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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Resenha #381 Dengue Boy (Michel Neiva)


"Dengue Boy" (Ou no original "La infancia del mundo") é o primeiro livro de Michel Neiva, autor da Argentina, que traz uma obra com muitos elementos bizarros mas que vão fazendo sentido em sua bizarrice. Particularmente, o definiria como New Weird, e não um "steampunk" como classificado no blurb do próprio livro, apesar de achar que combine também com um "cyberpunk" (acho que foi o que queria ter escrito) pela capa e o título da versão brasileira que tentou apresentar o livro em total oposição a versão original argentina, completamente sóbria, ou seja, nada de mosquito vivendo entre seres humanos sem nenhuma explicação.

Classificações a parte, a história segue este Dengue Boy, uma criança que é um mosquito, que habita entre humanos, frequenta a escola e sofre bulying até que começa a se descobrir. Também acompanhamos Dulce, um colega de escola do Dengue Boy que deseja apenas um novo console de jogos e é fã de um jogo online de luta entre indígenas e colonizadores. Eles vivem em um mundo distópico onde a temperatura do planeta subiu absurdamente, tornando os polos do planeta, os únicos lugares habitáveis para a humanidade. A história se desenrola entorno no misterio da Grande Anarca, e traz criticas que já deveriam estar obvias pelo desastre climático que a Terra passa e a normalidade do capitalismo, como causador e mantenedor do desastre. É um livro bastante rico em influências estéticas, gore sem freio e criticas ácidas. A influencia de "A Metamorfose" do Kafka, vai alem da existência do inseto andando entre nós, mas do fato de não haver necessariamente uma explicação para tudo. As vezes as coisas simplesmente são. A maior ironia do livro é constatar que as criticas criticam esse absurdo mas não acham nada absurdo o futuro que o capitalismo desenhou para a humanidade. 


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segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Resenha #264 Encruzilhadas (Pedro Viana)


"Encruzilhadas" de Pedro Viana (hoje assina como Pedro Crunivel) é uma coleção de contos que tem como tema principal o destino. São sete contos que tem uma linha muito fina com o sobrenatural e dependem de você acreditar nos seus depoimentos. Os contos estão presentes no mesmo universo, mas não para montar uma narrativa única, como num romance fix-up (como em Território Lovercraft, pro exemplo) mas para evidenciar essas linhas de destino que se cruzam caprichosamente o tempo todo. 

O Grande Clapton é o conto de abertura e o mais curto do livro. Acompanhamos uma investigação sobre um caso da morte do mágico conhecido como Grande Clapton, que supostamente morreu durante um de seus truques, porém como parte dos mistérios de um mágico esta morte passou a ser contestada. É difícil falar mais sobre o conto sem estragar as revelações que são de tirar um riso do canto da boca ao final da leitura.

A Vidente acompanha a história de Cordélia, uma vidente charlatã bem sucedida, que começa a revisitar as mágoas do passado. Sua maior dor é a filha que abandonou e nunca mais conseguiu rever. Contudo, o destino abriu uma porta que a coloca entre a vida de uma inocente e um serial killer. Achei a protagonista muito bem desenvolvida o que ajudou muito na segunda metade do conto para termos a empatia necessária para nos envolvermos com seu dilema.

A Bailarina acompanha Douglas, um pacato funcionário de uma loja de móveis que encontra uma boneca em uma venda de garagem para dar de presente de aniversário a esposa, Rosa. Porém, o presente continha uma maldição de conceder os mais perigosos desejos. No caso de Douglas, uma esposa bonita, rica que o sustentasse para que ele não precisasse trabalhar. Novamente temos o autor abrindo espaço no conto para trazer o outro lado de um personagem que aparentemente é apenas mais um escroto genérico, mas com seus dramas e nuances, ainda que não sirvam de desculpa para suas atitudes e caráter o tornam crível e palpável. Isso nos deixa mais curioso a respeito da jornada sinistra de Douglas.

A Coisa no acampamento acompanhamos Calebe que acorda com seu marido Rodrigo e não o reconhece mais. Passamos então as cartas deixadas para Calebe escritas por Rodrigo que é militar e comandante de um pelotão que está investigando uma área que foi isolada por causa de um fenômeno paranormal. O formato de carta é muito bem explorado pelo autor tornando este um dos contos deste livro que mais me envolveu.

Para você com meu eterno amor acompanha Camilo Sampaio em seu recente luto pela perda de sua esposa. Amanda era a médium do casal enquanto Camilo tinha conhecimento de ocultismo e ambos faziam investigações paranormais. Porém uma semana após a morte de Amanda, Camilo recebe um pedido de uma mulher para que o investigador salvasse sua filha de um demônio. Camilo, entre a dor do luto e a negação de sua vocação, acaba aceitando investigar e se descobre em uma trama envolvendo a polícia, demônios e um espirito protetor. Como no primeiro conto, as revelações são importantes, mas aliadas ao bom desenvolvimento dos personagens e uma trama que de fato não sabemos onde vai chegar. Meu conto favorito do livro.  

