segunda-feira, 10 de maio de 2021

Resenha #182 - Missão Infínity / Mais um dia glorioso em Tau Ceti / Kamikase (Lady Sybylla)




Hoje vamos falar de três contos de Lady Sybylla, que são fáceis de encontrar na Amazon. Eu mesmo li esses pelo Kindle Unlimited, sistema de empréstimo de obras de parte do catálogo. Os contos são: "Missão Infinity", "Mais um dia Glorioso Tau Ceti!" e "Kamikase" são boas amostras do talento da autora e pode servir de estímulo para pegar um dos seus romances.

"Mais um dia Glorioso Tau Ceti!" conta da jovem Idara que vive numa colônia tentando sobreviver ao abandono em todas as esferas possíveis. É obrigada a suportar a rádio que liga automaticamente todo dia. Algo que representa bem o abandono da colônia. Contudo, não é um dia comum, tampouco glorioso, pois um ataque terrorista coloca Idara no fogo cruzado. O conto consegue se focar na história da protagonista e tornar a ambientação relevante e significativa com a linha principal da história. Conto é bem escrito e executado. Tão bom que me fez buscar outra obra da autora.

Já em "Missão Infinity", é um conto mais extenso que aborda a primeira missão tripulada a Marte. A escrita aqui é mais concisa, focada no enredo que gira entorno dos mistérios que a tripulação da Infinity encontra em solo marciano, e se mostra o suficiente para prender o leitor, reservando surpresas e uma virada muito boa no final da história.

Por fim "Kamikase" imagina em três atos, debate nossa existência e relevância no universo. Temos três atos, no primeiro, uma bióloga fala defende que o ser humano, não pode mais se preocupar em não contaminar o universo com sua matéria biológica e que deveria se espalhar pelo cosmo, colonizando planetas. No segundo ato, temos uma consequência desesperada da ideia defendida no primeiro ato e no terceiro, um certo fatalismo misturado com um pouco de esperança. Vale muito a leitura!

p.s. Tem um vídeo no Diário de Anarres, em que falo dos mesmos contos. Entra lá para conferir!



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segunda-feira, 3 de maio de 2021

Resenha #181 - Back in the USSR (Fábio Fernandes)


"Back in the USSR" do Fábio Fernandes é um ponto fora da curva na Ficção Científica e, principalmente, no subgênero de História Alternativa onde se destaca o humor aliado a metalinguagem sobre a imortalidade. O mundo alternativo que o autor construiu parte do fato que o Método de Ressurreição de Frankenstein® foi refinado, patenteado pela empresa Ewigkeit e usado em larga escala, principalmente por reis, artistas pop e magnatas perpetuam desde que ressuscitados nas primeiras horas após a morte. As mudanças políticas são no mínimo curiosas: Os EUA nunca se tornaram uma potência pois sequer chegaram a se formar enquanto a União Soviética foi desmantelada com a volta dos Romanov ao poder travando uma Guerra Fria com a República de Weimar, após a vitória da Alemanha na Grande Guerra (a 2GM não foi necessária).

Nem tudo mudou: ainda tivemos os Beatles, ao menos, até o fim dos anos 1970 e John Lennon. Ok, ele é assassinado por Mark Chapman em frente ao hotel Dakota e é ai que começa a trama. Lennon é ressuscitado contra sua vontade (ele havia deixado uma ordem de não ressuscitar) e "convidado" a fazer um show na Rússia. Passamos a acompanhar Lennon em um jogo de poder e influência entre as potências e a quase onipresente Ewigkeit (Eternidade, na língua de Marx). A trama alterna entre a segunda vida de Lennon (com alguns flashbacks) e momentos que mostram como esse mundo foi ficar assim tanto geopoliticamente quando mostra como alguns pensadores e literatos pensam sobre o Método®. Tudo isso condizido com agilidade pela escrita fluida do autor (li as quase 220 páginas em dois dias), que consegue deixar as falas naturais e deixar interessantes até as suas partes mais descritivas.

"Back in the USSR" é, como toda obra com elementos metalinguísticos, um refresco necessário para quem lê bastante porque é fácil se acostumar a convenções (e a FC tem muitas) e é preciso sempre relembrar da necessidade de pensar fora da caixa e imaginar fora dela também.

p.s. tem vídeo no Diário de Anarres sobre esse livro!


