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segunda-feira, 9 de junho de 2025

Resenha #365 O Torneio das Sombras (Fábio Fernandes)

 


"O Torneio das Sombras" é um romance publicado pela AVEC Editora, em 2024. Livro que estava ansioso para ler e quando li foi em poucos dias. Comprei minha edição na Odisseia de Literatura Fantástica em 2024 e já estava louco para passar esse livro na frente dos outros. E foi o que acabei fazendo e não me arrependi.

O livro não é apenas uma tradução da versão em inglês, como é uma ampliação, de uma noveleta publicada originalmente em inglês, chamada Under Pressure. Como eu adoro Steampunk, tinha ficado triste pela Under Pressure não ter saído em português, mas a AVEC não apenas trouxe o livro para o Brasil como também pediu para o autor ampliá-lo. O resultado é uma aventura steampunk que extrapola a característica que mais gosto do subgênero: referências a personagens literários e reais da época Vitoriana.

Acompanhamos January Purcell, uma geóloga que é contratada para uma expedição pelo Dr. Jones. O que está por trás desta viagem? Nada de mais. Apenas a existência de uma rede de espionagem que usa sonhos para influenciar a história, ou melhor dizendo, as histórias. January é uma oneironauta, uma pessoa capaz de viajar pelos sonhos, acessando outros universos e versões de si mesmo. A jornada de aprendizagem da protagonista nos conduz pela ideia do universo que o Fábio criou e não tem como não se empolgar, se você gostar da proposta, nesse ponto talvez eu não seja a melhor pessoa para tecer uma crítica para esse livro por já ter gostado tanto antes de ler e mais ainda após ler. Poxa vida, tem David Bowie na história, uma linda homenagem e um baita uso dele na trama. Não é só um fan service.

O mundo que o Fábio criou, a ideia do oneironauta, já tinha trabalhado nisso em outra obra sua, mas de forma mais cômica e absurda em Oneironautas (com Nelson de Oliveira) e antes disso no conto Charlotte Sometimes. Contudo, a brincadeira com o livro como um universo alternativo a ser explorado pelos oneironautas é criativa e poética em si, afinal a imaginação e os sonhos bebem da mesma fonte e uma base muito fértil para várias histórias. Uma forma muito bonita de ver a arte do escritor e somando isso a homenagem a arte do cantor David Bowie, transformam esse livro em uma carta de amor a arte. Sem deixar de ser uma aventura divertida de ler. 



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segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

Resenha #314 Mafagafo 3, Edição extra. Dante e a Liga dos Anciões Asassinos (Enéias Tavares)

Retomando a leitura das edições da Revista Mafagafo, decidi pular a leitura do segundo ano e continuar a leitura pelo terceiro ano, pois queria muito voltar ao mundo de Brasiliana Steampunk do Enéias Tavares. Essa edição foi uma edição extra e acompanha uma aventura de investigação passada em Porto Alegre dos Amantes, que narra um episódio vivido por Dante D'Augustine, escritor de contos de mistério que é convidado para uma Liga de Anciãos. Como o título já antecipa, essa liga é responsável por uma serie de mortes de prostitutas, mas o que eles não imaginam é que o segredo que Dante carrega pode levá-los a ruína completa.

O conto começa com a primeira parte da entrevista de Dante D'Augustine transposta da Rádio Guaíba, antes de começar o relato e a revelação do grande segredo de Dante, que para quem já leu outras obras do universo de Eneias não é novidade. As revelações que o conto traz são conhecidas de quem já leu algum dos romances da série, então não se trata de saber o final. Gosto do estilo de Eneias pois aqui não temos um foco no mistério a ser desvendado, mas nem por isso se deixa de usar o clima de mistério como uma linguagem de dá um charme a este universo. Também porque o protagonista escreve contos de mistério, é verdade, mas no fundo trata-se de uma aventura, temperada pelo mistério. O conto enriquece muito o mundo de Brasiliana Steampunk e espero ver mais deste mundo!

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segunda-feira, 25 de setembro de 2023

Resenha #304 A Batalha dos Aflitos, Contos de Nordara (Oghan N'thanda)


A Batalha dos Aflitos de Oghan N'thanda, é o primeiro conto que li da série Contos de Nordara, uma série de contos que o autor lançou envolvendo seu mundo abordado na série de romances Baronato de Shoah, o primeiro romance stempunk brasileiro. Aqui este mundo foi reformulado, depois de quase uma década sem uma continuação. Não por coincidência, o conto foi disponibilizado pelo autor justamente como um brinde para despertar a curiosidade sobre esse worldbuilding que o autor criou e recriou.

A história é simples e bem feita, não resumiria melhor que a própria apresentação do conto: "Cohen e Ryszard Dajjal são dois órfãos que trabalham como aprendizes de cozinheiro no Cenóbio de Ahator, o mosteiro onde é treinada a Kabalah, a elite do Quinto Império. Cohen recebe a chance de mudar sua vida, mas para isso deve deixar para trás tudo aquilo que ama e acredita, inclusive seu irmão, Ryszard. As decisões de Cohen colocam em risco sua vida e a de seu irmão, revelando uma ordem secreta infiltrada na elite e que tem como único objetivo destruí-la: a Qliphoth, a Árvore da Morte."

O conto é muito bem sucedido em focar nos personagens, a relação dos irmãos e a formação do caráter do protagonista e deixar o mundo se apresentar paulatinamente a medida que os acontecimentos pedem, instigando a curiosidade e não fazendo uma descrição do mundo onde se passa a história. Conseguiu sua função, que era atiçar a curiosidade e me fazer querer adquirir outros contos para conhecer mais deste mundo.
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segunda-feira, 7 de agosto de 2023

Resenha #297 A sombra da Rua do Arvoredo (Davenir Viganon)


[Resenha escrita por Alex Oestreich]

A história a qual somos apresentados no belo conto do Davenir é um relato epistolar e ficcional, baseado em fatos. Neste caso, Os "Crimes da rua do Arvoredo" que foram episódios reais e insólitos que ocorreram na capital gaúcha entre os anos de 1863 e 1864. Pessoas eram atraídas por uma bela jovem até um local onde eram desacordadas e mortas. Após serem esquartejadas, sua carne era utilizada para a fabricação de linguiças que eram consumidas pela população em geral. (A famigerada rua do Arvoredo foi rebatizada e hoje é conhecida por "Rua Coronel Fernando Machado).  

