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segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Resenha #378 Barba ensopada de sangue (Daniel Galera)


"Barba ensopada de sangue" é uma das leituras que fiz para variar um pouco da ficção científica e fantasia que sempre leio. Já estava de olho na obra há algum, sempre deixando para depois até que vi o filme baseado no livro. Então, li o livro logo depois. Focarei no livro, mas também falando do filme. O livro fala sobre um personagem sem nome (mentalmente chamei de Daniel) que tenta reconstruir a vida após dois eventos familiares traumáticos. Ele se muda de Porto Alegre para Garopaba, Santa Catarina, cidade praiana onde seu avô viveu e morreu assassinado, conhecido como Gaudério. Contudo, quanto mais ele pergunta sobre seu avô, mais aumenta o desconforto da população em relação sua história. De alguma forma, todos tratam como um passado felizmente morto e enterrado.

O livro é dividido em três partes, a primeira mostra um dos traumas do protagonista e sua chegada a Garopaba. A segundo é a adaptação, onde ele faz amigos e conhece pessoas no trabalho, mas o mistério sobre o avô do protagonista começa a ficar irresistível. Na verdade, não é o mistério. Ele poderia ignorar se quisesse mas temos um personagem em um caminho de autodestruição em busca de um renascimento. As namoradas, as pessoas que o querem bem no trabalho e amigos não conseguem preencher isso, então ele vai em busca de se encontrar e assim começa a parte três do livro. Aqui o mistério é resolvido, mas nem tudo trouxe significado. O livro encerra com uma cena que no filme está no primeiro terço do filme. A leitura dessa cena é como uma explosão de tudo que o protagonista represou o livro todo. Comparando o livro, ele é muito mais mundano e melancólico que o filme.

O filme adapta bem a mesma história, mas com alterações e reduções, mas principalmente com o clima que é muito mais focado no mistério do avô e da animosidade do povo que é muito mais presente, quase sufocante. O final é diferente e mais satisfatório, e até mais bonito, mas menos catártico. O final do livro funciona melhor no livro e o final do filme funcionou melhor no filme. Contudo, apesar de ter gostado muito do filme o miolo do livro me fez demorar a leitura, só não demorando mais, porque já tinha visto o filme e queria ver como seria no livro. Acho uma boa leitura, sendo o miolo muito demorado o que menos gostei.



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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Resenha #377 Os Agentes do Caos - As aventuras de January Purcell (Fábio Fernandes)


"Os Agentes do Caos" é o segundo livro da série As aventuras de January Purcell, que são aventuras steampunks cheias de referencias as obras de ficção e personagens reais da época vitoriana principalmente mas de várias épocas, pois se tem uma coisa que aprendemos com este universo criado pelo Fabio Fernandes, é que o limite está na sua imaginação. Tudo pode fazer parte deste universo, que se baseia na viagem pelos sonhos, através de pessoas com este dom. Junto deles, há toda uma disputa que perpassa os limites do tempo, universos paralelos estabelecidos como obras de ficção para uns que em outro é a mais pura realidade. Os oneironautas e os anarcronistas, enfrentam-se por entenderem o sonhar de forma diferente. São duas ideologias que se colidem.

Este embate fica mais evidente nesta sequência, pois acompanhamos, não apenas January Purcell, mas ela divide a narrativa alternando com Maria Skłodowska, que neste mundo não chegou a ser (pelo menos não ainda) a famosa química Marie Currie, mas uma anacronista que tem sua própria jornada de recrutamento e adesão a forma de pensar o uso de suas habilidades, que é um contraponto ao que vimos com January no primeiro livro. Já com January temos uma evolução da personagem que hora parece estar pronta e experiente, se vê perdida e despreparada em outros. Não que a personagem seja competente, mas o desafio de ser uma oneironauta é algo que não cabe em uma pessoa. Há o grande jogo, e o autor consegue imprimir essa escala gigantesca de importância para as coisas. O fato de January ser uma peça importante e não conseguir ocupar um cargo no Clube Oneiros por ser mulher é uma forma muito bacana de mostrar a estupidez do machismo, mesmo em uma época em que qualquer um poderia argumentar que 'na época era assim mesmo'.

Já estamos no terceiro parágrafo e não falei do enredo. Temos uma Máquina do Tempo, que pode transportar uma pessoa para qualquer tempo. Em um universo onde os sonhos transportam a mente do oneironauta para as mentes de outras "encarnações" em outros tempos, uma Maquina do Tempo não é tão fantástica assim, mas ainda assim é fonte de problemas e ela está em disputa entre as duas facções. Contudo, quem leu A Máquina do Tempo de H. G. Weels sabe que os vilões não são do tipo que dividem poder. Então, January e Maria vão ter de se aliar para salvar a humanidade, mas não necessariamente confiar uma na outra. Tudo isso numa aventura bem frenética, com aquele clima de espionagem e pequenos toques de mistérios transcendentais que vamos desvelando aos poucos. Felizmente, o Fábio Fernandes vai continuar a série em até cinco livros, e mal posso esperar até o próximo. 
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segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Resenha #366 Estaleiro Voltaire (Victor Allenspatch)


"Estaleiro Voltaire" é o segundo livro da série Dente-de-Leão do autor Victor Allenspatch, que iniciou com Jardins Suspensos e ainda tem mais 3 livros além deste. Infelizmente demorei bastante para continuar a série. Digo isso pois os personagens principais não estavam frescos na minha cabeça, pois o final inclusivo do primeiro livro deixou tudo muito no ar. Contudo, após entrar em contato com os personagens, logo lembramos de como eles são: Pedro sendo bastante passivo e reprimido, a ponto de fazer muitas besteiras e Yara tendo mais atitude mas uma pessoa fragilizada pelo abandono. Mas nem tanto do motivo de estarem ali.