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segunda-feira, 26 de abril de 2021

Resenha #180 - A telepatia são os outros (Ana Rüsche)


"A telepatia são os outros" de Ana Rüsche é, na minha humilde opinião, um dos melhores livros de FC brasileiros dos últimos tempos. Já figurou em mais de uma lista que fiz no Diário de Anarres no Youtube, pois me empolgou bastante. Contudo, pretendo não deixar que a empolgação atrapalhe a objetividade de preparar o leitor para o que pode vir, então vamos, lá.

A obra é repleta de acertos que vão desde a escolha do tema, localização, personagens femininas relevantes, que são sustentadas por uma prosa habilidosa que me faz pensar em nomes como Úrsula Le Guin e Margaret Atwood. Diferente do habitual dessas referencias sensacionais, Ana traz um romance curto que ainda assim consegue proporcionar uma viagem profunda e tocante.

O foco central do romance é a telepatia. Ela não aparece como uma alta tecnologia saída de um laboratório ocidental mas é descoberta pelo mundo, como um chá enjoativo e forte, utilizado a centenas de anos por ameríndios no Chile. Não seria a primeira riqueza da América Latina pilhada desavergonhadamente. Essa tecnologia, no entanto, teve pouco espaço na FC, desde os anos 50, passando, sem protagonismo por Philip K. Dick e Úrsula Le Guin. A telepatia só ganha protagonismo em obras sem interesse em abordar o seu aspecto tecnológico, onde ela é apenas um superpoder, como nas HQs, ou maldição, como, por exemplo, em Uma Pequena Morte, de Robert Silverberg.

Acompanhamos, na história, Irene que está de viagem ao Chile buscando reorganizar a vida, após a morte da mãe, ao qual estava muito apegada, passando seis semanas numa escola de meditação e logo se vê meio ao rebuliço da descoberta do chá telepático pelo resto do mundo, vazado por um estadunidense, que leva a descoberta aos EUA. A obra pode ser dividida em dois grandes momentos. O tempo de Irene na escola de meditação, e depois, após o segredo ganhar o mundo, acompanhamos os personagens em Santiago. A partir daí, abre-se uma corrida para conciliar o chá a internet, chamada pelo mundo anglofano de Brainnet. Uma patente feita com tecnologia roubada, que ironiza a sina da exploração pela qual América Latina é submetida.

Os personagens são muito bem construídos, inclusive os coadjuvantes, pois a autora amarrou bem o uso do chá aos segredos mais profundos de cada personagem. Irene e Lúcia evoluem em meio a constante volta do passado doloroso, são as mulheres fortes da trama enquanto o vingativo e passional Paco e o melancólico e racional Jorge parecem se afundar nos seus polos.

"A telepatia são os outros" é uma aula de literatura, consegue nos cativar com personagens humanos e temas relevantes e consegue tudo isso em pouquíssimas páginas. Aguardo ansiosamente pelos próximos trabalhos desta autora.
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segunda-feira, 19 de abril de 2021

Resenha #179 - Ìségún (Lu Ain-Zaila)


"Ìségún" é uma novela de ficção científica da escritora Lu Ain-Zaila, que se classifica como cyberfunk, uma variação do cyberpunk. Essa mudança não é apenas lançar moda ou apenas estético. É uma mudança filosófica que faz toda a diferença. A obra faz isso mudando a forma de encarar a distopia.

Distopias, sem querer teorizar muito, é uma forma que a FC retrata o oposto da Utopia, construindo futuros em que tudo deu errado (de forma irremediável) seja por ditadura, tecnologia, catástrofe ambiental ou a combinação de dois ou mais desses elementos. Já a narrativa utópica pressupõe uma história onde a sociedade evoluiu atingindo objetivos que hoje são apenas vontades. A Utopia de Thomas Morus, assim como as distopias clássicas (1984, Farenheit 451, Admirável Mundo Novo e, como gosto sempre de acrescentar, O Conto da Aia), fazem, a seu modo, críticas a sociedade atual, usando modelos perfeitos ou desastrosos. A utopia, porém, é mais que apenas um mundo perfeito. É um horizonte para se perseguir que quando se realiza deixa de ser utopia para ser realidade para então dar vazão a novas utopias no horizonte. Onde Ìségún entra nisso tudo?!

