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segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

Resenha #363 Voltas ao redor do sol 2024 (Rubens Ângelo org.)

 


"Voltas ao redor do Sol - 2024" é a segunda antologia organizada por Rubens Ângelo para o Clube de Leitores de Ficção Científica, sendo a anterior "Voltas ao redor do Sol", que por sua vez é uma homenagem a "10 voltas ao redor do Sol" que foi a primeira antologia organizada pelo CLFC, para comemorar os 10 anos da entidade. Felizmente Rubens não esperou chegar aos 40 anos para colocar em prática a retomada do projeto de lançar antologias para comemorar e agitar as coisas no CLFC.  Esta edição de 2024, comemora os 38 anos da entidade mais tradicional da nossa amada Ficção Científica e tive a satisfação de participar com um conto, que é uma história alternativa da Guerra dos Farrapos, mas antes disso pretendo falar um pouco sobre cada conto em separado.

Eutanásia (David Machado) se passa em um julgamento num tribunal onde a figura do réu, vítima e defensor se confundem enquanto lida com ataques de um promotor impetuoso. O autor demonstrou habilidade ao ordenar as revelações enquanto entendemos o caso e nos brinda com um ótimo desfecho. Conto criativo, com um tropo clássico da ficção científica numa roupagem "tribunal".

Neutrino (Ricardo Labuto Gondim) fez algo muito difícil: me agradar com histórias de viagem no tempo. Conta sobre um homônimo que entra em parafuso ao descobrir homônimos atuando na história da música clássica ao longo do tempo. O final é uma sacada genial.

O Aparelho (Walter Cardoso) em pouco espaço traçou um quadro poderoso de uma sociedade em colapso. Acompanhamos, um sujeito que se apresenta pela sua tipagem, é um gama, que nota sua rotina desmontar-se em sua frente mas buscando auxílio no Aparelho, que promete fornecer todas as respostas, tornando nosso protagonista incapaz de ver o mundo ruir ao seu redor. O conto termina abruptamente, como uma última pincelada neste quadro de horror na vida do sujeito.   

Placebo Quântico (Ludmila Hashimoto) conto que começa como um casal de namorados em um impasse sobre o destino de um animal de estimação, que ganha ares de loucura que escalonam em níveis cada vez mais lisérgicos. Gosto da coisa philipkdickiana que joga explicações científicas que explicam um fenômeno mas deixam os personagens cada vez mais longe de compreender o que acontece, exceto Baleia. Essa parece que entendeu tudo. Achei sensacional a tensão crescente nos diálogos. Alias o humor tragicômico é um tempero da autora que deixa o conto melhor do que parece. 

Tenório perde Sua Alma (Davenir Viganon) foi minha participação nesta antologia. O título faz uma referência ao clássico de Tabajara Ruas Neto perde sua alma, onde o general se fere na Guerra do Paraguai e relembra seu tempo de farrapo, assombrado pelos seus soldados subordinados Caldeira e Milonga. Minha história também é de arrependimento, onde temos Tenório, um Lanceiro Negro que conta em uma carta para seus filhos o motivo de tê-los abandonado. É uma história alternativa do Massacre de Porongos, onde os massacrados não foram os Lanceiros Negros. O conto é parte de um projeto maior, que também engloba outros contos.

Pupilas Douradas (Luíz Bras) é um conto que já havia lido em seu Symetrias Dyssonantes, onde comentei que "é um diálogo/entrevista com o desenvolvedor de um app que coloca uma IA para nos simular e poupar-nos de certas interações sociais que tanto evitamos. Como é de se esperar nem tudo vai como programado, até porque o programa passa a se controlar. É a primeira dose de ironia dessa vida conectada."

Últimas Travessias (José S. Fernandes) conto com uma histórias simples de conflitos de geração agravados pela tecnologia. No caso, temos o jovem Irtio que vive em Lunacar, um planeta que a humanidade colonizou, que deseja conhecer a Terra e outros planetas, mas seu pai se mantem ferrenhamente contra. Temos um conto dramático narrado com muita sensibilidade.

Boneca Denden, feliz quem a tem (Tibor Moricz) publicado anteriormente na sua coletânea Filamentos iridescentes, temos um conto característico do estilo do Tibor. Pós-apocalíptico, provocativo em relação a religião e sem freio quando choca o leitor. Gosto muito do estilo que tem muita força no seu livro Fome (resenhado no blogue) e aqui, esses temas são tratados com mais melancolia pela personagem principal ser uma boneca que vive com vários outros brinquedos tecnológicos, abandonados após uma provável extinção da humanidade. Esses brinquedos passam por um ritual que promete levá-los a uma terra prometida onde poderiam ser de carne e osso. O desenvolvimento do conto é de uma tensão crescente e o desfecho sensacional.

