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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Resenha #381 Dengue Boy (Michel Neiva)


"Dengue Boy" (Ou no original "La infancia del mundo") é o primeiro livro de Michel Neiva, autor da Argentina, que traz uma obra com muitos elementos bizarros mas que vão fazendo sentido em sua bizarrice. Particularmente, o definiria como New Weird, e não um "steampunk" como classificado no blurb do próprio livro, apesar de achar que combine também com um "cyberpunk" (acho que foi o que queria ter escrito) pela capa e o título da versão brasileira que tentou apresentar o livro em total oposição a versão original argentina, completamente sóbria, ou seja, nada de mosquito vivendo entre seres humanos sem nenhuma explicação.

Classificações a parte, a história segue este Dengue Boy, uma criança que é um mosquito, que habita entre humanos, frequenta a escola e sofre bulying até que começa a se descobrir. Também acompanhamos Dulce, um colega de escola do Dengue Boy que deseja apenas um novo console de jogos e é fã de um jogo online de luta entre indígenas e colonizadores. Eles vivem em um mundo distópico onde a temperatura do planeta subiu absurdamente, tornando os polos do planeta, os únicos lugares habitáveis para a humanidade. A história se desenrola entorno no misterio da Grande Anarca, e traz criticas que já deveriam estar obvias pelo desastre climático que a Terra passa e a normalidade do capitalismo, como causador e mantenedor do desastre. É um livro bastante rico em influências estéticas, gore sem freio e criticas ácidas. A influencia de "A Metamorfose" do Kafka, vai alem da existência do inseto andando entre nós, mas do fato de não haver necessariamente uma explicação para tudo. As vezes as coisas simplesmente são. A maior ironia do livro é constatar que as criticas criticam esse absurdo mas não acham nada absurdo o futuro que o capitalismo desenhou para a humanidade. 


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segunda-feira, 11 de março de 2024

Resenha #326 Básico Instinto (Fausto Fawcett)


Básico Instinto é uma obra que mostra como o artista carioca é fiel ao seu objetivo. É uma coleção de contos, praticamente todos passados nas ruas selvagens do Rio de Janeiro onde Katia Flávia, a Godiva do Irajá sai em vingança louca pela morte do seu homem. A verdade é que as histórias são simples, o que encanta ou causa repulsa, mas nunca passa incólume, é a linguagem explosiva de Fausto Fawcett. Há palavrões, mas nenhum está de graça, nem qualquer cena chocante. Tudo serve para compor esta versão brasileira, visceral e cruel do útero podre da grande metrópole.

As histórias, contudo, são as mais simples possíveis. Uma história de vingança. Um maluco homicida em fuga. Mais de uma vez temos o encontro de um homem e uma mulher que vem de pontos diferentes com histórias de vida em que os deixa sem nada a perder e que tem um encontro de almas regado a sexo louco (como em Santa Clara Poltergeist). Experimentos biológicos e genéticos. A ultima sessão do livro tem contos curtissimos que montam um mosaico de um futuro onde idosos são discriminados por precisarem tornar-se ciborgues e entregar pizza para sobreviver, entre outras maluquices.

Ler Fawcett é uma experiência única e quem gosta e não liga para as repetições, pois sempre quer mais e quem não gosta vai descobrir lendo um ou dois contos que isso não lhe serve. Eu gosto e quero mais.

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segunda-feira, 11 de setembro de 2023

Resenha #302 Rio 60 graus (Fábio Fernandes)


Rio 60 graus do Fábio Fernandes é o livro 4 da coleção Dragão Mecânico da Draco, que reúne seis obras dos mais variados gêneros de alguns dos melhores autores da nossa ficção científica. Eu tenho a coleção completa, mas preferi começar por Rio 60 graus por ser cyberpunk, meu subgênero favorito, e não me arrependi. A obra é um caminhão de referências, numa escrita leve e descontraída, diálogos muito fluídos e já falei das referências? Então, elas dão um sabor especial a obra. Mas vamos falar disso enquanto falo um pouco sobre a história.

Acompanhamos Raytek, um garoto que tinha habilidades extraordinárias de hacker até fazer uma besteira no serviço e, como punição, ser injetado com algo que lhe retira as habilidades, mas recebe uma proposta de trabalho potencialmente perigosa de um empregador que promete remover o dano que sofreu. É na essência o mesmo enredo do clássico Neuromancer, mas a referência é tão intencional quanto a frase de abertura que faz um jogo de palavras com o início da obra de Gibson. (para quem não lembra: “O céu sobre o porto tinha a cor de uma televisão sintonizada num canal fora do ar"). Outras referências estão nas obras como Nova York 2140 de Kim Stanley Robinson, onde pulsos elevaram o nível do mar submergindo a Zona Leste do Rio de Janeiro e a Baía da Guanabara. As inserções da Colmeia, que lembram seu livro Os Dias da Peste. É até bacana imaginar que as obras fazem parte ora de um mundo, ora de outro, (na minha cabeça ainda não entra o copyright) mas o fato é que se trata de um mundo próprio e bem rico (ou talvez seja parte do mesmo mundo ), e o Rio de Janeiro, tão tecnológico quanto vivo. E tudo isso em pouco mais de cem páginas. O autor já manifestou seu desejo de expandir o mundo construído aqui e eu como bom fã de cyberpunk estou no aguardo.
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segunda-feira, 21 de agosto de 2023

Resenha #299 Piritas Siderais (Guilherme Kujawski)


Piritas Siderais, (1994) do Guilherme Kujawski é uma das obras precursoras do tupinipunk, que é a aproximação do cyberpunk para o Brasil. Digo aproximação, pois o cyberpunk brasileiro tem preocupações diferentes do americano. No caso de Piritas Siderais é vemos uma preocupação com a com a linguagem e com a subversão do próprio gênero, para transportar o leitor para um futuro próximo embebido de tecnologia com uma interpretação da espiritualidade.