Acompanhamos Zuhri uma detetive do NCCOAH (Núcleo de Combate a Crimes da Ordem Ambiental-Humana) incumbida de investigar a morte do Dr. Diop, um pesquisador da Alphabio Tech. Zuhri percorre os meandros da Cidade Alta e Cidade Baixa em um mundo onde a degradação ambiental fez os poderosos buscarem as áreas mais elevadas para escapar da contaminação radioativa, enquanto a Cidade Baixa vive prensada entre os limites murados da Cidade Alta e a nuvem tóxica que contamina ao nível do mar. Além do mistério do crime, Zuhri precisa entender sua conexão com Ayomide, que veio da África cheio de mistérios ancestrais que tem profunda relação com Zuhri.

Zuhri vive num cenário distópico cyberpunk clássico mas a diferença está além do fato da protagonista ser negra e momentos de afirmação que vão além de retratar o sofrimento (o que já é ótimo) mas no elemento de agregação social entre o povo que vive oprimido. Está na comida boa e barata da Tia Cita; na ajuda que o pessoal do barracão da escola de samba da região dá a Zuhri; na rebeldia da rádio pirata, principalmente por essa rebeldia ser consciente e não ser um grito desesperado. Apesar de a sociedade em geral ter chegado aquele ponto de degradação ambiental e social, diferente das distopias clássicas, ainda há esperança e ela é pungente na vida cotidiana que é mostrada em paralelo a investigação de Zuhri. Essa esperança e esse cotidiano se entrelaça de forma mais orgânica aos mistérios do livro que a própria investigação de Zuhri e é isso que faz a novela brilha, e faz tudo isso sem que a investigação se torne irrelevante.

A escrita flui bem como uma aventura, sem permitir que os aspectos mais profundos da trama pesem a leitura e, tampouco, que a aventura se torne pueril. É uma obra consciente do que fala e sabe onde encaixar essa consciência de forma fluída em poucas páginas. Leitura obrigatória e prazerosa para quem quer conhecer o afrofuturismo e o que está rolando de novo na FC no Brasil.
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segunda-feira, 12 de abril de 2021

Resenha #178 - Era de Aquária (Coletivo KriptoKaipora)


"Era de Aquária" é uma publicação do coletivo KriptoKaipora capitaneados por Nelson de Oliveira, e criaram esta verdadeira obra da coletividade. O livro é uma coleção de contos com a ambientação em comum num futuro distopico, entre os anos 2050-60, onde a água ocupou quase todas as faixas de terra na superfície. Os acontecimentos do livro se passam no que restou de São Paulo, agora, Nova Piratininga. 

Os contos podem ser lidos separadamente mas juntos ganham força pois formam um mosaico rico e bem explorado como ficção científica, uma vez que esse mundo urbano submergido vai ganhando cores humanas a cada conto. Os contos conseguem se aprofundar nos personagens com muita agilidade, em comparação a outras coleções de Ficção Científica e ir direto ao que está acontecendo com cada um pois não precisam gastar linhas para se contextualizar a cada história.

O trabalho coletivo apresentado aqui lembra a série Wild Cards, guardadas as devidas proporções. Como em toda antologia, alguns contos vão agradar mais que outros mas mesmo os que não me chamaram tanto a atenção não destoam ou atrapalham a construção de mundo o que é o diferencial do livro, pois coletâneas de vários autores é difícil controlar e estreitar a discrepância entre os melhores e os piores, mantendo a qualidade. Era de Aquária consegue esse equilíbrio, pela proposta, pelo respeito ao tema e por ter sido uma leitura que me divertiu e agradou bastante. O destaque individual vão para "UIARA (Nathalie Lourenço), "Vias de fato, linha reta, caminhar" (Ricardo Celestino) e Uma constelação de estrelas adormecidas (Luiz Brás) muito devido a habilidade na escrita que conseguiu imprimir a brasilidade nas linhas desta Ficção Científica brasileira que está cada vez mais brasileira.
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segunda-feira, 5 de abril de 2021

Resenha #177 - Viajantes do Abismo (Nikellen Witter)


“Quando o caos tomou conta de tudo o que conhecia, Elissa Faina Till passou a acreditar que o prenúncio do desastre estivera encerrado em um minúsculo grão de areia. Aquele mesmo que ela havia retirado das dobras da saia de seu vestido de casamento numa terça-feira, quando o experimentou pela primeira e única vez.”

