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segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Resenha #383 A queda de Hyperion (Dan Simmons)


"A queda de Hyperion" é a sequência de Hyperion, livro que escolhi para ser o primeiro livro tijolão do ano de 2026. Não quis esperar o ano que vem para começar a leitura pois o primeiro livro é bastante inconclusivo. Hyperion e A queda de Hyperion parecem mais um mesmo livro que foi dividido em duas partes. Sendo assim, continuamos exatamente de onde paramos no livro anterior, contudo com uma estrutura mais tradicional, seguindo alguns personagens além dos peregrinos, que formam um núcleo, enquanto a diretora Meina Gladstone e Severn formam outro núcleo e a história vai se desenvolvendo neles.

Não é apenas a abordagem e a forma da história que teve alterações. Se antes o livro usava a história dos peregrinos para popular seu universo, torná-lo próximo do leitor e impulsionar a história, no segundo livro o autor se concentra mais nas ideias que ele tinha para explorar nesse universo. Primeiramente a guerra entre a humanidade na Hegemonia contra os desterros e o mistério que gira entorno do Cerne, viagens no tempo e o surgimento de uma deidade e a ideia do Vazio-que-Liga e, obviamente, o Picanço. Desbravamos estes mistérios mais pelos personagens da Meina Gladstone e de Severn, que acompanham a parte investigativa da trama, enquanto os peregrinos passam pela parte com mais ação, afinal enfrentam diretamente o Picanço. A revelação foi bastante satisfatória apesar de acabar sendo um grande deus ex-machina, mais literal e não narrativo. Uma divindade que ultrapassa os limites da máquina mas que não resolve o problema central e faz tudo isso com um livro que diverte. Recomendo e fico feliz que tem mais dois livros para que voltemos a esse universo.
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terça-feira, 20 de outubro de 2026

Resenha #382 Olhando as estrelas só vejo o passado (Gabriel Carneiro)


"Olhando para as estrelas só vejo o passado" é mais um livro da coleção Futuro Infinito, a qual estou colecionando loucamente. O livro desta vez foi escrito pelo Gabriel Carneiro é uma ficção científica que aborda a solidão e a existência de um planeta Terra que recebe a visita de um explorador e cientista sem nome, porém o planeta não abriga mais vida senciente, nem humana, nem de outros animais. Apenas a vida vegetal e microscópica.

O livro usa a forma epistolar, sendo os relatos deixados pelo protagonista e isso me animou bastante para a leitura. Um prólogo excelente, uma nota explicando como os relatos foram encontrados, em dois cadernos numerados como 1 e 3, sendo o segundo consta como desaparecido. A leitura começa com uma linguagem bastante técnica, pois o viajante não sabe literalmente nada sobre o planeta e usa tecnologia para entender textos escritos, mas não avança muito sobre o conhecimento de nossa tecnologia. Porém o foco da exploração é a cultura dos humanos, mas isso vem acompanhado de uma forma mais arrastada da leitura. Os pensamentos tomam conta da narração e realmente a leitura me perdeu. As divagações são longas, repetitivas e não levam o personagem a lugar nenhum. Também esperei que houvessem lacunas palpáveis entre os dois cadernos que compõe o livro, mas eles se sequenciam tornando a ideia do caderno 2, em nada. Infelizmente sai insatisfeito com a leitura, pois não trouxe nada além das reflexões meio depressivas. Talvez minha expectativa de que houvesse algum mistério, ou algum enredo mais intrigante, me fez desgostar da leitura.
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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Resenha #381 Dengue Boy (Michel Neiva)


"Dengue Boy" (Ou no original "La infancia del mundo") é o primeiro livro de Michel Neiva, autor da Argentina, que traz uma obra com muitos elementos bizarros mas que vão fazendo sentido em sua bizarrice. Particularmente, o definiria como New Weird, e não um "steampunk" como classificado no blurb do próprio livro, apesar de achar que combine também com um "cyberpunk" (acho que foi o que queria ter escrito) pela capa e o título da versão brasileira que tentou apresentar o livro em total oposição a versão original argentina, completamente sóbria, ou seja, nada de mosquito vivendo entre seres humanos sem nenhuma explicação.