Eu sou eu (Juliana Vicente) conto curto, que conta a evolução de uma entidade narrada pela perspectiva dela, e a graça é tentar identificá-la enquanto mergulhamos no seu modo de ver o mundo. Lindo conto.

Sonhos, Discursos & Cronotransições (Gerson Lodi-Ribeiro) conto cheio de metalinguagem sobre um autor que tem sua mente levada para o futuro, enquanto recebe o Premio Argos de 2027, e é incumbido de uma missão para salvar a humanidade. O conto busca o caminho mais fofo, ao invés de uma ação sisuda e acredito que a escolha foi bem acertada. Conto leve e gostoso de ler, como um filme da Sessão da Tarde, no bom sentido.

C'mon Teletubby, teleport us to Mars! (Gabriel Carneiro) com uma escrita muito fluida, mesmo com parágrafos enormes, o autor consegue contar uma história engraçada de uma moça que só queria viajar o mundo sem gastar um rim e resolve construir uma máquina de teleporte. Brincando com os tropos da ficção científica e não contra eles, o autor trouxe uma peça de humor que refresca a nossa ficção científica.

A morte de César (João Ventura) em pouquíssimas palavras o autor contou uma história engraçada e com uma discussão historiográfica bem válida.

O Nevoeiro (Ursulla Mackenzie) Adoro histórias epistolares, ou seja, que são compostas de uma carta ou narrativa escrita de um personagem. No caso, um navio que cruzou por águas proibidas

Os dois livros (Marcelo Bighetti) conto divertido que brinca com as teorias da conspiração envolvendo grandes inventores do século passado, Alberto Santos Dumont e Nikola Tesla, que alegam que foram mortos por causa das consequências de duas invenções. Como aventura o conto desempenha seu papel em divertir.

Mycelisis (G. G. Diniz) conto curto mas que consegue elevar a tensão enquanto descobrimos o que está acontecendo. Difícil falar mais sem, talvez, estragar a experiência.

p.s. deixei a resenha de número 365 justamente para um livro que se chama Voltas ao redor do sol. :D
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segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Resenha #357 Almanaque Gibi do Terror Nº 2 (Denílson Reis e Paulo Kobielski)


O Almanaque Gibi do Terror chega ao número dois como uma publicação muito aguardada no meio independente. A edição é do CAQ (Coletivo Alvoradense de Quadrinhos) capitaneado pelo Denílson Reis e pelo Paulo Kobielski, ambos já agraciados com o Troféu Paulo D'Agostini de melhor Fanzine e essa publicação é aquele passo a mais, é uma publicação independente mas cada vez mais com cara de profissional, afinal tantos anos de experiência se manifestam nesse numero e a qualidade das contribuições cresce como consequência. 

Parece pouco humilde da minha parte falar de que as contribuições estão melhores, pois participei em ambas as edições, com contos. Na edição anterior, publiquei um conto sobre múmias no esçao, agora o tema é vampiros e trouxe o conto "Tenório perde sua alma" que está no mesmo universo steampunk que o conto "Um Crime no Mercado Público" e da noveleta "A Sombra da Rua do Arvoredo". O conto é uma carta de um pai para os filhos onde conta sua participação numa Guerra dos Farrapos de uma forma que você nunca viu pois é uma história alternativa.