Assim começa a primeira parte do romance Viajantes do abismo, uma ficção científica steampunk escrita pela historiadora gaúcha Nikelen Witter. Já conversamos sobre outra obra da autora − Guanabara Real: a alcova da morte − que Nikelen escreveu junto com Enéias Tavares e A.Z. Cordenonsi, mas aqui ela brilha sozinha em outra obra steampunk. Desta vez, ao invés do tom aventureiro predominante no subgênero e da abundância da estética neovitoriana, temos uma abordagem mais voltada à reflexão sobre o meio-ambiente, ao mesmo tempo em que a autora faz um trabalho mais profundo de construção de sua protagonista.

Acompanhamos a história de Elissa, que vive na cidade de Alva Drão e está prestes a se casar com Larius Grey, um político em ascensão dentro do partido governista que está no poder da Tríplice República, quando é abandonada no altar. Passado algum tempo, Elissa tenta seguir sua vida como curandeira, quando a guerra entre governistas e independentistas chega a sua família. Obrigada a fugir, Elissa encontra a amizade de Tyla, dona de um bordel na cidade de Alephas, de uma menina misteriosa que aparece e desaparece como uma alucinação e de um andarilho que sempre traz o caos por onde passa.

Nesse mundo steampunk, a estética das tecnologias a vapor aparece em detalhes, e há pouca menção à estética neovitoriana, o que pode descontentar o leitor mais apegado a essas convenções do subgênero. Elissa evolui de moça submissa até se afirmar em um mundo completamente desfavorável, ao mesmo tempo em que a guerra logo se relaciona à degradação das áreas verdes, pelos desertos que se expandem em grande velocidade. A amizade com Tyla e com a irmã cientista, Teodora, tem forte papel nessa transformação. Infelizmente as duas personagens receberam pouco espaço. A história pedia uma relevância maior delas, ainda mais por se tratar de uma obra extensa, que se permitiu a abertura de alguns arcos secundários.

A decisão de concluir a história em um único livro agrada muito em um mercado empanturrado de narrativas divididas em trilogias, ou em séries, com primeiros volumes meramente introdutórios. Desta forma, as trezentos e quatro páginas de Viajantes do abismo fluem bem, pois a escrita é atraente, com reflexões maduras. Outra coisa que agrada é a trama rica em acontecimentos relevantes, que conectam os elementos construídos minuciosamente na primeira metade do livro. Isso não deixa que os acontecimentos soem forçados, por mais malucos que sejam. O leitor que ao abrir o livro espera encontrar uma mera aventura steampunk para admirar a estética elegante terá uma grata surpresa ao encontrar uma jornada de autoconhecimento e também da valorização do mundo.
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segunda-feira, 29 de março de 2021

Resenha #176 - Tempos de Fúria (Carlos Orsi)


"Tempos de Fúria" é uma coletânea de contos de um dos melhores contistas em atividade na Ficção Científica e nesse livro temos o autor em sua melhor forma. Os contos tem em comum o uso da violência sem restrições, a tendencia de misturar FC com o terror e a engenhosidade e criatividade nas histórias que tanto nos fazem amar este gênero. Resenhei a segunda edição que vem com mais contos e a seguir vou comentar os contos em separado.

"Imagem e Semelhança" acompanha um sujeito perturbado por usa obsessão em alcançar a Deus, não poupando ninguém, nem o investigador que é aprisionado e passa grande parte da narrativa ouvindo toda a jornada do protagonista. É como um vilão contando seu plano maléfico que acompanhamos a história e o autor consegue prender o leitor instigando a curiosidade sobre o desfecho. 

"Estes 15 minutos" um papo de bar no pé de uma favela carioca entre um membro do Comando Vermelho e um malandro viajado desencadeia uma onda de assaltos usando a distorção da realidade como subterfúgio. O autor consegue aliar o cenário e personagens bem brasileiros com quebras da realidades no estilo de Philip K. Dick e o final guarda boas surpresas. 

"Questão de Sobrevivência" é um cyberpunk como deve ser escrito para o cenário brasileiro. Pinta a divisão favela e asfalto, interesses políticos e personagens marginalizados, trabalhos perigosos bem ambientado no Brasil. Na historia acompanhamos um grupo de milicianos interceptando uma carga de leite materno que se torna vital para as crianças da comunidade pois as mulheres do "Campo Fidel" estão contaminadas pela radioatividade. Conto publicado também no Livro Assembléia Estelar resenhado aqui.  