Pedro esta enclausurado com Weechay como cobaias de um experimento que os obriga a viver uma vida inteira em simulação para acordarem apenas após a morte nessa vida. Contudo, na vida delas se passaram apenas algumas horas em que o outro fica completamente isolado. Enquanto Yara está em uma vila onde todos usam lentes que simulam não apenas adições ao mundo real, mas cobrem tudo que veem e percebem. Yara é alertada a não desligar as lentes pois o real seria bastante perturbador e lendo não dei muita bola, mas achei bem impactante quando ela é obrigada a ver a realidade sem lentes. Ela passa boa parte da obra tentando se adaptar a nova vida em Marte, como uma estrangeira mas o mesmo abandono que a leva para Marte acaba fazendo ela querer voltar para a Terra e afundar-se no mesmo ciclo. Enquanto Pedro consegue se libertar de sua cela e do experimento, quase morrendo no processo, apenas para entrar em Deimos após descobrir que estava em Fobos, que foi destruída em sua fuga. Pedro é resgatado e encontra uma outra população em Deimos que já nasceu vivendo sob as lentes e tendo seus corpos movimentados por estruturas que os mantém ativos ainda que sem saírem dos seus lugares. Pedro também descobre que o mesmo Valentin do final do primeiro livro, está criando essas crianças em Deimos para serem o futuro da humanidade, uma nova humanidade. 

Os aspectos do primeiro livro são amplificados neste segundo livro, a introspecção dos protagonistas, a solidão da sociedade e o isolamento que vivemos na pandemia seguem cada vez mais intensos. Uma coisa que não gostei, foi que se repetiu no livro anterior: a história terminou de forma aberta, mas não como um livro completo, nos obrigando a ler o próximo livro para saber o que vai acontecer com ambos. E de forma muito parecida como aconteceu no primeiro livro. Ao fim da leitura, fiquei com a sensação de que os eventos dos dois primeiros livros poderiam estar em apenas um livro. Apesar dessas ressalvas, é um bom livro e trouxe uma visão interessante da colonização em Marte (assunto que sempre me interessa). Vamos ver o que sai do próximo livro!  



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segunda-feira, 7 de outubro de 2024

Resenha #356 Apócrifos do Futuro (Romy Schinzare)


Apócrifos do Futuro faz parte da coleção Futuro Infinito da Editora Patuá. Coleção essa que considero uma das melhores coisas que a Ficção Científica brasileira fez em sentido editorial pois aposta em vários estilos e densidades na escrita, ou seja, desde as escritas mais complexas as mais aventurescas. Nesta obra Romy traz uma nova coleção de contos com seu estilo característico como em seu livro anterior Contos Reversos com contos de sabor pulp muito envolventes, geralmente são curtos e não demoram a chegar na sua surpresa, mas sem serem dependentes de viradas de enredo. Porém em Apócrifos do Futuro, temos uma leve enfase na criação de cenários que nas viradas de enredo, em comparação com o livro anterior. Ao final de vários contos nos pegamos admirando o cenário que construído. Vemos isso em "Shelby" onde em um mundo pós apocalíptico mistura de Corrida Maluca com Mad Max, os carros são possuídos pelos pilotos anteriores. Em "Robôs de Marte II" que traça uma trama política entre ciborgues, máquinas e humanos em Marte que desequilibra com a chegada de indígenas da Amazônia brasileira de antes de 1500. Ou ainda como em "Cubo do Destino" onde um jogo mortal vai se desenrolando na sua frente. Contudo, há contos onde viradas de enredo acontecem o tempo todo como "Valparaíso" onde vítima, algoz, polícia e bandido se fundem numa trama absurda. Ou no sombrio "Zayn" que nos apresenta uma criatura fantástica revelando sua verdadeira forma apenas no final. Em resumo, Apócrifos do Futuro é mais uma amostra do talento e versatilidade da Romy. São contos gostosos de ler e diria até que são despretensiosos, algo muito bacana em tempos de autores pretenciosos cheios de sagas tão enormes quanto seus egos.




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segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Resenha #355 Sobre Fantasmas e Outras Memórias (Pedro Teixeira)


Sobre Fantasmas e Outras Memórias é segundo livro de Pedro Teixeira, que conheço dos tempos de Entre Contos, e sempre tive afinidade por ambos gostarmos de ficção científica. Isso culminou no convite para escrever um dos textos de capa do livro, buscando sintetizar o que a obra nos oferece no seu conjunto. No texto de orelha eu menciono que uma leitura marcante é aquele que fica dentro de nós quando fechamos o livro, e no caso dos contos, esse momento se repete nos momentos entre a leitura de um conto para outro. No livro do Pedro isso aconteceu em todas as vezes. O tema da memória perpassa todos os contos transitando em diversos gêneros e subgêneros, paisagens e narrativas.