Agora falando da publicação como um todo, não são todas as histórias exatamente sobre vampiros. Acredito que os editores se preocupem em trazer bons conteúdos, dando preferencia pelos que abordem o tema da edição mas não impondo como condição. Isso ajuda nas histórias de mistério pois nem sempre o mistério é sobre vampiros. A organização ficou muito boa, alternando entre conteúdos de quadrinhos e conteúdos escritos, começando com Não mexa com quem está quieto uma HQ com um traço simples (parecido com Meninas Superpoderosas?) mas numa história cruel de dois caçadores na floresta procurando a lendária Cobra Norato, quando ninguém menos que o Curupira aparece para azedar a caçada. O primeiro conto é o meu, Tenório perde sua alma, que já falei no início. O hábito faz o monge é uma curta HQ de um garoto que acha uma roupa de vampiro, com máscara e tudo. Enquanto mortes misteriosas acontecem a sua volta. O soldado e o vampiro, de Eduardo Alós temos, nesse conto, o encontro infortuito de um soldado gaúcho recém chegado dos horrores da Guerra do Paraguai decide buscar abrigo num casarão misterioso. O primeiro na fila é uma HQ muito fofa sobre um idoso que aguardou 8 dias para comprar seu novo jogo de vídeo game sangrento e divertido. O final é cruel mas ainda assim achei tudo muito engraçado. Acho que foi o traço que trouxe uma leveza para tudo, mesmo sendo bastante elaborado. A mansão etérea de Duda Falcão, é um conto bastante curto mas que consegue nos colocar no clima de casarão muito rápido. Nas tuas longas pernas procuro a paz que jaz no quarto contíguo ado seu túmulo é uma HQ incrivelmente bem desenhada, não apenas pelo realismo, mas pelas expressões e movimentação dos personagens. O roteiro é simples mas bem feito e a crueza é bem vinda numa história de horror, que nada tem de fantasioso. Pela estrada deserta de Silvio Ribeiro, é outra HQ, mais curta, simples e bem feita. Temos um jovem casal que busca um Motel para passar a noite (é para dormir, pessoal. Eles estão em viagem, ok? Motel nos EUA é o que chamamos de pousada aqui) contudo um recepcionista ganancioso se acha muito esperto ao decidir roubar os jovens. O final me surpreendeu. Temos um comentário sobre o filme As Sete Vampiras, por Paulo Kobielski, que trouxe muitas informações mostrando domínio sobre o cinema fantástico brasileiro. Pesadelo Real retomamos as HQs com um homem entrando e saindo de um pesadelo no inferno, porém conhecemos um pouco dele nesse delírio e o delírio o persegue quando ele acorda. Os Negrinhos é uma HQ que vai de 100 a 1000 muito rápido e o traço acompanha muito bem a loucura dos gêmeos e de sua algoz em poucas páginas. Retornamos ao texto para ler um novo artigo de Paulo Kobielski sobre Rubens Francisco Lucchetti lenda do fantástico e do pulp brasileiro, novamente vemos o domínio do tema e a habilidade em condensar uma vida tão rica em poucos parágrafos. Fazer você sumir... é uma HQ muito engenhosa ao usar os quadros para conta a história. É bacana ver nos quadrinhos, histórias de personagens que sabem que são personagens, ou melhor que descobrem isso da pior forma possível. A Fórmula a última HQ da edição que nos engana parecendo que vai ser uma versão de Dr Jekyll e Sr. Hyde, mas é outra coisa. Por fim temos uma entrevista com o desenhista Silvio Ribeiro, que não tem papas na íngua e faz um verdadeiro desabafo. Bacana ler entrevistas que não são estéreis.

Lista com o conteúdo e as devidas autorias:

Não mexa com quem está quieto: Lauro Ferreira.
Tenório perde sua alma: Davenir Viganon.
O hábito faz o monge: Júlio Shimamoto.
O soldado e o vampiro: Eduardo Alós.
O Primeiro na fila: Marcelo Saraiva no roteiro e Bira Dantas nos desenhos.
A mansão etérea: Duda falcão.
Nas tuas longas pernas procuro a paz que jaz no quarto contíguo ado seu túmulo: Maicol Cristian no roteiro e J. Herrero nos desenhos. 
Pela estrada deserta de Silvio Ribeiro.
Artigo sobre As Sete Vampiras: Paulo Kobielski.
Pesadelo Real: Sandro Leonardo fez os textos, Artes com Aurélio Filho e John Castelhano.
Os negrinhos: Denílson Reis fez o texto e as artes são de Sérgio Fernandes.
Artigo sobre Rubens Francisco Luccheti por Paulo Kobielski.
Fazer você sumir...: Arthur Filho.
A Fórmula: J. França.

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segunda-feira, 27 de novembro de 2023

Resenha #313 Almanaque Gibi do Terror, Nº 1 (Paulo Kobielski e Denílson Reis)

Almanaque Gibi do Terror é uma iniciativa do Coletivo Alvoradense de Quadrinhos encabeçada por dois dos maiores fanzineiros do Brasil, Paulo Kobielski e Denílson Reis, ambos atuando em Alvorada/RS levando a palavra dos quadrinhos desde sempre. Juntando a ideia de privilegiar autores de Alvorada, não apenas dos quadrinhos mas da literatura em prosa também, surgiu a ideia de um almanaque temático voltado para o gênero do Terror. E não poderia faltar o grande R. F. Lucchetti, ainda mais quando o tema da edição é múmias! E ele está logo na primeira história em quadrinhos que é O Talismã Maldito, onde temos a história da múmia de Kharis, que é acordada quando uma entidade gatuna é libertada trazendo terror aos arredores do museu onde estava exposta. Na sequência, uma entrevista com Júlio Shimamoto, o desenhista da história anterior. Na sequência, uma historieta em HQ de uma página homenageando Lucchetti e um texto retirado das memórias do autor.