Classificações a parte, a história segue este Dengue Boy, uma criança que é um mosquito, que habita entre humanos, frequenta a escola e sofre bulying até que começa a se descobrir. Também acompanhamos Dulce, um colega de escola do Dengue Boy que deseja apenas um novo console de jogos e é fã de um jogo online de luta entre indígenas e colonizadores. Eles vivem em um mundo distópico onde a temperatura do planeta subiu absurdamente, tornando os polos do planeta, os únicos lugares habitáveis para a humanidade. A história se desenrola entorno no misterio da Grande Anarca, e traz criticas que já deveriam estar obvias pelo desastre climático que a Terra passa e a normalidade do capitalismo, como causador e mantenedor do desastre. É um livro bastante rico em influências estéticas, gore sem freio e criticas ácidas. A influencia de "A Metamorfose" do Kafka, vai alem da existência do inseto andando entre nós, mas do fato de não haver necessariamente uma explicação para tudo. As vezes as coisas simplesmente são. A maior ironia do livro é constatar que as criticas criticam esse absurdo mas não acham nada absurdo o futuro que o capitalismo desenhou para a humanidade. 


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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Resenha #380 Deuses Esquecidos (Eduardo Kasse)


"Deuses Esquecidos" é o segundo livro da série Tempos de Sangue do autor brasileiro Eduardo Kasse, que traz uma abordagem bem própria dos vampiros. Acompanhamos o nascimento de um novo imortal. Alessio é um camponês italiano bastante religioso, que encontrou um vampiro casualmente foi transformado, ao invés de ser mais uma vitima sugada até a morte. Sem saber sequer o que é um vampiro, Alessio teve de aprender na marra tudo que a nova vida trouxe de bom e de ruim. Gosto de como ele coloca o catolicismo como um momento pequeno na historia da humanidade e das intensidades das tragedias que Alessio passa. A forma como o vampiro vive e é descrita já havia me encantado e aparece aqui com uma nova história. O livro é mais curto, a aventura menos épica que a de Harold Stonecross, mas não menos satisfatoria na conclusão do protagonista e dos outros personagens. Foi uma boa sequencia, que vale a leitura, mas estou de fato ansioso para o terceiro livro, quando Stonecross retornará!
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domingo, 27 de setembro de 2026

Resenha #379 Guanabara Real - O Covil do Demônio (Enéias Tavares, Nikelen Witter, A. Z. Cordenonsi)


"O Covil do Demônio" é o segundo livro da duologia Guanabara Real e complementa perfeitamente o primeiro livro como uma contraparte das possibilidades de um mundo steampunk, reimaginando um Brasil com tal tecnologia. O desafio de escrever a seis mãos deve ter sido muito difícil, como eles próprios já haviam comentado na época do primeiro livro, pois exige entrosamento e alinhamento do que esta sendo feito. Lendo, contudo, foi uma experiencia muito mais fácil. A escrita é leve e gostosa, e a aventura muito bacana de acompanhar. 

Acompanhamos nossos detetives quatro anos após a conclusão do primeiro livro. Desde então, o Barão do Desterro teve sucesso tanto em colocar a culpa nos detetives pelos crimes narrados no primeiro livro, quanto em se tornar o presidente através de um golpe de estado, instaurando uma ditadura baseada na vigilância constante, violência, e obviamente a manutenção de um governo como alavanca para algo ainda mais nefasto. Gosto de como muita coisa mudou de um livro para outro. Se no primeiro temos uma sociedade vibrante, com nossos detetives circulando em vários níveis para investigar o caso, agora temos indivíduos cansados, reprimidos e acoados pela perseguição que sofrem, bem como a população se torna desconfiada e arredia, sendo cada vez mais difícil de acessar locais para que nossos heróis consigam investigar para provar sua inocência. O ritmo da leitura consegue fazer um sentido de urgência, não apenas pela perseguição como também pelo que é descoberto na investigação. Uma pena isso acabar tornando o cenário menos trabalhado, pois não há uma cena de crime, nem uma geografia da cidade para ser explorada, pois os personagens estão fugindo o tempo todo.

O desfecho da história é bem satisfatório, sem muita brecha para uma sequência, mas consigo imaginar contos ou histórias solo dos personagens com suas questões não resolvidas. Por exemplo, Cordenonzi lançou um conto com Firmino Boaventura, na antologia Outros Brasis da Ficção Científica, e os outros personagens Maria Teresa Floresta e Remy Rudá, também tem muito ainda o que dar. 