Obviamente os contos de ficção científica me saltavam aos olhos, como "Possessão" onde um hacker de mentes assassino é perseguido pela sua presa ou até "Sonhos Febris" que faz uma narrativa da loucura na memória com uma pegada muito philipkdickiana. Contudo, muito me agradei de histórias que não haviam nada de fantástico nem do terror como "Vocação", que é uma história sobre as memórias de um cangaceiro e "Anos Punk" que fala sobre a nostalgia da rebeldia de punk nos seus tempos de garoto. Em resumo, temos uma obra que aborda o tema da memória de forma transversal em várias narrativas. Acredito que tendo isso em mente, e não se prendendo a gêneros, o leitor conseguirá aproveitar melhor essa obra.

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segunda-feira, 23 de setembro de 2024

Resenha #354 Um milhão de mim (Cirilo S. Lemos)


Um Milhão de Mim é o ultimo livro que li da coleção Dragão Mecânico fechando a coleção. Este foi escrito pelo Cirilo S. Lemos, que já resenhamos com livros com pegadas opostas: O Alienado é um romance complexo e philipkdickiano em que a realidade é sempre questionada. Em E de Extermínio, uma aventura cheia de ação e referências históricas manipuladas com habilidade numa história alternativa. Aqui voltamos a faceta que vimos em O Alienado, mas referenciando Jorge Luis Borges em um romance quebra-cabeça, e com um pleno domínio das referências históricas enquanto seus capítulos viajam em várias épocas enquanto tentamos entender o que é Uqbar. Como numa boa ficção borgeana, a realidade é mais que questionada, mas uma questão de perspectiva.

A leitura do livro é muito desafiante se você procura ter tudo claro em sua cabeça. Acompanhamos vários personagens ou facetas do mesmo. Inicialmente Nicolau Borges, um investigador de polícia que vive no Brasil dos anos 1970 em plenos anos de chumbo da ditadura, quando encontra uma mulher morta mas é acusado do crime. Mas não espere que seja um romance de investigação. Temos capítulos curtos organizados de forma irregular, buscando fugir de qualquer padrão. Me fez lembrar bastante das experimentações de Luiz Brás. Acredito que ler saboreando cada capítulo vai recompensar o leitor com várias referências e a boa escrita do autor, pois a história vai se desenrolando pelas pistas que são deixadas aos poucos. Acho que consegui entender mas não o suficiente para explicar, de qualquer forma buscar respostas é uma das graças do livro e vale a pena cada um tentar juntar as peças como conseguir.

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terça-feira, 17 de setembro de 2024

Resenha #353 O grito do sol sobre a cabeça (Brontops Baruq)


O grito do sol sobre a cabeça chegou como um presente do autor Brontops Baruq quando me enviou alguns livros do Coletivo KriptoKaipora, e como membro do coletivo já sabia da qualidade de sua escrita em suas participações nas antologia do grupo e da oficina que tive a satisfação de compartilhar com ele. 

Fui surpreendido positivamente pela sua coletânea de contos pois gosto muito do estilo de experimentação. A obra fez lembrar de Linha Tênue de Rubem Cabral, por seguir a linha experimental, mas a sua própria maneira. A escrita de Brontops é muito apurada e ao mesmo tempo é possível ler seus contos freneticamente. Principalmente seus contos curtos que abrem e os encerram a obra. Dentre estes, destaco "rebobinados" que me pegou de surpresa, até "pausa", um conto longo cheio de aventura e uma construção de mundo muito envolvente. "(ficção especulativa)" traz uma história de viagem no tempo que já é bacana por si, mas instiga pela forma que conta, fazendo alusões a outras formas de contar de outras mídias, e vemos isso em outros contos, mas este foi meu conto favorito do livro. Gostei bastante de dois contos que contam sobre o último humano da Terra vivo, resgatado antes do planeta ser engolido pelo Sol transformado numa gigante vermelha. Destaco também, uma série de contos titulados de Planetas Invisíveis que acompanham aventuras de um cínico viajante que anda por lugares estranhos.

A leitura foi muito bacana. Pena que não há muito mais escritos dele por ai, pois o livro vale a pena.

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segunda-feira, 9 de setembro de 2024

Resenha #352 Cobra Norato (Raul Bopp)


Cobra Norato é um poema de Raul Bopp, publicado pela primeira vez em 1931. Bopp foi um dos nomes mais importantes do Movimento Antropofágico dentro do Modernismo Brasileiro. A antropofagia é uma busca pela nossa cultura na produção de arte no Brasil, assimilando referências estrangeiras mas devolvendo algo mais brasileiro possível. O termo é uma referência a prática de alguns povos indígenas que canibalizavam guerreiros vencidos em suas guerras por motivos espirituais, ou seja, não havia motivação simplesmente alimentar. Dessa forma, Bopp buscou trazer a amazônia que conheceu morando por lá durante um ano em uma história contada em verso sobre as lendas do local.

A história é de Cobra Norato, que busca se casar com uma jovem por quem se apaixonou. Em sua trajetória se torna um passeio pela paisagem natural e pelas lendas amazônicas. Quem acompanha este blogue sabe que não tenho o habito de ler poesias, e busquei a aproximação desta forma literária com algo que tivesse uma história. Gostei bastante das frases e o autor conseguiu criar um cenário de locais e personagens muito envolvente. Pode-se fazer críticas sobre ser um cara de fora (Bopp era gaúcho) falando sobre lendas de um local que não é seu de nascença, mas o movimento antropofágico tinha uma mensagem para transmitir e não acho que ela seja passada apenas com um manifesto, mas fazendo a arte que queremos ver.