O relato é de um chefe de polícia de uma Porto Alegre Steampunk nos anos de 1863-1864. Dario Callado, um homem moderno em todos os sentidos. Traz para a capital gaúcha o que há de mais recente em métodos científicos. Inovador, aplica seus conhecimentos à investigação policial e com isso, se destaca de toda a força policial de seu tempo. No entanto, Callado acaba se envolvendo na investigação de uma série de crimes grotescos, que vão acabar exigindo de si o máximo de entrega e colocando sua perspicácia a prova.

Ambientado numa Porto Alegre steampunk, somos apresentado à uma paisagem que remete a virada do século XIX. Em que ao mesmo tempo que carruagens puxadas a cavalo podem ser vistas como algo comum, suas ruas populosas e sua rotina provinciana se mescla com a "tecnologia" a vapor e as mais modernas descobertas científicas do período.

O conto é eletrizante e te prende do início ao fim. Cada nova descoberta, narrada por Callado, nos faz vibrar e cria uma expectativa que é muito bem conduzida pelo autor. A narrativa é fluída e joga muito bem entre a narrativa epistolar de Callado e as cenas de ação e suspense que nos são contadas.

O conto é uma espécie de prefácio de outra história maior que irá acompanhar a trajetória do filho do protagonista (Thedorico). Esta história foi lançada pela editora Caligo na coletânea chamada: "Outros Brasil da Ficção a Vapor".
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terça-feira, 16 de maio de 2023

Resenha #285 Crônicas de Le Chevallier: Persa e as três sementes de tâmaras (A. Z. Cordenonzi)


"Persa e as três sementes de tâmaras" é minha terceira leitura d'As Crônicas de Le Chevalier. Uma série de quatro contos que expandem a obra principal do personagem e estão de graça para baixar na Amazon. São contos que tanto expandem o universo quanto servem de apresentação dos personagens. Cada conto também faz uma referência a literatura e personagens reais como é comum nas obras steampunks. Aliás, é uma das coisas que mais gosto deste subgênero: a capacidade de brincar e manipular o passado tanto historiográfico quanto literário.

Neste conto temos uma aventura solo do Persa, o agente do Bureau, fiel amigo do Le Chevalier, que se vê obrigado a ir em uma missão sozinho pois o maior agente da França está se recuperando de uma doença. Persa precisa investigar um caso de assassinato num regimento de legionários na Tunísia, terra natal do nosso protagonista. É muito bacana ver como o personagem, acostumado a ser os músculos quando em dupla com Le Chevalier, tem que se virar agora como cabeça pensante da investigação. Não que o Persa seja burro, mas é um sujeito cheio de manias, e por vezes parece fútil, mas vai mostrar seu outro lado e isso ajuda a dar mais profundidade a ele.

Referências são explicadas num texto no final pelo próprio autor. Uma ideia bacana pois fica como uma conversa após o conto. As referências ficam evidentes quando reveladas mas a ideia de ir descobrindo durante a leitura me compele a não as revelar e deixar para o leitor. Recomendaria mesmo que o conto não fosse grátis, então aproveite enquanto tem! 
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segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

Resenha #270 Crônicas de Le Chevallier: Le Chevalier e o Pêndulo da Morte (A. Z. Cordenonzi)


"Crônicas de Le Chevallier: Le Chevalier e o Pêndulo da Morte" é um dos episódios de uma série de quatro contos que complementam a narrativa do romance Le Chavallier e a Exposição Universal. Cada conto tem como protagonista os quatro personagens principais do romance, antes de cruzarem seus destinos no livro. Após já ter falado sobre o conto da Juliette, vamos ao conto referente ao protagonista da série, o próprio Le Chevalier em uma aventura antes da história do livro.

O conto é bastante curto e narra uma aventura que começa no seu ponto mais crítico. Numa homenagem ao clássico do terror, Edgar Allan Poe, encontramos Le Chevalier preso numa cama sob o pêndulo da morte, uma lâmina que desce lentamente para partir a vítima ao meio, literalmente. Situação essa que foi repetida no cinema a exaustão, por exemplo no filme 007 contra Goldfinger onde o espião é ameaçado com um laser ao invés de uma lâmina. Talvez nem todos saibam que tudo se originou do clássico de Poe.

Como podemos imaginar, nosso herói escapa (afinal de contas ele precisa estar vivo para estrelar no livro) mas antes disso é contado como ele se meteu nessa situação, do chamado do Bureau até a perseguição a sua tia, que está por trás de toda a trama. É um conto curto mas divertido e serve como porta de entrada ao mundo que o autor construiu. Recomendo ser o primeiro a ser lido, antes do romance e dos demais contos, e isso é muito fácil de fazer. Os contos estão de graça na Amazon!


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segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

Resenha #267 Crônicas de Le Chevallier: Juliette e a Cruz Azul (A. Z. Cordenonzi)


"Crônicas de Le Chevallier: Juliette e a Cruz Azul" é um dos episódios de uma série de quatro contos que complementam a narrativa do romance Le Chavallier e a Exposição Universal. Cada conto tem como protagonista os quatro personagens principais do romance, antes de cruzarem seus destinos no livro. Como os contos não foram numerados, escolhi a personagem que mais gostei deste livro: Juliette.

No seu conto, aprofundamos ainda mais as origens desta personagem. Sua vida no orfanato e o que levou a empreender um roubo audacioso até para os ladrões mais bem preparados. Juliette opera de um esconderijo que a protege de um mundo que não se importa com crianças de rua que rende cenas muito boas com seu amigo que é apaixonadinho por ela. Somado a dinâmica do assalto, faz o conto parecer maior do que ele é. Sem contar a homenagem a um dos maiores ladrões da literatura que não convém contar para não atrapalhar a surpresa mas para quem já conhece o personagem não vai se surpreender. O conto é curto em páginas mas é muito bem escrito e mostra que com uma personagem bem trabalhada as coisas fluem naturalmente na leitura. 