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segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Resenha #378 Barba ensopada de sangue (Daniel Galera)


"Barba ensopada de sangue" é uma das leituras que fiz para variar um pouco da ficção científica e fantasia que sempre leio. Já estava de olho na obra há algum, sempre deixando para depois até que vi o filme baseado no livro. Então, li o livro logo depois. Focarei no livro, mas também falando do filme. O livro fala sobre um personagem sem nome (mentalmente chamei de Daniel) que tenta reconstruir a vida após dois eventos familiares traumáticos. Ele se muda de Porto Alegre para Garopaba, Santa Catarina, cidade praiana onde seu avô viveu e morreu assassinado, conhecido como Gaudério. Contudo, quanto mais ele pergunta sobre seu avô, mais aumenta o desconforto da população em relação sua história. De alguma forma, todos tratam como um passado felizmente morto e enterrado.

O livro é dividido em três partes, a primeira mostra um dos traumas do protagonista e sua chegada a Garopaba. A segundo é a adaptação, onde ele faz amigos e conhece pessoas no trabalho, mas o mistério sobre o avô do protagonista começa a ficar irresistível. Na verdade, não é o mistério. Ele poderia ignorar se quisesse mas temos um personagem em um caminho de autodestruição em busca de um renascimento. As namoradas, as pessoas que o querem bem no trabalho e amigos não conseguem preencher isso, então ele vai em busca de se encontrar e assim começa a parte três do livro. Aqui o mistério é resolvido, mas nem tudo trouxe significado. O livro encerra com uma cena que no filme está no primeiro terço do filme. A leitura dessa cena é como uma explosão de tudo que o protagonista represou o livro todo. Comparando o livro, ele é muito mais mundano e melancólico que o filme.

O filme adapta bem a mesma história, mas com alterações e reduções, mas principalmente com o clima que é muito mais focado no mistério do avô e da animosidade do povo que é muito mais presente, quase sufocante. O final é diferente e mais satisfatório, e até mais bonito, mas menos catártico. O final do livro funciona melhor no livro e o final do filme funcionou melhor no filme. Contudo, apesar de ter gostado muito do filme o miolo do livro me fez demorar a leitura, só não demorando mais, porque já tinha visto o filme e queria ver como seria no livro. Acho uma boa leitura, sendo o miolo muito demorado o que menos gostei.



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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Resenha #377 Os Agentes do Caos - As aventuras de January Purcell (Fábio Fernandes)


"Os Agentes do Caos" é o segundo livro da série As aventuras de January Purcell, que são aventuras steampunks cheias de referencias as obras de ficção e personagens reais da época vitoriana principalmente mas de várias épocas, pois se tem uma coisa que aprendemos com este universo criado pelo Fabio Fernandes, é que o limite está na sua imaginação. Tudo pode fazer parte deste universo, que se baseia na viagem pelos sonhos, através de pessoas com este dom. Junto deles, há toda uma disputa que perpassa os limites do tempo, universos paralelos estabelecidos como obras de ficção para uns que em outro é a mais pura realidade. Os oneironautas e os anarcronistas, enfrentam-se por entenderem o sonhar de forma diferente. São duas ideologias que se colidem.

Este embate fica mais evidente nesta sequência, pois acompanhamos, não apenas January Purcell, mas ela divide a narrativa alternando com Maria Skłodowska, que neste mundo não chegou a ser (pelo menos não ainda) a famosa química Marie Currie, mas uma anacronista que tem sua própria jornada de recrutamento e adesão a forma de pensar o uso de suas habilidades, que é um contraponto ao que vimos com January no primeiro livro. Já com January temos uma evolução da personagem que hora parece estar pronta e experiente, se vê perdida e despreparada em outros. Não que a personagem seja competente, mas o desafio de ser uma oneironauta é algo que não cabe em uma pessoa. Há o grande jogo, e o autor consegue imprimir essa escala gigantesca de importância para as coisas. O fato de January ser uma peça importante e não conseguir ocupar um cargo no Clube Oneiros por ser mulher é uma forma muito bacana de mostrar a estupidez do machismo, mesmo em uma época em que qualquer um poderia argumentar que 'na época era assim mesmo'.