Hoje é possível acompanhar a literatura fantástica escrita aqui buscar o próprio Brasil e não apenas pelas mãos de homens brancos do sul, mas pelas mais diversas mãos. Muitos destes livros estão resenhados aqui.

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segunda-feira, 19 de agosto de 2024

Resenha #349 Diva Galactica: A cidade púrpura e outras histórias (Diego Mendonça)


Diva Galactica: A Cidade Púrpura e Outras Histórias é um livro de contos do Diego Mendonça. Uma das revelações da literatura fantástica do Rio Grande do Sul. Apesar de já ter escrito muitos contos em diversas antologias, este foi meu primeiro contato com seus contos. A capa com uma ilustração chamativa, e a própria coleção remeter as revistas pulp dos anos 1920, faz uma promessa de histórias cheias de ação, aventura. E adianto que o livro cumpre o que promete porque, acima de tudo, diverte.

Acompanhamos Diva, a líder de uma trupe de piratas em busca de sustento desonesto, em várias histórias curtas que fecham aventuas em si, mas que no conjunto formam uma narrativa coesa. É o que se chama de romance fix-up, como por exemplo, Território Lovercraft de Matt Ruff e Shiroma: Maradora Ciborgue, do Roberto Causo, mas aqui o autor é mais focado em contar suas histórias individuais que numa grande narrativa que todos os contos formam. O resultado é que, diferente do livro de Matt Ruff, todos os contos são autossuficientes, não dependem dos outros para ser entendido. Inclusive, a voz narrativa nem sempre está com Diva, ainda que ela seja uma personagem muito marcante destacando-se em todas as histórias. Gosto do estilo sucinto, do uso da violência e do uso dos clichês da ficção científica que contribuem para a atmosfera de pulp que se torna mais variada a cada conto. A leitura fluiu muito bem e o livro poderia ter o dobro do tamanho que a leitura fluiria igualmente bem. Enfim, é isso, espero que venham mais livros deste autor, de preferência com mais histórias da Diva.

 
São histórias curtas, cheias de aventura, que não poupam a violência e sabe usar os clichês ao favor

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segunda-feira, 29 de julho de 2024

Resenha #346 Mundo-Vertigem (Org. Luiz Bras)


Mundo-Vertigem é uma antologia do gênero Fantasia que busca explora-lo com uma abordagem que foge completamente a fantasia tradicional, com abordagens que vão do mais lisérgico até aquelas que há uma minima alteração da realidade, sempre buscando uma prosa mais refinada. A proposta do organizador é mostrar novas possibilidades para quem lê/escreve literatura de gênero, mas também mostrar a amplitude narrativa do fantástico aos que lê/escrevem no realismo.

São mais de 30 contos, a maioria bastante curtos. Não vou comentá-los um a um, mas destaco a composição de excelentes autores, como Bráulio Tavares, Fábio Fernandes, Ivan Carlos Regina, O próprio organizador, Santiago Santos, Romy Schinzare. Alguns contos eu já conhecia, como o Charlotte Sometimes do Fábio Fernandes, e o conto do Bráulio Tavares e do Ivan Carlos Regina. Gostei dos experimentos com fantasia urbana, mas nem tanto dos contos que pouco se adentram no fantástico, porque num cenário em que muitos tem vergonha de escrever fantasia, eu acabo ficando receoso com quem não adentra com vontade no fantástico mas não deixam de ser contribuições válidas de qualquer forma. Um livro muito bom para exploração, muito bem justificado em sua razão de ser nos textos de abertura e fechamento do livro. Algo que sempre procuro fazer nas antologias que organizo.


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segunda-feira, 1 de abril de 2024

Resenha #329 Croniquetas do Atendente (Mauro Scheuer Messina)


[Resenha publicada após o dia 1º de Abril para que não hajam acusações de esteja falsamente tomando partido na contenda entre o livreiro e o professor LD.]

Croniquetas do Atendente é um livro de crônicas com histórias que se passam numa livraria conhecida do Centro Histórico de Porto Alegre, a Ladeira Livros. O autor é nada menos que o dono desta livraria. Não há como fugir da localidade peculiar onde se passam as histórias e o autor não tenta fazer algo universal sobre algo tão particular. Quem conhece a livraria, conhece seu dono e os frequentadores mais conhecidos. Contudo, mesmo sem tal pretensão, Mauro acaba abordando assuntos universais e até espinhosos, como seu posicionamento político a esquerda, com leveza, ironia e bom humor.

As artes de Paulinho Aguiar são um show a parte, pois seu traço transmite a leveza do projeto e o ambiente aconchegante da livraria. Obviamente, por ser um frequentador da livraria, minha resenha é contaminada pelo envolvimento com o lugar. Atualmente não ando tanto pela região do Centro Histórico de Porto Alegre, mas sempre que passo pela região, não me furto de fazer uma visita de médico por lá. Além disso, o grosso dos leitores é frequentador da livraria e/ou foi da Banca do Mauro que ficava no Campus de História da UFRGS. Sendo assim, posso apenas imaginar como deve ser para um leitor que não faz ideia de quem seja o Mauro, como seria ler esse livro. Num exercício de imaginação, diria que é como conhecer um personagem que vai se construindo na frente do leitor a cada pequena crônica e fazem um conjunto muito completo daquele ambiente. Se o leitor deste humilde blogue resolver se arriscar, vai encontrar uma leitura leve mesmo nos momentos mais pesados e vai passar as páginas com um sorriso de canto de boca com as tiradas do Mauro. Como já conheço um pouco o livreiro, digo apenas que estou no aguardo da sequência e de uma versão escrita pelo Profº LD. 

