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segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Resenha #357 Almanaque Gibi do Terror Nº 2 (Denílson Reis e Paulo Kobielski)


O Almanaque Gibi do Terror chega ao número dois como uma publicação muito aguardada no meio independente. A edição é do CAQ (Coletivo Alvoradense de Quadrinhos) capitaneado pelo Denílson Reis e pelo Paulo Kobielski, ambos já agraciados com o Troféu Paulo D'Agostini de melhor Fanzine e essa publicação é aquele passo a mais, é uma publicação independente mas cada vez mais com cara de profissional, afinal tantos anos de experiência se manifestam nesse numero e a qualidade das contribuições cresce como consequência. 

Parece pouco humilde da minha parte falar de que as contribuições estão melhores, pois participei em ambas as edições, com contos. Na edição anterior, publiquei um conto sobre múmias no esçao, agora o tema é vampiros e trouxe o conto "Tenório perde sua alma" que está no mesmo universo steampunk que o conto "Um Crime no Mercado Público" e da noveleta "A Sombra da Rua do Arvoredo". O conto é uma carta de um pai para os filhos onde conta sua participação numa Guerra dos Farrapos de uma forma que você nunca viu pois é uma história alternativa.

Agora falando da publicação como um todo, não são todas as histórias exatamente sobre vampiros. Acredito que os editores se preocupem em trazer bons conteúdos, dando preferencia pelos que abordem o tema da edição mas não impondo como condição. Isso ajuda nas histórias de mistério pois nem sempre o mistério é sobre vampiros. A organização ficou muito boa, alternando entre conteúdos de quadrinhos e conteúdos escritos, começando com Não mexa com quem está quieto uma HQ com um traço simples (parecido com Meninas Superpoderosas?) mas numa história cruel de dois caçadores na floresta procurando a lendária Cobra Norato, quando ninguém menos que o Curupira aparece para azedar a caçada. O primeiro conto é o meu, Tenório perde sua alma, que já falei no início. O hábito faz o monge é uma curta HQ de um garoto que acha uma roupa de vampiro, com máscara e tudo. Enquanto mortes misteriosas acontecem a sua volta. O soldado e o vampiro, de Eduardo Alós temos, nesse conto, o encontro infortuito de um soldado gaúcho recém chegado dos horrores da Guerra do Paraguai decide buscar abrigo num casarão misterioso. O primeiro na fila é uma HQ muito fofa sobre um idoso que aguardou 8 dias para comprar seu novo jogo de vídeo game sangrento e divertido. O final é cruel mas ainda assim achei tudo muito engraçado. Acho que foi o traço que trouxe uma leveza para tudo, mesmo sendo bastante elaborado. A mansão etérea de Duda Falcão, é um conto bastante curto mas que consegue nos colocar no clima de casarão muito rápido. Nas tuas longas pernas procuro a paz que jaz no quarto contíguo ado seu túmulo é uma HQ incrivelmente bem desenhada, não apenas pelo realismo, mas pelas expressões e movimentação dos personagens. O roteiro é simples mas bem feito e a crueza é bem vinda numa história de horror, que nada tem de fantasioso. Pela estrada deserta de Silvio Ribeiro, é outra HQ, mais curta, simples e bem feita. Temos um jovem casal que busca um Motel para passar a noite (é para dormir, pessoal. Eles estão em viagem, ok? Motel nos EUA é o que chamamos de pousada aqui) contudo um recepcionista ganancioso se acha muito esperto ao decidir roubar os jovens. O final me surpreendeu. Temos um comentário sobre o filme As Sete Vampiras, por Paulo Kobielski, que trouxe muitas informações mostrando domínio sobre o cinema fantástico brasileiro. Pesadelo Real retomamos as HQs com um homem entrando e saindo de um pesadelo no inferno, porém conhecemos um pouco dele nesse delírio e o delírio o persegue quando ele acorda. Os Negrinhos é uma HQ que vai de 100 a 1000 muito rápido e o traço acompanha muito bem a loucura dos gêmeos e de sua algoz em poucas páginas. Retornamos ao texto para ler um novo artigo de Paulo Kobielski sobre Rubens Francisco Lucchetti lenda do fantástico e do pulp brasileiro, novamente vemos o domínio do tema e a habilidade em condensar uma vida tão rica em poucos parágrafos. Fazer você sumir... é uma HQ muito engenhosa ao usar os quadros para conta a história. É bacana ver nos quadrinhos, histórias de personagens que sabem que são personagens, ou melhor que descobrem isso da pior forma possível. A Fórmula a última HQ da edição que nos engana parecendo que vai ser uma versão de Dr Jekyll e Sr. Hyde, mas é outra coisa. Por fim temos uma entrevista com o desenhista Silvio Ribeiro, que não tem papas na íngua e faz um verdadeiro desabafo. Bacana ler entrevistas que não são estéreis.