Em breve trarei mais resenhas destes contos, que ainda vão abordar separadamente o fiel amigo d'O Cavaleiro, O Persa; da agente russa que ajuda o agente no livro e do próprio Le Chevallier. O mais bacana é que os quatro contos estão de graça na Amazon e o livro está bem barato (a editora AVEC volta e meia coloca os livros de graça então vale a pena ficar de olho.)
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segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Resenha #259 Juca Pirama (Enéias Tavares)


"Juca Pirama" Enéias Tavares é outra obra de seu universo Steampunk, iniciada em Lições de Anatomia do Temível Dr. Louison. Desta vez a aventura se passa em São Paulo, ou melhor São Paulo dos Transeuntes Apressados e tem um ritmo bem diferente das suas outras obras. Como dito no prefácio, a intenção era de uma obra que funcionasse também no audiovisual e assim temos uma obra ágil na escrita, ainda que emule o modo de falar do séc. XVIII, e tem um enredo mais simples.

Desta vez não temos um personagem clássico da literatura brasileira adaptado ao universo Steampunk, mas as referências e o paralelismo do herói Juca Pirama do poema clássico, com este personagem novo funciona muito bem. Ao início de cada capítulo temos um trecho importante do poema abrindo o capítulo. Conhecemos Juca Pirama, um anti-herói brasileiro, um jovem malando que tenta se virar com o que tem, com as habilidades das ruas, marginalizado por essência, dotado de uma vontade de viver imensa. Temos um personagem carismático que se viu envolvido em uma trama de assassinados e sede de poder. As reviravoltas podem até ser revolvidas pelo leitor mais atento mas aqui a aventura é o elemento mais apurado. Sempre fui crítico do Steampunk que aprecia a estética pela estética e esquece o elemento transgressor que faz o "punk" fazer sentido. Nosso protagonista, tanto deste livro como do poema clássico de Gonçalves Dias, são dignos da herança de rebeldia do precursor do subgênero, A Máquina Diferencial.
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segunda-feira, 18 de julho de 2022

Resenha #244 Brasa 2000 e mais Ficção Científica (Roberto de Sousa Causo)


"Brasa 2000 e mais Ficção Científica" de Roberto de Sousa Causo é uma antologia, parte da coleção Futuro Infinito, muito representativa da versatilidade do autor, principalmente na Ficção Científica, retirados de diversas publicações. Como fã do trabalho do autor, foi muito bacana encontrar contos de publicações antigas e, por vezes, difíceis de encontrar. O livro celebrou isso da mesma forma que Fanfic, de Bráulio Tavares, lançado na mesma coleção. Vamos falar dos contos em separado.

A primeira parte Aqui, Agora, Futuro Próximo, trouxe contos com especulações e reflexões mais envolvidas com nosso presente. "Infiltrado" é narrado num fluxo de consciência que ao mesmo tempo que nos envolve numa sensação de fuga e nos entrega, aos poucos o contexto desta fuga entregando tudo na última frase. Uma aula de como não colocar infodump nas histórias e usar isso em favor dela para deixá-la mais instigante. 

"A mulher mais bela do mundo" conta sobre um fotógrafo brasileiro que encontra sua satisfação estética suprema e vê sua obra apreciada por um emissário do espaço. Adorei a forma como o debate entre o estético e o essencial é tratado aqui, num conto com desdobramentos instigantes.

"O salvador da pátria" um soldado acorda após um acidente aéreo, que vitimou todos os outros tripulantes. Contudo ele é auxiliado por uma indígena que lhe incumbe uma última missão. O conto se passa na floresta amazônica, um cenário muito caro ao autor que já escreveu uma trilogia de romances sobre a Amazônia. A índia logo revela-se vinda do futuro e a missão ganha uma importância extrema, contudo ainda coube espaço para uma discussão sobre o que afinal de contas é o Brasil. Mais do que fornecer qualquer resposta determinista, temos um punhado de boas reflexões que valem tanto quando a ação bem narrada, costumeira dos escritos do autor. 

"Pré-natal" acompanhamos Paulo, que busca proteção na ONU para proteger um segredo de Estado de uma nação totalitária. Seus segredo tem um potencial único de acabar com o domínio de um ditador aparentemente Imortal. De fato seria um pesadelo, existir um país assim, não é verdade?!

"Brasa 2000" acompanhamos uma fuga de um soldado, único sobrevivente do seu esquadrão em uma São Paulo devastada pelo exército argentino munido de drones estrangeiros. Menos importante que as grandes movimentações militares e tramas políticas, esta é uma história sobre um soldado lutando para sobreviver, a condições que ele não criou.  

A segunda parte, Tupinipunk, é um termo cunhado pelo próprio autor que é basicamente uma visão brasileira do cyberpunk. O primeiro conto é "A luta do Cangaceiro Jedi" que narra uma breve aventura de um hacker que disfarça grandes roubos de dados com atos puramente rebeldes. Vemos a abordagem tupinipunk florescer ao modo de falar brasileiro, no contra ponto do protagonista conversando com uma estrangeira russa bem politizada.    

"Para viver na barriga do monstro" o autor retorna a Amazônia para mostrar um indígena que trabalha em um centro de pesquisas em meio a uma pane tecnológica de escala global. Junto com sua namorada carioca e um colega estadunidense, vemos todos exibirem seu interior na eminência de um apocalipse tecnológico.

"Vale-tudo" é uma dos dois trabalhos de mais fôlego do autor neste livro. Acompanhamos Jareen, uma jornalista americana que vem ao Brasil para entrevistar um apresentador de programas policiais, ex-lutador de Vale-tudo (nome antigo para o MMA) André Mattar. Após um atentado durante a entrevista, Jareen se vê em meio a uma disputa política, rebeldes e um Brasil parcialmente destruído após um desastre nuclear. Vemos novamente o autor trabalhando as peculiaridades do Brasil contraponto com algum personagem estrangeiro, aqui a protagonista.  

A terceira parte contém apenas dois contos Steampunks curtos, que servem como homenagens, primeiro a H. G. Wells, em "A vitória dos minúsculos" onde a invasão dos tripods acontece no Rio de Janeiro e em "Dactilomancia", acompanhamos um inventor de máquinas de datilografia em busca da máquina perfeita quando suspeita da existência de seres de outro mundo habitando entre nós.

