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terça-feira, 24 de setembro de 2019

Resenha #103 - Tempo Fechado (Bruce Sterling)

"Tempo Fechado" (Heavy Weather, 1994) é um livro de Ficção Científica escrito por Bruce Sterling, um dos criadores do movimento cyberpunk nos anos 1980. Na década seguinte, escreveu Tempo Fechado que ainda mostra um mundo cercado por alta tecnologia e baixa qualidade de vida, contudo o foco é no desastre climático causado pelo desenvolvimento desenfreado do capitalismo.

A história é contada na visão de Jane e Alex Unger, quando Jane sequestra o irmão de uma clínica de tratamento de um problema pulmonar terminal de Alex no México. Jane leva Alex até o Texas onde Jane vive junto a Trupe Intempestiva. Um grupo de cientistas e aventureiros que caçam tornados na região desértica do Texas e Oklahoma liderados por Jerry Mulcahey, um matemático e meteorologista que acredita na chegada de um furacão escala F-6. Tão poderoso, que está acima da escala Fujita, que vai de F-1 até F-5.

A leitura é bem fluída e mostra um livro que envelheceu bem como extrapolação do futuro pois a pauta climática já é uma realidade há, no mínimo, uma década. Também conservou alguma atualidade na sua linguagem, pela forma como os personagens hackeiam as coisas, "to hack" no original, "fuçar" na tradução, mais que a linguagem é a atitude cyberpunk que se mantém como nos livros clássicos mas agora abordando um novo cenário. 

Enquanto assistimos as notícias da Amazônia arder em chamas e vemos toda essa irresponsabilidade que os personagens apenas lamentam impotentes, acontecendo no nosso tempo. Na história, o evento que simboliza o estado catastrófico do clima é chamado de Tempo Fechado e acontece pouco depois de 2015, na visão de Sterling. Talvez não aconteça um evento que seja um marco para sinalizar tal catástrofe, mas sim um processo contínuo do capitalismo produzindo morte por lucro.  

A história é incomodamente parecida com o filme Twister, roteirizado por Michael Crichton. Uma trupe de aventureiros perseguindo um quase mítico tornado F-6 na região Texas e Oklahoma. Inclusive a cena da vaca voando estão em ambas as histórias, cena essa que trouxe muita atenção ao filme na época, lançado um ano depois do livro. Não encontrei nenhuma referência direta ao livro de Sterling, no filme. Fica o questionamento e a estranheza pela semelhança. O livro é recomendado pela ação que diverte bastante, pela extrapolação muito válida, pela atitude cyberpunk e pela boa escrita de Sterling.  
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terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Resenha #87 - Assembléia Estelar: Histórias de Ficção Científica Política (Org. Marcello Simão Branco)

Uma das metas para esse ano é ler mais livros de contos e livros de sequências de obras já resenhadas no blog. Então, "Assembléia Estelar: Histórias de Ficção Científica Política" é uma coletânea de contos de FC que abordam a política em algum nível. São contos selecionados pelo editor somados a contos estrangeiros que foram traduzidos, então ao lado de conhecidos nomes nacionais, como Roberto de Sousa Causo, André Carneiro e Carlos Orsi, temos Úrsula Le Guin, Orson Scott Card e Bruce Sterling. O organizador não tem nenhum conto no livro, mas sua introdução já é um artigo que faz um belo apanhado histórico da relação da Ficção Científica com a Política, resgatando o termo e as obras relacionadas a Utopias, passando pelas distopias incluindo as obras brasileiras. Contudo, as breves análises para justificar algumas obras (posso falar apenas das que li) são bastante falhas, como por exemplo resumir Fundação a uma defesa da democracia quando na verdade Asimov abertamente se inspirou num livro que narra a queda do Império Romano e a própria Fundação não tem nada de democrática. Os contos contam com uma breve biografia do autor e um breve resumo do conto que vamos ler e também são bem estranhos, algum equivocados e até desnecessariamente provocativos, afinal se o editor não gosta de um espectro político, poderia escrever artigo ou um conto, e não usar aquele espaço antes de cada conto para isso. Acho que prejudica a coletânea mas os contos continuam valendo por si e temos alguns muito bons, outros nem tanto o que deixa o total bastante irregular e, sinceramente, alguns contos sobraram e poderiam ter ficado de fora para deixar o livro mais enxuto.