Já estamos no terceiro parágrafo e não falei do enredo. Temos uma Máquina do Tempo, que pode transportar uma pessoa para qualquer tempo. Em um universo onde os sonhos transportam a mente do oneironauta para as mentes de outras "encarnações" em outros tempos, uma Maquina do Tempo não é tão fantástica assim, mas ainda assim é fonte de problemas e ela está em disputa entre as duas facções. Contudo, quem leu A Máquina do Tempo de H. G. Weels sabe que os vilões não são do tipo que dividem poder. Então, January e Maria vão ter de se aliar para salvar a humanidade, mas não necessariamente confiar uma na outra. Tudo isso numa aventura bem frenética, com aquele clima de espionagem e pequenos toques de mistérios transcendentais que vamos desvelando aos poucos. Felizmente, o Fábio Fernandes vai continuar a série em até cinco livros, e mal posso esperar até o próximo. 
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segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Resenha #376 Hyperion (Dan Simmons)


"Hyperion" é o livro que escolhi para começar o ano lendo um tijolão em 2026, mesmo não sendo tão grande, com apenas 560 páginas. É um clássico da ficção científica, mas não tão famoso quanto Duna ou Fundação, mas que segue os passos deste tipo de obra, sendo uma saga de um mundo enorme, abordado com profundidade em vários tijolões, no caso desta saga chamada "Os Cantos de Hyperion", tem quatro livros. Contudo, um clássico deste tamanho tem que ter suas particularidades.

Hyperion conta a história de um grupo de peregrinos com objetivos muito distintos que partem em uma peregrinação ao Picanço, uma entidade conhecida por conceder um desejo a quem solicitasse, porém com um preço. Sete peregrinos pedem, um é atendido e os demais são sacrificados pela criatura que usa espetos de metal para matar (como o passarinho sanguinário que existe de verdade e que guarda suas presas em espinhos). São eles Lenar Hoyt, um sacerdote católico, num mundo onde a Igreja Católica é uma seita que é um resquício da antiga Terra que não existe mais. Coronel Fedmahn Kassad, um herói de guerra obscecado por uma aparição que se repetiu durante sua vida. Martin Silenus, um poeta dionísico, lembrado pelo único livro de sucesso. Sol Weintraub, um velho intelectual que carrega uma criança de colo. Het Masteen, capitão da nave que trouxe os peregrinos para Hyperion (planeta onde ocorre a perigrinação). Browne Lâmia, uma detetive que entrou numa trama após investigar um assassinato, envolvendo uma trama ainda maior. Por fim, o Cônsul, que inicia o livro e só mais adiante vai contar sua história, que é a mais misteriosa de todas.

O livro se apresenta quase como uma coleção de noveletas, onde cada peregrino conta o que os levou a serem chamados para a perigrinação. Isso se reforça pela narração acompanhar o estilo do personagem. A história do Coronel Kassad, tem uma narração no estilo Tropas Estelares, enquanto a parte do Martin Silenus, tem toda a verborragia que irrita Browne Lamia. Falando nesta, temos um ritmo de conto policial clássico em sua parte. Por um lado, temos uma versatilidade monstruosa do Dan Simmons, por outro, você pode se desagradar bastante de alguns personagens, mas acho que não da para se apegar muito a isso. O livro tem uma trama maior que é alimentada aos poucos durante as "histórias de origem" de cada peregrino e isso me instigou tanto ou mais que as histórias individuais. Outra coisa que pode desagradar é o desfecho, sendo praticamente um fim de episódio de série com "...to be continued". Contudo, eu já estava fisgado pela complexidade e riqueza deste mundo, ao qual vai muito além dos portais entre planetas e a guerra entre a Hegemonia contra os Desterros. Tanto que não vou esperar até o próximo inicio de ano para pegar o próximo tijolo da série "A queda de Hyperion".
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domingo, 26 de julho de 2026

Resenha #372 Depois da Bomba (Philip K. Dick)