Por último e não menos importante, a última parte é uma Space Ópera que reúne seus dois personagens principais de suas sagas interestelares. Jonas Peregrino e Shiroma em "Tengu e os assassinos", uma noveleta que exemplifica bem a riqueza do mundo espacial do autor. Peregrino está em uma missão para salvar uma herdeira de uma dinastia nipônica, mas ela é perseguida por perigosos assassinos. Durante a missão o autor explora bem todas as variáveis, das políticas até as táticas. O resultado é a solidez e imersão nas histórias.
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segunda-feira, 18 de abril de 2022

Resenha #231 - Rússia Steampunk: Batalha de Astana (André Wielgosz)


"Rússia Steampunk: Batalha de Astana" de André Wielgosz é uma aventura steampunk cheia de ação, com uma construção de mundo vasta e instigante, cheia de alternativas históricas ricas. O autor é historiador e membro do Conselho Steampunk e podemos ver essas duas influências se aliarem ao caráter fantástico de sua ficção retrofuturista.

Acompanhamos a história do prisioneiro 112.358 que está passando por um treinamento na Sibéria para reintegrar-se as forças militares do Império Russo em 1851. A comandante é a Marechal Ekaterina Romanova que abdicou do trono para comandar em campo. Logo descobrimos que o recruta 112.358 é o ex-tentente Andropov, enviado a Sibéria por traição em uma missão em Paris e recebe uma chance de provar seu valor em uma missão em Astana.

O formato de noveleta, em um livro de 60 páginas, toma a boa decisão de focar na ação e conseguiu colocar camadas para quem se dispuser a contemplar o contexto histórico alternativo. Há uma corrida armamentista que movimenta uma Guerra Fria entre os impérios russo e britânico, que se tornam objetivos das missões dos personagens que querem apenas sobreviver. Contudo, o leitor que deseja apenas ação estará bem servido. 
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segunda-feira, 21 de março de 2022

Resenha #227 - Le Chevalier e a Exposição Universal (A. Z. Cordenonzi)


"Le Chevalier e a Exposição Universal" de André Zanki Cordenonsi é uma aventura detetivesca steampunk estrelada pelo agente francês sem nome, conhecido apenas como Le Chevalier. A história se passa numa Europa não muito diferente da nossa, em termos políticos sendo acrescida de tecnologia a vapor que possibilitou avanços e uma modernização mais acentuada em Paris (cenário do livro) e por consequência, um maior desigualdade e precarização da vida da classe baixa.

Le Chevalier recebe a incumbência de investigar a violenta morte do agente Pinard, as vésperas da Exposição Unviersal que reunirá inventos de todo o mundo e muitos deles podem ser mortais e ameaçam a vida do próprio Imperador Napoleão III. A escrita acompanha o estilo antigo com bastante descrições mas logo temos boas cenas de ação que aceleram a leitura, até a tornarem uma excelente "leitura de praia". É como chamo os bons livros com leitura fluida e que não complicam o entendimento enquanto divertem o leitor.

Quanto a caracterização dos personagens, eles são propositalmente caricatos, desde o heroísmo e determinação do protagonista passando pelo reclamão, esfomeado porém corajoso e leal, Persa. Confesso que gostaria de ver algo mais que as bravatas da parte dele, como houve com Julliete que aparece muito menos mas tem motivações mais claras e cativantes. Os vilões são apenas frutos da política e fez sentido serem descartáveis como mecanismos, pois quando caem são sempre substituídos por outros iguais (mais espertos e hábeis ou não).

O balanço final é de um livro do tipo leitura de praia. Divertido, que não pesa a mão em nenhuma característica de crítica ou científica, mas elas estão lá pra quem quiser algo além da aventura que predomina e (mais uma vez) diverte muito e deixa um gosto de quero mais, que acredito encontrar nos contos (As crônicas de Le Chevalier) que o autor deixou de graça na Amazon.
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segunda-feira, 14 de março de 2022

Resenha #226 - Vaporpunk: Novos documentos de uma pitoresca época steampunk (Org.Fábio Fernandes, Romeu Martins)


"Vaporpunk: Novos documentos de uma pitoresca época steampunk" ou apenas Vaporpunk 2, trouxe novos contos para expandir o conceito de Steampunk nos contos da primeira antologia. A primeira mudança é a maior quantidade de contos, e o menor número de páginas no total. A abordagem também é diferente, não seguindo apenas a História Alternativa, mas também abrindo o leque para a aventura e a fantasia, nem sempre em cenários brasileiros.

Fábio Fernandes, um dos organizadores da antologia, abre o livro com "Alferes de Ferro", uma história que reconta a vida de Joaquim José da Silva Xavier, que a história imortalizou como Tiradentes. Nesta nova versão o alferes inconfidente tem um destino mais heróico do que de mártir da independência em um mundo em que a porção nordeste do império foi tomada e consolidada pelos holandeses, além de não poupar nosso herói das contradições da luta pela liberdade com a manutenção da escravidão.

Dana Guedes nos trás um conto episódico em "V.E.R.N.E. e o Farol de Dover" onde um grupo de anarquistas e libertários luta pela liberdade da classe operária, sabotando diretamente as operações do governo para proteger os industriais. Naquela missão, em específico, o grupo pretende destruir o HMS Guardador que transportaria peças industriais e sua destruição atrasaria por meses a construção de um parque industrial novo. Os personagens Beatrice e Dmitri são os mais trabalhados, e os outros membros da equipe são caracterizados por peculiaridades estéticas e não sabemos se sobrevivem para serem aprofundados em episódios futuros. Aliás essa característica episódica dá um sabor folhetinesco ao conto e nos faz querer saber mais.

Romeu Martins "Tridente de Cristo" narra uma segunda história do investigador policial João Fumaça quando vai a festa de casamento do estadunidense Neil Gibson com a índia brasileira Maria Pinto, amigos da aventura anterior, porém Neil e João são rendidos por um agente estadunidense a serviço da coroa espanhola. Neste mundo o Império Brasileiro e a Coroa espanhola são equivalentes aos Estados Unidos e a Inglaterra no século XIX, como potências mais relevantes. Infelizmente o conto deixa a desejar pelo excesso de informação e contextualização, do que acontecimentos que levaram os personagens até aquela situação. Absolutamente tudo que sabemos do vilão sai de sua boca quando revela em longos parágrafos seus planos. Nem Tião Gavião, discursaria para Penélope Charmosa por tanto tempo.

Nikelen Witter "Uma missão para Miss Boite" acompanha Ana Joaquina que vem ao sul do Brasil, aparentemente em viagem a visita de um amigo, junto do marido Serafim. Porém o casal faz parte de uma Sociedade secreta em missão: resgatar/roubar um artefato que deve ser protegido a todo custo. Ana contrata Miss Boite, uma mercenária ousada que aceita a missão. O conto tem reviravoltas muito bem feitas e cenas de ação inspiradas. Meu conto favorito da edição!