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segunda-feira, 18 de março de 2024

Resenha #327 Matando Gigantes (Cláudia Dugim)


Matando Gigantes é uma obra da Coleção Futuro Infinito da Editora Patuá que ainda estava devendo a leitura. Claudia Dugin participou da antologia Outros Brasis da Ficção Científica, que organizei, e foi organizadore da excelente Violetas, Unicórnios e Rinocerontes da mesma coleção. Então, sabia do talento para o conto, mas quis conferir como se sairia na narrativa longa.

A história se passa em uma nave geracional em busca de colonizar um planeta semelhante a Terra. Os personagens já estão há algumas gerações e vislumbram ser a primeira geração de colonos a pisarem em terra firme. Mas a chegada não será pacífica, tampouco sem problemas. Temos dois núcleos principais, no primeiro uma raça de seres humanoides verde/azulados com guerreiros que caçam gigantes pois não sabem outra forma de viver. No segundo, os humanos que vivem na nave colonial, em guetos de brasileiros e demais povos remanescentes da Terra tendo de lidar com assassinatos misteriosos que acirram as tensões entre a população pobre com a pequena elite da nave colônia. Logo descobrimos que são os pequeninos mas independente de quantos saibam disso, uma revolta está prestes a eclodir.

A situação que os personagens vivem é ao mesmo tempo completamente maluca e inusitada, ao colocar essa raça de pequeninos que vivem em uma comunidade anárquica (não conhecem a existência e/ou a necessidade de um Estado) onde o amor é livre e não se desenvolveu o preconceito dentro do próprio povo. Isso faz gostarmos imediatamente deles, ao menos até descobrirmos quem eles estão matando. A comunidade humana da nave geracional, foi outra coisa muito bem construída no seu aspecto político. É muito bom ver esse cenário ser construído sem a ingenuidade de imaginar que uma nave colônia serviria apenas para espalhar a presença humana pelo espaço porque é legal, afinal uma nave destas construída no capitalismo obviamente levaria a desigualdade, o racismo e o nacionalismo junto com ela. Uma nave colônia é como qualquer outra colônia: serve apenas para a exploração.

Há outras camadas que cabe contar aqui: a vida dos pequeninos é anárquica nos costumes, não apenas na figura de comando dos Guerreiros por Cherv e de Uor dos Conhecedores, mas na vida regada pelo prazer que acaba se colocando a frente de praticamente todas as preocupações na vida dos pequeninos, beirando a ingenuidade. Já do lado dos humanos, temos as personalidades fortes das articuladoras da revolta, principalmente na figura de Mama Bá, uma estrategista notável com uma vida toda dedicada a resistência. Foi minha personagem preferida e foi uma pena não ver mais dela.

O tratamento pragmático me surpreendeu positivamente, dando espaço para momentos satisfatórios, mas sem cair num ingênuo final feliz puro. Uma obra rende horas de conversa num bar. O que eu poderia querer mais?

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segunda-feira, 11 de março de 2024

Resenha #326 Básico Instinto (Fausto Fawcett)


Básico Instinto é uma obra que mostra como o artista carioca é fiel ao seu objetivo. É uma coleção de contos, praticamente todos passados nas ruas selvagens do Rio de Janeiro onde Katia Flávia, a Godiva do Irajá sai em vingança louca pela morte do seu homem. A verdade é que as histórias são simples, o que encanta ou causa repulsa, mas nunca passa incólume, é a linguagem explosiva de Fausto Fawcett. Há palavrões, mas nenhum está de graça, nem qualquer cena chocante. Tudo serve para compor esta versão brasileira, visceral e cruel do útero podre da grande metrópole.

As histórias, contudo, são as mais simples possíveis. Uma história de vingança. Um maluco homicida em fuga. Mais de uma vez temos o encontro de um homem e uma mulher que vem de pontos diferentes com histórias de vida em que os deixa sem nada a perder e que tem um encontro de almas regado a sexo louco (como em Santa Clara Poltergeist). Experimentos biológicos e genéticos. A ultima sessão do livro tem contos curtissimos que montam um mosaico de um futuro onde idosos são discriminados por precisarem tornar-se ciborgues e entregar pizza para sobreviver, entre outras maluquices.

Ler Fawcett é uma experiência única e quem gosta e não liga para as repetições, pois sempre quer mais e quem não gosta vai descobrir lendo um ou dois contos que isso não lhe serve. Eu gosto e quero mais.

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segunda-feira, 4 de março de 2024

Resenha #325 As Artes Mágicas do Ignoto (G. G. Diniz e Dante Luiz)

As Artes Mágicas do Ignoto foi uma daquelas campanhas no Catarse que eu queria ter participado mas acabou ficando fora do orçamento. Felizmente a editora Corvus colocou em sua lojinha virtual e entrou para a minha lista de leituras. Adorei a proposta de homenagear a Rainha do Ignoto de Emília de Freitas. Achei que seria um resgate direto, alguma espécie de continuação moderna da história original, mas na verdade trata-se mais de uma versão brasileira de uma escola de magia, que já existe por ai. Confesso que fiquei em dúvidas se seria bom ou não. Felizmente minhas dúvidas foram dirimidas e a leitura me empolgou mais que esperava.

