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domingo, 27 de setembro de 2026

Resenha #379 Guanabara Real - O Covil do Demônio (Enéias Tavares, Nikelen Witter, A. Z. Cordenonsi)


"O Covil do Demônio" é o segundo livro da duologia Guanabara Real e complementa perfeitamente o primeiro livro como uma contraparte das possibilidades de um mundo steampunk, reimaginando um Brasil com tal tecnologia. O desafio de escrever a seis mãos deve ter sido muito difícil, como eles próprios já haviam comentado na época do primeiro livro, pois exige entrosamento e alinhamento do que esta sendo feito. Lendo, contudo, foi uma experiencia muito mais fácil. A escrita é leve e gostosa, e a aventura muito bacana de acompanhar. 

Acompanhamos nossos detetives quatro anos após a conclusão do primeiro livro. Desde então, o Barão do Desterro teve sucesso tanto em colocar a culpa nos detetives pelos crimes narrados no primeiro livro, quanto em se tornar o presidente através de um golpe de estado, instaurando uma ditadura baseada na vigilância constante, violência, e obviamente a manutenção de um governo como alavanca para algo ainda mais nefasto. Gosto de como muita coisa mudou de um livro para outro. Se no primeiro temos uma sociedade vibrante, com nossos detetives circulando em vários níveis para investigar o caso, agora temos indivíduos cansados, reprimidos e acoados pela perseguição que sofrem, bem como a população se torna desconfiada e arredia, sendo cada vez mais difícil de acessar locais para que nossos heróis consigam investigar para provar sua inocência. O ritmo da leitura consegue fazer um sentido de urgência, não apenas pela perseguição como também pelo que é descoberto na investigação. Uma pena isso acabar tornando o cenário menos trabalhado, pois não há uma cena de crime, nem uma geografia da cidade para ser explorada, pois os personagens estão fugindo o tempo todo.

O desfecho da história é bem satisfatório, sem muita brecha para uma sequência, mas consigo imaginar contos ou histórias solo dos personagens com suas questões não resolvidas. Por exemplo, Cordenonzi lançou um conto com Firmino Boaventura, na antologia Outros Brasis da Ficção Científica, e os outros personagens Maria Teresa Floresta e Remy Rudá, também tem muito ainda o que dar. 


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segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

Resenha #314 Mafagafo 3, Edição extra. Dante e a Liga dos Anciões Asassinos (Enéias Tavares)

Retomando a leitura das edições da Revista Mafagafo, decidi pular a leitura do segundo ano e continuar a leitura pelo terceiro ano, pois queria muito voltar ao mundo de Brasiliana Steampunk do Enéias Tavares. Essa edição foi uma edição extra e acompanha uma aventura de investigação passada em Porto Alegre dos Amantes, que narra um episódio vivido por Dante D'Augustine, escritor de contos de mistério que é convidado para uma Liga de Anciãos. Como o título já antecipa, essa liga é responsável por uma serie de mortes de prostitutas, mas o que eles não imaginam é que o segredo que Dante carrega pode levá-los a ruína completa.

O conto começa com a primeira parte da entrevista de Dante D'Augustine transposta da Rádio Guaíba, antes de começar o relato e a revelação do grande segredo de Dante, que para quem já leu outras obras do universo de Eneias não é novidade. As revelações que o conto traz são conhecidas de quem já leu algum dos romances da série, então não se trata de saber o final. Gosto do estilo de Eneias pois aqui não temos um foco no mistério a ser desvendado, mas nem por isso se deixa de usar o clima de mistério como uma linguagem de dá um charme a este universo. Também porque o protagonista escreve contos de mistério, é verdade, mas no fundo trata-se de uma aventura, temperada pelo mistério. O conto enriquece muito o mundo de Brasiliana Steampunk e espero ver mais deste mundo!

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segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Resenha #259 Juca Pirama (Enéias Tavares)


"Juca Pirama" Enéias Tavares é outra obra de seu universo Steampunk, iniciada em Lições de Anatomia do Temível Dr. Louison. Desta vez a aventura se passa em São Paulo, ou melhor São Paulo dos Transeuntes Apressados e tem um ritmo bem diferente das suas outras obras. Como dito no prefácio, a intenção era de uma obra que funcionasse também no audiovisual e assim temos uma obra ágil na escrita, ainda que emule o modo de falar do séc. XVIII, e tem um enredo mais simples.