O Brasil de piritas siderais é despido de sua casca cristã, assumindo seu interior iorubá. As cidades são regidas por orixás e o mundo é estacionado numa necessidade de reconstrução. A obra é curta, mas sua linguagem exige do leitor, principalmente no primeiro terço, onde os mundo e Zé Seixas e Terêncio Vale, (os protagonsitas) são apresentados. Uma vez imerso, a história bastante simples avança e conhecemos os vilões da obra, Maria Gonçalves e Berzelius Baldwin que lhes oferecem um trabalho que sabemos que vai dar merda. O que não deixa de ser um padrão de histórias cyberpunks. Personagens financeiramente na merda que aceitam trabalhos ruins que os colocam em situações muito ruins. Contudo, aqui o objetivo é satirizar ao extremo. Os personagens são engraçados, ridículos e as situações também. A linguagem é difícil, pois é experimental e compensa o leitor com uma história simples, pois permite o leitor se jogar no quebra-cabeça linguístico, sem tropeçar em um quebra-cabeça no enredo.

Minha recomendação é ler o livro com a mente aberta. Espere humor, aproveite cada frase pelo que ela inspira e siga lendo sem se preocupar com o tempo. São 136 páginas que passaram rápido e vão ficar na sua cabeça por algum tempo. Vai deixar confuso o leitor acostumado a leituras mais lineares, então é bom separar esta leitura para quando você estiver na vibe de algo diferente. Caso contrário deixe para depois. Eu fiz isso e valeu a pena.

Vou deixar o linque de outra resenha, de quem entende mais que eu sobre o livro, o Luiz Brás com uma versão em pdf da obra para quem quiser ler também!
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segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Resenha #266 Olho de Vidro: Manguetown (Raphael Fernandes e Vitor Wiedergrün)


"Olho de Vidro: Manguetown" é uma HQ da Editora Draco que expande o universo criado para um áudio jogo da Rede Geek. Sobre o podcast interativo ainda não consegui ouvir mas a HQ já está lida e é sobre ela que vamos falar hoje. Ela tem o roteiro de Raphael Fernandes e artes de Vitor Wiedergrün e se passa num Brasil cyberpunk em 2162 que após uma guerra nuclear devastou os maiores países do mundo. Apesar de relativamente poupado (São Paulo é uma mancha radioativa no mapa), o Brasil acabou sendo dividido em Brasil do Sul e Brasil do Norte. Sendo o lado Norte bem evoluído com tecnologias verdes e o Sul dominado por corporações como num bom cyberpunk.

É na fronteira desses Brasis que fica a Nova Sampa, a capital do Brasil do Sul, na divisa dos antigos Estados de Minas Gerais e Bahia, mais precisamente Juazeiro e Petrolina. Lá conhecemos Bidu, um malandro que é um guia turístico dos clandestino para os turistas do Norte. Nesta história Bidu vai oferecer ajuda a um ex-namorado dono de uma companhia de teatro anarquista que está sendo perseguido pela Polícia Privada depois de uma peça de protesto contra uma corporação poderosa na cidade. Bidu vai mexer seus pauzinhos e parece ter um excelente plano para salvar seu ex.

A história é curta mas boa o suficiente para conhecer esse mundo. Uma releitura muito brasileira do cyberpunk com versões esteticamente nordestinas dos clichês mais conhecidos do subgênero adicionados da figura do malandro, bem conhecida por aqui. Adorei os desenhos, o traço e as cores, que souberam usar o tema pastel do nordeste com o super colorido do cyberpunk. Cores que entraram na obra por conta do sucesso do financiamento coletivo que chegou a 400% do valor pretendido e uma das recompensas foi que a edição seria com o miolo colorido, e de fato seria uma pena que toda aquela cor se resumisse aquela capa maravilhosa. A história deixa um gosto de quero mais e espero poder ouvir logo esse podcast e ler mais histórias desse universo, pois a combinação funcionou muito bem!
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segunda-feira, 19 de setembro de 2022

Resenha #253 Ubuntu 2048 (Raphael Silva)



"Ubuntu 2048" (2020) é um thriller cyberpunk afrofuturista lançada pela Kitembo, editora voltada a publicar autores negros no Brasil. A obra é voltada ao publico adolescente e é eficiente em divertir e deslumbrar o leitor, com o carisma dos nossos heróis. A filosofia Ubuntu permeia o conto todo sem parecer didática demais e acrescenta a relação de solidariedade e amizade entre os protagonistas, Tsehai e Kinaya.

A história se passa num futuro caótico, repleto de desastres naturais e provocados pelo homem. Apesar da tecnologia ainda ser uma última barreira contra a extinção da humanidade, o seu fim parece inevitável. Os habitantes da cidade de Salvadora não tem permissão para sair da cidade mesmo que seus habitantes sejam obrigados a coletar Méritos para não serem aposentados (como em Blade Runner, um nome suave para assassinato). É aqui que Teshai (ou Tsehai) se vê obrigado a pegar um serviço perigoso para coletar Méritos, para tirar sua cabeça da lista de pessoas a serem aposentados. Sabemos que esse serviço vai colocar Tsehai em mais confusão e no caminho da androide procurada Kinaya. O livro acompanha a jornada de dois marcados para a morte, cheio de ação e carisma dos personagens. Inicialmente temos sequencias de perseguição mas logo o tema das inteligências artificiais toma conta do livro e conhecemos mais da dinâmica deste mundo onde estabelece o objetivo final do protagonista.

É preciso advertir o leitor que é um livro YA (Young Adult) e os personagens adolescentes podem não ser tão interessantes para velhos rabugentos como eu, que ainda assim gostei da construção leve dos protagonistas e da inserção da linda filosofia Ubuntu na história. Infelizmente a parte física da edição tem alguns erros muito difíceis de ignorar. O nome Tsehai estar grafado Teshai na contra capa e a inserção de separação entre os parágrafos e por fim a repetição de um capítulo inteiro, causam um desconforto ao ler a obra. Felizmente a leitura é muito fluída e tudo é muito ágil, o que ameniza os defeitos da edição. Como o mais importante é a história e a experiência da leitura, recomendo Ubuntu 2048!
 