Luiz Brás "Mecanismos Precários" coloca em choque uma série de dicotomias entre um casal enfurecidamente apaixonado, digladiando-se em mechas a vapor destruindo a cidade até que um personagem inusitado coloca tudo de ponta cabeça. Conto cheio de metalinguagem que foge do padrão de histórias Steampunks mas que tem muito valor como literatura.

Sid Castro "Notícias de Marte" cria seu Brasil steampunk em paralelo com o nosso Brasil. Acompanhamos o Visconde de Cerradinho Antônio Almeida, aviador do Império Brasileiro embarcado no navioaeródromo Amazonas, em uma missão misteriosa que se perde da esquadrilha e é derrubado por um navio republicano chamado Amazonas. Logo Antônio percebe que está em um universo paralelo, sob a desconfiança dos oficiais da Marinha de um Brasil republicano ás vésperas de um motim que seria conhecido como A Revolta da Chibata. O motim é a única chance de Antônio voltar a sua realidade e concluir sua missão. O conto conseguiu colocar em paralelo ambos os mundos sem deixar o conto confuso, conseguindo contar uma boa história, com ação e um gancho para o final sensacional.  

Romeu Martins "Modelo B" segundo conto do autor na edição onde retornamos com o detetive João Fumaça. O conto me agradou bem mais, que  "Tridente de Cristo", pois conseguiu valorizar a ação e os acontecimentos sem muita contextualização. Ambas as histórias são simples, mas o perigo e os vilões ficaram mais humanos e razoáveis. Diferente do conto anterior, aqui terminei a leitura querendo mais contos do João Fumaça. 

Jacques Barcia "O cerco de Dr. Vikare Blisset" acompanha através do relato de um detetive encarregado de prender o Dr. Vikare Blisset um célebre anarquista que usa suas tecnologias para quebrar patentes científicas e tecnológicas controladas pelo Estado. O conto funciona pelos relatos e por trechos de relatórios sobre as armas, tecnologias e associados do Dr. Vikare que nos imergem nesse mundo e trazem excelentes cenas de ação. Um conto que funciona como tal e ainda nos deixa com muita vontade de conhecer mais este mundo.

Cirilo S. Lemos "Meus pais, os pterodáctilos" é um steampunk com cara de New Weird que tras uma história doce sobre um menino que vive com pais em Varup, uma cidade povoada por pterodáctilos que falam e vivem em sociedade. O menino adotado não é bem visto pela sociedade mas os pais do menino fazem de tudo para que ele seja aceito. A construção de mundo é soberba e não perde em nada para mundos estranhos e exóticos de China Mieville. Excelente encerramento para a antologia!
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segunda-feira, 7 de março de 2022

Resenha #225 - Parthenon Místico (Eneias Tavares)


"Parthenon Místico" de Eneias Tavares é a sequência que tanto aguardava para "Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison" do já longínquo ano de 2014. O mundo de Brasiliana Steampunk tem tudo que um bom livro Steampunk precisa: uma estética apurada, cheia de charme, tecnologia a vapor, ação e personagens cativantes. A sequência, que na verdade é uma prequela, acompanha o grupo chamado Parthenon Místico, quinze anos antes dos eventos narrados em "Lição". Grande parte dos personagens criados e adaptados ao mundo a vapor estão lá. Dr. Antonie Louison e Beatriz de Almeida e Souza, entre os criados por Eneias e os retirados de obras clássicas, Solfieri (do Noite na Taverna de Alvares de Azevedo), Bento Alves, Sérgio Pompeu (d'O Ateneu de Raul Pompéia), Dr. Benignus (do livro homônimo de Emílio Augusto Zaluar), Vitória Acauã (dos Contos Amazônicos de Inglês de Souza) estarão ao lado de Giovani (personagem de Apeles Porto Alegre), Aristarco (também d'O Ateneu) e até de uma misteriosa aparição d'O Aleph de Jorge Luis Borges.

Na história, acompanhamos os primeiros momentos da criação do Parthenon Místico, grupo de insatisfeitos anarquistas que se veem obrigados a enfrentar a Ordem Positivista com planos de dominação que os colocam em choque com nossos heróis. Como no livro anterior, a narrativa é construída através de relatos dos diários, digo dos noitários, dos personagens, também de relatórios, transcrição de áudios e notícias. Porém quem assume um protagonismo desta vez é Sérgio Pompeu, que traz o primeiro relato de quando recebeu uma carta de um antigo colega do Ateneu, Bento Alves para vir a Porto Alegre. Sérgio que se sentia sem lugar no mundo aceita o convite e entra para o Parthenon Místico, e já tem de encarar suas primeiras aventuras com o grupo.

Minhas expectativas com relação a continuação eram as mais altas possíveis e elas foram totalmente atendidas. Obviamente meu apego ao mundo criado pelo autor facilitou que eu gostasse do livro, mas ele definitivamente não é apenas uma aventura boba e estética vazia. O livro está embebido de rebeldia, sabendo combinar o lado aventuresco e folhetinesco sem tornar seu aspecto rebelde em algo caricato. 

P.S. - Como se não bastasse tudo isso, o livro tem suportes gratuitos para ampliar o mundo abordado nas duas obras. Acessando o QRCode no fim do livro ou aqui o leitor tem acesso a audidramas e histórias em HQ virtuais, e informações sobre outras mídias que compartilham o universo criado pelo autor.
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segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Resenha #197 - Vaporpunk (Org. Gerson Lodi-Ribeiro e Luis Filipe Silva)


"Vaporpunk - Relatos steampunk publicados sob as ordens de Suas Majestades" foi a primeira antologia da série Mundo Punk, que além de um segundo volume, trouxe antologia de Dieselpunk, Solarpunk e Cyberpunk sendo uma das minhas séries de antologias favoritas. Este volume optou por poucas histórias e de maior fôlego, noveletas, buscando se aproximar de outro subgênero: História Alternativa. Ambos os subgêneros tem pontos de contato, como a ideia de reescrever o passado e imaginar como teria sido, mas ao contrário da HA, o Steampunk não tem obrigação com o realismo podendo inserir personagens de livros como pessoas e até elementos mágicos elevando o hibridismo com outros gêneros e subgêneros, como o Terror, a Fantasia. Se começarmos com o livro Steampunk original A Máquina Diferencial de William Gibson e Bruce Sterling, já notamos que apesar de basear-se em algumas premissas da HA, a inserção de personagens tirados de livros já mostra que o Steampunk já nasceu com uma identidade própria. Infelizmente a estética do movimento é ainda muito atrelada a glamourização da era vitoriana revisitada pela tecnologia a vapor, e nem tanto pelo aspecto crítico que Sterling e Gibson trouxeram do Cyberpunk, que é o lado punk, da atitude e rebeldia. Steampunk tem muito mais a ver com fumaça derretendo os pulmões de operários das fábricas que trajes de gala com adereços metálicos.