Acabei invertendo a ordem que sempre faço, falando do livro em geral antes dos contos de forma individual, então vamos aos comentários conto a conto: 

A queda de Roma antes da telenovela (Luis Filipe Silva): Conto curto que mostra um futuro onde as decisões políticas do parlamento são completamente integradas a televisão num sistema online, parecido com um reality show. Nesse mundo Idílio, uma espécie de presidente da assembléia, trava diálogos sobre o funcionamento da democracia com Morais, um parlamentar a moda antiga. O contraponto de Moraes, como personagem é entre um regime tecnocrata, tão atendo as coisas miúdas que faz perder o foco de grandes realizações. A história tente mais a reflexão do que para a ação. 

Anauê (Roberval Barcellos): Conto de um subgênero que gosto muito: História Alternativa. Aqui temos um Brasil de 1980 que é governado pelos integralistas quando derrubaram Getúlio Vargas em 1938, e se aliaram aos nazistas. Infelizmente aqui, temos uma realidade alternativa bem construída mas mal justificada pela forma que o integralismo muda o Brasil. A adoção do Tupi-guarani como língua oficial é até aceitável mas o quase abolimento do uso do português não mesmo, mas o que mais incomoda é a questão racial dos judeus trazer tanta indignação aos integralistas (aliados de nazis), uma vez que existe uma longa tradição de germanófilos no integralismo. Sobre bases tão frágeis a história toda descamba para a ingenuidade, inclusive ressaltando defeitos como a construção dos diálogos e das cenas decisivas que ficaram pobres.

Gabinete blindado (André Carneiro): Membro de um grupo de resistência narra suas lembranças de forma fragmentada e intuitiva. A narração em primeira pessoa traz uma forma intimista que ajuda a dar forma mas o conto sofre pela falta de informação que nos deixa um pouco perdido em meio as reflexões. A introdução do conto, escrita pelo organizador, resume a história de forma bem impertinente o que influi na apreciação da história.

Trunfo de Campanha (Roberto de Sousa Causo): Noveleta inserida no mundo de Space Opera criado pelo autor, já publicada em mais de um livro e contos. O personagem principal é Jonas Peregrino combatente de elite que se vê envolvido em uma trama política quando recebe um convite de um proeminente político em ascensão, em um período de mudanças num pós-guerra contra uma raça alienígena. A trama que coloca o protagonista no jogo político é explicada demais, e explicar tantas coisas desse mundo não deveria ser função de um conto nem de uma noveleta, e sim instigar o leitor a buscar mais e esse algo a mais está disponível inclusive no site do autor. Outra coisa que atrapalha a apreciação é que Peregrino não apresenta conflito em praticamente nenhum momento do conto ao contrário de Fátima Feldman, a femme fatale clássica, e por isso a narração deveria acompanhar ela, pois ela quem se transforma ao cabo da história. Fora isso, o mundo é interessante e rico, mas gostaria de ver mais suavidade no passar de tanta informação.

Diário do cerco de Nova Iorque (Daniel Fresnot): Narrado como um diário, um escritor francês em visita a Nova York justamente em um momento de crise entre o prefeito da cidade, John Fillick e o governo federal que leva a um conflito armado. A narrativa prende o leitor com um ritmo e desenvolvimento maravilhoso que passa muita tensão e mostra o fanatismo levado a extremos.

Saara Gardens (Ataíde Tartari): Conto bastante curto sobre tramas politicas, em que um empreiteiro deseja colocar um político favorável a seu projeto imobiliário no deserto do Saara na presidência do governo global nas próximas eleições desbancando a favorita que é ambientalista. Acredito que abordagens desse tema exijam mais palavras pois o gosto dessas histórias está na complexidade que o conto não alcança, mas vale pelas referências a política brasileira.

Era de aquário (Miguel Carqueija): O conto traz um momento rotineiro de um político que vai fazer uma palestra numa universidade porém em um mundo onde assassinatos políticos e crises sociais são comuns. Conto com ritmo bom mas sem picos de emoção, vale pela reflexão por imaginar uma linha que ainda não cruzamos por aqui (ou já?!)