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terça-feira, 23 de agosto de 2022

Resenha #249 Olhos de Pixel (Lucas Mota)


"Olhos de Pixel" de Lucas Mota foi lançado pela Plutão Livros, uma editora focada em livros digitais. É uma aventura cyberpunk que se passa nas ruas de uma Curitiba num futuro próximo. É uma abordagem do cyberpunk amplamente diferente do introspectivo e intimista Diário Simulado de Delson Neto (também pela Plutão Livros), partindo para a aventura frenética usando e abusando da estética dos jogos eletrônicos, quase numa paródia ao cyberpunk oitentista. 

Acompanhamos Valentina Santeless, conhecida como Nina. Uma root, uma fora da lei que aceita trabalhos perigosos e duvidosos para descolar uma grana para buscar uma vida nova para ela e seu filho na colônia Chang'e. Junto com a temperamental Iza e o valente Tera, vão travar uma verdadeira guerra pela própria liberdade, após terem sido pegas pela polícia privada e terem que pagar capturando o Kalango, um terrorista que sabe dos segredinhos sujos da Igreja de Salomão. Entidade que controla a cidade com mãos de ferro e impõe um conservadorismo religioso que caça lésbicas como Nina e transexuais como Tera. Em certos momentos acompanhamos Lídia, a policial que tenta usar os roots para prender o Kalango.

O livro tem um ritmo alucinante, recheado de cenas de ação, que só não vai divertir quem não quer. Contudo, temos uma preocupação em colocar ideias tecnológicas interessantes, retiradas de jogos. Um processo coerente com a gamificação do trabalho que vemos hoje. Por exemplo, as smartselfs, que são apetrechos que aparentemente apenas servem para inserir programas utilitários mas que na mão dos hackers são modificados com modpacks que implementam melhorias nos sentidos e na força física dos usuários com o risco de superaquecimento e reboot - que deixa o usuário desacordado por algumas horas. Podemos imaginar que sofrer um reboot, em meio aos intensos combates que nossos roots se submetem enquanto estão arriscando-se para fechar seus trabalhos, é uma morte quase certa. Quando lemos esses sistema em ação durante o livro, temos algo fácil de visualizar, acompanhar e torcer pelos protagonistas.

Isso acontece porque também houve uma preocupação em dar mais camadas a Nina, pois ela teve atitudes condenáveis em relação ao seu filho e precisa arcar com as consequências, como podemos ver nesta história. Lidia Gaber, também foi bem trabalhada no seu dilema, uma vez que a narrativa em terceira pessoa a acompanha em suas reviravoltas. O resultado de tudo isso junto é um livro que não tem medo de dizer a que veio. Duro e sem meias palavras, Olhos de Pixel mete o pé na porta assim como nas suas cenas de ação! Recomendado!   




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segunda-feira, 13 de junho de 2022

Resenha #239 Diário Simulado (Delson Neto)


"Diário Simulado" de Delson Neto foi a minha primeira aquisição de livro exclusivamente digital, uma vez que a Plutão Livros tem trabalhado apenas neste formato. Um marco pessoal pois, desde que adquiri meu leitor Kindle, li apenas livros gratuitos e pelo sistema de empréstimo Kindle Unlimited. Como não poderia deixar de ser, essa aquisição foi um cyberpunk brasileiro. Subgênero que sempre estou catando algo para ler e não me decepcionei aqui.

Acompanhamos Shura, que vive em Nova Avalon, num futuro indeterminado. Após cair no fogo cruzado, durante um atentado terrorista, ela se vê no meio do conflito. Recrutada tanto pelo departamento de polícia quanto pelos neodruidas. Shura é uma personagem muito bem construída, antes de mais nada, pelas suas reflexões em forma de diário antes de cada capítulo. Durante a história, Shura se mostra impulsiva, reprimindo emoções em meio a vida atribulada. Nenhum de seus familiares de sangue, a ajuda, e ela encontra esteio emocional apenas em Violet, sua namorada, que serve de contraponto para sua impulsividade, que aflora quando as duas estão longe uma da outra. Já em Trisha, sua melhor amiga, a apoia em tudo, ainda que essa amizade não tenha sido tanto posta a prova.

Shura vive no limiar do real em um mundo tomado por simulações, sendo que para os neodruidas, ela é imposta como forma de opressão, o que dá ares de Philip K. Dick a obra. Contudo, não temos uma escrita prolixa sobre o mundo das simulações, mas boas reflexões que entranham-se com muita coesão no mundo futurista. Acredito que acima de tudo temos uma boa história em um livro bom tanto para novatos quanto veteranos na FC.
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segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

Resenha #214 - Silicone XXI (Afredo Sirkis)


"Isso foi o começo, depois ele começou a defender umas ideias loucas sobre eutanásia. Disse que era a favor de eutanásia social, política, cultural e demográfica. Falou um monte de besteiras. (...) Disse que os grandes problemas do Brasil eram o excesso de gente e as eleições, que a gente precisava precisava de um homem forte pra diminuir a população, essas coisas." p.189.

"Silicone XXI" é a obra que inaugura o que veio a ser chamado de Tupinipunk, um subgênero que faz uma releitura brasileira ao Cyberpunk. Santa Clara Poltergeist (Fausto Fawcett) de 1991, Piritas Siderais (1994), de Guilherme Kujawsky e Distrito Federal (Luiz Brás) são outras obras que se encaixam no Tupinipunk, ainda que o próprio autor não visse sua obra como Ficção Científica, ressaltando apenas seu aspecto Policial, sou obrigado a discordar, pois não é a Pistola Laser e os carros flutuantes que tornam a obra uma FC.

Como em um bom romance policial, acompanhamos uma investigação de uma serie de assassinatos, cometidos pelo chamado "Maníaco da Pistola L" e também de "siliconpênis" contra homossexuais. O investigador negro de 52 anos, da polícia metropolitana José Balduino e a jovem Lili Braga, jornalista investigativa de 25 anos, sexualmente liberal, logo chegam ao nome de Estrôncio Luz, major reformado do exército que exige ser chamado de general, que alimenta ideias de eugenia social e limpeza étnica, mas que tenta compensar sua impotência com um pênis de silicone cirurgicamente implantado.

