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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Resenha #377 Os Agentes do Caos - As aventuras de January Purcell (Fábio Fernandes)


"Os Agentes do Caos" é o segundo livro da série As aventuras de January Purcell, que são aventuras steampunks cheias de referencias as obras de ficção e personagens reais da época vitoriana principalmente mas de várias épocas, pois se tem uma coisa que aprendemos com este universo criado pelo Fabio Fernandes, é que o limite está na sua imaginação. Tudo pode fazer parte deste universo, que se baseia na viagem pelos sonhos, através de pessoas com este dom. Junto deles, há toda uma disputa que perpassa os limites do tempo, universos paralelos estabelecidos como obras de ficção para uns que em outro é a mais pura realidade. Os oneironautas e os anarcronistas, enfrentam-se por entenderem o sonhar de forma diferente. São duas ideologias que se colidem.

Este embate fica mais evidente nesta sequência, pois acompanhamos, não apenas January Purcell, mas ela divide a narrativa alternando com Maria Skłodowska, que neste mundo não chegou a ser (pelo menos não ainda) a famosa química Marie Currie, mas uma anacronista que tem sua própria jornada de recrutamento e adesão a forma de pensar o uso de suas habilidades, que é um contraponto ao que vimos com January no primeiro livro. Já com January temos uma evolução da personagem que hora parece estar pronta e experiente, se vê perdida e despreparada em outros. Não que a personagem seja competente, mas o desafio de ser uma oneironauta é algo que não cabe em uma pessoa. Há o grande jogo, e o autor consegue imprimir essa escala gigantesca de importância para as coisas. O fato de January ser uma peça importante e não conseguir ocupar um cargo no Clube Oneiros por ser mulher é uma forma muito bacana de mostrar a estupidez do machismo, mesmo em uma época em que qualquer um poderia argumentar que 'na época era assim mesmo'.

Já estamos no terceiro parágrafo e não falei do enredo. Temos uma Máquina do Tempo, que pode transportar uma pessoa para qualquer tempo. Em um universo onde os sonhos transportam a mente do oneironauta para as mentes de outras "encarnações" em outros tempos, uma Maquina do Tempo não é tão fantástica assim, mas ainda assim é fonte de problemas e ela está em disputa entre as duas facções. Contudo, quem leu A Máquina do Tempo de H. G. Weels sabe que os vilões não são do tipo que dividem poder. Então, January e Maria vão ter de se aliar para salvar a humanidade, mas não necessariamente confiar uma na outra. Tudo isso numa aventura bem frenética, com aquele clima de espionagem e pequenos toques de mistérios transcendentais que vamos desvelando aos poucos. Felizmente, o Fábio Fernandes vai continuar a série em até cinco livros, e mal posso esperar até o próximo. 
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segunda-feira, 9 de junho de 2025

Resenha #365 O Torneio das Sombras (Fábio Fernandes)

 


"O Torneio das Sombras" é um romance publicado pela AVEC Editora, em 2024. Livro que estava ansioso para ler e quando li foi em poucos dias. Comprei minha edição na Odisseia de Literatura Fantástica em 2024 e já estava louco para passar esse livro na frente dos outros. E foi o que acabei fazendo e não me arrependi.

O livro não é apenas uma tradução da versão em inglês, como é uma ampliação, de uma noveleta publicada originalmente em inglês, chamada Under Pressure. Como eu adoro Steampunk, tinha ficado triste pela Under Pressure não ter saído em português, mas a AVEC não apenas trouxe o livro para o Brasil como também pediu para o autor ampliá-lo. O resultado é uma aventura steampunk que extrapola a característica que mais gosto do subgênero: referências a personagens literários e reais da época Vitoriana.

Acompanhamos January Purcell, uma geóloga que é contratada para uma expedição pelo Dr. Jones. O que está por trás desta viagem? Nada de mais. Apenas a existência de uma rede de espionagem que usa sonhos para influenciar a história, ou melhor dizendo, as histórias. January é uma oneironauta, uma pessoa capaz de viajar pelos sonhos, acessando outros universos e versões de si mesmo. A jornada de aprendizagem da protagonista nos conduz pela ideia do universo que o Fábio criou e não tem como não se empolgar, se você gostar da proposta, nesse ponto talvez eu não seja a melhor pessoa para tecer uma crítica para esse livro por já ter gostado tanto antes de ler e mais ainda após ler. Poxa vida, tem David Bowie na história, uma linda homenagem e um baita uso dele na trama. Não é só um fan service.