"Pressão Fatal" se passa numa estação de pesquisa na órbita de Vênus onde o detetive Henri Bernardin investiga a morte de um membro da tripulação. A narrativa segue um tom e estrutura detetivesca tendo Bernardin um Sherlock Holmes, excêntrico, sagaz e sempre com uma resposta lógica quando contrariado. 

"Planeta dos Mortos" conta a história de um soldado em sua primeira missão de campo em Vênus, com o objetivo de investigar uma estação de pesquisa durante o processo de terraformação do planeta. 

"Desígnios da Noite" acompanha Marco, um gladiador moderno que busca vingança pela morte de sua ex-esposa com muito sangue e um mistério envolvendo uma seita astrológica.

"A Aventura da Criança Perdida" é um thriller de espionagem que faz vários personagens girarem em torno do desaparecimento de uma criança. O conto é curto, o que não favorece a construção dos personagens mas puramente do enredo e da ironia que marca o destino de alguns personagens. 

"Colosso de Bering" brinca com universos alternativos quando um escritor em crise criativa encontra um amigo que havia falecido há dois meses e conta tudo que viu. O final tem uma sutileza sutil que com uma palavra muda tudo.
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segunda-feira, 22 de março de 2021

Resenha #175 - Gigante Pela Própria Natureza (Nelson de Oliveira)


"Gigante Pela Própria Natureza" é um romance de Nelson de Oliveira que concorreu ao prêmio Kindle em 2020. A obra apresenta várias subversões surrealistas na linguagem literária, das descrições mais corriqueiras até a estrutura da história. A história começa com um homem que se envolve com uma mulher negra-índia-amarela-branca e torna-se mulher para ter um filho com ela. A criança é imensamente poderosa e sábia e logo se se perde dos pais que o buscam numa jornada insólita onde encontram vários personagens da nossa cultura. O livro é cheio de referências e é fácil ficar confuso (no bom e no mal sentido) em meio a elas, pois elas vem acompanhadas de várias quebras de perspectivas, abusando da ideia de que o romance sabe que é um romance, ironizando a adoção de clichês, elevando o nível de absurdismo para níveis que tornam o livro muito divertido, ou dependendo do leitor que não se interesse por algo tão subversivo e fora do convencional, muito confuso. Eu tive a experiência do tipo divertida e quem tiver Kindle Unlimited aproveite e se jogue nessa leitura!
   
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segunda-feira, 15 de março de 2021

Resenha #174 - Atemporal (Cláudia Roberta Angst. Org.)


"Atemporal" é uma antologia de contos da editora Caligo, que lança livros fora da esfera viciosa dos vanity press pois há a preocupação com o que coloca nas páginas além de vender papel. Desta vez temos uma antologia sobre viagem no tempo. Não necessariamente focado na Ficção Científica mas com contos que usam o artifício para explorar áreas mais voltadas as humanidades que as ciências como a física.

"Amélia" (Ana Maria Monteiro) segue a pequena Amélia, de férias onde passa a encontrar uma mulher do futuro com a qual desenvolve uma amizade com sua versão do futuro. Uma singela e bonita homeagem a Amelia Earhart, a primeira mulher a tentar uma volta no globo pelo ar e que desapareceu nessa tentativa no Oceano Pacífico.

"À Roda no Meu Quarto" (José Angelo Rodrigues) parte para o surrealismo onde os tempos se sobrepõe onde um escritor prefaciando Xavier da Maistre e o próprio num mesmo quarto, nos traz uma visão diferente do tempo. Infelizmente não conheço a obra de Maistre e temo que algum significado mais profundo tenha me escapado, porém o conto já vale pela viagem surrealista. 

"A Última Viagem de um Homem Sem Fé" (Jorge Santos) traz um viajante do futuro que retorna aos tempos bíblicos para encontrar sua amada numa desesperada tentativa de encontrá-la. Sua jornada tem momentos bem construídos ainda que tenha um final, em parte óbvio.

"Buraco de Minhoca" (Paula Giannini) usa o mundo infantil para adocicar uma história de perda familiar onde uma menina encontra sua versão adulta e tentam se entender para ajudar sua mãe a curar de sua doença. O conto nos põe a dúvida de que tudo possa ser fruto da imaginação da menina e a interação entre as duas é alegre sem deixar de trazer a profundidade do drama que a menina está passando. A habilidade em entrelaçar essas duas camadas já vimos no seu livro que resenhamos no blogue.