A próxima história em quadrinhos, é  Besta, de Leander Moura com arte de Cristal Moura e Leander Moura, onde é explorado o mistério de um lobisomem. O primeiro conto é de minha autoria e se chama Sistema Sarcófago em que o mistério da múmia é abordado com a lente da ficção científica homenageando a era dos pulps com um toque psicodélico. A entrada do conto tem uma ilustração de tirar o fôlego feita por Jader Corrêa. Logo depois, Paulo Kobielski nos brinda com um artigo sensacional sobre o filme brasileiro O Segredo da Múmia de 1982. Continuando a sessão de contos, O Misterio da Múmia foi escrito por Eduardo Alós, com arte de abertura por Luan Zuchi, onde um investigador gaúcho vai a um monastério na Amazônia investigar um desaparecimento de um dos religiosos e, obviamente, deparar-se com terrores abissais.

Retomando as histórias em quadrinhos, Um velório alucinante é uma história de morte e quase morte, por Denílson Reis, desenhada por Jair Júnior e letras por Henrique Reis. A herança de Simão segue a linha de terror clássico de uma herança amaldiçoada, com texto e arte de Silvio Ribeiro. O Monstro da Lagoa de Henrique Madeira e Walquir Fagundes, segue a linha do causo com uma história baseada em lendas que o povo conta e aqui uma maldição gerada por uma sucessão de tragédias e um coronel cruel. E por fim, uma rápida entrevista com Ronilson Freire, desenhista da The Mummy da Titan Comics.


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segunda-feira, 28 de agosto de 2023

Resenha #300 Outros Brasis da Ficção Científica (Org. Davenir Viganon)


Para esta postagem de número 300, quero trazer uma resenha especial. A antologia que tive a honra de organizar foi a vencedora do Prêmio Argos de 2022 na categoria melhor coletânea/antologia. Estou falando da Outros Brasis da Ficção Científica, (2021), que abriu uma série de antologias temáticas de ficção fantástica que foi sequenciada pela Outros Brasis da Ficção a Vapor de 2022 e Outros Brasis da Ficção Cyberpunk, que está em produção. Porém para falar sobre a obra vou trazer o texto do Nelson Freiria publicado no excelente blogue Ficção Científica Brasileira. Boa leitura.

Tanto a FC quanto o Brasil são difíceis de definir, mas quando os vemos sabemos o que são. Ao mesmo tempo é necessário oferecer novas experiências ao leitor desse gênero: experiências brasileiras. É preciso não se prender a convenções enraizadas. Podemos buscar novas visões de mundo, buscar elementos regionais de Brasis distantes. Podemos expandir nossas formas de escrita, novas linguagens, que são exploradas por outros gêneros há bastante tempo. Todas essas inovações já estão aparecendo na FC brasileira e temos uma pequena amostra delas nos contos selecionados aqui. [Trecho do prefácio]

Em meados de 2021, a coletânea de contos Outros Brasis da ficção científica chegou como uma grata surpresa na literatura de ficção científica nacional. Enquanto o país atravessava o pior momento da pandemia de Covid-19, o livro organizado por Davenir Viganon achou caminhos para tocar os leitores, apresentando-lhes diferentes cenários brasileiros ou abrasileirados, diversos perfis sociais e uma grande diversidade de temas. Tudo isso em uma obra de apenas duzentas páginas.

Composta por catorze contos, sendo seis de autores convidados, sete de autores selecionados e um do próprio organizador, há narrativas de todos os tamanhos e gostos. A obra apresenta uma boa dose de crítica política, algumas vezes se relacionando com o momento de crise sanitária e a polarização que o Brasil vive nos últimos anos. Mas a coletânea também dialoga muito bem com naves espaciais, o planeta Marte, órgãos artificiais, plantas conscientes, distopia, sexualidade e muito mais. É nessa mistura de sabores que o livro consegue representar nosso país, que é plural em todos os sentidos.

Além de extrapolar a atualidade para nos trazer boa literatura, os contos, em sua maioria, também revelam os novos caminhos da ficção científica nacional, expondo as preocupações e os valores de autores que buscam narrativas cada vez menos engessadas, cada vez menos obedientes a padrões. Além disso, também há espaço para o cômico, um traço bastante comum em nossa literatura, e que permeia várias das histórias de Outros Brasis da ficção científica, oferecendo uma leitura bem à brasileira, sem jamais se esquecer das questões tecnológicas.