A evolução dos homens sem pernas (Fernando Bonassi): Conto sem diálogos, apenas descrições mas o faz de forma bem feita, pintando um quadro gradativo da evolução humana levando para um caminho bizarro numa metáfora crítica carregada de ironias. Vale a leitura pelas provocações que podem causar ao leitor e que vão bater de frente (ou não) com suas convicções políticas.

A pedra que canta (Henrique Flory): Outro conto de História Alternativa, o que me agrada bastante. Conta a história de Gabriel, uma criança doente que recebe um implante cirúrgico que o permite ver os pontos fracos de estruturas e é utilizado em uma missão de sabotagem em uma guerra do Brasil contra a Argentina. Ótimo desenvolvimento, história e personagens.

O dia antes da revolução (Ursula K. Le Guin): Noveleta conta as memórias da revolucionaria anarquista Odo no planeta Urrás, um dia antes de uma grande revolução. Essa história, se passa mais de 600 anos antes do livro clássico da autora, "Os Despossuídos" (Meu livro favorito de FC, sim o primeiro!). Além da escrita muito acima da média, característico da autora, o conto não tem momentos de ação nem picos de tensão tendendo mais a reflexão, afinal estamos nas memórias de uma idosa mesmo que seja uma idosa prestes a desencadear um evento de grandioso que levará ao exílio em Anarres mas ai já é a história do livro. No fim das contas, vale muito a leitura para quem conhece o livro, para quem não leu serve como prólogo.

O grande rio (Flávio Medeiros Jr.): Conto de ficção científica com viagem no tempo por excelência. O assassinato de John Kennedy é planejado com anos de antecedência por um Arauto do futuro em missão para salvar a humanidade de uma guerra catalclismica. História excelente, que vai acrescentando camadas de acontecimentos sem se perder e que mexe com o imaginário de conspiração que envolve o acontecimento. Gostei bastante!  

O originista (Orson Scott Card): História se passa no mundo do clássico de Asimov: Fundação (Mais precisamente entre o primeiro e segundo livros), seguindo Leyel Forska, cientista de uma rica família nobre de Trantor, quando tem seu pedido de entrada na Fundação negado pelo Hari Seldon e em meio a isso Leyel realiza um estudo linguístico a respeito da origem do homem. O desenvolvimento do conto é complexo e envolvente, Card segue os passos de Asimov surpreendendo com um final maravilhoso. O conto é o mais longo do livro, contudo a escrita flui muito bem. Vai ser difícil não pensar no mundo de Fundação sem lembrar desse conto tamanha a forma com que ele se encaixa na trilogia original.

Questão de sobrevivência (Carlos Orsi): O caos social se instala na São Paulo de 2030. Doenças radioativas levam uma comunidade organizada e controlada por um partido de esquerda. Nesse mundo, um assalto a um carregamento de leite materno por um grupo de resistência mostra o lado mais triste dessa realidade. Gostei do conto ser embebido de cyberpunk puxado muito mais para o lado "punk" do que "cyber", pois foca no aspecto mais social e cruel de um futuro distópico e caótico.

Vemos as coisas de modo diferente (Bruce Sterling): Resenhado nessa postagem do blog. Que este fim abrupto fique como um convite a explorar mais o blog.


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domingo, 15 de outubro de 2017

Resenha #65 - Reflexos do Futuro (Bruce Sterling - Org.)

Olá leitores, onde quer que estejam após minha longa ausência, estou de volta tentando retomar o blog. Fiquei sem postar pois não estava conseguindo concluir leituras para resenhar. Isso ocorreu por diversos motivos desinteressantes para vocês (trabalho + preguiça), pois nenhum está ligado a Ficção Científica ou Fantasia. Enfim, vou retomar os trabalhos, pois tenho planos (mediocremente audaciosos) de retomar o ritmo de leituras a um minimo para voltar a postar regularmente. Para este retorno, nada melhor que um clássico do meu subgênero preferido, o Cyberpunk.

O livro é "Reflexos do Futuro", coletânea organizada por Bruce Sterling. É a única tradução conhecida para a língua de Camões para "Mirroshades", a coletânea Cyberpunk por excelência. Nela, Bruce Sterling começa com uma introdução que não apenas introduz aos 12 contos mas ao Cyberpunk como movimento cultural, na qual chamava-se, no seu início, apenas de "O Movimento".