Folhas e Sombras conta a história de Paula, uma escritora que após um romance de sucesso, não conseguiu repetir mais o sucesso e, depois, sequer terminar um romance novo para tentar reencontrar o sucesso. Além do fracasso na carreira como escritora, Paula estava separada do marido e morando numa casa alugada em péssimo estado. Após um sonho, entretanto, Paula começa a escrever um romance sem saber das consequências e do preço a pagar. Não há mistério sobre o que amaldiçoa Paula, mas quem e o que será feito dela é o suficiente para manter a atenção do leitor. Muito bom!

Sob os olhos do tempo é o conto que conclui o livro e é a única história que se passa no futuro. Sandro é um investigador aposentado de uma época em que ainda havia assassinatos. Um velho companheiro, ainda na ativa o coloca de volta a ativa para resolver um assassinato de um cientista polêmico. Os caminhos da investigação tornam este o conto que mais me surpreendeu no livro, pois fugiu do conto de investigação padrão e se aprofundou no mundo sobrenatural que permeia todo o livro. Foi um bom encerramento!
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terça-feira, 9 de outubro de 2018

Resenha #76 - Aniquilação (Jeff Vandermeer)

"Aniquilação" é o primeiro livro da trilogia Comando Sul, escrita por Jeff Vandermeer. Considerado um dos livros de New Weird ou Weird Ficcion, junto com os livros de China Mieville, buscam causar estranhamento no leitor. Aqui o objeto de estranhamento é a Área X. A história segue em relato em primeira pessoa de uma bióloga integrante da décima primeira expedição exploratória da Área X. Uma local isolado, onde a natureza tomou conta da civilização e cheio de perigos, pois todas as expedições anteriores fracassaram e poucas informações retornaram para preparar as missões posteriores.

A obra gira entorno do mistério da Área X, dos vestígios e relatos abandonados das antigas missões mas também nos trás uma personagem bem construída durante a obra toda. A bióloga, que prefere não revelar seu nome, se mostra uma pessoa reclusa, pouco sociável e abalada pelo fato de seu marido ter participado da décima expedição.

As colegas da bióloga (uma psicóloga, uma topógrafa e uma antropóloga) logo começam a se desentender quando as mentiras do Comando Sul, a organização secreta que organiza as expedições, veem a tona. Contudo, a revelação das mentiras e as explorações apenas aumentam o mistério ao invés de solucioná-lo. Os mistérios da Área X não são revelados, como se pode supor pela presença de mais dois livros da série e a sinopse dos seguintes já dizem se tratar de novas expedições ao local. Esse estranhamento causado pelo autor é tanto o grande trunfo do livro quanto seu maior defeito, pois a expectativa é um desfecho que traga satisfação após a agonia do mistério e não apreciar o mistério em si. Pessoalmente preferi embarcar na ideia do mistério e não criei expectativa de solução e isso ajudou a apreciar a obra melhor, mas entendo quem esperava mais. O que fica da leitura é a vontade de saber mais da Área X. Ainda pretendo ler os outros dois livros da série e ver o o filme que adaptou a obra feito pelo Netflix.
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terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Resenha #62 - Estação Perdido (China Mieville)

Estação Perdido é uma das obras mais conhecidas de China Mieville e a primeira da trilogia Bas-Lag, que ainda tem "The Scar" e "Iron Council", que ainda não foram lançadas no Brasil. Ela é um dos marcos do chamado "New Weird", subgênero da literatura fantástica que busca causar estranhamento e os mundos de China Mieville exatamente assim.

Estação Perdido, em especifico, é uma Fantasia Urbana passada na cidade fictícia de Nova Crobuzon. A estória começa com Yagahrek, um membro da raça Garuda, que contrata o cientista Isaac Grimnebulin para construir invento que possa fazê-lo voar novamente. Há Lin, a namorada Kephri de Isaac, que mantem um romance indiscreto. As coisas começam a dar errado quando um dos experimentos e Isaac foge do controle, ameaçando toda a cidade de Nova Crobuzon. Esta, em verdade, é a protagonista da estória.

Mieville conduz o leitor a uma verdadeira exploração sensorial, antropológica e social pela cidade. É sensorial porque é possível sentir cada tipo diferente de fedor que ela exala, influência do Steampunk; Antropológica, pois existe uma coexistência tensa entre as diversas raças e suas culturas perpassando as relações entre os personagens. Além dos humanos, existem Garudas [homens-pássaros], Keprhis [uma raça de insetos onde apenas as mulheres são antropomórficas e inteligentes], Vodyanois [especie de homens-sapo], entre outros. Todos eles foram tirados de diversas culturas, como o deus egípcio Keprhi, porém nada foi aproveitado de sua mitologia; e é social devida as relações sociais repressivas dos mandantes de Nova Crobuzon, que não poupa os cidadãos condenados a terrível punição de serem "Refeitos", ou seja, passar por transformações mágicas medonhas como castigo ou para se tornarem armas ciborgues do governo.