A Fazenda-relógio (Octávio Aragão) - O livro abre com uma história curta, que traz as máquinas a vapor em 1880 substituindo em massa os escravizados da fazenda Nossa Senhora Conceição em Jundiaí, mais outras nove fazendas através do Barão de Mauá e Dom Pedro II. Os escravizados, agora livres, iniciam uma revolta pelo abandono e a falta de lugar para eles nessa nova sociedade mecanizada. Ambrósia começa o conto vendo a primeira fazenda queimar sob a ira da revolta. Conto tem uma trama instigante que expande para além dos limites da fazenda e chega a alta cúpula da corte. É estranho a chegada das máquinas ser em 1880, pois a escravidão já estava entrando em colapso sendo o choque com a chegada das máquinas exagerado. Se essa chegada se desse ao menos quatro décadas antes, o impacto seria mais interessante. Contudo, esse detalhe está longe de estragar o conto.

Os oito nomes do deus sem nome (Yves Robert) - É uma noveleta de espionagem onde dissidentes portugueses auxiliam um francês e um inglês a descobrirem o segredo de Portugal se elevar a potência que rivaliza com a França e a Inglaterra. Desses, é sabido que a Inglaterra desenvolveu as máquinas a vapor e a indústria pela Máquina Diferencial e os franceses desenvolveram a telecinese e a inteligência com agentes altamente capacitados, contudo ninguém sabe o segredo de Portugal e quando o grupo descobre que o rei vai conferenciar secretamente em sua casa de campo é que o grupo parte em missão para descobrir o segredo. A primeira cena do conto já dá indícios bem claros que o poder português é obtido através de feitiçaria africana. Isso acaba entregando mais do que o razoável para manter o suspense, ainda que o final seja bastante surpreendente e catártico.

Os primeiros Astecas na Lua (Flávio Medeiros Jr.) - A novela conta de uma missão do governo francês para investigar a primeira missão espacial inglesa em um Séc. XIX imaginado entorno de uma guerra fria entre França e Inglaterra, tendo Jules Verne e H. G. Wells como ministros das ciências de seus países. O mundo construído é bem imaginado mas as inserções das homenagens (muitos personagens dos livros aparecem no gabinete de guerra francês) foi bastante atropelada, sem adicionar a trama de fato, principalmente os que se ligam a obra de Verne, enquanto as homenagens ao Wells foram mais coesas pois é onde se passa boa parte da ação. O trabalho acabou se tornando posteriormente um livro de contos (Homens e Monstros, 2013) e não um romance, mas quando resenhar este livro linkarei devidamente aqui! 

Consciência de Ébano (Gerson Lodi-Ribeiro) - Jorge Anduro é convocado para entrar em um grupo secreto da nação de Palmares, que guarda e gere seu maior segredo e trunfo militar e estratégico. Trata-se de uma criatura mitológica que foi treinado por Zumbi, um Dentes Compridos, um vampiro. O agente não aceita a ideia de um vampiro como aliado e arma um plano para eliminar o que considera um mal. O conto é ambientado com excelência, acertando em cheio ao pensar em modos de tratamento e traços culturais originais para os palmarinos, o que facilita a apreensão desta história alternativa. O que fica devendo são os motivos do protagonista para a traição, que ficaram pouco trabalhados, mas nada que comprometa a história. 

Unidade em Chamas (Jorge Candeias) - O famoso diálogo atribuído a Ernest Remingway ("Quem estará nas trincheiras ao teu lado?/ E isso importa?/  Mais do que a própria guerra.") embala a noveleta do português Jorge Candeias. Seguimos Sidônio, um oficial do corpo aéreo luso nas vésperas da invasão francesa, que alastrava-se no velho continente. Neste mundo os irmãos Gusmão desenvolveram a tecnologia a vapor criando as passarolas. Naves movidas a gás e ar quente que conseguiam elevar as naves. Eram um segredo militar que era operado apenas por alguns destacamentos até que por ordem do rei, as companhias dos Minorcas (como os portugueses brancos eram chamados pejorativamente) e os Coloniais (africanos, indianos e brasileiros) foram forçados a formar um único corpo aéreo para atuar na defesa do reino dos franceses. Acompanhamos Sidônio que descreve sua adaptação aos novos companheiros numa relação cheia de atritos principalmente por causa do racismo. O desenvolvimento dessa relação toma praticamente toda a extensão da novela no treinamento e formação das naves que eram sempre mistas, deixando a ação apenas para o final. A cena final é de tirar o fôlego e quase compensa do desenvolvimento extremamente lento, principalmente porque não foca em nenhuma relação em específico. Sidônio não faz nenhuma amizade digna de suas próprias notas o que o deixa como um narrador pouco interessante. Contudo a impressão final levanta muito a apreciação ao final da leitura.

A Extinção das Espécies (Carlos Orsi) - Acompanha um jovem naturalista inglês (provavelmente Charles Darwin) em suas andanças pela América do Sul, onde encontra a guerra de domínio na patagônia contra os indígenas mapuches na Argentina em um mundo em que o elán existe e é derivado do vis viva (termo de Leibnitz) e o domínio dessa tecnologia (por Luis Adolfo Morel, personagem de Adolfo Bioy Caseres) aliado a tecnologia de um alemão, fabricante de autômatos eleva o nível da crueldade do massacre. É interessante ver o mesmo conceito explorado em um dos contos de "Campo Total" e não vou dizer qual pois a revelação é importante e vale a pena saber.