 A coletânea conta com alguns bons e conhecidos nomes, como Fábio Fernandes, Claudia Dugim e Gilson Cunha. Também apresenta alguns autores mais recentes, que vêm se destacando e conquistando espaço nas prateleiras, a exemplo de Lu Ain-Zaila e Ricardo Celestino. Não poderia deixar de citar, é claro, o inenarrável Luiz Bras, também entre os autores convidados. Mas o que mais me surpreendeu durante a leitura foi a ousadia dos sete autores selecionados ao explorar novos temas e estilos.

É incrível notar como todas as histórias são estruturadas com o sentimento de brasilidade, seja em elementos maiores ou menores, mas que causam facilmente a sensação de familiaridade nos leitores, seja nas atitudes dos personagens e nas situações que vivem, ou em como certos aspectos influenciam todas as coisas, por exemplo, a complicada política de nosso país. Talvez a melhor descrição desse aspecto esteja nas palavras do próprio organizador: “Por uma FC brasileira que transpire Brasil”.

Outros Brasis da Ficção Científica é a estreia de um novo selo dentro da Editora Caligo. O trabalho de edição foi altamente competente, tanto nas escolhas dos autores pelo organizador, Davenir Viganon, quanto pelo trabalho de edição da equipe capitaneada pela editora Bia Machado. Sem falar da belíssima ilustração de capa selecionada pelo designer Pedro Viana.



 


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segunda-feira, 7 de agosto de 2023

Resenha #297 A sombra da Rua do Arvoredo (Davenir Viganon)


[Resenha escrita por Alex Oestreich]

A história a qual somos apresentados no belo conto do Davenir é um relato epistolar e ficcional, baseado em fatos. Neste caso, Os "Crimes da rua do Arvoredo" que foram episódios reais e insólitos que ocorreram na capital gaúcha entre os anos de 1863 e 1864. Pessoas eram atraídas por uma bela jovem até um local onde eram desacordadas e mortas. Após serem esquartejadas, sua carne era utilizada para a fabricação de linguiças que eram consumidas pela população em geral. (A famigerada rua do Arvoredo foi rebatizada e hoje é conhecida por "Rua Coronel Fernando Machado).  

O relato é de um chefe de polícia de uma Porto Alegre Steampunk nos anos de 1863-1864. Dario Callado, um homem moderno em todos os sentidos. Traz para a capital gaúcha o que há de mais recente em métodos científicos. Inovador, aplica seus conhecimentos à investigação policial e com isso, se destaca de toda a força policial de seu tempo. No entanto, Callado acaba se envolvendo na investigação de uma série de crimes grotescos, que vão acabar exigindo de si o máximo de entrega e colocando sua perspicácia a prova.

Ambientado numa Porto Alegre steampunk, somos apresentado à uma paisagem que remete a virada do século XIX. Em que ao mesmo tempo que carruagens puxadas a cavalo podem ser vistas como algo comum, suas ruas populosas e sua rotina provinciana se mescla com a "tecnologia" a vapor e as mais modernas descobertas científicas do período.

O conto é eletrizante e te prende do início ao fim. Cada nova descoberta, narrada por Callado, nos faz vibrar e cria uma expectativa que é muito bem conduzida pelo autor. A narrativa é fluída e joga muito bem entre a narrativa epistolar de Callado e as cenas de ação e suspense que nos são contadas.

O conto é uma espécie de prefácio de outra história maior que irá acompanhar a trajetória do filho do protagonista (Thedorico). Esta história foi lançada pela editora Caligo na coletânea chamada: "Outros Brasil da Ficção a Vapor".
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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Resenha #221 - Revista Fantástica Caligo número zero


"Revista Caligo numero zero" é lançamento da editora que mostra que está mergulhando de cabeça no Fantástico. Antes, com o lançamento da antologia Outros Brasis da Ficção Científica, abrindo o selo Outros Brasis, agora com uma revista semestral de contos que abrangem Ficção Científica, Terror e outros ramos do Fantástico.

"O Paciente da Segunda-feira" de Pedro Curnivel, é um retrato da paranoia. Conta sobre dois irmãos. Samanta que está na cidade e decide ler cartas do seu irmão, um médico psiquiatra que vai para um vilarejo no interior onde relata sobre um paciente psicótico. O conto é praticamente a leitura das cartas do médico. Particularmente, adoro escrita epistolar, e aqui Pedro consegue envolver o leitor na paranoia, nos fazendo virar páginas alucinadamente, até o derradeiro desfecho.