Todos os contos se passam no mesmo universo, no mesmo lugar. O Instituto Ignoto, que fica instalado em uma ilha mágica embarcada no casco de uma tartaruga gigante que perambula pela costa norte e nordeste do Brasil. Temos a presença de alguns personagens que aparecem em todos os contos, quase sempre como coadjuvantes. O diretor Balthazar e a bibliotecária Fabiana, além do Arnaldo, o vira-lata caramelo que perambula pela escola e, como toda boa escola, tem seu cãozinho mascote involuntário. Há também pequenos inserções de personagens que me arrancam sorrisos de canto de boca quando percebidos. Contudo, isso é apenas um tempero para o que realmente importa. Há uma criação de mundo permeando histórias sensíveis, divertidas e tocantes num ambiente escolar e mágico. Vale citar a representatividade em todos os protagonistas das histórias. Acredito que esta é o maior legado da obra de Emília Freitas, pois em seu tempo a escritora pôs sua pena a defender a causa das mulheres, da abolição e do espiritismo (muito contestador na época, não o lamentável antro de conservadorismo barato de hoje) e vislumbrou um lugar onde a magia para o bem fluía livremente e podem ter certeza que o Instituto Ignoto é exatamente isso. 

A antologia abre com 2+2 da co-organizadora G. G. Diniz, onde uma física talentosa tenta provar uma tese mas não leva em consideração o que estava na sua cara o tempo todo. Em Anexo de Delson Neto conta sobre Jussara, uma RH do Instituto, que leva seu trabalho a sério demais até que seu próximo entrevistado para uma vaga em aberto para professor de Artes que leva a vida de forma tão bagunçada quanto o longo dia que a aguarda. Conto muito divertido, muito diferente da pegada de seu livro cybeprunk. Entre Terra e Mar, (Larissa Usuki) conta sobre suas meninas, uma sereia e uma aprendiz de magia, que passam a se gostar tanto quando gostariam de levar a vida uma da outra. Segredos da Noite (Sol Chioro) começa com um encontro noturno ao acaso com um espírito e sua irmã com uma ex-aluna e se desenrola num mistério que só eles e uns latidos podem resolver. Filho de Ossaim (Camila Cerdeira) explora os adeptos de religiões afro-brasileiras dentro da escola que lutam invocando espíritos e orixás contra uma desconhecida hora de seres medonhos enquanto um amor tenta florescer. Destinos Trançados (Lavínia Rocha) é uma das histórias mais fofas do livro. Uma típica paixonite leva uma menina a colocar seu grande amor numa enrascada. A narração é feita cheia de interferências divertidas que combinam muito com o texto. Uma pena não haver mais variações narrativas no livro. Justiça (L. V. Matos) fala sobre o bullying quando uma menina que sofre abuso de outra maior ganha uma poção que permite controlar a vontade de sua valentona. Fora d'Agua de Waldson Souza trouxe a história de um rapaz pertencente a uma raça de seres aquáticos que nunca soube de sua mãe até que recebe a notícia de sua morte e tem que tomar decisões muito importantes para sua idade. Uma das histórias melhor escritas do livro, pois o autor tem um domínio e habilidade na condução dos dilemas complicados, tornando-os atrativos na leitura. Desenlaços (Nair Nascimento) conta a história de uma meia caipora que regressa ao Instituto Ignoto, mesmo sem boas lembranças do lugar, e carregando seu dom de conversar com espíritos. Achei bastante maduro e com uma história muito intrigante. Encerrando a antologia, Os Princípios da Confiança (Dante Luiz) tem o diretor Balthazar como protagonista com uma história sobre mestres e aprendizes, que aprofundou o personagem com apenas uma decisão que lhe cabia tomar. Gostei tanto do personagem e do seu tratamento na história, que acho merecedor de um livro só para narrar sua vida no Instituto.


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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Resenha #324 Primeiras Estórias (João Guimarães Rosa)

Primeiras Estórias de João Guimarães Rosa é uma coleção de contos do autor clássico. Como é uma obra de um autor clássico. Os resumos de cada história analisados em toda sua simbologia e relevância  podem ser encontrados em resumos escolares na internet. Este blogue não se pretende a ajudar estudantes de literatura a fazer trabalhos, apenas relatar breves impressões dos livros que li. A obra tem o seu conto mais reconhecido, A terceira margem do rio, definitivamente o mais intrigante e profundo do livro. Onde um menino passa a vida inteira tentando lidar com o pai que decidiu ficar parado em uma canoa no rio esperando que ele voltasse. A leitura mais óbvia é que se trata de um conto sobre o luto e confesso que me tocou profunda e pessoalmente.