Lista com o conteúdo e as devidas autorias:

Não mexa com quem está quieto: Lauro Ferreira.
Tenório perde sua alma: Davenir Viganon.
O hábito faz o monge: Júlio Shimamoto.
O soldado e o vampiro: Eduardo Alós.
O Primeiro na fila: Marcelo Saraiva no roteiro e Bira Dantas nos desenhos.
A mansão etérea: Duda falcão.
Nas tuas longas pernas procuro a paz que jaz no quarto contíguo ado seu túmulo: Maicol Cristian no roteiro e J. Herrero nos desenhos. 
Pela estrada deserta de Silvio Ribeiro.
Artigo sobre As Sete Vampiras: Paulo Kobielski.
Pesadelo Real: Sandro Leonardo fez os textos, Artes com Aurélio Filho e John Castelhano.
Os negrinhos: Denílson Reis fez o texto e as artes são de Sérgio Fernandes.
Artigo sobre Rubens Francisco Luccheti por Paulo Kobielski.
Fazer você sumir...: Arthur Filho.
A Fórmula: J. França.

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segunda-feira, 3 de maio de 2021

Resenha #181 - Back in the USSR (Fábio Fernandes)


"Back in the USSR" do Fábio Fernandes é um ponto fora da curva na Ficção Científica e, principalmente, no subgênero de História Alternativa onde se destaca o humor aliado a metalinguagem sobre a imortalidade. O mundo alternativo que o autor construiu parte do fato que o Método de Ressurreição de Frankenstein® foi refinado, patenteado pela empresa Ewigkeit e usado em larga escala, principalmente por reis, artistas pop e magnatas perpetuam desde que ressuscitados nas primeiras horas após a morte. As mudanças políticas são no mínimo curiosas: Os EUA nunca se tornaram uma potência pois sequer chegaram a se formar enquanto a União Soviética foi desmantelada com a volta dos Romanov ao poder travando uma Guerra Fria com a República de Weimar, após a vitória da Alemanha na Grande Guerra (a 2GM não foi necessária).

Nem tudo mudou: ainda tivemos os Beatles, ao menos, até o fim dos anos 1970 e John Lennon. Ok, ele é assassinado por Mark Chapman em frente ao hotel Dakota e é ai que começa a trama. Lennon é ressuscitado contra sua vontade (ele havia deixado uma ordem de não ressuscitar) e "convidado" a fazer um show na Rússia. Passamos a acompanhar Lennon em um jogo de poder e influência entre as potências e a quase onipresente Ewigkeit (Eternidade, na língua de Marx). A trama alterna entre a segunda vida de Lennon (com alguns flashbacks) e momentos que mostram como esse mundo foi ficar assim tanto geopoliticamente quando mostra como alguns pensadores e literatos pensam sobre o Método®. Tudo isso condizido com agilidade pela escrita fluida do autor (li as quase 220 páginas em dois dias), que consegue deixar as falas naturais e deixar interessantes até as suas partes mais descritivas.

"Back in the USSR" é, como toda obra com elementos metalinguísticos, um refresco necessário para quem lê bastante porque é fácil se acostumar a convenções (e a FC tem muitas) e é preciso sempre relembrar da necessidade de pensar fora da caixa e imaginar fora dela também.

p.s. tem vídeo no Diário de Anarres sobre esse livro!


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terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Resenha #84 - Selva Brasil (Roberto de Sousa Causo)

"Selva Brasil" (2010), de Roberto de Sousa Causo é uma Ficção Científica brasileira de História Alterativa. É um desdobramento da literatura de FC, que imagina os rumos políticos, sociais e/ou tecnológicos se certos acontecimentos importantes fosse de outra forma. Já temos uma tag razoável de resenhas e postagens sobre História Alternativa, incluindo a resenha da obra mais famosa da História Alternativa: "O Homem do Castelo Alto" de Philip K. Dick.