"Depois da Bomba" é uma das obras mais interessantes de Philip K. Dick pois é muito rica em personagens estranhos, instigantes, que nos deixa curioso em saber como vão lidar um com o outro em um mundo que tenta se erguer após uma hecatombe nuclear. Livro lançado em 1965 em plena paranoia da Guerra Fria, e o medo de uma guerra nuclear, mostra um mundo onde este pesadelo já aconteceu e temos personagens tentando reconstruir a vida, focando no pequeno condado de Maine, na Flórida. São eles: Hoppy nasceu sem os braços e sem as pernas, uma sequela da radiação, mas adquiriu poderes telecinéticos, que esconde por medo de ser exposto como uma aberração. Dr. Bruno Bluthgeld se culpa por ter desenvolvido a bomba nuclear e esconde sua identidade por culpa. Walt Dangerfield é o astronauta que está no espaço durante a hecatombe, e do espaço, torna-se uma figura quase divina, transmitindo mensagens e músicas porém ele não consegue receber mensagens mas de alguma forma ele entende que é um símbolo de esperança nos lugares onde há um rádio para ouvi-lo.

Quem mais movimenta a história é Hoppy pois, neste novo mundo, ele não é apenas um inválido e rejeitado, mas seus poderes o tornaram extremamente útil devido a regressão tecnológica. Contudo, o poder sobe a cabeça devido ao ressentimento da vida antes da bomba. Quem se torna uma ameaça aos planos de poder de Hoppy é o Bill, o irmão gêmeo siamês que vive dentro de sua irmã e se comunica telepaticamente dentro dela. 

A tradução em português de Portugal, mesmo se acostumando, é difícil de ler mas conhecer o estilo do autor, que é muitas vezes seco e sarcástico, ajuda a entender as ironias enquanto outras referências se perdem na tradução. Contudo, o ritimo nas duas primeiras partes é de comédia de costumes e no fim começa a ter mais ação quando vários personagens entram em conflito. Gosto das referências do autor a Deus e confrontos morais e todo o debate religioso feito num cenário de Ficção Científica. Vale a pena para colecionadores, mas recomendo esperar a versão português-BR pela Suma ou pela Aleph. 
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segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Resenha #371 A Guerra Longa (Terry Prachett e Stephen Baxter)


"A Guerra Longa" é o segundo volume da saga de cinco livros que iniciou com "A Terra Longa" e, no que tange as traduções, parece que não veremos os demais livros da série tão cedo. A não ser que vire uma série de streaming. Até lá temos apenas os dois primeiros livros traduzidos, o que é bem frustrante. A premissa da obra é maravilhosa, mas a execução tem um tom de descobertas e maravilhamento que simplesmente vão ficando pálidos ao longo da obra, como se os autores se cansassem antes do leitor. O resultado é um livro que vale mais pelo meio que pelo fim. Contudo, diferente do primeiro livro acompanhamos personagens que simplesmente não vão a lugar algum e tem desfechos completamente sem sal.

Acompanhamos novamente Sally Lindsay e Joshua Valentié, mas agora em aventuras separadas. Lindsay busca resgatar uma troll e seu filhote que foram presos para experimentos crueis, enquanto Lobsang, está preocupado com uma debandada dos Trolls, que estão abandonando a humanidade. Também acompanhamos um padre sul-africano, que recebe uma proposta de trabalho que infelizmente não leva em nada e uma expedição chinesa que busca chegar a Terra 20 milhões oeste, que dá em menos ainda. Me incomodou que os autores tiveram imaginação para conceber uma Terra Longa, cheia de recursos, e conseguem imaginar um colapso do "regime chinês" mas não conseguem vislumbrar o fim do capitalismo, fazendo a colonização da terra longa um "revival" das 13 colônias nos EUA. Achei bem pobre. O livro tem bons momentos de exploração, que realmente valem o livro, mas não consegue extrair uma boa história, apenas ameaçar o leitor que vai haver uma. Acho que isso tira o leitor da série. Eu leria os próximos livros, mas não consigo ver os volumes seguintes eles sendo traduzidos.
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segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Resenha #370 Perdido em Marte (Andy Weir)


"Perdido em Marte" ganhou destaque na Ficção Científica por sua abordagem leve, de uma situação extrema e suas soluções complexas. Isso acontece pois a extrapolação científica não é baseada em grandes reflexões filosóficas propostas pelo autor Andy Weir, pelo contrário, o enredo é basicamente de um homem, perdido, sobrevivendo em um ambiente completamente inóspito. Seria uma história de sobrevivência como tantas outras se fosse em um deserto da Terra, mas o cenário é Marte e a extrapolação é sobre uma missão espacial que se daria algumas décadas no futuro.