Desta vez não temos um personagem clássico da literatura brasileira adaptado ao universo Steampunk, mas as referências e o paralelismo do herói Juca Pirama do poema clássico, com este personagem novo funciona muito bem. Ao início de cada capítulo temos um trecho importante do poema abrindo o capítulo. Conhecemos Juca Pirama, um anti-herói brasileiro, um jovem malando que tenta se virar com o que tem, com as habilidades das ruas, marginalizado por essência, dotado de uma vontade de viver imensa. Temos um personagem carismático que se viu envolvido em uma trama de assassinados e sede de poder. As reviravoltas podem até ser revolvidas pelo leitor mais atento mas aqui a aventura é o elemento mais apurado. Sempre fui crítico do Steampunk que aprecia a estética pela estética e esquece o elemento transgressor que faz o "punk" fazer sentido. Nosso protagonista, tanto deste livro como do poema clássico de Gonçalves Dias, são dignos da herança de rebeldia do precursor do subgênero, A Máquina Diferencial.
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segunda-feira, 7 de março de 2022

Resenha #225 - Parthenon Místico (Eneias Tavares)


"Parthenon Místico" de Eneias Tavares é a sequência que tanto aguardava para "Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison" do já longínquo ano de 2014. O mundo de Brasiliana Steampunk tem tudo que um bom livro Steampunk precisa: uma estética apurada, cheia de charme, tecnologia a vapor, ação e personagens cativantes. A sequência, que na verdade é uma prequela, acompanha o grupo chamado Parthenon Místico, quinze anos antes dos eventos narrados em "Lição". Grande parte dos personagens criados e adaptados ao mundo a vapor estão lá. Dr. Antonie Louison e Beatriz de Almeida e Souza, entre os criados por Eneias e os retirados de obras clássicas, Solfieri (do Noite na Taverna de Alvares de Azevedo), Bento Alves, Sérgio Pompeu (d'O Ateneu de Raul Pompéia), Dr. Benignus (do livro homônimo de Emílio Augusto Zaluar), Vitória Acauã (dos Contos Amazônicos de Inglês de Souza) estarão ao lado de Giovani (personagem de Apeles Porto Alegre), Aristarco (também d'O Ateneu) e até de uma misteriosa aparição d'O Aleph de Jorge Luis Borges.

Na história, acompanhamos os primeiros momentos da criação do Parthenon Místico, grupo de insatisfeitos anarquistas que se veem obrigados a enfrentar a Ordem Positivista com planos de dominação que os colocam em choque com nossos heróis. Como no livro anterior, a narrativa é construída através de relatos dos diários, digo dos noitários, dos personagens, também de relatórios, transcrição de áudios e notícias. Porém quem assume um protagonismo desta vez é Sérgio Pompeu, que traz o primeiro relato de quando recebeu uma carta de um antigo colega do Ateneu, Bento Alves para vir a Porto Alegre. Sérgio que se sentia sem lugar no mundo aceita o convite e entra para o Parthenon Místico, e já tem de encarar suas primeiras aventuras com o grupo.

Minhas expectativas com relação a continuação eram as mais altas possíveis e elas foram totalmente atendidas. Obviamente meu apego ao mundo criado pelo autor facilitou que eu gostasse do livro, mas ele definitivamente não é apenas uma aventura boba e estética vazia. O livro está embebido de rebeldia, sabendo combinar o lado aventuresco e folhetinesco sem tornar seu aspecto rebelde em algo caricato. 

P.S. - Como se não bastasse tudo isso, o livro tem suportes gratuitos para ampliar o mundo abordado nas duas obras. Acessando o QRCode no fim do livro ou aqui o leitor tem acesso a audidramas e histórias em HQ virtuais, e informações sobre outras mídias que compartilham o universo criado pelo autor.
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segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Resenha #149 - Solfieri e o Espectro do Casarão Sombrio (Enéias Tavares)


"Solfieri e o Espectro do Casarão Sombrio" é o segundo conto da série Brasiliana Steampunk de Enéias Tavares, dando destaque a Solfieri de Azevedo, que no romance desta série (Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison) acabou ficando como um coadjuvante de luxo. Neste conto ele brilha como um investigador paranormal solicitado a investigar estranhas atividades em um casarão. O conto é conduzido com a elegância que o personagem exige e lembra bastante Remi Rudá da série Guanabara Real, também outro projeto com o mesmo autor. O Conto é excelente para relembrar o universo criado pelo autor e dar mais voz a um dos personagens mais bacanas remodelados por Enéias. Sendo assim, recomendo deveras a apreciação do conto!
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terça-feira, 15 de outubro de 2019