O "e se" de Selva Brasil é quando o então presidente Jânio Quadros perpetrou seu plano de invasão das Guianas contando que os EUA iriam apoiar o Brasil contra a coalizão de ingleses, franceses e holandeses os estadunidenses se voltam contra o Brasil, lançando o país numa guerra de atrito onde perdemos uma parte da Amazônia apesar do apoio militar da URSS e outros países da America Latina como a Argentina. Passados mais de 20 anos nessa guerra de atrito chegamos a 1993 quando sargento Roberto Causo, sim o protagonista é a versão do próprio autor nesta realidade, está em missão de substituição de tropas na fronteira com as Guianas e embrenha-se entre guerrilheiros desertores e no mistério escondido na selva que joga o EB contra os melhores soldados dos EUA.

O que chama a atenção da obra é que em muito poucas páginas o autor traz uma coerente realidade alterativa no plano político e seus desdobramentos, bem como uma alterativa de sua própria história, onde o autor de fato serviu ao exército mas não seguiu carreira como o seu duplo. A escrita é ágil e direta, o que é excelente para descrever a ação militar, com jargões de valorizam a ambientação do meio militar, que não conheço mas fica a prova de quem sabe. O que fica faltando para completar essa realidade é o ambiente social dessas décadas após a invasão das Guianas, mas a ambientação nas selvas brasileiras, longe das grandes cidades, camufla habilmente. Fica a vontade de ver mais histórias ambientadas nessa realidade pois ficou muito criativo e com diversas aberturas para uma continuação. 
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terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Resenha #61 - A Segunda Pátria (Miguel Sanches Neto)

[SEM SPOILERS]
"A Segunda Pátria" é um romance de História Alternativa brasileiro, subgênero que se dedica a inventar realidades alternativas, onde a história foi modificada bruscamente por um evento tecnológico e/ou político que não aconteceu. Nesse livro, o autor constrói um Brasil onde o presidente Getúlio Vargas teria se aliado a Alemanha nazista em 1939 ao invés dos Estados Unidos. Essa premissa é baseada na existência de boas relações que Vargas tinha com esses países antes do início do conflito.

O estopim é aceso quando as Leis de Nuremberg, passam a ser aplicadas na região Sul do Brasil, tornando os negros seu principal alvo. A região passa a ser um ponto de expansão do nazismo aproveitando-se da presença da colonização alemã para proliferar. A estória segue vários pontos de vista, mas é centrada em dois personagens principais: Aldopho Ventura, um engenheiro educado e totalmente imbuído na cultura alemã que vê sua liberdade restringida gradualmente por ser negro; Hertha Schieffer, uma descendente de alemães que descobre rejeitar o nazismo quando o vê na prática. Em menos espaço, os pais de Adolpho, Julius Meinster (um nazista convicto) e o próprio Getúlio Vargas, além de seu Guarda Costas pessoal, Gregório. 

A estória produz muitas reviravoltas mas não esperem um "thriller" político, de espionagem ou qualquer coisa nesse sentido, o central é o drama dos personagens principais. Adolpho e Hertha encarnam a contradição do discurso nazista. O domínio da literatura alemã de Adolpho e a boa posição de engenheiro o pintam como um alvo ameaçador e ele sofre uma transformação radical durante a narrativa. A primeira parte lembra, "O processo" de Kafka, porém, diferente de Josef K., Ventura sabe o motivo de ser perseguido mas não consegue imaginar a que ponto tudo aquilo chegaria, assim como fora com os judeus na Europa. Já Hertha, sofre o que os alemães também sofreram naquele período: denuncismo e desconfiança de todos os habitantes da cidade, onde o bom cidadão é aquele que participa denunciando e os indiferentes são culpados. Ela também se mostra hora uma mulher independente, com domínio da sua corporalidade, hora uma ninfomaníaca presa a seu desejo. De qualquer forma, ambas as opções a tornam condenável ao nazismo.

O que pode atrapalhar a leitura é a quantidade de reviravoltas, talvez demais, para um livro que não foca na ação ou na política. Contudo, é um livro de leitura fluída, principalmente se você gosta de História do Brasil que são bem feitos apesar de aparecerem tão pouco. Os capítulos curtos e as datas em cada um das cinco partes, ajudam o leitor a não se perder, pois a estória é não-linear.