Pretendo abordar conto a conto, mas antes falar da obra em geral. A tradução é muito estranha, não pela tradução em português-PT, mas pela constante tradução de coisas intraduzíveis que poderiam ser mantidas em inglês. Isso atrapalha a leitura de certos contos, pois há jogos linguísticos, gírias e referências a cultura pop que passam batidas e que fazem parte da forma de escrever dos cyberpunks. Pulando-se a esses detalhes a leitura compensa, pois as histórias valem a pena, todas elas. Vamos tecer um breve comentário conto a conto.

O contínuo de Gernsback (William Gibson): Este conto já foi resenhado, isoladamente no blog. Confira aqui.


Olhos de Serpente - Snake Eyes (Tom Maddox): George Jordan é um veterano de guerra estadunidense num futuro próximo indefinido (que poderia ser muito bem 2017), que teve um aparato militar implantado no cérebro chamado Serpente. Então, o governo o abandonou e George recorre ao submundo para remover o dispositivo, o que o leva a uma companhia pirata sediada na órbita terrestre. A dicotomia entre o fetichismo militar e a repulsa pelo aparelho implantado tornam o conto muito fiel ao que se imagina do cyberpunk.


A pecadora - Rock on (Pat Cadigan): A única mulher participante da coletânea nos traz um aventura frenética de uma pecadora (sinner, numa analogia a sintetizador) talvez rápida demais talvez por ser uma introdução do seu romance futuro, "Sinners". É interessante ver a relação da música com o cyberpunk neste conto e o tom escrachado e sensual (sensorial e sexual) da narrativa. Muito bom.


Contos de Houdini (Rudy Hucker): Não há nada nessa estória que remeta aos estereótipos do cyberpunk e acredito que o autor do conto sequer os buscou, contudo esta curta estória resume a vida agitada do futuro próximo (o nosso presente?), cercada pela câmera do Realitty Show da vida real. Posso estar falando besterias mas esse "slice of life" de Houdini dispensou demais alegorias.


400 rapazes (Marc Lidlaw): Em um futuro com uma sociedade destruída acompanhamos um menino mudo, membro de uma gangue, entre muitas, onde elas dominam o que sobrou da civilização. A narrativa constrói rapidamente sobre neologismos, gírias (tradução atrapalhou muito nesse ponto) e um ambiente underground. Esse ambiente undergound é a característica que mais remete ao cyberpunk como imaginamos. 


Solstício (James Patrick Kelly): Tony Cage fez, muito jovem, fortuna na industria de drogas recreativas e decidiu gastar uma parte dessa fortuna em um clone feminino seu (Wynne) e, desde então, passou metade de cada ano congelado almejando estar adulto quando ela estivesse adulta também. O conto desenrola a relação de Tony e Wynne e, do passado de Tony que o fez gerar sua fortuna e por uma obsessão do personagem pelo Stonerange. O personagem não tem carisma, o que prejudica o envolvimento com a estória (enquanto entretenimento), mas é competente em passar toda a solidão de Tony e sua relação doentia é desconfortável de se ler, ponto para o autor. 


Petra (Greg Bear): Petra é um conto bizarro, que se lido hoje seria facilmente classificável como "New Weird", e que não tem nada do que se espera quando se fala de cyberpunk. Trata-se de um mundo onde Gárgolas de pedra e humanos convivem em tensão e preconceito. Há poucas mulheres, que são freiras, e há híbridos de gárgolas com humanos, que são tratados como a escória dessa sociedade. O dilema de ser metade não-humano é totalmente pertinente ao cyberpunk mas numa roupagem gótica, uma das partes que formaram o cyberpunk. O conto é repleto de reflexões sobre o mundo e a busca por ídolos mas vai decepcionar aqueles que esperam implantes neurais e samurais urbanos. De alguma forma, isso vale para quase todos os contos do livro. 


Até que as vozes humanas acordem (Lewis Shirner): Não sei explicar o quão malabarismo da minha parte seria descrever este conto como um biopunk, por mostrar experiências genéticas bizarras ou que tenha a qualidade de ter um mistério razoável na estória, mas a estória parece deslocada, até em meio as estórias que se distanciam da estética conhecida do cyberpunk. Ainda sim, está longe de ser um conto ruim.