Resenha #106 Guanabara Real: Alcova da Morte (Enéias Tavares, Nikelen Witter, A. Z. Cordenonsi)

Esse romance foi escrito a seis mãos pelos gaúchos Enéias Tavares, A.Z. Cordenonsi e Nikelen Witter. Todos os três já têm obras de steampunk publicadas, e juntaram forças para criar um novo universo retrofuturista, usando a cidade do Rio de Janeiro do final do século 19 como cenário e personagem, com direito a máquinas diferenciais, carros a vapor e próteses mecânicas. Mas também onde a magia influencia o destino dos personagens, ainda que de forma oculta do cotidiano, tudo isso em meio a um mistério detetivesco. A obra faz uma bela celebração da diversidade, sem colocá-la como o motor da história.

São vinte e um capítulos, sete de cada autor. A trama é protagonizada por três agentes da agência particular de investigações Guanabara Real, que no ano de 1892 é contratada para investigar um assassinato ocorrido durante a festa de inauguração da estátua do Cristo Redentor, financiada pelo poderoso Barão do Desterro.

Tudo é contado do ponto de vista dos três protagonistas, na primeira pessoa, que são interrompidos em alguns momentos por epístolas e recortes de jornais que os heróis leem durante a história. Inclusive podemos ver a posição política de dois jornais diferentes, ao noticiarem misteriosos desaparecimentos: o jornal A República apoiando as autoridades do governo e a Tribuna Popular discursando para o povo.

Cada capítulo é escrito alternando a voz dos protagonistas: uma mulher, um negro e um índio, ou seja, os cidadãos de segunda classe, aos olhos do patriarcado branco.

Maria Teresa Floresta é a dona da agência Guanabara Real. É cheia de contatos pela cidade, principalmente entre os pobres e marginalizados, e tem um faro investigativo apurado. Ela também promove a harmonia entre os diferentes temperamentos de seus associados e amigos da agência. Nikelen Witter, autora também de Territórios invisíveis, trouxe a influência de Agatha Christie para a construção do mistério.

Firmino Boaventura é um engenheiro positivista que acredita na ciência para resolver crimes, e de certa forma o olhar científico é um modo de autoafirmação, contra o preconceito que sofre por ser negro e pela prótese mecânica que substitui a mão direita. O personagem de A.Z. Cordenonsi, autor também de Le Chevalier e a exposição universal, é a influência do steampunk na obra.

Remi Rudá, personagem de Enéias Tavares, é quem traz a influência lovercraftiana ao livro, por ser um especialista em ocultismo, alguém que domina as artes da magia. É descendente de indígenas, com gostos extremamente requintados, e vive em constante tensão com Firmino pela discrepância de suas especialidades. É de Enéias Tavares o premiado romance A lição de anatomia do temível Dr. Louison.

A diversidade social aparece na obra de maneira bastante fluída, apesar de não ser o centro da trama. Há os protagonistas que se unem pelos seus diferentes conhecimentos e habilidades, principalmente as de Maria Teresa, que conhece muito bem as áreas marginalizadas onde nasceu e cresceu. Entre os coadjuvantes, o destaque é a requintada Madame Leocádia, uma transexual dona do prostíbulo mais luxuoso da capital da recém-proclamada república.

Quanto à trama, é bem amarrada, porém sem muito espaço para maior complexidade, tanto pelo espaço que os passado pessoal dos protagonistas ocupa nas páginas quanto pela própria característica de prólogo de uma série que certamente se estenderá por mais livros. Algo que aliás é atiçado pelo final aberto e surpreendente.
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quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Livros que mais gostei em 2016

Olá.
Não costumo postar muito em forma de conversa mas isso é algo que quero mudar para o ano que vem. Acho que fui muito frio nas minhas postagens desde o início do blogue. Pensando nisso acredito que estava tentando não impor minha opinião sobre os livros privilegiando a análise. Pretendo manter os textos curtos mas de alguma forma mais "simpáticos" no intuito de aumentar um pouquinho a aproximação com os visitantes do blogue pois o volume de comentários e da quantidade de visualizações, estão excelentes. Apesar do blogue ser despretensioso é voltado para um nicho e nichos são sempre exigentes. Desta forma, considerem-se abraçados. 