"A Segunda Pátria" não poupa o leitor de cenas de tortura e morte. Trata-se de um período de guerra, "um pesadelo", como diz o autor no prefácio, transportado para a realidade brasileira que foi palco desses combates mas que consegue expor uma terrível faceta que só depende de condições históricas adequadas para se manifestar, inclusive na nossa realidade, hoje.

[COMENTE COM SPOILERS, SE PREFERIR, MAS AVISE DE ALGUMA FORMA, POR FAVOR]
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terça-feira, 18 de outubro de 2016

Resenha #47 - Promessa de liberdade (Evelyn Postali)

[SEM SPOILERS]
"Promessa de liberdade" é uma distopia nacional da escritora gaúcha Evelyn Postali. A estória se para em uma Realidade Alternativa onde o Brasil se torna uma grande potência econômica porém o sistema escravista nunca acabou, pelo contrário, tornou-se mais racionalizado e cruel. A narrativa é tensa e direta, tendo a liberdade como tema principal.

Nesse presente alternativo, o livro conta estória de Carlos, o filho mais novo da família Almeida Paes Leme, que vive afastado do pai, Fernando, um dos homens mais poderosos do país e dono da maior empresa comercializadora de negros escravizados. Após uma sabotagem de um grupo Abolicionista, Júlio, um dos cativos que consegue fugir encontra abrigo na casa de Carlos, que se vê obrigado a sair do comodismo e lutar pelos seus ideais, ou ser arrastado pela ditadura que domina o país. No desenrolar da estória, prevalece a tensão, desconfiança e afeto mútuos entre Carlos e Júlio e, também com seus familiares e amigos da banda de Rock que faz parte.

Uma distopia onde a liberdade é apenas uma promessa
Evelyn reconstrói um presente alternativo ao mesmo tempo absurdo e sólido. E se o Brasil ainda existisse escravidão? Há quase 3 décadas, a África do Sul ainda vivia o Apartheid e não muito antes disso, os EUA ainda mantinham leis abertamente segregacionistas, então o absurdo encontra pontos de contado com a mais terrível verdade nessa obra. Não é um livro para divertir pois a narrativa é direta e competente em passar a frieza desse mundo. A trama tem boas reviravoltas pois todos os personagens tem algo a esconder.
Os abolicionistas, são outro elemento que movimentam a estória, com um paralelo aos guerrilheiros da ditadura militar de 1964, sendo mais frágeis e, contra eles, a tecnologia da vigilância atual trabalhando contra qualquer ato de rebeldia. Tecnologia aparece apenas para mostrar a racionalização do sistema escravista, bem adaptado a economia de mercado atual. Ainda que nada disso esmiuçado, cumpre a função de mostrar a frieza desse mundo afetando as relações de Carlos, esse sim, o foco central da trama. A única coisa que senti falta foi de mais personagens negros além de Júlio.

A edição é bem caprichada. Tem uma arte muito bonita nas páginas que dividem cada uma das três partes, no prólogo e epílogo. Nota-se cuidados com o livro não param no texto bem escrito da autora. A leitura está mais que recomendada.
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sexta-feira, 17 de junho de 2016

Resenha #28 - Lição de anatomia do temível Dr. Louison (Enéias Tavares)

"Lição de anatomia do temível Dr. Louison" (2014), romance de estreia de Enéias Tavares, foi concebido como o primeiro de uma série e possuí duas premissas muito interessantes: a estética steampunk adaptada ao Brasil e a inserção de personagens já existentes da literatura brasileira da segunda metade do século XIX e do início do XX, combinadas com uma consistente trama policial.

No romance, o jornalista Isaías Caminha é enviado a Porto Alegre, para investigar o caso do assassino em série Antonie Louison, que está preso no Hospício São Pedro, com a data de execução marcada. Rapidamente nos vemos diante de um quebra-cabeças quando Louison escapa.

A obra se apresenta como um dossiê reunindo cartas e entrevistas, escritas e transcritas de gravações, além de trechos de processos jurídicos (nem um pouco maçantes). Todas datadas, indo e voltando no tempo. Cada parte adiciona explicações e perguntas ao caso.

Também somos apresentados a vários personagens que habitam esse mundo, alguns criados pelo autor e outros retirados da literatura brasileira. O protagonista, Dr. Louison, (criação do autor), é o centro da narrativa e sua personalidade é montada e desmontada pelos diversos pontos de vista, contraditórios e cheios de segundas intenções.