"Senescência ou como Charlie acorda Clarice" de Tânia Souza. Ficção Científica que não tem um enredo propriamente dito, mas que com muita competência, pinta um quadro de uma vida miserável. Clarice é um ciborgue que vive em um pequeno apartamento. Não há muito mais para se contar, é mais o epílogo de uma história trágica que conseguiu misturar cyberpunk e cotidiano sem agredir os elementos principais de duas narrativas tão diferentes.

"Divina Rotina" de Davenir Viganon, conto de minha autoria, é sobre Divino e seu dia de trabalho comum no inferno. Procuro aliar a comédia com situações absurdas, com referências tanto da Divina Comédia de Dante como referências atuais.

"Aysú" de Maria Eduarda Amadeu, é uma amostra da escrita madura para uma autora tão jovem. O conto é uma curta, mas intensa viagem na mente de uma amazona indígena conhecendo o amor, nos perdemos neste mundo diferente ao mesmo tempo que mostra a universalidade do sentimento.

"Ensaio Sobre a Natureza Morta" de Fil Felix trata o fantástico de forma intimista, na história de Giovani que passa por suas decepções pessoais e lidando com seu poder de transformar-se em plantas. A escrita é o tempero do conto, que brinca com a passagem do tempo de acordo com o dom/maldição do protagonista.

"Espiral" Giselle Fiorini Bohn acompanha Ana, que passa a receber a visita de uma pequena menina maltrapilha e que passa a ser sua obsessão pessoal, visto que ninguém parece se importar com seu estado. A condução do conto passa a agonia de não ser ouvido, pela escrita em primeira pessoa e a revelação joga o elemento fantástico na cara do leitor.

"Vazio Tóxico" de Leonardo Jardim, acompanha Horácio um velho professor que tenta sobreviver em um mundo pós-apocalíptico em busca de água enquanto foge do gás tóxico quase onipresente na atmosfera, quando encontra uma biblioteca perdida nos escombros de uma casa e uma menina que vem de muito longe. Geralmente não gosto deste tipo de história mas o desenvolvimento e revelações finais da trama foram bem montados, sem extravagâncias narrativas e me fizeram gostar do conto.

"O terceiro menino" de Amana mostra uma realidade alternativa em que os nazis venceram e a família como conhecemos foi desmantelada. Os jovens são criados com tutores e são descartados após tutelarem o terceiro menino. A autora consegue trazer uma esperança misturada com amargor neste futuro inóspito e claustrofóbico. Construção de mundo e desenvolvimento são maduros e bem feitos. Gostei do conto.

"A casa xadrez" de Bruno Andrade, vai pelo caminho da alegoria ao narrar as viagens de um homem que decide ficar recluso numa residência cheia de segredos que o protagonista tem tanto anseio como medo de explorar. Conto que não demora a expor seu aspecto psicológico e que nos instiga a desvendar o que de fato se passou na mente do protagonista. O final é triste e bem feito.

"Homicídios manchados de rosa" de Thaís Lemes Pereira traz uma história de detetive nos mundos dos contos de fadas. O lenhador entrevista várias princesas e ver como foi o depois do felizes para sempre foi bem engraçado e a revelação final recompensa o leitor pela jornada do lenhador. Excelente final da secção de contos.

Após os contos de tamanho tradicional, a revista também trás minicontos na seção "Histórias para serem lidas durante o bater de asas de uma borboleta" trazendo contos dos autores Amana, Bruno Andrade, Davenir Viganon, Giselle Fiorini Bohn e Tânia Souza. Nesta secção contribuí com três micro contos presentes no livro, "Contos do Gregório ou Pelo direito de acordar metamorfoseado num inseto monstruoso". De uma forma geral a Revista está bem variada nas formas do fantástico e a viagem por estilos e formas diferentes vai agradar ao leitor que busca por coisas diferentes para ler e a secção de microcontos está especial pois adoro essa forma de narrativa. Como em qualquer junção de contos, nem todos vão agradar a todos os leitores mas ninguém poderá dizer que é pela falta de habilidade ou talento dos autores.
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quinta-feira, 1 de julho de 2021

Não deixe o punk morrer (Davenir Viganon) - OPINIÃO


O cyberpunk é meu subgênero favorito da Ficção Científica, desde que vi pela primeira vez (quando era um guri nos anos 90) aquele mundo escuro de Blade Runner, cheio de riqueza e pobreza coexistindo em caos. Com o passar do tempo, surgiram muitos gêneros derivados dele; o primeiro, o steampunk, foi criado pelos próprios expoentes do cyberpunk, William Gibson e Bruce Sterling, mas algo se perdeu nas quatro últimas décadas.