O vilão é, na verdade, uma das mensagens principais do livro, referência a truculência dos militares, ironicamente associado a uma homossexualidade enrustida e a um saudosíssimo, uma vez que o romance (de 1985) se passa em 2019. Estrôncio Luz é uma referência quase direta ao elemento radioativo e ao General Cruz, que exemplificava a truculência dos militares. Retirando a questão atômica, que saiu de pauta após o fim da Guerra Fria e do medo nuclear, e substituindo pela conveniência do Corona vírus, a questão ideológica do saudosismo militar ganha tons quase proféticos, e até otimistas, vide o nosso atual governo que se orgulha de cancelar CPFs. Por outro lado, também temos um futuro pós governos social-democratas, em que iniciativas e comunidades verdes, com respeito ao sincretismo religioso brasileiro, se espalharam pelo país, dando um aspecto utópico ao futuro tecnológico cyberpunk, um vez que o autor é um dos fundadores do Partido Verde e teve ocupou várias vezes seguidas cargos legislativos, até seu falecimento em 2020.

A leitura é muito divertida, uma vez que o autor trata a ironia e irreverência das pornochanchadas, os assuntos sérios e o próprio estilo policial e a enxurrada de termos técnicos do cyberpunk. Infelizmente o livro foi incompreendido, na sua época, recebendo resenhas negativas na época, talvez tenha influenciado a encerrar sua carreira literária. Ironicamente, o publico mais capaz de entender a beleza da obra, é justamente o nicho da FC, gênero negado pelo próprio autor. Espero que essa resenha possa ajudar a promover esse reencontro, entre deste belo exemplo de Ficção Científica Brasileira, com B maiúsculo mesmo, antes tarde do que nunca.
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segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Resenha #213 - Cyberlogia (Tauã Lima Verdan Rangel Org.)


"Cyberlogia" é uma antologia de contos Cyberpunk. Foi uma boa surpresa em alguns pontos e em outros tem a média comum de antologias. Os pontos fortes são a introdução, que mostra um bom conhecimento sobre o que é o cyberpunk, mesmo sem mencionar as referências e autores consagrados. Os contos bons são muito bons, porém são contos muito curtos. 15 contos em 100 páginas. Alguns contos não se encaixam bem no cyberpunk, e eu esperava um cuidado maior na escolha, uma vez que o livro é curto e a introdução demonstrou conhecimento do tema. 

A Sete Palmos do Chão (Ana Gabriela Pacheco) A divisão social nesse mundo é entre os pobres que moram na superfície e a elite que vive em prédios flutuantes. Acompanhamos uma rebelde que acorda após um atentado a uma fábrica e logo se vê perseguida pela polícia. O conto surpreende no final, por uma resolução aparentemente cansada mas que por alguns detalhes pouco explicados consegue fazer diferente. 

O Roubo de Naguile (Ana Rosa) A humanidade está ameaçada por ter perdido o controle de sua reprodução. Tem mais aproximações com Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, que com o cyberpunk em si, porém é um bom conto.

Éramos Mais Felizes Antes (Clara Formatti) Acompanhamos Maia, que trabalha em um hospital em um futuro de extenso uso de próteses para repor partes orgânicas, quando após um acidente com sua esposa, descobre que ela voltou muito diferente do que ela conhecia. O conto tem uma ideia boa, mas tem uma resolução muito expositiva.

Atualização Mental (Enzo S. Macedo) Júlia é convencida pelos amigos a fazer uma atualização mental, para suprimir sentimentos. Acompanhamos os motivos e as consequências de sua decisão. É um paralelo as fugas diárias que fazemos hoje para nossos problemas. 

A Programação (Fábio Cachamorra) Acompanhamos um Sintético, criado pela IURD (Indústrias Unidas pelo Reino de Deus) em uma analogia muito bem feita entre a ideologia religiosa e a corporativa e a forma como descobrimos é bem explorada.

Cidade Baixa (Fábio Muller) Um mercenário que vive na área privilegiada cai na Cidade Baixa, onde acompanhamos como é a vida lá e a luta do protagonista para sobreviver. Conto digno da ação que promove.

Peças de Reposição (Humberto Lima) Uma linda ruiva dos níveis superiores (dos privilegiados) decide passear pelos níveis inferiores (ultra violentos). Um crime e a vingança, regada a tecnologia robótica. É uma ação clichê como o conto anterior, porém mais esteticamente divertido.

Metallo (Igor Moraes) Mais um conto de robôs, ao estilo Asimov, brincando com as três leis da robótica, que um conto cyberpunk, mas um bom conto de robôs a Asimov, brincando com as três leis da robótica.

Boneca Cibernética (Léon Edson) Um investigador encontra o corpo de uma jovem morta tragicamente, então começa uma torrente de revelações que deixam o conto muito frenético e cheio de ação. Uma pena que o final tenha cara de episódio piloto, ou capítulo, do que um conto fechado.

"Chaos-2120" (M. Consanni) Conto distopico futurista com poucos elementos cyberpunks, mas ainda sim vale a pena forma de escrita na primeira pessoa em forma de relato.

Os Irmãos (Maurício Coelho) Conto típico do cyberpunk, em que dois irmãos pegam um trabalho perigoso, que é mais perigoso que imaginaram. Aqui foi bem ambientado no Pará, o que deu o elemento de nossa relação com a tecnologia.

Drone (Nick Scabello) Acompanhamos Amanda que está fazendo uma incursão em uma área restrita protegida por um drone. Um duelo com a tecnologia, muito bacana de acompanhar. Parece uma cena isolada de um livro, mas consegue ser eficiente como peça isolada, o desfecho traz o motivo para aquele confronto, mas é um conto que vale pelo desenvolvimento. 

Visão (Rodrigo Ortiz Vinholo) Narra em primeira pessoa, um homem que passa a ter visões de uma mulher. O autor consegue montar um suspense sobre o que se trata tudo isso, como se fosse um conto de terror mas que tem um desfecho completamente calcado na tecnologia e condizente com o cyberpunk. Meu conto favorito do livro! 

No Boulevard das Sombras (Tauã Lima Verdan Rangel) Temos a história de uma prostituta que involuntariamente se envolve em uma conspiração envolvendo corporações e espionagem industrial. O conto perde bastante parágrafos em descrições de cenário no início e acaba deixando pouco para detalhar mais o final deixando muito enigmático.