Fez MUITO jus ao "punk" do Steampunk
A lição de anatomia do temível Dr. Louison não se prende às convenções da ficção científica, nem aos seus debates sobre tecnologia, embora eles sejam pincelados. É importante ter isso em mente para não se decepcionar, à espera de uma mera versão brasileira de A máquina diferencial. "A máquina diferencial". O que não significa que os personagens marginalizados e cheios de atitude não estão lá. Eles aparecem, inclusive, de forma mais intensa e consciente que na obra seminal de Gibson e Sterling - o Parthenon Místico exemplifica esse ponto.

Leiam livros nacionais!
Outro elemento do Steampunk presente na obra é a inserção de personagens da literatura numa história alternativa. Relembremos "A Máquina Diferencial", que colocou os personagens Sybil Gerard e Mick Dandy, de Benjamin Disraelli levando vidas alternativas numa realidade histórica diferente. Tavares elevou essa experiência, como n'A Liga Extraordinária, de Alan Moore, usando personagens da literatura brasileira.

A leitura dos livros de origem dos personagens emprestados não é pré-requisito para compreender A lição de anatomia. Apesar de que reconhecer algum deles arranque um sorriso durante a leitura, acredito que o caminho da obra seja justamente o oposto: ela grita o tempo todo que a literatura brasileira não é necessariamente uma chatice obrigatória para provas de vestibular, demonstrando que em meio a esses livros abundantes, facilmente encontrados por menos de dez reais nas prateleiras de sebos e livrarias, e comumente ignorados em prol da literatura estrangeira, existem excelentes personagens e enredos.

A trama é complexa em fatos, formas e vozes (por vezes contraditórias) que se fecham como um livro e pedem mais histórias em virtude de tantos personagens inseridos em destinos alternativos. Talvez escapem detalhes e ironias em relação a Porto Alegre, que o autor colocou em forma de inversões, como o nome dos jornais. Porém, a maioria dos personagens é de fora do Rio Grande do Sul, ainda que contemos a própria cidade como um. Fora isso, os percalços são irrisórios durante a prazerosa leitura.

Bônus: Não me atrevo a disponibilizar o livro resenhado, aos interessados, é melhor comprá-lo. Contudo, as obras de origem dos personagens emprestados são de domínio público, logo, pode ser disponibilizado. Segue uma lista com links dos livros recolhidos onde puderam ser encontrados. Baixe aqui ou compre num sebo que certamente o leitor encontrará barato:

Solfieri
Noite na taverna de Álvares de Azevedo, 1855. 
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Simplício e o misterioso armênio
A luneta mágica de Joaquim Manuel de Macedo, 1869.
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Simão e Evarista Bacamarte
O alienista de Machado de Assis, 1890. 
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Sérgio e Bento
O ateneu de Raul Pompeia, 1888.
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Rita Baiana, Pombinha e Léonie
O cortiço de Aluízio de Azevedo, 1890.
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Vitória Acauã
Contos Amazônicos de Inglês de Souza, 1893. 
Download (este arquivo contém apenas o conto "Acauã" onde Vitória aparece.)
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Isaías Caminha, Floc e Loberant
Recordações do escrivão Isaías Caminha de Lima Barreto, 1909.
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Doutor Benignus
O Doutor Benignus de Augusto Emílio Zaluar, 1875.
Esta obra ficou perdida por muitas décadas até ser encontrada e editada pela Editora da UFRJ, sendo a única edição que está esgotada e, até onde pude verificar, nunca foi digitalizada.
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Família Magalhães e a Ilha do Desencanto
Georgina de Apeles Porto Alegre, 1873-1874. 
Esta é a única, realmente difícil de encontrar. Segundo o próprio autor, Enéias Tavares: "Georgina é uma noveleta publicada em quatro partes na antiga Revista Mensal do Parthenon Literário em 1872. Ela foi reunida com o título 'A Ilha do Desencanto' numa coletânea dedicado ao grupo literário ainda na década de 1990." Tal edição está esgotada e até onde pude verificar, nunca foi digitalizada.
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sexta-feira, 20 de maio de 2016

História Alternativa: E se Lênin se convertesse ao Islã?