Há outros contos muito gostosos de ler e outros nem tanto. Guimarães Rosa tem uma escrita bem peculiar, e difícil de se acostumar. Para mim ficou mais fácil imaginar que estava declamando a história (já que ler alto estava fora de cogitação para mim). Senti um ritmo de fala na forma de organizar os pensamentos, como se as coisas saíssem sem pensar em ordem mas obviamente o texto foi muito bem planejado pelo autor, que insere muitas sensações do jeito simples de falar do povo que vive em suas histórias. Há um artigo acadêmico em forma de introdução na obra que sinceramente pulei antes da metade de suas quarenta páginas. Confesso que ele poderia ter me ajudado a gostar mais do autor, mas não tenho mais a mesma paciência para textos técnicos como tinha há dez anos. Se caso este livro cair em suas mãos (como foi o meu caso) pode ler inteiro, mas se tiver dúvidas, comece por A terceira margem do rio e pare se não gostar deste. Depois dê outra chance quando adquirir mais experiência como leitor.

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segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Resenha #323 Paraíso Líquido (Luiz Brás)

Paraíso Líquido de Luiz Bras é uma coleção de contos de 2010 onde já podemos ver as aventuras narrativas e que marcam sua ficção científica, antes de adicionar o humor que hoje é mais presente nos seus contos. O livro abre com Primeiro contato, uma história que embarca no universo infantil de uma aventura doce e sincera. Virando do avesso, Memórias é uma história que hoje chamaríamos de muito Black Mirror, mas antes de Black Mirror (2011) em que uma mulher duvida de tudo a sua volta, família, casa e relacionamentos. A tensão impera nos diálogos tensos e uma revelação estarrecedora. Nuvem de cães-cavalos parece acontecer no mesmo universo do conto anterior, com um encontro/duelo de um homem e uma jovem alucinação. Já Daimons é uma cruel brincadeira de entidades encarnadas em brinquedos com crianças inocentes, que poderia ser de um terror oitentista mas mais pesado.

Aço contra osso é um jogo de gato e rato virtual. Nostalgia começa como uma história de paranoia, bem philipkdickiana, onde não sabemos o que é real e não, para nos brindar com um final muito intrigante. Déja-vu é uma história de viagem no tempo que pode ser lida de trás para frente. Coisa que fiz assim que terminei o último conto e funciona muito bem. São Paulo, 31 de julho de 2013 é um conto epistolar com uma dose cavalar de sarcasmo, assim como Cruzada, que segue com o sarcasmo sobre a nossa pequenez frente a um grande mistério. Futuro presente é outra história de viagem no tempo, usando uma premissa antiga, um personagem congelado por muitos anos acordando num longínquo futuro, com o diferencial de que ela começa a história nos revelando que sabe quando vai morrer. Singularidade nua nos joga na space ópera com uma missão controlada por crianças trigêmeas criadas para habitarem em suas naves, para investigar um misterioso buraco negro. Protagonistas e figurantes conta a história de um acidente que atravessa a vida de várias pessoas que tiveram o azar de estar no lugar errado na hora errada, juntando um mosaico de pessoas e situações. Um quebra-cabeça cyberpunk. Por fim, Paraíso líquido é o maior conto e, por ter o nome do livro, o que mais me gerou expectativas, contudo, não consegui me conectar com a história e os personagens, que são elementos e emoções. 

Mesmo não curtindo o último conto, o livro é muito bom. Como é uma reunião de contos publicados em revistas e antologias, se apresentam em várias abordagens e tamanhos diferentes, mas dali podemos vislumbrar as experimentações, o trato na linguagem e um escritor que vai deixando o pessimismo de lado e começa a abraçar o humor, adicionando a brasilidade na sua ficção científica.

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terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

Resenha #322 Obra Completa (Murilo Rubião)

Obra Completa de Murilo Rubião, como o nome sugere, traz toda a obra do contista que se tornou um antecipador magnífico do que seria chamado de realismo mágico no Brasil. Para quem gosta do estilo de Frans Kafka, Gabriel Garcia Marques, Adolfo Bioy Casares e Júlio Cortázar, vai gostar muito destes contos. O que mais marca nas leituras é a capacidade do autor de jogar o leitor nas situações mais diversas e malucas. Efeito esse que aumenta quando você lê vários contos em sequência. Nem todas as situações são sobrenaturais, mas a estranheza que perpassa as situações independe do lado mágico, ainda que este é potencializado quando aparece. Um dos contos que me marcou foi o de um grupo de filhos adotivos, vindas de famílias famélicas, de um fazendeiro que abusava física e psicologicamente deles. Uma vez que o velho morreu, os irmãos se juntam em casais (sabem que não são irmão de sangue) e tentam se achar nesse mundo com a moral que aprenderam. Outro conto que gostei muito foi O Edifício antecede em muito o tema de A torre da Babilônia de Ted Chiang, mas com uma cara ironicamente mais moderna, ao acompanhar um engenheiro responsável por erguer uma torre de centenas de pisos, porém havia uma previsão de que haveria uma grande crise quando chegasse no andar de número oitocentos. Nem todos os contos são bons como estes mas todos são bem curtos e chegam (ou não) logo onde o autor pretende chegar. Infelizmente o autor não é tão conhecido, mas se você der uma chance com este livro não vai precisar de mais nenhum outro, mesmo querendo ler mais.