Antes de externar minha quase indignação/lamento, vamos desmontar um pouco essas engrenagens, ou chips se preferirem. O cyberpunk que conhecemos surgiu nos anos 1980 nos EUA, como um movimento literário na Ficção Científica. Referiam-se a si mesmos apenas como O Movimento e buscavam novos ares para o gênero, contrapondo-se à Era de Ouro da Ficção Científica, marcada por heróis virtuosos, conquistando o espaço, combatendo monstros como William Gibson criticou em seu conto, The Gernsback Continuum, de 1981. Nesse conto, um fotógrafo encontra-se com um casal, esteticamente muito parecidos com personagens de Flash Gordon, série que representa bem a FC que os cyberpunks buscavam contrapor. O fotógrafo do conto refere-se ao casal como algo saído de um pôster de propaganda nazista. Os cyberpunks buscavam novos caminhos para a FC, que incluíssem falar de sexo, política e drogas abertamente, pelo prisma das ciências sociais e humanas, não apenas das ciências exatas.

A rebeldia e a atitude dos punks são os elementos cruciais do que viria a se chamar cyberpunk. O termo é uma mistura, a grosso modo, da palavra cyber, que remete a tecnologia e punk, no sentido de pessoas marginalizadas da sociedade, impressas no lema “High Tech, Low Life”. Uma atitude desacreditada em um mundo que se pauta na alta tecnologia e baixa qualidade de vida. Expor essas contradições sociais, por meio da pervasividade da tecnologia é o centro da abordagem política do cyberpunk. Passadas quatro décadas, o cyberpunk acabou se tornando realidade em muitos aspectos.

No início dos anos 90, os dois maiores expoentes do cyberpunk, lançaram A Máquina Diferencial. Uma obra retrofuturista numa Inglaterra vitoriana, ou seja, recriou um momento do passado (o sucesso do invento de Charles Babbage, por exemplo), caso algo acontecesse diferente de nossa história. Na obra, ainda se fazem presentes os elementos de rebeldia e a relação com a tecnologia. O nome steampunk fazia sentido na obra, pois ela guarda muitas semelhanças na essência com Neuromancer, obra essencial do cyberpunk.

Tanto o cyberpunk quanto o steampunk extrapolaram os limites da literatura. A estética cyberpunk dominou o cinema de ação, de Blade Runner a Matrix, e a estética oitentista de uma maneira geral. O steampunk, se não tão famoso, trilhou um caminho que, na literatura, o aproximou da Fantasia, e ganhou espaço entre cosplayers encantados com a estética (neo)vitoriana. Algo se perdeu. A estética suja de fuligem e fumaça dessa Inglaterra vitoriana que nunca existiu tornou-se algo limpinho e elegante, que em nada tem da atitude e rebeldia punk, que Gibson e Sterling escreveram em A Máquina Diferencial. É triste ver o sufixo punk em algo que muitas vezes não tem nada de punk. Estética pela estética. Poderia ser apenas retrofuturismo e não haveria nada de essencialmente errado nisso.

Contudo, nem tudo está empapado de beleza e estilo. Especificamente na literatura, podemos acompanhar várias obras brasileiras de steampunk que mantêm viva a rebeldia, a contestação e a atitude que fazem jus ao punk desse subgênero tão amado. Mais especificamente ainda, as obras steampunks de Eneias Tavares, A. Z. Cordenonzi e Nikelen Witter. São histórias retrofuturistas, cheios de personagens marginalizados com destaque e respeito, escritos com habilidade e referências histórias que deixam maravilhado este historiador que vos escreve. Tudo isso sem perder a atitude e a rebeldia que me fazem gostar tanto dessas visões semeadas, há quarenta anos, por Gibson e Sterling. Concluo clamando aos leitores e escritores que não deixem o punk morrer como um sufixo vazio.

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quinta-feira, 10 de junho de 2021

Ficção Científica e Brasil: um filme de amor na metade (Davenir Viganon) - OPINIÃO

Texto originalmente publicado no blogue da editora Caligo, na Coluna Asas, para qual escrevo regularmente. 

A literatura de Ficção Científica e o Brasil têm um caso de amor complicado. É como naqueles filmes mamão com açúcar. Sabemos que os dois se merecem e, uma vez se conhecendo, se apaixonariam e viveriam juntos, mas passam por uma série de problemas aparentemente bobos. Eu quero acreditar que esse filme existe e com um final feliz por acontecer.

Os motivos para que essa mistura ainda pareça tão atrativa ao grande público quanto uma picanha grelhada batida no liquidificador com banana ou salsicha com leite condensado, já foram pensados antes, e tentarei condensá-los em três.