Cabeça Vazia (Wilson Carvalho) Conto sobre robôs que tem mais aproximação com os antigos contos de robôs do Asimov que com o cyberpunk contestador dos anos 80, mas ainda sim, um bom conto sobre robôs.
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segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Resenha #203 - Aventura Atômica (Ernan Batencour)


"Aventura Atômica" é uma novela cyberpunk de Ernan Batencour (pseudônimo) que parece fazer uma sátira dos clichês cyberpunks. A história mostra John Karsten que é sequestrado por uma família de mafiosos para fazer um roubo na sede de uma equivalente da ONU, que apenas ele poderia executar. Ele conta com astúcia e uma amiga/ajudante de cabelo roxo e, no assalto, encontra uma criança com equipamentos eletrônicos misturados ao seu cérebro que é uma experiência secreta que causaria muitos estragos em mãos inescrupulosas. Praticamente a mesma história de Turner em Count Zero de William Gibson, mas numa versão aventuresca (quase satírica) como o próprio título sugere. A leitura é leve, despreocupada e vai agradar quem não quer nada profundo para ler. O final procura trazer algo diferente mas que acaba não condizendo com o tom quase escrachado que trata os clichês cyberpunks. Não tenho certeza se houve a intenção de sátira. Espero que sim pois seria a única justificativa para profusão de clichês e ainda assim isso também não tem nada de novo. Pessoalmente prefiro um cyberpunk que se leve a sério, ainda que não rejeitaria automaticamente uma sátira desde que buscasse subverter tirando um sarro dos clichês e não apenas reproduzindo-os.
 
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segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Resenha #202 - Suell: A Revolução Silenciosa (Rômulo Kiffer)


"Suell: A Revolução Silenciosa" é uma das últimas leituras da minha Corrida Kindle Unlimited do ano passado, onde li vários livros em ebooks em 30 dias. O livro é uma novela cyberpunk com uma história bastante aventuresca e inocente de um punhado de rapazes que de alguma forma se envolvem com Suell, a líder de uma facção que quer acabar com todas as facções da comunidade para findar as guerras de gangues. A forma como farão isso é a mais óbvia: hackear servidores de dados. São seis capítulos, e cada um segue um dos membros do grupo as vésperas da grande operação. A escrita é ágil e correta, sem brilho que funcionaria melhor numa HQ. As artes do livro são sensacionais, tanto a capa quanto as que ilustram a abertura dos capítulos e é definitivamente a melhor coisa do livro. É uma boa leitura de praia, mas para um cyberpunk eu sempre espero mais!
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segunda-feira, 17 de maio de 2021

Resenha #183 - Até que a brisa da manhã necrose teu sistema (Ricardo Celestino)


"Até que a brisa da manhã necrose teu sistema" é um lançamento independente, via Clube dos Autores, e também romance de estreia de Ricardo Celestino. É um romance que classifico como cyberpunk, apesar das várias particularidades, que misturam elementos trash, numa prosa disposta em formas bastante diferentes, com bastante experimentação, sem deixar escapar a relevância da tecnologia, como numa boa FC. Certamente uma das melhores contribuições recentes da Ficção Científica Brasileira (sim, com iniciais maiúsculas).

Acompanhamos a história de Mário, ou M4594, em sua jornada por uma vida melhor na Orbe Norte em uma São Paulo cyberpunk que leva a sério o punk. Nessa São Paulo, os que não conseguem lugar nessa sociedade são realocados no Complexo Comunitário Reabertura, onde a vida é mais difícil ainda. Mário é apenas um veículo narrativo, um sujeito como qualquer outro, para uma viagem bastante profunda nesse mundo. É apenas mais um habitante que tem a vida registrada e controlada pelo PÁTRIA AMADA, programa responsável por separar os mais aptos a viver na Orbe Norte.

Mário vive a típica história cyberpunk. Um cara fodido que recebe uma proposta boa demais para não ser um mal negócio, e de fato é. O elemento trash, como nos filmes de terror dos anos 1970/80, dá o clima que vemos na ilustração da capa e no clima bizarro onde a principal fonte de proteína é carne humana, e os habitantes do Reabertura podem ser vítimas de carniceiros ilegais. Ricardo conseguiu imaginar tempos piores que a nossa realidade. Algo que o absurdo do trash foi muito eficiente, nos imergindo nessa estranheza e horror, para depois vermos como não é tão diferente do que é e do que pode ser. Um efeito que os ficcionistas tem suado a camiseta para imaginar recentemente. 

A forma é um atrativo a parte. Frases curtas desalinhadas como numa poesia modernista mas que não deixam de ser prosa. São as partes ágeis da leitura. Exigem uma cadência de leitura própria. Esses momentos são alternados com textos em itálico, onde as vezes são inseridos os diálogos de forma indireta. Eu apreciei bastante a novidade, depende do leitor estar aberto ou não a algo novo.

A capa é convidativa a algo mais despojado de reflexão, como eram os filmes o terror trash oitentista, mas o texto é complexo, passa longe de ser leitura de praia, mas isso acontece pela profundidade que o texto de fato tem e não pelo gosto de se prolixo. Isso torna um texto que exige do leitor mas o recompensa quando ele se dispõe a mergulhar na obra. A obra exige gosto pela tecnologia de informação, pelo cyberpunk e um pouco de estômago forte sempre ajuda, porém como disse, é uma obra que recompensa o leitor que decidir imergir nela. Recomendo muito!
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segunda-feira, 19 de abril de 2021

Resenha #179 - Ìségún (Lu Ain-Zaila)


"Ìségún" é uma novela de ficção científica da escritora Lu Ain-Zaila, que se classifica como cyberfunk, uma variação do cyberpunk. Essa mudança não é apenas lançar moda ou apenas estético. É uma mudança filosófica que faz toda a diferença. A obra faz isso mudando a forma de encarar a distopia.