Uma inusitada coleção de fotos, do artista Rinat Voligamci, cria uma história alternativa onde Lênin, um dos líderes da revolução Bolchevique, não morre em 1924, mas abandona a política e começa a viver como um muçulmano pois seus parentes eram de origem Bashkir. Em seguida, "renovado Lênin" começa a associar-se com a seu fictício irmão gêmeo Sergey e vai à Meca e até mesmo escreve uma obra intitulada "Islã como a última esperança da revolução".

Vladimir Ulianov (Lenin) e seu irmão gêmeo (fictício) Sergey. Ufa, 1874

Em Moscou, 1919

Lênin em Bagdá, 1946. Após escrever "A última esperança da revolução"

Lênin em Meca, 1949.

 Lênin em Havana, ajudando Fidel Castro na Revolução Cubana. 1959.

Lênin no jardim dos fundos de sua casa. Cuba, 1964.

Fonte: http://thepeoplescube.com/lenin/lenin-still-lives-unofficial-biography-in-pictures-t5200.html

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segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Resenha #12 - A Máquina Diferencial (William Gibson e Bruce Sterling)

[SEM SPOILERS]
A Máquina Diferencial (William Gibson e Bruce Sterling) é a obra de referência do subgênero Steampunk, por toda a estética construção para o livro que se pauta numa História alternativa. A premissa é a de que a Máquina diferencial, de Lorde Babbage, foi concluída e implementada pelo governo britânico culminando numa versão mais acentuada da Revolução Industrial que estudamos na escola. Temos uma grande quantidade dos desdobramentos sociais, políticos, tecnológicos e estéticos, deste mundo envoltos em mistérios intrincados com a tecnologia de computadores.

A estória acompanha três personagens principais: Sybil Gerard, uma prostituta filha de um revolucionário ludita traído que encontra Mick Radley auxiliar de um político Texano que deseja dar um golpe de estado no Texas;e  Edward Mallory, paleontologista famoso que retorna a Londres depois de uma expedição bem sucedida, onde descobre o brontossauro; e Laurence Oliphant, um jornalista misterioso que junta algumas partes do misterioso quebra-cabeça em relação dos cartões perfurados pertencentes a Lady Ada Byron. O mistério envolve inclusive a identidade do narrador onisciente do livro.

Fazendo jus ao punk, do Steampunk 
O mundo criado por William Gibson e Bruce Sterling, é grande parte do atrativo da obra. Uma mundo movido a tecnologia de vapor e engrenagens mecânicas á partir da Inglaterra, deu muita margem a interpretações glamourosas e luxuosas da estética steampunk. Mas não se engane, é um mundo tão sujo e cheio de personagens marginais como o cyberpunk. Um mundo movido também a carvão que deixa a acidade tão poluída e nublada da fumaça das fábricas como as grandes cidades da China de hoje. Os personagens reclamam da poeira por muito mais tempo que comentam vestuários luxuosos. A Máquina Diferencial faz jus tanto ao vapor quanto ao punk que compõe o subgênero que lhe é atribuído.

O que ajuda e o que pode atrapalhar nesta jornada
Um aspecto que se tornou marca das obras Steampunk é que suas edições primam pela estética. Não refiro-me apenas a capas bonitas, mas a busca por um linguajar da época, mapas, informações adicionais como glossários de termos e personagens, tanto os históricos como os criados para a obra. Isso com certeza ajuda o leitor a imergir neste mundo alavancado pela dupla Gibson e Sterling. Contudo, o leitor pode encontrar dificuldades na leitura caso não conheça um pouco do contexto da Revolução Industrial.

Um dos requisitos para curtir uma história alternativa é conhecer um pouco da história, digamos, "oficial" para poder viajar nos cenários que nunca se concretizaram e poder surpreender-se com eles, por exemplo nos Estados Unidos que se despedaçaram politicamente frente ao poderio do império britânico, que por sua vez é motivador da presença do General Sam Houston na primeira parte da história. O fato do final não fornecer explicação para todos os mistérios da trama também pode decepcionar o leitor. Mesmo aqueles momentos explicados, não o são de modo explicito. Finalmente, apesar do livro não ser imenso é bastante complexo e exige do leitor um fôlego maior para apreciá-lo.
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quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Resenha #5 - O Homem do Castelo Alto (Philip K. Dick)