"Gênio" (Marco Saraiva) conta a história de um cientista maluco, o profº Lúcio Veras, que é encontrado morto na universidade onde trabalha e de seu amigo, Sérgio, um dos poucos que conseguia lidar com sua personalidade difícil. Então, Sérgio descobre que o profº Veras, não era apenas maluco, mas que também esteve certo sobre sua pesquisa.

“O paradoxo do avô” (Victor O. de Faria) mostra um avô preso em uma repetição trágica: ter de salvar sua neta de ser atropelada e parar no hospital apenas para ser levado de volta e tudo se repetir. Diferente das histórias deste tipo onde o protagonista precisa reviver o momento da morte de alguém querido e só conseguir escapar da repetição quando obtém sucesso, o avô deste conto precisa deixar sua neta morrer para parar este ciclo. Esse diferencial já vale o conto.

“Pandorga” (Eduardo Selga) relata a viagem no tempo acidental de uma caravela portuguesa, numa narrativa cheia de lirismo e significados sobre o Brasil.

“Prisioneiro do tempo” (Antonio Stegues Batista) vai para o outro lado, o da ação frenética de dois homens disputando o amor de uma mulher voltando no tempo e arriscando tudo.

“Quinze minutos” (Ricardo Labuto Gondim) faz sua reflexão sobre a viagem no tempo através do escopo da loucura e da paranoia de um escritor que largou tudo e não consegue se estabelecer na carreira, sem saber o quanto do seu sofrimento é causado pela frustração ou realmente algo fantástico está acontecendo.

“Tempo negado” (Claudia Roberta Angst) acompanha uma mulher madura que se apaixona por seu aluno, para quem dá aulas particulares, e não sabe o quanto disso é real ou imaginação causada por um amor mal resolvido de seu passado. O clima romântico é bem balanceado com o mistério encarnado pelo jovem aluno.


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segunda-feira, 8 de março de 2021

Resenha #173 - Eu Estou Vivo e Vocês Estão Mortos (Emmanuel Carrere)


"Eu Estou Vivo e Vocês Estão Mortos: A Vida de Philip K. Dick" do biógrafo Emmanuel Carrére conta sobre a vida do meu autor favorito e faz de forma muito criativa, incorporando elementos de romance e análise enquanto relata momentos importantes da vida do autor que ficou conhecido pelos seus romances e pela sua relação com as drogas.

O que chama a atenção logo nos primeiros capítulos é o estilo que introduz partes narradas como se fosse um romance. Alguns diálogos e pensamentos de Philip K. Dick como se fosse um personagem de ficção. A ideia de mesclar sua vida com a ficção na forma da narrativa tem muita relação com a própria forma que PKD tinha de se relacionar com as ideias que expressava em seus livros sobre a realidade - ou a ausência dela. Vemos esse caminho se aprofundando nesse livro a medida que acompanhamos a história de Dick enquanto escreve os seus livros e a forma como Carrére os usa como fontes para entender sua vida. É ai que podemos encontrar ao mesmo tempo o grande diferencial da obra com seu maior defeito.

As principais obras são esmiuçadas para que o autor acrescente suas reflexões a entender PKD, o que consegue mostrar o quão ele era profundo, paranoico e perturbado como consegue literalmente estragar a leitura de qualquer obra mencionada durante o livro. As obras mais relevantes tem seus enredos contados (até aqui, tudo bem) até o fim do livro e analisadas exaustivamente, de forma sensacional, se você já leu a obra. Contudo, o livro exige que você tenha lido muitas obras para não tomar spoilers violentíssimos e mesmo se você já leu muitas obras do autor como eu, fui obrigado a desviar de páginas inteiras para chegar ao fim sem saber o final de livros que ainda estão na minha estante. Tudo isso sem um aviso. Ok! Sei que é difícil contar a história da vida de um autor como PKD, que teve sua vida tão intrinsecamente ligada a suas obras, seria muito malabarismo desviar de todos os spoilers e no fim das contas é melhor já ter uma boa bagagem de leitura de suas obras para começar essa aqui, mas um aviso (que só as resenhas podem fazer) se faz necessário. Sendo assim para ajudar os que tem dúvidas se/quando devem ler esta biografia vou deixar uma lista de livros que são analisados profundamente nessa obra para que o leitor se prepare ou ignore consciente do que vai ser spoilado (vou colocar no final do texto).