Neste aspecto, a influência política de esquerda do autor se faz presente, mas não chega a ser invasiva. Torna-se muito perceptivo apenas aqueles que procurarem ativamente por elas, portanto não se trata de uma excepcionalidade. Nenhum autor deixa suas posições na gaveta quando resolve escrever um romance. A crítica social é latente e considero muito bem vinda, para pensar nossas cidades e nossa sociedade, mesmo se tratando de um mundo de fantasia.

O destaque desta obra, contudo vai para a cidade de Nova Crobuzon, como personagem. Quem conclui a leitura de Estação Perdido, certamente ficará com a impressão de ter viajado para uma cidade, conhecido seus moradores, ruas e vivido alguns de seus dramas. É muito mais do que viagens assépticas, cheias de selfies em monumentos que se faz presencialmente hoje em dia, não é verdade?!
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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Resenha #18 - A cidade & a cidade (China Mieville)


[SEM SPOILERS]
A cidade & a cidade é uma mistura de Romance Policial com Ficção Cientifica, num estilo que o autor, China Mieville, chamou de New Weird. O estranhamento deste mundo vai se dissipando ao longo da obra e o diálogo que ela faz com nosso mundo mostra que ele é tão ou mais weird que as cidades onde se passam a história.
A história
Acompanhamos o inspetor Tyador Borlú que investiga o assassinato de uma misteriosa mulher na cidade de Beszél. Contudo, Borlú tem motivos para acreditar que o crime foi cometido na cidade vizinha de Ul Qoma. Ai que vem o grande atrativo da história: As cidades de Ul Qoma e Beszél ocupam o mesmo local geográfico. Existem áreas totais, exclusivas de cada cidade, e as áreas cruzadas, onde ambos os cidadãos podem passar porém não podem interagir. Também existe uma polícia especial que vigia e pune todos que atravessam ilegalmente as fronteiras imateriais entre Beszél e Ul Qoma chamada Brecha, e este é um crime considerado pior que o assassinato.
O leitor pode esperar ter respondida muitas questões da vida cotidiana que emergem de um cenário tão estranho quanto esse. Bórlu vai percorrer todos os mistérios do assassinato e das cidades e essa jornada é tão importante quanto a resolução da trama.
Muros invisíveis
A obra tem potencial de abrir o debate social e político ao tratar do tema das cidades. Dialoga com os limites nacionais bizarros de nosso mundo real, tendo em Beszél e Ul Qoma um pouco de cada mas trazendo algo imaginativo o suficiente para não associarmos imediatamente com nenhuma delas. Alguns exemplos são: Os checkpoints e as áreas compartilhadas de Israel e Palestina; As diferenças culturais das duas Alemanhas, que após a queda do Muro de Berlin, ainda guardam ressentimentos entre wesses e osses, ou seja, ainda existe muros invisíveis; e a África do sul que ainda não dissolveu os bantustões. Também podemos falar das grandes cidades como Rio de Janeiro e a divisão entre favela e asfalto, não seria um muro invisível como se fossem duas cidades?
O livro é narrado pelo Inspetor Bórlu e tem a qualidade literária inventiva do autor, pois é escrito como se fosse traduzido do Bész, a língua fictícia do personagem. Assim algumas coisas são traduzidas "errado" e outros termos tem de ser explicados pois só fazem sentido na realidade das duas cidades. 
Os personagens são interessantes, apesar do romance centrar-se mais na investigação e no cenário inusitado que cerca a obra. Borlú começa parecendo um típico funcionário público que deseja se livrar do caso abacaxi mas acaba ficando obcecado em resolver por ser o único capaz de fazê-lo, apesar da pressão cotidiana das cidades e o medo da Brecha apertando o cerco contra ele.
A obra faz, no trato com o cotidiano, um retrato de todas as cidades, o "desver" dos cidadão de Beszél e Ul Qoma não se torna complicado se andarmos no centro movimentado de qualquer grande cidade e olharmos com mais atenção. Um bom exercício de reflexão depois de ler A cidade & a cidade. 

Sobre a edição lida para a resenha:A cidade & a cidade, de China Mieville é a única edição deste livro no Brasil e saiu pela Boitempo em 2014 (286 p.). Está muito bonita e a arte da capa espetacular. A única coisa que estraga é o tamanho grande do autor e o pequeno do título, dá a impressão de que CHINA MIEVILLE é o título, porém seguiram as capas das edições inglesas que são assim também, o que fica estranho pois no Brasil pelo autor ser pouco conhecido. Contudo não julguem pela capa.
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