Zonalivre - Freezone (Jon Shirley): É o maior texto do livro. Aqui a estória se passa numa cidade ancorada na costa da África onde a unica lei é a lei do capitalismo mais selvagem. Nela acompanhamos a estória de Rickenharp, líder de uma banda medíocre que busca estar sempre fora da moda. Retrata bem a sensação de deslocamento do sujeito na cidade mas a noveleta peca na construção de uma estória envolvente. O protagonista foge loucamente, mas parece que se trata apenas movido por sua paranoia. Fica valendo mais pelo turismo pela cidade cyberpunk como imaginamos (e mais interessante) bem descrita, apesar de algum infodump no início, e personagens que não contribuem para a estória se tornar interessante.  


Vidas de pedra - Stones Live (Paul di Fillipo): Stone vive na "Confusão", local que resume toda a baixa qualidade de vida do futuro cyberpunk. O autor passa toda o imediatismo de uma vida quase animal e sem sentido, que não o da própria sobrevivência. Até que um dia Stone recebe uma proposta de emprego da misteriosa empresária e passa a ver o mundo com novos olhos e aprende a raciocinar. O conto mostra uma transformação muito interessante em Stone que culmina um bom final.


Estrela Vermelha, Órbita de inverno (Bruce Sterling e William Gibson): O conto se passa num futuro onde a URSS venceu a corrida espacial colocando o primeiro homem em Marte, contudo esses dias gloriosos já são passado. A estação espacial Soyus está prestes a ser desativada pelo politburo mas o Coronel Korolev, herói celebre por ser o primeiro homem em Marte e comandante da estação espacial, não quer encerrar sua missão de décadas e dá início a um motim. O que chama a atenção no conto é a perspectiva de abandono da corrida espacial e de declínio da URSS antes de sua queda. Contudo, a realidade se revelou mais rápida que qualquer um poderia imaginar: A URSS caiu em 1991, poucos anos depois da escrita do conto (metade dos anos 1980). Outra coisa curiosa, são os EUA descritos como uma nação em decadência também, o que me faz imaginar que este conto é do mesmo universo que o outro conto de Sterling (Vemos as coisas de modo diferente). Quanto a forma como os soviéticos são retratados, segue a cartilha sem muita imaginação: O protagonista soviético que se amotina (Coronel Korolev) é um individuo honrado e desiludido com o governo, o que choca de frente com a burocracia estatal que o reprime. Os estadunidenses, em sua rápida aparição, são oportunistas e aventureiros. Esse aspecto reduz a estória a uma versão FC dos livros de Tom Clancy (principalmente "A Caçada ao Outubro Vermelho") e eu esperava mais da dupla William Gibson e Bruce Sterling num conto juntos, mas está longe de ser um conto ruim, pelo contrário, vale a leitura e muito.    


Mozart de Óculos Espelhados (Bruce Sterling e Lewis Shirner): Conto divertidíssimo. Dois viajantes do tempo retornam ao passado onde encontram Mozart jovem e o apresentam a própria música antes de tê-las composto. Resultado: Mozart, não se interessa mais em compor e quer apenas fazer sucesso no nosso tempo com versões sintetizadas de suas próprias músicas. Nenhum viajante do tempo demonstra qualquer senso de responsabilidade com a alteração da história e a mudança de fatos parece inalterar o lugar de onde os viajantes vem, o "Mundo Real". O conto conversa, usando o humor, com a a fluidez da pós-modernidade. Há colagens de diversos tempos da história, de Maria Antonieta lendo Vouge até um General de Genghis Khan, como mercenário numa Harley. A falta de perspectiva com o futuro que os habitantes desse passado é um ponto interessante no conto, uma vez que todos sabem como seriam os eventos, como a Revolução Francesa, e que aquilo nunca irá acontecer da mesma forma.


Extra: Esta obra foi resenhada em vídeo no canal Terra Incógnita, do Fábio Fernandes, que fez uma verdadeira aula sobre Cyberpunk.