Primeiro, o Brasil tem uma tradição literária atrelada ao realismo e ao romantismo, que se distanciam da FC, que por sua vez, é mais filha do fantástico. Segundo, a ideia de que pelo Brasil não ser um polo desenvolvedor de alta tecnologia e vivermos a tecnologia apenas na ponta que consume – de segunda mão – nos coloca em desvantagem ou até incapazes de imaginar, debater ou encantar como os autores de FC gringos fazem. Em outras palavras, o velho complexo de vira-latas. Terceiro, o próprio leitor brasileiro que gosta de FC (lembre-se do nosso filme, ainda não há amor aqui), ainda ser muito apegado aos autores clássicos estrangeiros (AsimovClarkeHeinlein) a ponto de não poder/querer acompanhar sequer, os autores estrangeiros atuais, menos ainda brasileiros de FC.

Quer mais drama que impede essa união feliz? Ainda herdamos os preconceitos que a Ficção Científica enfrenta nos EUA, de que se trata de uma literatura menor que nunca deveria ter saído das revistas pulp dos anos 20 – onde Hugo Gernsback cunhou o termo Science Fiction. Sendo assim, a FC é uma tradição literária importada do mundo anglófono – Estados Unidos. Apreciá-la seria vira-latismo? Nossa, parece que esses dois nunca vão ser felizes, meu deus ex-machina! Não temam, românticos e fantásticos amigos. As respostas, como em todo filme mamão com açúcar, estavam na cara de todo mundo o tempo todo.

A Ficção Científica é uma das respostas em si, para quem tiver o olhar adequado. É uma forma de enxergar mundos possíveis, lindos, terríveis, ambíguos. Visões  potencialmente libertadoras da imaginação. Aquelas que nos impedem de aceitar a  realidade repulsiva que nos permeia como algo inescapável ou até aceitável. É um poder de dar um primeiro passo importante para afastar a tacanhice comum do vira-latismo. Entendeu, meu Brasil brasileiro? Os óculos podem até ser importados, mas os olhos não.

Ivan Carlos Regina, com muito mais vigor e habilidade, aborda essa relação no seu Manifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira (1988), na qual reproduzo apenas alguns trechos saborosos.

Precisamos deglutir urgentemente, após o Bispo Sardinha, a pistola de raios laser, o cientista maluco, o alienígena bonzinho, o herói invencível, a dobra espacial, o alienígena mauzinho, a mocinha com pernas perfeitas e cérebro de noz, o disco voador, que estão tão distantes da realidade brasileira quanto a mais longínqua das estrelas. […] Queremos despertar o iconoclasta que jaz em todo peito brasileiro.

Morte aos adoradores de máquinas. Um caipora verde amarelo devora hambúrgueres, destrói satélites, deglute armas e destroça tecnologias. Um índio descerá de uma estrela colorida brilhante. 

Os futuros pioneiros dessa aguardada FC já estão por ai escrevendo, publicando, querendo encontrar você, caro leitor, desse meu Brasil brasileiro, para fazer esse filme ter um final bem mais criativo que uma comédia romântica enlatada. Quem sabe, algo mais parecido com um índio descendo numa estrela colorida brilhante.

Davenir Viganon

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quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Conto autoral - Deserto procedural

Caminho por um deserto procedural onde a areia se tingiu vermelha a cada passo meu. Acima, apenas o céu ralo, cinzento e o sol distante. Já faz um século. Foi tudo um jogo de sobrevivência contra Marte. Respirar algo que não poeira, pensar algo que não seca. Apostamos na roleta e deu vermelho. Para quê servem agora todas essas palavras, se ninguém verá o último primata perecer neste derradeiro evento?
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quinta-feira, 9 de junho de 2016

Conto autoral - Eterno retorno


Na órbita da estação espacial, o captador de Dyson devorava a luz solar nutrindo as veias da grande civilização. Os cientistas responsáveis pela sua manutenção eram poucos, e tão espalhados pela colossal circunferência, que nunca se viram antes.

Um deles via aos seus pés o abismo de calor e acima o vazio interminável. Há muito, ansiava pelo retorno ao seu planeta natal. Viajava a velocidade do som pelos trilhos em busca de fissuras. Então uma voz o alcançou e ordenou. 

- Pare, pare!

Parou completamente seu veículo e olhou para os lados em busca da fonte da voz. Seria uma ilusão, pensou. Alguém veio por trás e varou seu peito com um objeto cortante, quente e cauterizante. Pode ver antes de morrer que era ele próprio com mais barba.

O homem removeu o traje procurou uma cicatriz. Nada. Entrou no veículo abandonado e saiu em busca do próximo.

Davenir Viganon
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