O mundo que o Fábio criou, a ideia do oneironauta, já tinha trabalhado nisso em outra obra sua, mas de forma mais cômica e absurda em Oneironautas (com Nelson de Oliveira) e antes disso no conto Charlotte Sometimes. Contudo, a brincadeira com o livro como um universo alternativo a ser explorado pelos oneironautas é criativa e poética em si, afinal a imaginação e os sonhos bebem da mesma fonte e uma base muito fértil para várias histórias. Uma forma muito bonita de ver a arte do escritor e somando isso a homenagem a arte do cantor David Bowie, transformam esse livro em uma carta de amor a arte. Sem deixar de ser uma aventura divertida de ler. 



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segunda-feira, 11 de setembro de 2023

Resenha #302 Rio 60 graus (Fábio Fernandes)


Rio 60 graus do Fábio Fernandes é o livro 4 da coleção Dragão Mecânico da Draco, que reúne seis obras dos mais variados gêneros de alguns dos melhores autores da nossa ficção científica. Eu tenho a coleção completa, mas preferi começar por Rio 60 graus por ser cyberpunk, meu subgênero favorito, e não me arrependi. A obra é um caminhão de referências, numa escrita leve e descontraída, diálogos muito fluídos e já falei das referências? Então, elas dão um sabor especial a obra. Mas vamos falar disso enquanto falo um pouco sobre a história.

Acompanhamos Raytek, um garoto que tinha habilidades extraordinárias de hacker até fazer uma besteira no serviço e, como punição, ser injetado com algo que lhe retira as habilidades, mas recebe uma proposta de trabalho potencialmente perigosa de um empregador que promete remover o dano que sofreu. É na essência o mesmo enredo do clássico Neuromancer, mas a referência é tão intencional quanto a frase de abertura que faz um jogo de palavras com o início da obra de Gibson. (para quem não lembra: “O céu sobre o porto tinha a cor de uma televisão sintonizada num canal fora do ar"). Outras referências estão nas obras como Nova York 2140 de Kim Stanley Robinson, onde pulsos elevaram o nível do mar submergindo a Zona Leste do Rio de Janeiro e a Baía da Guanabara. As inserções da Colmeia, que lembram seu livro Os Dias da Peste. É até bacana imaginar que as obras fazem parte ora de um mundo, ora de outro, (na minha cabeça ainda não entra o copyright) mas o fato é que se trata de um mundo próprio e bem rico (ou talvez seja parte do mesmo mundo ), e o Rio de Janeiro, tão tecnológico quanto vivo. E tudo isso em pouco mais de cem páginas. O autor já manifestou seu desejo de expandir o mundo construído aqui e eu como bom fã de cyberpunk estou no aguardo.
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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Resenha #272 2021 (Edgar Franco Org.)


"2021" organizado por Edgar Franco, o ciberpajé, foi lançado em 2020 durante os primeiros e mais tensos meses da pandemia de COVID-19. A obra é também vencedora do Prêmio Argos 2021 na categoria antologia. A coleção é baseada num álbum de gravuras que o autor desenhou para inspirar os autores, e são belíssimas. Uma mistura de psicodelia com tecnologia que refletem o conceito de hipernormalidade do autor ao buscar uma extrapolação tão próxima, no caso um ano no futuro. Ironicamente dois anos no passado, agora.

Um exoantropólogo em um mundo pós-humano, de Edgar Smaniotto abre a antologia este conto em formato de ensaio científico, na pele de um pesquisador num futuro onde a raça humana aprendeu muito com outras formas de vida. Um conto utópico muito bem vindo cheio de alteridade. Et in Arcadia Ego, de Fábio Fernandes, faz uma releitura da alegoria do mito da caverna, num conto de exploração planetária, que poderia se passar no mesmo mundo do conto anterior.

O nascimento do Rei Poedi de Fábio Shiva se parece com o conto de seu xará, pela via da influência dos filósofos gregos antigos. Em um grande império a sucessão é uma história trágica para o rei e o príncipe. Conhecer a história de Édipo ajuda bastante a aproveitar melhor o conto. Onde as (nano)cores se arvoram de Gazy Andraus entrega um conto potente em imagens, que precisam ser formadas na cabeça do leitor para uma melhor imersão, pois não há um enredo linear, tradicional para seguir. O aplicativo, de Gian Danton, por outro lado traz um conto com enredo com uma revelação no seu desenlace. O conto alia o terror a ficção científica para nos impactar com nossa relação com a tecnologia, como se passou a dizer, a la Black Mirror. 