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quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Resenha #44 - Piratas de Dados (Bruce Sterling)

Autores de Ficção Científica não tem a obrigação de prever o futuro pois, como diz Ursula Le Guin, a FC é uma forma de falar sobre o presente. Contudo, Sterling tenta imaginar como seria um mundo onde existe uma rede suportando um fluxo imenso de dados, ou seja, a internet. Encontramos um resultado desse esforço em "Piratas de dados" (Islands on the Net) lançado em 1988 e podemos dizer que algumas dessas tendências se confirmaram. Porém nada disso foi feito com adivinhações, mas com uma imaginação aliada a uma apurada leitura do seu presente de uma forma peculiar, assim como outros Cyberpunks.

Estória
Em 2033, acompanhamos Laura Webster, executiva da Rizome, uma multinacional em um mundo onde o tráfego de informação pela rede é a fonte de poder. Nesse mundo o Estado é uma instituição muito frágil e a política internacional se dá através dos chamados Paraísos Informáticos, controlados por bancos em pequenos países que piratearam acesso a tecnologia de informação, a empresas como a Rizome e grupos de mercenários, que usam Estados falidos da África como fachada. Chegando a estória, propriamente dita, Laura encabeça um plano da Rizome de conciliar (para domar) os paraísos informáticos, reunindo em uma chalé da empresa os representantes dos bancos de Cingapura, Granada e Luxemburgo. Porém um atentado com um misterioso drone vai deslanchar uma trama de espionagem e ação ao redor do mundo.

Uma grande ruptura
Assim como qualquer literatura, por mais que pretendam falar do futuro, acabam falando do presente. Contudo encontramos várias tendências na obra de Sterling que encontram similaridades com nosso mundo, e não é errôneo ver a obra do autor dessa forma pois ele continua, firme e forte, no esforço de captar as tendências para o futuro até hoje. Sendo assim, o grande acerto, foi pensar em um mundo pós-guerra fria. Em seu conto, "Vemos as coisas de modo diferente" ele já imaginava um mundo em que a União Soviética não existia mais, e em "Piratas de Dados", os personagens vivem num mundo sem o medo nuclear e a rivalidade da Guerra Fria. Algo que se tornaria realidade poucos anos depois do conto e do livro serem escritos com o fim da URSS no início dos anos 1990. O mundo estranho de Sterling, ainda tem drones, empresas incorporando características Estatais, Igrejas com valores completamente inversos e a mídia com tanto poder quando era possível imaginar nos anos 1980.
O que deixa a obra ingênua e datada frente a realidade, é justamente o papel do Estado frente a internet. Desde os atentados de 11/09 vimos o Estado agindo firmemente sobre a rede como podemos nos informar com o livro Cypherpunks (resenhado no blog.)

Espionagem e um resquícios do tempo
Tirando os aspectos políticos e tecnológicos além da obra, "Piratas de Dados", é uma espionagem cyberpunk, com uma boa dose de trama política em escala mundial. Tem, também, bastante aventura e ação. A trama é consistente bem costurada no intrincado mundo que o autor construiu. O livro não é curto, (360 páginas) demora um pouco a engrenar e estabelecer a missão de Laura pelo mundo, mas depois as coisas não param mais de acontecer. Agentes inescrupulosos, soldados e terroristas igualmente pouco confiáveis e toda a astúcia de uma sobrevivente. Como nem tudo são flores, a convicção de Laura é um pouco forçada, tornando-a inverosímel. O forte do livro é a construção de mundo (bastante globalizado) e enredo cheio de surpresas.
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segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Resenha #12 - A Máquina Diferencial (William Gibson e Bruce Sterling)

[SEM SPOILERS]
A Máquina Diferencial (William Gibson e Bruce Sterling) é a obra de referência do subgênero Steampunk, por toda a estética construção para o livro que se pauta numa História alternativa. A premissa é a de que a Máquina diferencial, de Lorde Babbage, foi concluída e implementada pelo governo britânico culminando numa versão mais acentuada da Revolução Industrial que estudamos na escola. Temos uma grande quantidade dos desdobramentos sociais, políticos, tecnológicos e estéticos, deste mundo envoltos em mistérios intrincados com a tecnologia de computadores.

