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quinta-feira, 1 de julho de 2021

Não deixe o punk morrer (Davenir Viganon) - OPINIÃO


O cyberpunk é meu subgênero favorito da Ficção Científica, desde que vi pela primeira vez (quando era um guri nos anos 90) aquele mundo escuro de Blade Runner, cheio de riqueza e pobreza coexistindo em caos. Com o passar do tempo, surgiram muitos gêneros derivados dele; o primeiro, o steampunk, foi criado pelos próprios expoentes do cyberpunk, William Gibson e Bruce Sterling, mas algo se perdeu nas quatro últimas décadas.

Antes de externar minha quase indignação/lamento, vamos desmontar um pouco essas engrenagens, ou chips se preferirem. O cyberpunk que conhecemos surgiu nos anos 1980 nos EUA, como um movimento literário na Ficção Científica. Referiam-se a si mesmos apenas como O Movimento e buscavam novos ares para o gênero, contrapondo-se à Era de Ouro da Ficção Científica, marcada por heróis virtuosos, conquistando o espaço, combatendo monstros como William Gibson criticou em seu conto, The Gernsback Continuum, de 1981. Nesse conto, um fotógrafo encontra-se com um casal, esteticamente muito parecidos com personagens de Flash Gordon, série que representa bem a FC que os cyberpunks buscavam contrapor. O fotógrafo do conto refere-se ao casal como algo saído de um pôster de propaganda nazista. Os cyberpunks buscavam novos caminhos para a FC, que incluíssem falar de sexo, política e drogas abertamente, pelo prisma das ciências sociais e humanas, não apenas das ciências exatas.

A rebeldia e a atitude dos punks são os elementos cruciais do que viria a se chamar cyberpunk. O termo é uma mistura, a grosso modo, da palavra cyber, que remete a tecnologia e punk, no sentido de pessoas marginalizadas da sociedade, impressas no lema “High Tech, Low Life”. Uma atitude desacreditada em um mundo que se pauta na alta tecnologia e baixa qualidade de vida. Expor essas contradições sociais, por meio da pervasividade da tecnologia é o centro da abordagem política do cyberpunk. Passadas quatro décadas, o cyberpunk acabou se tornando realidade em muitos aspectos.

No início dos anos 90, os dois maiores expoentes do cyberpunk, lançaram A Máquina Diferencial. Uma obra retrofuturista numa Inglaterra vitoriana, ou seja, recriou um momento do passado (o sucesso do invento de Charles Babbage, por exemplo), caso algo acontecesse diferente de nossa história. Na obra, ainda se fazem presentes os elementos de rebeldia e a relação com a tecnologia. O nome steampunk fazia sentido na obra, pois ela guarda muitas semelhanças na essência com Neuromancer, obra essencial do cyberpunk.

Tanto o cyberpunk quanto o steampunk extrapolaram os limites da literatura. A estética cyberpunk dominou o cinema de ação, de Blade Runner a Matrix, e a estética oitentista de uma maneira geral. O steampunk, se não tão famoso, trilhou um caminho que, na literatura, o aproximou da Fantasia, e ganhou espaço entre cosplayers encantados com a estética (neo)vitoriana. Algo se perdeu. A estética suja de fuligem e fumaça dessa Inglaterra vitoriana que nunca existiu tornou-se algo limpinho e elegante, que em nada tem da atitude e rebeldia punk, que Gibson e Sterling escreveram em A Máquina Diferencial. É triste ver o sufixo punk em algo que muitas vezes não tem nada de punk. Estética pela estética. Poderia ser apenas retrofuturismo e não haveria nada de essencialmente errado nisso.

Contudo, nem tudo está empapado de beleza e estilo. Especificamente na literatura, podemos acompanhar várias obras brasileiras de steampunk que mantêm viva a rebeldia, a contestação e a atitude que fazem jus ao punk desse subgênero tão amado. Mais especificamente ainda, as obras steampunks de Eneias Tavares, A. Z. Cordenonzi e Nikelen Witter. São histórias retrofuturistas, cheios de personagens marginalizados com destaque e respeito, escritos com habilidade e referências histórias que deixam maravilhado este historiador que vos escreve. Tudo isso sem perder a atitude e a rebeldia que me fazem gostar tanto dessas visões semeadas, há quarenta anos, por Gibson e Sterling. Concluo clamando aos leitores e escritores que não deixem o punk morrer como um sufixo vazio.