Distopias, sem querer teorizar muito, é uma forma que a FC retrata o oposto da Utopia, construindo futuros em que tudo deu errado (de forma irremediável) seja por ditadura, tecnologia, catástrofe ambiental ou a combinação de dois ou mais desses elementos. Já a narrativa utópica pressupõe uma história onde a sociedade evoluiu atingindo objetivos que hoje são apenas vontades. A Utopia de Thomas Morus, assim como as distopias clássicas (1984, Farenheit 451, Admirável Mundo Novo e, como gosto sempre de acrescentar, O Conto da Aia), fazem, a seu modo, críticas a sociedade atual, usando modelos perfeitos ou desastrosos. A utopia, porém, é mais que apenas um mundo perfeito. É um horizonte para se perseguir que quando se realiza deixa de ser utopia para ser realidade para então dar vazão a novas utopias no horizonte. Onde Ìségún entra nisso tudo?!

Acompanhamos Zuhri uma detetive do NCCOAH (Núcleo de Combate a Crimes da Ordem Ambiental-Humana) incumbida de investigar a morte do Dr. Diop, um pesquisador da Alphabio Tech. Zuhri percorre os meandros da Cidade Alta e Cidade Baixa em um mundo onde a degradação ambiental fez os poderosos buscarem as áreas mais elevadas para escapar da contaminação radioativa, enquanto a Cidade Baixa vive prensada entre os limites murados da Cidade Alta e a nuvem tóxica que contamina ao nível do mar. Além do mistério do crime, Zuhri precisa entender sua conexão com Ayomide, que veio da África cheio de mistérios ancestrais que tem profunda relação com Zuhri.

Zuhri vive num cenário distópico cyberpunk clássico mas a diferença está além do fato da protagonista ser negra e momentos de afirmação que vão além de retratar o sofrimento (o que já é ótimo) mas no elemento de agregação social entre o povo que vive oprimido. Está na comida boa e barata da Tia Cita; na ajuda que o pessoal do barracão da escola de samba da região dá a Zuhri; na rebeldia da rádio pirata, principalmente por essa rebeldia ser consciente e não ser um grito desesperado. Apesar de a sociedade em geral ter chegado aquele ponto de degradação ambiental e social, diferente das distopias clássicas, ainda há esperança e ela é pungente na vida cotidiana que é mostrada em paralelo a investigação de Zuhri. Essa esperança e esse cotidiano se entrelaça de forma mais orgânica aos mistérios do livro que a própria investigação de Zuhri e é isso que faz a novela brilha, e faz tudo isso sem que a investigação se torne irrelevante.

A escrita flui bem como uma aventura, sem permitir que os aspectos mais profundos da trama pesem a leitura e, tampouco, que a aventura se torne pueril. É uma obra consciente do que fala e sabe onde encaixar essa consciência de forma fluída em poucas páginas. Leitura obrigatória e prazerosa para quem quer conhecer o afrofuturismo e o que está rolando de novo na FC no Brasil.
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segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Resenha #147 - Poder Absoluto (Jean Gabriel Álamo)


"Poder Absoluto" é o primeiro livro de Jean Gabriel Álamo, lançado de forma independente em 2017 na plataforma da Amazon e desde então o autor vem lançando vários trabalhos na plataforma - contos, noveletas, romances - dentro do mesmo universo sem se limitar a Ficção Científica, o que me instigou a ler essa obra com perspectiva de acompanhar outros escritos. A história começa em 2257 e a humanidade é governada pelo Suserano, uma inteligência artificial resultado da transferência de consciência de um cientista que implantou uma ditadura global, governando com mão de ferro. Acompanhamos o protagonista Pietro que vive na cidade 1223 (todas as cidades são números) e, depois que vê seu amigo Darcy ser abatido a tiros pela polícia, entra em uma trama que envolve diretamente o governo e um grupo subversivo chamado MK Ultra, enquanto isso Pietro também conhece e se apaixona por Diana, uma repórter do Menestrel (imprensa permitida pelo governo) mas mesmo sem saber ela também tem uma ligação estreita com o MK Ultra. A partir daí vão entrando mais personagens e se instaura um conflito de interesses. Pietro se torna importante para o MK Ultra que deseja usá-lo em seus planos enquanto ambos são caçados pela polícia do Suserano. A obra se define como um cyberpunk, e apesar de constar a atitude contra o sistema que justifique o sufixo "punk", a ambientação se encaixa em qualquer futurismo.

A obra é organizada em vários capítulos curtos que alternam de personagem. Boa parte dos capítulos é com Pietro e outros com Diana, e uma pequena parte alterna entre outros personagens, o que traz um dinamismo bem vindo. A história tem muitos eventos e revelações, os mistérios ficaram bem construídos. As cenas de ação são o forte do livro, com destaque a fuga pelos buracos de minhoca. As tecnologias utilizadas em armas, veículos e demais objetos são muito bem elaborados e explicados na medida certa, pois o autor deixa as notas de rodapé os detalhes técnicos para os curiosos e poupa o leitor que quer mais ação de uma quebra de ritmo. Contudo, o que a obra explica em detalhes técnicos, falta na construção dos personagens principais que não tem qualquer curva de evolução: a grande maioria deles são os mesmos do início ao fim, acabei me afeiçoando mais de Quorra, líder do MK Ultra que parece ser a única personagem com motivações mais profundas, mas os personagens principais Pietro e Diana soam adolescentes o tempo todo. Temos apenas um fundo raso de motivação mas não faz o protagonista ficar mais interessante pois não sabemos como os protagonistas se sentem, então quando eles mudam de atitude e passam a agir diferente, acaba sendo algo repentino, forçado. Sendo assim, o livro é bom se você gosta de cenas de ação e um ritmo frenético. Já tenho várias obras lidas do autor que pretendo trazer no blogue!
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terça-feira, 14 de julho de 2020

Resenha #140 - Trabalho Honesto (Rodrigo Van Kampen)

Trabalho Honesto (2016) é uma das obras que foram distribuídas gratuitamente (junto de outros ebooks) no início da quarentena e fez parte das minhas leituras durante esse período. É uma novela escrita por Rodrigo Vam Kampen, conhecido pela sua Revista Trasgo. 