O Dia da Besta (Eric Novello) - Se passa num Brasil com tecnologia apurada na eminencia da Guerra do Paraguai e a Princesa Isabel é uma aviadora aliada a piratas e a influência de Napoleão III e a chegada de uma nova arma que pode sair de controle. O conto é bastante divertido, ainda que não tenha qualquer preocupação científica ele compensa pelo carisma dos personagens. Acompanhamos o Conde de Taunay e seu fiel amigo, Carenza, um exímio atirador e junto com a Princesa Isabel investigam misteriosos ataques de uma besta sedenta de sangue.

O Sol de Cada Dia (João Ventura) - Conto baseado na vida do padre Manuel Antônio Gomes, conhecido por Padre Himalaya pela sua altura, que foi um dos primeiros pesquisadores do uso da energia solar, chegando a desenvolver um pyrheliophero, que tinha diversas aplicações energéticas, de metalurgia até um carro movido a energia solar. A história carece de problemas para o protagonista resolver e os que aparecem tem pouco impacto no enredo.
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quinta-feira, 1 de julho de 2021

Não deixe o punk morrer (Davenir Viganon) - OPINIÃO


O cyberpunk é meu subgênero favorito da Ficção Científica, desde que vi pela primeira vez (quando era um guri nos anos 90) aquele mundo escuro de Blade Runner, cheio de riqueza e pobreza coexistindo em caos. Com o passar do tempo, surgiram muitos gêneros derivados dele; o primeiro, o steampunk, foi criado pelos próprios expoentes do cyberpunk, William Gibson e Bruce Sterling, mas algo se perdeu nas quatro últimas décadas.

Antes de externar minha quase indignação/lamento, vamos desmontar um pouco essas engrenagens, ou chips se preferirem. O cyberpunk que conhecemos surgiu nos anos 1980 nos EUA, como um movimento literário na Ficção Científica. Referiam-se a si mesmos apenas como O Movimento e buscavam novos ares para o gênero, contrapondo-se à Era de Ouro da Ficção Científica, marcada por heróis virtuosos, conquistando o espaço, combatendo monstros como William Gibson criticou em seu conto, The Gernsback Continuum, de 1981. Nesse conto, um fotógrafo encontra-se com um casal, esteticamente muito parecidos com personagens de Flash Gordon, série que representa bem a FC que os cyberpunks buscavam contrapor. O fotógrafo do conto refere-se ao casal como algo saído de um pôster de propaganda nazista. Os cyberpunks buscavam novos caminhos para a FC, que incluíssem falar de sexo, política e drogas abertamente, pelo prisma das ciências sociais e humanas, não apenas das ciências exatas.

A rebeldia e a atitude dos punks são os elementos cruciais do que viria a se chamar cyberpunk. O termo é uma mistura, a grosso modo, da palavra cyber, que remete a tecnologia e punk, no sentido de pessoas marginalizadas da sociedade, impressas no lema “High Tech, Low Life”. Uma atitude desacreditada em um mundo que se pauta na alta tecnologia e baixa qualidade de vida. Expor essas contradições sociais, por meio da pervasividade da tecnologia é o centro da abordagem política do cyberpunk. Passadas quatro décadas, o cyberpunk acabou se tornando realidade em muitos aspectos.

No início dos anos 90, os dois maiores expoentes do cyberpunk, lançaram A Máquina Diferencial. Uma obra retrofuturista numa Inglaterra vitoriana, ou seja, recriou um momento do passado (o sucesso do invento de Charles Babbage, por exemplo), caso algo acontecesse diferente de nossa história. Na obra, ainda se fazem presentes os elementos de rebeldia e a relação com a tecnologia. O nome steampunk fazia sentido na obra, pois ela guarda muitas semelhanças na essência com Neuromancer, obra essencial do cyberpunk.

Tanto o cyberpunk quanto o steampunk extrapolaram os limites da literatura. A estética cyberpunk dominou o cinema de ação, de Blade Runner a Matrix, e a estética oitentista de uma maneira geral. O steampunk, se não tão famoso, trilhou um caminho que, na literatura, o aproximou da Fantasia, e ganhou espaço entre cosplayers encantados com a estética (neo)vitoriana. Algo se perdeu. A estética suja de fuligem e fumaça dessa Inglaterra vitoriana que nunca existiu tornou-se algo limpinho e elegante, que em nada tem da atitude e rebeldia punk, que Gibson e Sterling escreveram em A Máquina Diferencial. É triste ver o sufixo punk em algo que muitas vezes não tem nada de punk. Estética pela estética. Poderia ser apenas retrofuturismo e não haveria nada de essencialmente errado nisso.

Contudo, nem tudo está empapado de beleza e estilo. Especificamente na literatura, podemos acompanhar várias obras brasileiras de steampunk que mantêm viva a rebeldia, a contestação e a atitude que fazem jus ao punk desse subgênero tão amado. Mais especificamente ainda, as obras steampunks de Eneias Tavares, A. Z. Cordenonzi e Nikelen Witter. São histórias retrofuturistas, cheios de personagens marginalizados com destaque e respeito, escritos com habilidade e referências histórias que deixam maravilhado este historiador que vos escreve. Tudo isso sem perder a atitude e a rebeldia que me fazem gostar tanto dessas visões semeadas, há quarenta anos, por Gibson e Sterling. Concluo clamando aos leitores e escritores que não deixem o punk morrer como um sufixo vazio.

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segunda-feira, 5 de abril de 2021

Resenha #177 - Viajantes do Abismo (Nikellen Witter)


“Quando o caos tomou conta de tudo o que conhecia, Elissa Faina Till passou a acreditar que o prenúncio do desastre estivera encerrado em um minúsculo grão de areia. Aquele mesmo que ela havia retirado das dobras da saia de seu vestido de casamento numa terça-feira, quando o experimentou pela primeira e única vez.”

Assim começa a primeira parte do romance Viajantes do abismo, uma ficção científica steampunk escrita pela historiadora gaúcha Nikelen Witter. Já conversamos sobre outra obra da autora − Guanabara Real: a alcova da morte − que Nikelen escreveu junto com Enéias Tavares e A.Z. Cordenonsi, mas aqui ela brilha sozinha em outra obra steampunk. Desta vez, ao invés do tom aventureiro predominante no subgênero e da abundância da estética neovitoriana, temos uma abordagem mais voltada à reflexão sobre o meio-ambiente, ao mesmo tempo em que a autora faz um trabalho mais profundo de construção de sua protagonista.