O motivo principal desta postagem é compartilhar uma lista com as leituras que mais gostei este ano e, ao contrário das resenhas, serei muito subjetivo. Foi muito difícil escolher e acho que se a lista fosse feita em outro dia teria um resultado diferente. 

Este ano fiz 45 resenhas, entre livros e contos, com os quais fiquei bem satisfeito em conseguir uma boa abrangência nas leituras variando bastante dentro da Ficção Científica. Quando sai da FC, para resenhar clássicos da literatura brasileira, foi por um bom motivo, impulsionado por uma das minhas obras preferidas esse ano. Também sai do escopo da ficção para buscar boas leituras de não-ficção mas que tivesse alguma relação com a Ficção Científica. Acho que fiz boas escolhas de leitura esse ano. Li clássicos e novidades, brasileiros e estrangeiros, livros de autoras e autores. Também compartilhei alguns contos próprios e pretendo melhorar como escritor. A lista não tem livros de não-ficção, não li tantos para valer uma lista.

Então, ai vai uma lista, em ordem aleatória dos 10 livros de ficção que mais gostei de ler em 2016. Seriam 5 e mesmo dobrando acabei deixando ótimos livros de fora. Cliquem no título do livro e você serão levados a respectiva resenha. Vamos a eles:
Um exercício de alteridade imersivo e profundo. Este livro foi como realizar uma viajem a um planeta desconhecido e, como toda boa viagem, nunca mais retornamos os mesmos. Já tinha lido, "Os despossuídos", outra viagem excepcional, e, por este ser o mais conhecido, me deixou com altas expectativas e foram totalmente atingidas. Um livro para levar onde for.
Última resenha deste ano. Tem clima e historias pesadas mas ao mesmo tempo cativantes. Ébrios apaixonados capazes de qualquer coisa, a decadência e miséria misturadas ao desejo e o amor. Amor romântico e amor tesão, sem distinção alguma. Baita livro!
Ficção Científica com Policial, que promove uma reflexão apurada e necessária do nosso cotidiano. Esse "estranhamento" da New Weird, deveria ser comum na Ficção Científica, nos fazer viajar para lugares estranhos e fazer pensar sobre a nossa vida normal. Esse livro me fez refletir muito e nunca mais consegui caminhar casual mente pelas ruas da minha (e de qualquer) cidade. Já estou, conhecendo outra cidade de Miveville, a Nova Crobuzon, em Estação Perdido.
Esta história alternativa imagina um rumo muito absurdo para o Brasil, onde a escravidão nunca acabou, mas pensemos uma segunda vez: Quem somos nós para chamar o Brasil imaginado pela autora de absurdo? Cheguei a criticar levemente o livro pela falta de interação entre personagens negros, mas isso faz mais sentido no Brasil de pesadelo da autora, sem heróis, sem final feliz, do que no nosso Brasil que de sonho não tem nada. [É fim de ano pessoal, fico pra baixo mesmo, mas continuem lendo que eu melhoro]
Após ler Farenheit 451, não devia me surpreender mais com a qualidade da escrita de Bradbury, mas em "Crônicas Marcianas", mais do que qualquer sensação de viajar pelo espaço, foi uma viagem na humanidade, afinal, não é quando somos estrangeiros que pensamos mais no local de onde viemos? Fico imaginando as pessoas que acham a Ficção Científica vazia de profundidade, lendo esse livro, e mordendo a língua.
Como pode um livro ser de leitura tão fluida e trazer tantas reflexões apuradas numa mesma pegada. Encontrei este livro num sebo e não pensei duas vezes. Li muito rápido e me vi obrigado a desacelerar para aproveitar melhor. Como disse na resenha, a FC foi montada em cada página, na minha frente. É como ver a linha de montagem desse nicho que tanto amamos. Fiquei empolgado novamente em saber que existem sequências, não-lançadas ainda, para o livro. Já estão automaticamente na minha lista de desejos. Já disse que gosto muito de romance epistolar? Vou acabar falando isso de novo aqui.
Já faz anos que queria ler este livro pelo plot maravilhoso. Restava ver como seria abordado. A ironia afiadíssima do PKD me deixou muito satisfeito. A New Weird, do China Mieville, deve ter bebido nesse estilo pela convivência relativamente normal entre raças tão diferentes. A loucura e a normalidade dos personagens me fizeram viajar longe.
Tomei conhecimento do autor por meio dos desafios literários do Entre Contos, dos quais participo. O livro me surpreendeu pois foi uma experiência muito melhor do que contos soltos do autor, que já são ótimos. A proposta de quebra da quarta parede me conquistou logo de cara. O livro é cheio de armadilhas nas quais cai com gosto. Terminei a leitura querendo ser que nem o Rubem quando crescer.
A Ficção Científica mais brasileira que tive a oportunidade de ler. Não pela putaria e palavrões que respingam na cara do leitor, (também isso, né?!) mas pela viagem cantada e crua desse cyberpunk brasileiro que, até onde sei, é o primeiro e até agora o melhor cyberpunk nacional que já li. Por isso, indiquei como primeiro na lista dos livros mais importantes da FC brasileira.
As características desse livro fecharam perfeitamente comigo. É um romance epistolar, uma baita estória, muito bem escrito e ambientando em Porto Alegre, cidade que amo odiar. Acima de tudo por salvar dos confins empoeirados dos sebos personagens e estórias da Literatura Brasileira, ignorados mal-tratados (para não dizer, mal lidos), pela grande maioria de leitores brasileiros. É aquele tipo de livro que já deveria existir a muito tempo. Quem ainda não notou, eu estou resenhando aqui os clássicos da literatura que foram reinventados neste livro. Já disse que é uma baita estória e muito bem escrito?