Acompanhamos Mark Watney, um botânico e engenheiro, parte da Missão Ares, com o objetivo de explorar planeta vermelho, junto com seus companheiros de missão. Porém, uma tempestade de areia obrigou todos a abortarem a missão e Watney fica para trás pois todos acham que ficou morto. A história começa de fato, quando Watney acorda e se vê obrigado a sobreviver com os equipamentos que ficaram da missão. Um habitat provisório de 6 meses de validade, comida para cerca de 300 dias, porém a próxima missão só chegaria em 4 anos. A partir daí Watney começa uma jornada para sobreviver e extrair do equipamento que a missão deixou, para conseguir água e plantar batatas dentro do habitat.

Os problemas e desafios são descritos com muito apuro técnico mas tudo isso é entrelaçado pela descontração da narração de Watney, que conta tudo com sarcasmo e otimismo. A narração é mostrada inicialmente por entradas no diário de missão. Isso acontece até o controle da missão descobre que Watney está vivo, então começam os planos para encurtar o tempo até a próxima missão para Marte, enquanto Watney tenta esticar o máximo de tempo de vida em Marte. Como observei antes, não há grandes questões filosóficas no livro. É uma luta pela sobrevivência, e os demais personagens são personificações baratas de heroísmo patriótico. O que deixa tudo com cara de roteiro simples para filmes. Na verdade, o livro ter se transformado em um filme foi mais do que óbvio pois a estrutura do livro é bastante similar a de um filme. Tanto que o filme difere pouco do livro, exceto que o aprofundamento dos dados científicos, que é a grande graça do livro, são apenas detalhes. Resumindo, o livro é bem divertido e bastante informativo. O final do livro é bastante exagerado, mas não compromete a proposta geral do livro e o que ele faz de melhor que é divertir.
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segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Resenha #369 Confissões, Visões e o Desterro (Luciano Prado)


"Visões, Confissões e o Desterro" é o romance de estreia de Luciano Prado, autor gaúcho que conheci na Odisseia de Literatura Fantástica de 2024, onde ele fez uma fala sobre o lançamento. O livro é uma especulação em um futuro próximo, em que a Pandemia de COVID-19 foi muito mais mortal. O suficiente para fragilizar a sociedade como conhecemos e fazer emergir facções poderosas que evidenciam a decadência que se instalou com a pandemia. Nesse cenário, acompanhamos Gama Fred, um porto-alegrense que mora na área central de POA onde os moradores da redondeza se organizaram com um mínimo de civilidade no Conselho de Guimarães, uma comuna de sobreviventes.

O livro é uma jornada do protagonista atrás de suprimentos em uma área perigosa, mas o que mais aguardamos são os encontros com os NeoErectus, um grupo que domina a Zona Norte de Porto Alegre com uma doutrina violenta e bizarra, baseada em masculinismo e infantilismo. Gosto bastante dos dilemas sobre matar, e como isso é diferente de quando é você que tem que fazer a sangue frio e não só assistindo pelas redes. Por extensão, o como uma sociedade pode decair rapidamente, ainda que de forma desigual, tanto por povoações que tentam manter uma ordem parecida com a anterior, quanto outros pontos onde coisas absurdas e bizarras podem surgir. Gosto das conversas baseadas em filmes, entre Ricardo e Gama Fred, pois ficaram bem naturais. Contudo, não gostei de algumas viradas no final do livro, por melhor que estivessem explicadas, achei rocambolescas demais. Porém a cena final ficou bacana. Espero que o autor volte a escrever pois achei o livro bastante equilibrado, talvez equilibrado até demais, mas definitivamente bem escrito. 
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segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Resenha #368 Saint Seiya nº1 (Masami Kurumada)