A obra é uma mistura cyberpunk com fantasia cheia de mitos brasileiros. Acompanhamos a história do lobisomem Ralphe que tenta se adaptar a vida em nossa dimensão após a abertura de portais para outras dimensões ondem vivem os seres como sacis, unhudos, cucas, botos e, claro, lobisomens. Com dificuldade de conseguir um trabalho normal aceita a oferta de Victor Sombrera para trabalhar em sua agencia de segurança onde suar força é posta a prova serviços perigosos ao lado de Lúcia, filha do seu patrão.

O livro é dividido em seis capítulos que funcionam como episódios, contando uma história isolada e, ao mesmo tempo, uma história maior no pano de fundo. As primeiras histórias ajudam a estabelecer o vínculo entre Ralphe e Lúcia enquanto apresenta as peculiaridades desse mundo. As ultimas histórias vão aprofundando na trama principal que gira entorno de uma máfia em Campinas. A escrita é direta e leve, favorecendo as boas cenas de ação e a interação entre Ralphe e Lúcia que funciona bem durante o livro. É uma excelente leitura de praia para se entreter e conhecer um pouco da fantasia feita com criaturas do nosso folclore.  

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segunda-feira, 18 de maio de 2020

Resenha #132 - A Construção do Imaginário Cyber (Fábio Fernandes)

"A Construção do Imaginário Cyber: William Gibson, criador da cibercultura" (2006) é um livro derivado da monografia do mestrado de Fábio Fernandes, onde o autor argumenta sobre a obra de William Gibson e como ela influenciou a cibercultura, não apenas especulando o futuro, propondo uma nova forma de vê-lo, mas contribuindo para molda-lo. Talvez essa resenha pareça um fichamento, provavelmente pois foi baseada num fichamento de uma leitura com marcações no texto, afinal não temos preocupação com spoiler aqui.


O primeiro capítulo analisa as contribuições de William Gibson para a criação da cibercultura com um entendimento melhor do conceito de Aldeia Global, de Marshal McLuhan e da comunicação instantânea especulada por Arthur C. Clarke. O conto "O Contínum de Gernsback" é a forma que Gibson mostra que o futuro limpo da FC dos anos 1930 parece uma propaganda nazista perto da realidade suja e desigual da visão dos ciberpunks.

O segundo capítulo busca trazer luz ao que é ficção científica trazendo o conceito de  estranhamento cognitivo/maravilhamento, além de caracterizar como um megatexto com palavras conhecidas (como robô ou nave) mesmo em obras diferentes.

O terceiro capítulo narra uma mudança na forma tradicional de FC dos anos 30-50, a Era de Ouro, onde despontaram nomes como Asimov e Clarke caracterizada pelo foco em áreas "duras" do conhecimento como a física, química e biologia em histórias limitadas ao confronto bem x mal, inspiradas no contexto da 2GM e passando pelo surgimento da New Wave nos anos 1970 onde despontaram Ballard, Ursula LeGuin e Delany, trocando o foco para áreas humanas como a antropologia, linguística e semiótica e tinha histórias multipolarizadas inspiradas no contexto da Guerra Fria e por fim, no movimento ciberpunk, que busca novas formas de especulação contrapondo-se fortemente a FC da Era de Ouro, tendo William Gibson e Bruce Sterling são os principais expoentes. 

O quarto capítulo faz um resumo da obra literária de Gibson, onde o autor extrai as principais contribuições conceituais de cada obra. Principalmente Neuromancer, Count Zero e Monalisa Overdrive. Para fazer isso o autor conta também os finais de algumas obras o que é importante para quem não leu algum dos livros doa autor. Como a obra é de 2006, ainda não haviam sido lançadas as sequências que formariam a Trilogia Blue Ant, apenas a primeira (Reconhecimento de Padrões) que é especialmente tratada no capítulo cinco. 

Em Reconhecimento de Padrões, o autor a aponta como uma repetição do que Gibson havia tratado em suas obras anteriores mas sem a especulação de uma FC, pois a obra se passa no presente. Por exemplo, a forma de megacorporações (como a Tessier-Ashpool de Neuromancer) é substituída pela pequena empresa Blue Ant, ágil e terceirizadora de staff, diferente do conglomerado que praticamente encarcera funcionários valiosos como em Count Zero. Isso também aparece na protagonista que reúne algumas características de personagens anteriores como Case, Laney, Molly Millions. O autor ainda faz reflexões sobre os fóruns que Cayce frequenta com comunidades na internet que ainda iriam se alastrar nas duas últimas décadas, dando o exemplo da época, o Orkut. As próprias repetições entre as especulações dos primeiros livros e Reconhecimento de Padrões mostram o quanto Gibson influenciou a criação da cibercultura e também como Gibson foi modificado por elas.

Espero não ter distorcido nenhuma reflexão do autor aqui, ao tentar colocar o que li em menos palavras. A monografia que gerou este livro é uma das pioneiras na abordagem da ficção científica na academia, aqui no Brasil e isso deve ser o suficiente para começar a leitura. Então, se você gosta de ciberpunk, cibercultura e não tem medo de uma leitura de não-ficção inteligente recomendo esse livro!
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terça-feira, 21 de abril de 2020

Resenha #128 - Cyberpunk (Cirilo S. Lemos e Erick Santos Cardoso)


"Cyberpunk: registros recuperados de futuros perdidos" é uma coletânea da editora Dacro organizada por Cirilo S. Lemos (O Alienado e E de Extermínio) e Erick Santos Cardoso. A coletânea faz parte da série Mundo Punk, que nos trouxe coletâneas de diversos subgêneros retrofuturistas da ficção científica como Solarpunk, Steampunk (que na coleção se chamam: Vaporpunk I e II) e Dieselpunk, derivados justamente do ciberpunk, sendo este volume o auge da coleção. A coletânea privilegia autores brasileiros e contos inéditos e como o prefácio de Fábio Fernandes afirma, foi valorizado o lado "punk" ao invés de ficar restrito a estética "cyber". Agora vamos falar dos contos 

"De lentes invocadas e tapiocas de queijo" (Santiago Santos): Fabíola Etcheverria é uma fotógrafa reconhecida que aceita um trabalho para cobrir um evento empresarial em Cuiabá-MT. O autor faz uma bela viagem em uma cidade ciberpunk fora dos grandes centros urbanos de forma bastante fluida, ainda que devido as mudanças climáticas, o Mato Grosso ganhe importância nacional. A trama acaba se desenrolando como a maioria das histórias do gênero, com um trabalho que não é o que parecia ser e o autor conduz a história de forma que fica interessante enquanto a história chega ao final. Foi um excelente início para a coletânea.

