimigo de Ulisses. A narrativa de aventura e ideia da cidade garantem a diversão e a imersão no mundo Steampunk. As mulheres podem ficar incômodas com a quantidade de vezes que os seios das eternenses, que usam vestidos no estilo cretense.


 


A revista compensa muito, ainda mais que é possível baixar de graça no site próprio da revista. Em breve, resenharemos o ano seguinte da Revista no blogue!


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segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Resenha #195 - A Fila (Bazma Abdel Aziz)


"A Fila" foi escrito em 2013 e lançado no Brasil apenas em 2018, pela ativista egípcia Basma Abdel Aziz. É uma distopia embalada pelo desgosto com a primavera árabe escrita antes da ascensão da Irmandade Muçulmana no Egito dando ao livro, inclusive um aspecto premonitório senão uma excelente leitura política do país. 

A história acompanha um país árabe não especificado onde o regime totalitário ascende após uma revolução fracassada. O novo governo centraliza até as menores decisões obrigando a população a recorrer ao portão do Edifício Norte, passando a ser conhecido apenas como O Portão. Os personagens principais estão aguardando na fila, com os motivos mais diversos, muitas vezes banais outros com problemas urgentes.

O mais próximo de um protagonista é Yehya Saeed, que busca uma requisição para fazer a remoção cirúrgica de uma bala, desde que foi alvejado durante uma tentativa de tomar o Portão, nos chamados "Eventos Execráveis", contudo o governo nega a existência de tiroteios, logo a bala alojada no corpo e Yehya é negada. Enquanto isso o médico Tarek, que atendeu Yehya lida com o medo de ser apanhado fazendo algo proibido e o desejo de curar Yehya. Acompanhamos outros personagens, como Amani, a namorada de Yehya; Um Mabrouk que explicita a situação das mulheres no Egito, ops digo... nesse país árabe sem nome; um jornalista que organiza alguma resistência e o primo de um dos soldados do Portão que morreu durante os Eventos Execráveis.

O grande mérito de A Fila é como a autor desenha na vida cotidiana dos personagens a influência de um governo totalitário, muito menos pela repressão física e uma presença ameaçadora onipresente, como o clássico 1984 de Goerge Orwell, mas muito mais pelo abandono das necessidades dos seus cidadãos. Isso aproxima A Fila d'O Processo de Franz Kafa pelo absurdo da situação. A obra foi lançada apenas em 2018 no Brasil e infelizmente passou desapercebida. O absurdo do governo do Portão e o drama de Yehya servem de prenúncio macabro do drama de milhares de brasileiros mortos pelo COVID-19, que assim como Yehya, foram pegos por eventos fora do seu controle e são abandonados pelo negacionismo do governo que deveria assisti-los. O Portão brasileiro, consegue ser mais absurdo que o Portão imaginado por Bazma e apesar de todos as negações, segue inabalado no seu absurdo.

Este livro tem resenha em vídeo no Diário de Anarres, no YouTube



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