A estória acompanha três personagens principais: Sybil Gerard, uma prostituta filha de um revolucionário ludita traído que encontra Mick Radley auxiliar de um político Texano que deseja dar um golpe de estado no Texas;e  Edward Mallory, paleontologista famoso que retorna a Londres depois de uma expedição bem sucedida, onde descobre o brontossauro; e Laurence Oliphant, um jornalista misterioso que junta algumas partes do misterioso quebra-cabeça em relação dos cartões perfurados pertencentes a Lady Ada Byron. O mistério envolve inclusive a identidade do narrador onisciente do livro.

Fazendo jus ao punk, do Steampunk 
O mundo criado por William Gibson e Bruce Sterling, é grande parte do atrativo da obra. Uma mundo movido a tecnologia de vapor e engrenagens mecânicas á partir da Inglaterra, deu muita margem a interpretações glamourosas e luxuosas da estética steampunk. Mas não se engane, é um mundo tão sujo e cheio de personagens marginais como o cyberpunk. Um mundo movido também a carvão que deixa a acidade tão poluída e nublada da fumaça das fábricas como as grandes cidades da China de hoje. Os personagens reclamam da poeira por muito mais tempo que comentam vestuários luxuosos. A Máquina Diferencial faz jus tanto ao vapor quanto ao punk que compõe o subgênero que lhe é atribuído.

O que ajuda e o que pode atrapalhar nesta jornada
Um aspecto que se tornou marca das obras Steampunk é que suas edições primam pela estética. Não refiro-me apenas a capas bonitas, mas a busca por um linguajar da época, mapas, informações adicionais como glossários de termos e personagens, tanto os históricos como os criados para a obra. Isso com certeza ajuda o leitor a imergir neste mundo alavancado pela dupla Gibson e Sterling. Contudo, o leitor pode encontrar dificuldades na leitura caso não conheça um pouco do contexto da Revolução Industrial.

Um dos requisitos para curtir uma história alternativa é conhecer um pouco da história, digamos, "oficial" para poder viajar nos cenários que nunca se concretizaram e poder surpreender-se com eles, por exemplo nos Estados Unidos que se despedaçaram politicamente frente ao poderio do império britânico, que por sua vez é motivador da presença do General Sam Houston na primeira parte da história. O fato do final não fornecer explicação para todos os mistérios da trama também pode decepcionar o leitor. Mesmo aqueles momentos explicados, não o são de modo explicito. Finalmente, apesar do livro não ser imenso é bastante complexo e exige do leitor um fôlego maior para apreciá-lo.
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sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Resenha #2 - Vemos as coisas de modo diferente (Bruce Sterling)

"Vemos as coisas de modo diferente" é um conto de autoria de Bruce Sterling. Já figurou algumas coletâneas, contudo o conheci na "Futuro Proibido". Resolvi resenhar este conto por considerar o melhor da coleção.

O conto narra uma visita de um jornalista do cairo aos EUA. Contudo esse país e o mundo já não são mais os mesmos. A antes orgulhosa potência mundial, vive de exportar matérias primas e artistas de rock, como o que vai ser entrevistado pelo personagem principal.

A grande atração do conto é sua narrativa em primeira pessoa, que nos coloca na visão de um árabe, que pensando como tal, trás observações interessantes e até divertidas sobre coisas corriqueiras da cultura ocidental. É um tremendo exercício de alteridade. 

Sterling traz na sua literatura algo muito presente no pensamento do filósofo Edward Said quando trouxe sua visão de orientalismo. Trata-se da construção eurocêntrica que se desenvolveu sobre as regiões da ásia e norte da áfrica, criando uma série de taxações que orbitam o exótico, perigoso e descivilizado. Essa visão nos faz jogar coisas como islã, homem-bomba, garganta cortada, violência, fanatismo, tudo no mesmo saco sem se dar o trabalho de entender a riqueza da cultura da região. No conto os incivilizados são os ocidentais.

Interessante foi que Sterling viu uma União Soviética destruída por uma bomba nuclear detonada por mujaheedins afegãos. O conto data de antes da queda do comunismo no país e não deixa de ser muito perspicaz do autor, já que a maioria da FC antes de 1990 não conseguia imaginar um mundo fora da guerra fria. 

A Ficção Científica como qualquer literatura sempre fala mais do presente que do futuro e a FC não escapa dessa máxima. Contudo o conto de Sterling é de uma atualidade muito relevante quando pensamos a situação política mundial.
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