Já você que leu boa parte das obras, pode esperar que uma biografia de um escritor comum não pode ser mais instigante que suas obras, contudo Dick escrevia muito sobre sua visão de mundo e depois, em seus últimos anos, literalmente uma exegese buscando uma cosmogonia, que encontramos resumida em VALIS. Carrére esmiúça bem o pensamento de Dick, obviamente não decupa a sua exegese (exigiria um ou mais livros só para isso), mas traça os caminhos mentais que o levaram a acreditar em parte das ideias que trabalhou nas suas principais obras. Tal profundidade pode fazer parecer que estamos lendo uma sequência de ensaios sobre as obras, o que torna esta biografia uma leitura atraente para fãs de Dick e um potencial estraga prazeres para quem não leu tantos livros assim. Pessoalmente, procurei ler todos os livros de PKD que pude antes de começar esse e valeu muito a pena!

Segue a lista de livros mencionados que tem seus finais revelados em "Eu Estou Vivo e Vocês Estão Mortos: A Vida de Philip K. Dick" 

Olhos no Céu / Eye in the Sky
Tempo Desconjuntado / Time out Joint
O Homem do Castelo Alto / The Man in the High Castle
Os Clãs da Lua Alfa / Clans of Alphane Moon
Tempo em Marte / Martian Time-Sleep
Os Três Estigmas de Palmer Eldritch / The Three Stigmata of Palmer Eldritch
Andróides Sonham Com Carneiros Elétricos? / Do Androids Dream of Electric Sheep?
Ubik / Ubik
O Labirinto da Morte / The Maze of Death
Reflexo na Escuridão (Homem Duplo) / A Scanner Darkly
VALIS / VALIS

Contos
Jogos de Guerra / War Games
A Fé de Nossos Pais / Faith of Our Fathers







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segunda-feira, 1 de março de 2021

Resenha #172 - Salvem as Crianças (Luiz Brás)


"Salvem as Crianças" é um conto de Luiz Brás disponível na Amazon no formato e-book. O conto é uma distopia que parte da premissa de uma Ditadura de extrema-direita através de uma Universidade governada por um Reitor Ditador. O conto tem o mesmo ritmo narrativo de Anacrônicos: ágil, eletrizante, seguindo algumas linhas que se convergem e interagem até a conclusão e sem gastar uma palavra fora do que interessa. Essa última, uma característica na qual costuma-se definir um conto como tal. O tom irônico da construção do mundo é afiado com o atual contexto político e mostra como o autor foi sagaz em escrevê-lo em 2017. O momento ideal para ler esse conto é o quanto antes.
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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Resenha #171 - Frankenstein (Mary Shelley)


"Frankenstein" de Mary Shelley é considerado o primeiro livro de Ficção Científica já escrito pois estabelece a discussão do que é ser humano através de um evento fantástico derivado da ciência. Ainda que a ciência usada não seja o foco do livro e não seja explicada como nas histórias da Ficção Científicas que vieram depois, sem ela teríamos apenas uma obra do fantástico como as que já circulavam em seu tempo. 

A história já é conhecida vagamente pois é muito referenciada na cultura pop, mas nada que invalide a leitura, muito pelo contrário. "Frankenstein" é leitura obrigatória para quem gosta de Ficção Científica, e para quem está de passagem pela estante dos clássicos. Nela temos Victor Frankenstein que está em uma expedição rumo ao polo norte. Victor vive atormentado e arrependido por um monstro que o assombra e está em sua caçada. Começamos com um relato em cartas (o livro todo é escrito de forma epistolar) de um marinheiro civil narrando como conheceu seu amigo Victor Frankenstein, depois segue num relato do próprio Victor de como criou o monstro (que não chega a receber um nome) e como o renegou depois de ficar arrependido do sucesso de seu experimento. Contudo o monstro passa a persegui-lo colocando em risco a vida dos seus familiares. Mesmo sendo um livro tão antigo prefiro não dar spoilers. 

Shelley pinta o monstro de forma misteriosa e indireta tanto que o nosso visual é moldado pelas primeiras adaptações do cinema. O livro trava diálogos muito interessantes sobre a própria criação da vida e nos faz pensar sobre quem é o monstro e também o quanto de vítimas e algozes temos dentro de cada um de nós, trazendo uma alteridade para a obra que a colocou como um clássico da literatura em geral.
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