E você, caro leitor, já leu algum dessa lista?
Consegue listar os 10 que mais gostou, lidos em 2016?
ou acha isso tudo uma tremenda bobagem e eu deveria capinar uma roça?
Comentem!
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segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Resenha #48 Conto, Bento Alves e o Assalto ao Templo Positivista - Enéias Tavares

"Bento Alves e o Assalto ao Templo Positivista" é o primeiro de uma coleção de seis contos do mundo "Brasiliana Steampunk", que tem um livro lançado: "A lição de anatomia do temível Dr. Louison" e já foi resenhado no blog.
O conto narra um episódio que é apenas citado no livro, o recrutamento do aventureiro Bento Alves para a Sociedade Secreta do Pártenon Místico pelo Dr. Beningus. Bento logo descobre que é parte fundamental no plano do Pártenon de regatar Vitória Acauã, que está em cativeiro no Templo Positivista, onde é cobaia de experimentos pseudo-científicos.
Tudo é narrado em forma de carta, num relato detalhado pelo próprio Bento Alves. A forma epistolar de escrita é presente também no primeiro livro da série. Nesse ponto o conto serve também como uma introdução ao mundo criado pelo autor para quem ainda não conhece e, ao mesmo tempo, serve para, quem já leu o romance, como este que vos escreve, matar a saudade dos personagens. A única diferença é que neste conto o foco é a ação, logo, a leitura passa bem rápido enquanto o romance envolve um mistério no estilo policial. Ambas as leituras estão recomendadas.
O conto pode ser encontrado no blog dedicado a série http://brasilianasteampunk.com.br/
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sexta-feira, 17 de junho de 2016

Resenha #28 - Lição de anatomia do temível Dr. Louison (Enéias Tavares)

"Lição de anatomia do temível Dr. Louison" (2014), romance de estreia de Enéias Tavares, foi concebido como o primeiro de uma série e possuí duas premissas muito interessantes: a estética steampunk adaptada ao Brasil e a inserção de personagens já existentes da literatura brasileira da segunda metade do século XIX e do início do XX, combinadas com uma consistente trama policial.

No romance, o jornalista Isaías Caminha é enviado a Porto Alegre, para investigar o caso do assassino em série Antonie Louison, que está preso no Hospício São Pedro, com a data de execução marcada. Rapidamente nos vemos diante de um quebra-cabeças quando Louison escapa.

A obra se apresenta como um dossiê reunindo cartas e entrevistas, escritas e transcritas de gravações, além de trechos de processos jurídicos (nem um pouco maçantes). Todas datadas, indo e voltando no tempo. Cada parte adiciona explicações e perguntas ao caso.