"A lua é uma flor sem pétalas redux" (Cirilo S. Lemos): Conto faz uma versão ciberpunk das favelas cariocas com a linguagem seca e cruel que caracteriza tanto a favela quanto o high tech/low life, e tudo de forma bastante realista, afinal os últimos 50 anos de avanço tecnológico não diminuiram a desigualdade, porque os próximos 50 seriam diferentes? A história acompanha Mirolha, um menino soldado do tráfico que busca subir nas graças de Tubarão, chefe da Comunidade Autônoma do Buraco da Pedra, quando perde sua arma e que reconquistar o respeito. [melhor conto da coleção]      

"Caos Tranquilo" (Ricardo Santos): Zima trabalha em uma grande corporação na Bahia, mas encontra-se em uma caçada enquanto busca por informações de MC enquanto é ajudada por Max. Enquanto isso Edmo é um pacato pesquisador de antiguidades e possui segredos que afetam a grande caçada na qual Zima se vê como alvo. A novela tem bastante ação e uma história intrigante onde nada é jogado no colo do leitor.

"A gota d’água" (Daniel Grimoni): Milton é um vendedor de guarda-chuvas em um mundo afetado por mudanças climáticas que quer apenas atender ao desejo do seu filho em enxergar normalmente, mas encontra resistência de sua esposa. Milton vê o mundo desabar enquanto explora seus próprios segredos, quando tudo vem a tona. O forte nesse conto é a linguagem poética, enquanto os segredos e reviravoltas são muito bem colocados na trama. Uma leitura forte, tocante e é o conto mais bem escrito do livro.  

"Folhas no terraço" (Michel Peres): Conto noir numa Recife futurista, onde o investigador particular Flaiano aceita um serviço da senhora Miragaia que deseja vingança ao que fizeram ao seu irmão. Conto faz um tour pelo submundo da prostituição sado-masoquista e modificações genéticas e consegue prender com o mistério e o caminho investigativo de Flaiano. Conto fez bom uso dos clichês em um cenário brasileiro.

"Boca Maldita" (Claudia Dugim): Conto é uma viagem na pele de Hani, um garoto de programa que percorre os territórios de três culturas diferentes atendendo seus clientes e colecionando amantes. O conto encaixa-se perfeitamente no new wierd sem sair do ciberpunk. A história é uma viagem pela civilização que restou do mundo no continente antártico e suas três culturas. Elas coexistem mais em aceitação que guerra mas a passagem de Hani agita as coisas. Chama a atenção a linguagem crua e direta e a sexualidade livre desse mundo, feito para chocar a família tradicional brasileira (felizmente).

"Cyberfunk" (Carlos Contente e Rodrigo Silva do Ó): Cyberfunk é uma perseguição frenética na pele de Jorginho em meio a corporações chinesas e uma vida fodida nas favelas do Rio para tentar mudar de vida. Uma das melhores misturas do ciberpunk com a realidade brasileira e a baixa qualidade de vida ao nosso modo. A ação é frenética, que faz valer o "funk" no título, e os autores conseguiram deixar tudo muito fluído o que melhora a experiência da leitura, que antes de terminar já se tornou um dos meus preferidos do livro. 

"Próximo nível" (Marcelo A. Galvão): Alice é uma bug zapper reconhecida e é chamada para resolver um problema com a conta de dois jogadores de um MMORPG jogado no mundo todo, que a principio foram "assassinados" no jogo e tiveram contas excluídas, o que pode levar embaraço, processos e inclusive flopar o jogo. Alice entra no mundo do jogo e começa um trabalho investigativo para encontrar o bug. O conto consegue mesclar bem o mistério em um mundo virtual, sem parecer infantil ou fútil, de forma competente e convincente. O final consegue surpreender na forma dos acontecimentos com criatividade. 

"Sonho de Menino" (Marcel Breton): Conto passado em Minas Gerais, o que fica evidente pelo sotaque colocado por extenso nos diálogos, e conta a história de Paulo que se envolve com traficantes de sonhos quando compra um dos seus produtos que foi roubado deles. Começa a perseguição ao sonhador que quer apenas realizar uma fantasia e acaba em um esquema maior que ele. O conto teve uma leitura um pouco truncada pela forma de colocar o sotaque mineiro de forma literal nos diálogos, o que particularmente não apreciei muito mas a história é boa e tem um final que consegue surpreender.

"Recall" (Karen Alvares): O sonho de ser mãe ao alcance da mão em uma prateleira. A biotecnologia capaz de fabricar vida, ou melhor, de controlar a forma como a vida vem ao mundo é trazida de forma impactante neste conto. Flávia deseja realizar o sonho de ser mãe depois de dois anos de uma separação difícil e encontra no bebêmatic a solução mas ser mãe e controlar o destino de uma vida não é tão simples quanto comprá-la. O conto é envolvente e muito bem escrito.

"Sonhos wifi" (Fábio Fernandes): Problemas com um jogo de Realidade Virtual prendem um grupo de jogadores em camadas de falsas realidades numa São Paulo deserta e cheia de predadores bizarros. O conto tem uma linguagem furiosa e fluida, como se fosse uma história contada numa mesa de bar, mas com questionamentos profundos sobre a realidade, sem deixar claro se alguém sabe onde ela está.

"Amor em Antares" (Alexey Dodsworth): O conto entrou nessa coleção graças a superação das metas do financiamento coletivo que permitiu o lançamento do livro e o encerra com o conto mais tocante da coleção. Marie é uma menina autista com problemas para se relacionar com as pessoas e encontra no amor de Seon, o significado desse sentimento. O final é emocionante e tudo foi conduzido com bastante habilidade pelo autor.
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