"Saint Seiya" ou como é mais conhecido aqui no Brasil, Cavaleiros do Zodíaco, é o primeiro mangá que comento aqui no blogue. Isso porque foi a nostalgia do anime que passava nos anos 1990 que me fez ler este primeiro volume que é uma versão definitiva. Não li nenhuma versão anterior, mas sei que nessa há uma cena com alguns cavaleiros de ouro que não tinha no original. Fora isso não difere muito do anime mas a leitura não me empolgou, não passou pelo teste da nostalgia. Não continuarei a colecionar esta versão nova do mangá, principalmente pelo preço. Cada volume está entre 35 a 45 reais e considerando que a série vai passar dos 100 volumes, fica muito mais factível adquirir as coleções antigas das primeira edições. Mesmo assim, é um projeto complicado. A primeira história é basicamente como Seiya conseguiu a armadura de Pégaso e a sua motivação para entrar na Guerra Galáctica. Não tem como ler esse mangá e não lembrar das trilhas sonoras do anime e constatar que não é tão épico ler o mangá. De qualquer forma é uma leitura rápida e divertida, só não é para o meu momento atual.
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segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Resenha #367 A Malta Indomável (Ale Santos)


"A Malta Indomável" é o segundo livro ambientado no mundo de "O Último Ancestral" de Ale Santos. Não é uma sequência imediata mas uma nova história ambientada neste mundo. Os personagens do primeiro livro fazem uma ponta e se integram muito bem a história, mas o protagonismo é de uma nova geração de personagens, que vivem em uma outra cidade chamada Sumé. Essa cidade é regida por um sistema religioso rígido que impõe aos cidadãos a função que vão exercer na cidade como se fosse uma revelação divina. Nossos três protagonistas são rejeitados pelo sistema, cada um por um motivo. Vik perdeu o movimentos das pernas e nunca pode recuperá-los pois a intervenção cirúrgica foi negada por motivos religiosos. Cosme é um hacker que vive isolado pois suas invasões são consideradas profanas ao regime de Sumé e sofre com crises de ansiedade e, por fim, Juba que é um beat-maker, dono de uma personalidade rebelde com origem de Nagast.

O destino une estes três jovens rejeitados pelo sistema de Sumé e passam a nutrir uma amizade entre eles, então, quando decidem invadir o sistema de escolha de funções em Sumé acabam despertando forças sobrenaturais poderosas, que podem destruir toda a cidade caso não façam nada. Então, o trio tem que engolir o orgulho e qualquer sentimento de vingança contra a cidade que os rejeitou e partem em uma missão para salvar a cidade de Sumé da ira do deus que dá nome a cidade. Para isso eles devem correr na Batalha das Maltas, pois é a única forma de acessar o Deserto de Nagast e salvar sua cidade. 

O livro expande em muito o universo do primeiro livro, que passa a ser um evento histórico relevante, e faz isso com uma pegada mais adolescente. É um livro claramente Young Adult, pois mostra conflitos típicos desta fase da vida e acho que faz muito bem. Mazelas que eram ignoradas na minha geração, são abordadas frontalmente no livro como a menina cadeirante, a religião impedindo uma cirurgia simples, a ansiedade impedindo de fazer certas coisas, pessoas imigrantes, entre outros. É um livro que pretendo deixar na biblioteca da minha escola pois acho que lá vai encontrar um público necessário para o livro. Sinceramente, não gosto tanto de ler livros YA, mas a construção de mundo do Ale Santos é tão bacana que pretendo ler as continuações mesmo que elas sejam YA. Nos vemos no próximo! 
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segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Resenha #366 Estaleiro Voltaire (Victor Allenspatch)


"Estaleiro Voltaire" é o segundo livro da série Dente-de-Leão do autor Victor Allenspatch, que iniciou com Jardins Suspensos e ainda tem mais 3 livros além deste. Infelizmente demorei bastante para continuar a série. Digo isso pois os personagens principais não estavam frescos na minha cabeça, pois o final inclusivo do primeiro livro deixou tudo muito no ar. Contudo, após entrar em contato com os personagens, logo lembramos de como eles são: Pedro sendo bastante passivo e reprimido, a ponto de fazer muitas besteiras e Yara tendo mais atitude mas uma pessoa fragilizada pelo abandono. Mas nem tanto do motivo de estarem ali.