Também somos apresentados a vários personagens que habitam esse mundo, alguns criados pelo autor e outros retirados da literatura brasileira. O protagonista, Dr. Louison, (criação do autor), é o centro da narrativa e sua personalidade é montada e desmontada pelos diversos pontos de vista, contraditórios e cheios de segundas intenções.

Fez MUITO jus ao "punk" do Steampunk
A lição de anatomia do temível Dr. Louison não se prende às convenções da ficção científica, nem aos seus debates sobre tecnologia, embora eles sejam pincelados. É importante ter isso em mente para não se decepcionar, à espera de uma mera versão brasileira de A máquina diferencial. "A máquina diferencial". O que não significa que os personagens marginalizados e cheios de atitude não estão lá. Eles aparecem, inclusive, de forma mais intensa e consciente que na obra seminal de Gibson e Sterling - o Parthenon Místico exemplifica esse ponto.

Leiam livros nacionais!
Outro elemento do Steampunk presente na obra é a inserção de personagens da literatura numa história alternativa. Relembremos "A Máquina Diferencial", que colocou os personagens Sybil Gerard e Mick Dandy, de Benjamin Disraelli levando vidas alternativas numa realidade histórica diferente. Tavares elevou essa experiência, como n'A Liga Extraordinária, de Alan Moore, usando personagens da literatura brasileira.

A leitura dos livros de origem dos personagens emprestados não é pré-requisito para compreender A lição de anatomia. Apesar de que reconhecer algum deles arranque um sorriso durante a leitura, acredito que o caminho da obra seja justamente o oposto: ela grita o tempo todo que a literatura brasileira não é necessariamente uma chatice obrigatória para provas de vestibular, demonstrando que em meio a esses livros abundantes, facilmente encontrados por menos de dez reais nas prateleiras de sebos e livrarias, e comumente ignorados em prol da literatura estrangeira, existem excelentes personagens e enredos.

A trama é complexa em fatos, formas e vozes (por vezes contraditórias) que se fecham como um livro e pedem mais histórias em virtude de tantos personagens inseridos em destinos alternativos. Talvez escapem detalhes e ironias em relação a Porto Alegre, que o autor colocou em forma de inversões, como o nome dos jornais. Porém, a maioria dos personagens é de fora do Rio Grande do Sul, ainda que contemos a própria cidade como um. Fora isso, os percalços são irrisórios durante a prazerosa leitura.

Bônus: Não me atrevo a disponibilizar o livro resenhado, aos interessados, é melhor comprá-lo. Contudo, as obras de origem dos personagens emprestados são de domínio público, logo, pode ser disponibilizado. Segue uma lista com links dos livros recolhidos onde puderam ser encontrados. Baixe aqui ou compre num sebo que certamente o leitor encontrará barato:

Solfieri
Noite na taverna de Álvares de Azevedo, 1855. 
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Simplício e o misterioso armênio
A luneta mágica de Joaquim Manuel de Macedo, 1869.
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Simão e Evarista Bacamarte
O alienista de Machado de Assis, 1890. 
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Sérgio e Bento
O ateneu de Raul Pompeia, 1888.
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Rita Baiana, Pombinha e Léonie
O cortiço de Aluízio de Azevedo, 1890.
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Vitória Acauã
Contos Amazônicos de Inglês de Souza, 1893. 
Download (este arquivo contém apenas o conto "Acauã" onde Vitória aparece.)
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Isaías Caminha, Floc e Loberant
Recordações do escrivão Isaías Caminha de Lima Barreto, 1909.
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Doutor Benignus
O Doutor Benignus de Augusto Emílio Zaluar, 1875.
Esta obra ficou perdida por muitas décadas até ser encontrada e editada pela Editora da UFRJ, sendo a única edição que está esgotada e, até onde pude verificar, nunca foi digitalizada.
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Família Magalhães e a Ilha do Desencanto
Georgina de Apeles Porto Alegre, 1873-1874. 
Esta é a única, realmente difícil de encontrar. Segundo o próprio autor, Enéias Tavares: "Georgina é uma noveleta publicada em quatro partes na antiga Revista Mensal do Parthenon Literário em 1872. Ela foi reunida com o título 'A Ilha do Desencanto' numa coletânea dedicado ao grupo literário ainda na década de 1990." Tal edição está esgotada e até onde pude verificar, nunca foi digitalizada.
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