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quinta-feira, 10 de junho de 2021

Ficção Científica e Brasil: um filme de amor na metade (Davenir Viganon) - OPINIÃO

Texto originalmente publicado no blogue da editora Caligo, na Coluna Asas, para qual escrevo regularmente. 

A literatura de Ficção Científica e o Brasil têm um caso de amor complicado. É como naqueles filmes mamão com açúcar. Sabemos que os dois se merecem e, uma vez se conhecendo, se apaixonariam e viveriam juntos, mas passam por uma série de problemas aparentemente bobos. Eu quero acreditar que esse filme existe e com um final feliz por acontecer.

Os motivos para que essa mistura ainda pareça tão atrativa ao grande público quanto uma picanha grelhada batida no liquidificador com banana ou salsicha com leite condensado, já foram pensados antes, e tentarei condensá-los em três.

Primeiro, o Brasil tem uma tradição literária atrelada ao realismo e ao romantismo, que se distanciam da FC, que por sua vez, é mais filha do fantástico. Segundo, a ideia de que pelo Brasil não ser um polo desenvolvedor de alta tecnologia e vivermos a tecnologia apenas na ponta que consume – de segunda mão – nos coloca em desvantagem ou até incapazes de imaginar, debater ou encantar como os autores de FC gringos fazem. Em outras palavras, o velho complexo de vira-latas. Terceiro, o próprio leitor brasileiro que gosta de FC (lembre-se do nosso filme, ainda não há amor aqui), ainda ser muito apegado aos autores clássicos estrangeiros (AsimovClarkeHeinlein) a ponto de não poder/querer acompanhar sequer, os autores estrangeiros atuais, menos ainda brasileiros de FC.

Quer mais drama que impede essa união feliz? Ainda herdamos os preconceitos que a Ficção Científica enfrenta nos EUA, de que se trata de uma literatura menor que nunca deveria ter saído das revistas pulp dos anos 20 – onde Hugo Gernsback cunhou o termo Science Fiction. Sendo assim, a FC é uma tradição literária importada do mundo anglófono – Estados Unidos. Apreciá-la seria vira-latismo? Nossa, parece que esses dois nunca vão ser felizes, meu deus ex-machina! Não temam, românticos e fantásticos amigos. As respostas, como em todo filme mamão com açúcar, estavam na cara de todo mundo o tempo todo.

A Ficção Científica é uma das respostas em si, para quem tiver o olhar adequado. É uma forma de enxergar mundos possíveis, lindos, terríveis, ambíguos. Visões  potencialmente libertadoras da imaginação. Aquelas que nos impedem de aceitar a  realidade repulsiva que nos permeia como algo inescapável ou até aceitável. É um poder de dar um primeiro passo importante para afastar a tacanhice comum do vira-latismo. Entendeu, meu Brasil brasileiro? Os óculos podem até ser importados, mas os olhos não.

Ivan Carlos Regina, com muito mais vigor e habilidade, aborda essa relação no seu Manifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira (1988), na qual reproduzo apenas alguns trechos saborosos.

Precisamos deglutir urgentemente, após o Bispo Sardinha, a pistola de raios laser, o cientista maluco, o alienígena bonzinho, o herói invencível, a dobra espacial, o alienígena mauzinho, a mocinha com pernas perfeitas e cérebro de noz, o disco voador, que estão tão distantes da realidade brasileira quanto a mais longínqua das estrelas. […] Queremos despertar o iconoclasta que jaz em todo peito brasileiro.

Morte aos adoradores de máquinas. Um caipora verde amarelo devora hambúrgueres, destrói satélites, deglute armas e destroça tecnologias. Um índio descerá de uma estrela colorida brilhante. 

Os futuros pioneiros dessa aguardada FC já estão por ai escrevendo, publicando, querendo encontrar você, caro leitor, desse meu Brasil brasileiro, para fazer esse filme ter um final bem mais criativo que uma comédia romântica enlatada. Quem sabe, algo mais parecido com um índio descendo numa estrela colorida brilhante.

Davenir Viganon

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