Acompanhamos a história de Elissa, que vive na cidade de Alva Drão e está prestes a se casar com Larius Grey, um político em ascensão dentro do partido governista que está no poder da Tríplice República, quando é abandonada no altar. Passado algum tempo, Elissa tenta seguir sua vida como curandeira, quando a guerra entre governistas e independentistas chega a sua família. Obrigada a fugir, Elissa encontra a amizade de Tyla, dona de um bordel na cidade de Alephas, de uma menina misteriosa que aparece e desaparece como uma alucinação e de um andarilho que sempre traz o caos por onde passa.

Nesse mundo steampunk, a estética das tecnologias a vapor aparece em detalhes, e há pouca menção à estética neovitoriana, o que pode descontentar o leitor mais apegado a essas convenções do subgênero. Elissa evolui de moça submissa até se afirmar em um mundo completamente desfavorável, ao mesmo tempo em que a guerra logo se relaciona à degradação das áreas verdes, pelos desertos que se expandem em grande velocidade. A amizade com Tyla e com a irmã cientista, Teodora, tem forte papel nessa transformação. Infelizmente as duas personagens receberam pouco espaço. A história pedia uma relevância maior delas, ainda mais por se tratar de uma obra extensa, que se permitiu a abertura de alguns arcos secundários.

A decisão de concluir a história em um único livro agrada muito em um mercado empanturrado de narrativas divididas em trilogias, ou em séries, com primeiros volumes meramente introdutórios. Desta forma, as trezentos e quatro páginas de Viajantes do abismo fluem bem, pois a escrita é atraente, com reflexões maduras. Outra coisa que agrada é a trama rica em acontecimentos relevantes, que conectam os elementos construídos minuciosamente na primeira metade do livro. Isso não deixa que os acontecimentos soem forçados, por mais malucos que sejam. O leitor que ao abrir o livro espera encontrar uma mera aventura steampunk para admirar a estética elegante terá uma grata surpresa ao encontrar uma jornada de autoconhecimento e também da valorização do mundo.
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segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Resenha #149 - Solfieri e o Espectro do Casarão Sombrio (Enéias Tavares)


"Solfieri e o Espectro do Casarão Sombrio" é o segundo conto da série Brasiliana Steampunk de Enéias Tavares, dando destaque a Solfieri de Azevedo, que no romance desta série (Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison) acabou ficando como um coadjuvante de luxo. Neste conto ele brilha como um investigador paranormal solicitado a investigar estranhas atividades em um casarão. O conto é conduzido com a elegância que o personagem exige e lembra bastante Remi Rudá da série Guanabara Real, também outro projeto com o mesmo autor. O Conto é excelente para relembrar o universo criado pelo autor e dar mais voz a um dos personagens mais bacanas remodelados por Enéias. Sendo assim, recomendo deveras a apreciação do conto!
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terça-feira, 15 de outubro de 2019

Resenha #106 - Guanabara Real: Alcova da Morte (Enéias Tavares, Nikelen Witter e A. Z. Cordenonsi)

Esse romance foi escrito a seis mãos pelos gaúchos Enéias Tavares, A.Z. Cordenonsi e Nikelen Witter. Todos os três já têm obras de steampunk publicadas, e juntaram forças para criar um novo universo retrofuturista, usando a cidade do Rio de Janeiro do final do século 19 como cenário e personagem, com direito a máquinas diferenciais, carros a vapor e próteses mecânicas. Mas também onde a magia influencia o destino dos personagens, ainda que de forma oculta do cotidiano, tudo isso em meio a um mistério detetivesco. A obra faz uma bela celebração da diversidade, sem colocá-la como o motor da história.

São vinte e um capítulos, sete de cada autor. A trama é protagonizada por três agentes da agência particular de investigações Guanabara Real, que no ano de 1892 é contratada para investigar um assassinato ocorrido durante a festa de inauguração da estátua do Cristo Redentor, financiada pelo poderoso Barão do Desterro.

Tudo é contado do ponto de vista dos três protagonistas, na primeira pessoa, que são interrompidos em alguns momentos por epístolas e recortes de jornais que os heróis leem durante a história. Inclusive podemos ver a posição política de dois jornais diferentes, ao noticiarem misteriosos desaparecimentos: o jornal A República apoiando as autoridades do governo e a Tribuna Popular discursando para o povo.

Cada capítulo é escrito alternando a voz dos protagonistas: uma mulher, um negro e um índio, ou seja, os cidadãos de segunda classe, aos olhos do patriarcado branco.

Maria Teresa Floresta é a dona da agência Guanabara Real. É cheia de contatos pela cidade, principalmente entre os pobres e marginalizados, e tem um faro investigativo apurado. Ela também promove a harmonia entre os diferentes temperamentos de seus associados e amigos da agência. Nikelen Witter, autora também de Territórios invisíveis, trouxe a influência de Agatha Christie para a construção do mistério.

Firmino Boaventura é um engenheiro positivista que acredita na ciência para resolver crimes, e de certa forma o olhar científico é um modo de autoafirmação, contra o preconceito que sofre por ser negro e pela prótese mecânica que substitui a mão direita. O personagem de A.Z. Cordenonsi, autor também de Le Chevalier e a exposição universal, é a influência do steampunk na obra.

Remi Rudá, personagem de Enéias Tavares, é quem traz a influência lovercraftiana ao livro, por ser um especialista em ocultismo, alguém que domina as artes da magia. É descendente de indígenas, com gostos extremamente requintados, e vive em constante tensão com Firmino pela discrepância de suas especialidades. É de Enéias Tavares o premiado romance A lição de anatomia do temível Dr. Louison.

A diversidade social aparece na obra de maneira bastante fluída, apesar de não ser o centro da trama. Há os protagonistas que se unem pelos seus diferentes conhecimentos e habilidades, principalmente as de Maria Teresa, que conhece muito bem as áreas marginalizadas onde nasceu e cresceu. Entre os coadjuvantes, o destaque é a requintada Madame Leocádia, uma transexual dona do prostíbulo mais luxuoso da capital da recém-proclamada república.

Quanto à trama, é bem amarrada, porém sem muito espaço para maior complexidade, tanto pelo espaço que os passado pessoal dos protagonistas ocupa nas páginas quanto pela própria característica de prólogo de uma série que certamente se estenderá por mais livros. Algo que aliás é atiçado pelo final aberto e surpreendente.
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