Pedro esta enclausurado com Weechay como cobaias de um experimento que os obriga a viver uma vida inteira em simulação para acordarem apenas após a morte nessa vida. Contudo, na vida delas se passaram apenas algumas horas em que o outro fica completamente isolado. Enquanto Yara está em uma vila onde todos usam lentes que simulam não apenas adições ao mundo real, mas cobrem tudo que veem e percebem. Yara é alertada a não desligar as lentes pois o real seria bastante perturbador e lendo não dei muita bola, mas achei bem impactante quando ela é obrigada a ver a realidade sem lentes. Ela passa boa parte da obra tentando se adaptar a nova vida em Marte, como uma estrangeira mas o mesmo abandono que a leva para Marte acaba fazendo ela querer voltar para a Terra e afundar-se no mesmo ciclo. Enquanto Pedro consegue se libertar de sua cela e do experimento, quase morrendo no processo, apenas para entrar em Deimos após descobrir que estava em Fobos, que foi destruída em sua fuga. Pedro é resgatado e encontra uma outra população em Deimos que já nasceu vivendo sob as lentes e tendo seus corpos movimentados por estruturas que os mantém ativos ainda que sem saírem dos seus lugares. Pedro também descobre que o mesmo Valentin do final do primeiro livro, está criando essas crianças em Deimos para serem o futuro da humanidade, uma nova humanidade. 

Os aspectos do primeiro livro são amplificados neste segundo livro, a introspecção dos protagonistas, a solidão da sociedade e o isolamento que vivemos na pandemia seguem cada vez mais intensos. Uma coisa que não gostei, foi que se repetiu no livro anterior: a história terminou de forma aberta, mas não como um livro completo, nos obrigando a ler o próximo livro para saber o que vai acontecer com ambos. E de forma muito parecida como aconteceu no primeiro livro. Ao fim da leitura, fiquei com a sensação de que os eventos dos dois primeiros livros poderiam estar em apenas um livro. Apesar dessas ressalvas, é um bom livro e trouxe uma visão interessante da colonização em Marte (assunto que sempre me interessa). Vamos ver o que sai do próximo livro!  



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segunda-feira, 9 de junho de 2025

Resenha #365 O Torneio das Sombras (Fábio Fernandes)

 


"O Torneio das Sombras" é um romance publicado pela AVEC Editora, em 2024. Livro que estava ansioso para ler e quando li foi em poucos dias. Comprei minha edição na Odisseia de Literatura Fantástica em 2024 e já estava louco para passar esse livro na frente dos outros. E foi o que acabei fazendo e não me arrependi.

O livro não é apenas uma tradução da versão em inglês, como é uma ampliação, de uma noveleta publicada originalmente em inglês, chamada Under Pressure. Como eu adoro Steampunk, tinha ficado triste pela Under Pressure não ter saído em português, mas a AVEC não apenas trouxe o livro para o Brasil como também pediu para o autor ampliá-lo. O resultado é uma aventura steampunk que extrapola a característica que mais gosto do subgênero: referências a personagens literários e reais da época Vitoriana.

Acompanhamos January Purcell, uma geóloga que é contratada para uma expedição pelo Dr. Jones. O que está por trás desta viagem? Nada de mais. Apenas a existência de uma rede de espionagem que usa sonhos para influenciar a história, ou melhor dizendo, as histórias. January é uma oneironauta, uma pessoa capaz de viajar pelos sonhos, acessando outros universos e versões de si mesmo. A jornada de aprendizagem da protagonista nos conduz pela ideia do universo que o Fábio criou e não tem como não se empolgar, se você gostar da proposta, nesse ponto talvez eu não seja a melhor pessoa para tecer uma crítica para esse livro por já ter gostado tanto antes de ler e mais ainda após ler. Poxa vida, tem David Bowie na história, uma linda homenagem e um baita uso dele na trama. Não é só um fan service.

O mundo que o Fábio criou, a ideia do oneironauta, já tinha trabalhado nisso em outra obra sua, mas de forma mais cômica e absurda em Oneironautas (com Nelson de Oliveira) e antes disso no conto Charlotte Sometimes. Contudo, a brincadeira com o livro como um universo alternativo a ser explorado pelos oneironautas é criativa e poética em si, afinal a imaginação e os sonhos bebem da mesma fonte e uma base muito fértil para várias histórias. Uma forma muito bonita de ver a arte do escritor e somando isso a homenagem a arte do cantor David Bowie, transformam esse livro em uma carta de amor a arte. Sem deixar de ser uma aventura divertida de ler. 



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