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segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

Resenha #320 Venha ver o por do sol e outros contos (Lygia Fagundes Telles)

Venha ver o por do sol e outros contos de Lygia Fagundes Telles é uma coleção de contos bastante popular entre as leituras de escola. Como trabalho em uma este livro caiu em minhas mãos. Apenas 100 páginas, contendo oito contos curtos, que podem ser lidos tranquilamente em um ou dois dias, ou em uma semana se você estiver muito atarefado. Os contos são de mistério, alguns brincam bastante com a barreira entre o real e o fantástico, sem se importar em deixar explicado se algo é sobrenatural de fato. Principalmente o conto que dá título ao livro "Venha ver o pôr do sol", outros brincam com a perspectiva do protagonista como "O noivo" e "O Menino". O suspense não está em uma trama mirabolante mas nas frases curtas e ágeis, muitas vezes tirando nosso fôlego e na habilidade de cercar o problema nos revelando aos poucos o que está de fato acontecendo. Os contos terminam com pouca suavidade, e resolvendo parcialmente os mistérios deixando um gosto amargo para os que não gostam de histórias abertas. Há a simbologia muito interessante com as cores, sendo o vermelho o amor, verde morte e transição, amarelo vida, preto trevas e azul espiritualidade. Mas as para mim é apenas um detalhe, pois a habilidade de prender o leitor no mistério é o melhor do livro. Gostei bastante da leitura! 

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segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

Resenha #319 Véu da Verdade (J. M. Beraldo)

Véu da Verdade é uma space ópera brasileira escrita por J. M. Beraldo e chegou as minhas mãos em uma promoção que o próprio autor fez antes de se mudar para o Brasil. Já conhecia o autor da sua série Reinos Eternos, e quis saber como seria uma space ópera e a surpresa foi muito grata.

Acompanhamos as aventuras da tripulação do cargueiro Lucille pelo futuro daqui há dois séculos, onde descobrimos a existência de vida alienígena. E bota vida nisso. A verdade é que somos uma espécie de "reserva ambiental" para as raças da Liga dos Mundos, de tão atrasados que somos. E não há nenhuma chance de sermos aceitos na Liga, pois seria como um formigueiro pedir adesão a ONU. Esta é apenas uma das diversas ironias e sacadas do autor para a raça humana que sempre se vê como o centro da vida inteligente no universo. Falava sobre um cargueiro, não né?! O Capitão da nave é Alex Bourdain, que tem na tripulação um ser insetoide prestativo, uma inteligência artificial que pilota a nave e não tem muita consideração pela vida humana; Flávia, uma carioca fugida de uma guerra no Brasil e do minerador nascido no Cinturão de Asteroides. Como se trata de uma nave que faz todo tipo de frete, mais personagens vão surgindo como passageiros, entre eles um cientista desastrado de São Paulo, um ser que muda de forma e um bilionário nobre. Em meio a tudo isso, temos a perseguição de um mercenário chamado Arturo que deseja a cabeça de do Capitão Bourdain.

Temos uma história muito movimentada e cheio de elementos, e um mundo rico e retratado cheio de humor, mas sem sacrificar uma história bem contada para nos fazer rir. Inclusive temos uma virada (plot-twist) sensacional para o desfecho da história. A edição é comemorativa dos 10 anos de lançamento da obra e é de 2015. Infelizmente tem uns erros de digitação, mas não atrapalha a fluidez da leitura. Contudo, merece ser resgatada principalmente para os leitores que querem uma leitura com humor, ação e um mundo muito bem construído. Se este livro cair em suas mãos, leia e me agradeça. Se não, dê seu jeito e me agradeça também.

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segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

Resenha #318 Solitude (Erick Santos Cardoso)

Solitude é o quarto livro da Coleção Dragão Mecânico que já li e é o mais divertido, mais leitura de praia da coleção até aqui e nisso (vale sempre insistir) não é nenhum demérito. Saber entreter com uma premissa divertida e cativar o leitor com um texto menos dramático e uma trama mais ágil e sem tantos jogos linguísticos é um feito e tanto. Solitude fez exatamente isso.

Os mais velhos vão lembrar dos jogos de navinha dos anos 1980 e 90, como Galaga, STG, Gradius ou Star Fox, onde naves espaciais destruíam alienígenas monstruosos que vagavam pelo espaço. A historia de Axel e seu esquadrão parece ser uma versão romanceada destes jogos. Eles vivem em Eden, uma colônia humana relativamente recente que foi atacada por uma frota de seres que combinam vida orgânica com metal em suas naves, ou seja, eles são as naves. Em um primeiro momento são derrotados por Axel, quanto era um ás sob o comando de Gládio, mas passado alguns anos, uma pandemia deixou a colônia de Eden acuada sob o risco de ser varrida do mapa. Uma missão, liderada em Terra por Gládio e Axel a frente do esquadrão se lançará no espaço para encontrar e neutralizar o coração desta ameaça.

A história é contada em vários capítulos pequenos que vem e voltam no tempo, intercalando a ação com momentos da vida dos pilotos e o relacionamento entre eles, muitas vezes conturbados e cheios de mágoas. É muito bacana o conceito das naves coração que usam da tecnologia copiada dos inimigos para dar alguma chance a missão, considerada por muitos inútil e suicida. Além disso, ela dá alguma explicação a todas as coisas que parecem, a primeira vista, intransponíveis dos jogos para uma narrativa longa em prosa. Cada vez que entendia esses momentos, um sorriso foi arrancado do meu rosto. Isso que não cheguei a mencionar a ação muito bem narrada e empolgante. Uma leitura curta e alucinante, que recomendo bastante.   

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