O Homem do Castelo Alto, publicado em 1962, colocou Philip K. Dick como um dos grandes do gênero. A obra é uma Ucronia, ou seja, os famosos "e se" da história. Nesta obra Dick imagina um mundo em que o Eixo vence os aliados na Segunda Guerra Mundial. Japão e Alemanha entram numa Guerra Fria e os Estados Unidos são divididos em zonas de influência de modo parecido com o que foi feito na Alemanha.
Apesar de toda essa atração que o "e se" proposto por Dick proporciona o livro é bem mais do que isso. O cenário do mundo regulado por Japão e Alemanha é revelado aos poucos ao leitor, fazendo parte dos temas mais profundos.
Toda trama se passa na São Francisco ocupada pelo Japão. Os vários personagens passam pelos seus dramas e compartilham com o leitor de seus pensamentos, geralmente envolto de dramas e temores. Vemos como a cultura japonesa está infiltrada na mente dos estadunidenses. Em que lugar um típico estadunidense pensaria em suicídio como saída para algo desonroso? Mais que mostrar a aculturação de uma cultura sobre a ocidental, a obra é em parte um exercício de alteridade. Philip K. Dick usa o cotidiano para inserir essas aculturações. Um exemplo é o uso constante do I Ching pelos personagens para tomar decisões importantes. O próprio autor usou o livro para determinar os destino dos personagens.
Dick aborda as dimensões paralelas de forma muito profunda. Tudo com o intuito de questionar a realidade. Algo que passaria ser uma constante em suas obras. Vários personagens do livro leem um livro chamado “O Gafanhoto torna-se pesado" (The Grasshopper lies heavy) escrito por Hawthorne Abendsen, o Homem do Castelo Alto. Neste livro é descrito uma realidade em que "Hitler perde a guerra". Juliana Frink, uma judia que vive disfarçada nos estados neutros acredita que esta realidade existe e a história se desenrola a partir daí. Outros personagens são desenvolvidos ao longo da trama como o Sr. Togumi, um eminente taoista japonês e Joe Cinadella, um caminhoneiro italiano com segredos sombrios. De alguma forma os destinos deles e de Juliana e até de Abendsen vão se entrelaçando na história. Precisa mais pra começar a ler?
Baixe O Homem do Castelo Alto de boas aqui no blog! Aproveita para conhecer e baixar outras obras do autor clicando aqui e tome uma overdose de PKD.
mapa dos Estados Unidos repartidos nas zonas de influência
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sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Resenha #2 - Vemos as coisas de modo diferente (Bruce Sterling)

"Vemos as coisas de modo diferente" é um conto de autoria de Bruce Sterling. Já figurou algumas coletâneas, contudo o conheci na "Futuro Proibido". Resolvi resenhar este conto por considerar o melhor da coleção.

O conto narra uma visita de um jornalista do cairo aos EUA. Contudo esse país e o mundo já não são mais os mesmos. A antes orgulhosa potência mundial, vive de exportar matérias primas e artistas de rock, como o que vai ser entrevistado pelo personagem principal.

A grande atração do conto é sua narrativa em primeira pessoa, que nos coloca na visão de um árabe, que pensando como tal, trás observações interessantes e até divertidas sobre coisas corriqueiras da cultura ocidental. É um tremendo exercício de alteridade. 

Sterling traz na sua literatura algo muito presente no pensamento do filósofo Edward Said quando trouxe sua visão de orientalismo. Trata-se da construção eurocêntrica que se desenvolveu sobre as regiões da ásia e norte da áfrica, criando uma série de taxações que orbitam o exótico, perigoso e descivilizado. Essa visão nos faz jogar coisas como islã, homem-bomba, garganta cortada, violência, fanatismo, tudo no mesmo saco sem se dar o trabalho de entender a riqueza da cultura da região. No conto os incivilizados são os ocidentais.

Interessante foi que Sterling viu uma União Soviética destruída por uma bomba nuclear detonada por mujaheedins afegãos. O conto data de antes da queda do comunismo no país e não deixa de ser muito perspicaz do autor, já que a maioria da FC antes de 1990 não conseguia imaginar um mundo fora da guerra fria. 

A Ficção Científica como qualquer literatura sempre fala mais do presente que do futuro e a FC não escapa dessa máxima. Contudo o conto de Sterling é de uma atualidade muito relevante quando pensamos a situação política mundial.
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