Pandemônyo em Pyndorama: alegrya, alegrya de Nelson de Oliveira voltamos a vibração imagética no estilo característico do autor, que já foi melhor digerido por já ter lido mais do autor que alia várias influências buscando a arte brasileira. Por fim Octávio Aragão com seu O Ninho no Nariz do Boneco” começa pintando o conto com traços lisérgicos, como numa pintura vista a distância que vai ganhando traços bem delineados quanto mais perto chegamos perto até um final mostrando um enredo bem amarrado.


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segunda-feira, 14 de março de 2022

Resenha #226 - Vaporpunk: Novos documentos de uma pitoresca época steampunk (Org.Fábio Fernandes, Romeu Martins)


"Vaporpunk: Novos documentos de uma pitoresca época steampunk" ou apenas Vaporpunk 2, trouxe novos contos para expandir o conceito de Steampunk nos contos da primeira antologia. A primeira mudança é a maior quantidade de contos, e o menor número de páginas no total. A abordagem também é diferente, não seguindo apenas a História Alternativa, mas também abrindo o leque para a aventura e a fantasia, nem sempre em cenários brasileiros.

Fábio Fernandes, um dos organizadores da antologia, abre o livro com "Alferes de Ferro", uma história que reconta a vida de Joaquim José da Silva Xavier, que a história imortalizou como Tiradentes. Nesta nova versão o alferes inconfidente tem um destino mais heróico do que de mártir da independência em um mundo em que a porção nordeste do império foi tomada e consolidada pelos holandeses, além de não poupar nosso herói das contradições da luta pela liberdade com a manutenção da escravidão.

Dana Guedes nos trás um conto episódico em "V.E.R.N.E. e o Farol de Dover" onde um grupo de anarquistas e libertários luta pela liberdade da classe operária, sabotando diretamente as operações do governo para proteger os industriais. Naquela missão, em específico, o grupo pretende destruir o HMS Guardador que transportaria peças industriais e sua destruição atrasaria por meses a construção de um parque industrial novo. Os personagens Beatrice e Dmitri são os mais trabalhados, e os outros membros da equipe são caracterizados por peculiaridades estéticas e não sabemos se sobrevivem para serem aprofundados em episódios futuros. Aliás essa característica episódica dá um sabor folhetinesco ao conto e nos faz querer saber mais.

Romeu Martins "Tridente de Cristo" narra uma segunda história do investigador policial João Fumaça quando vai a festa de casamento do estadunidense Neil Gibson com a índia brasileira Maria Pinto, amigos da aventura anterior, porém Neil e João são rendidos por um agente estadunidense a serviço da coroa espanhola. Neste mundo o Império Brasileiro e a Coroa espanhola são equivalentes aos Estados Unidos e a Inglaterra no século XIX, como potências mais relevantes. Infelizmente o conto deixa a desejar pelo excesso de informação e contextualização, do que acontecimentos que levaram os personagens até aquela situação. Absolutamente tudo que sabemos do vilão sai de sua boca quando revela em longos parágrafos seus planos. Nem Tião Gavião, discursaria para Penélope Charmosa por tanto tempo.

Nikelen Witter "Uma missão para Miss Boite" acompanha Ana Joaquina que vem ao sul do Brasil, aparentemente em viagem a visita de um amigo, junto do marido Serafim. Porém o casal faz parte de uma Sociedade secreta em missão: resgatar/roubar um artefato que deve ser protegido a todo custo. Ana contrata Miss Boite, uma mercenária ousada que aceita a missão. O conto tem reviravoltas muito bem feitas e cenas de ação inspiradas. Meu conto favorito da edição!

Luiz Brás "Mecanismos Precários" coloca em choque uma série de dicotomias entre um casal enfurecidamente apaixonado, digladiando-se em mechas a vapor destruindo a cidade até que um personagem inusitado coloca tudo de ponta cabeça. Conto cheio de metalinguagem que foge do padrão de histórias Steampunks mas que tem muito valor como literatura.

Sid Castro "Notícias de Marte" cria seu Brasil steampunk em paralelo com o nosso Brasil. Acompanhamos o Visconde de Cerradinho Antônio Almeida, aviador do Império Brasileiro embarcado no navioaeródromo Amazonas, em uma missão misteriosa que se perde da esquadrilha e é derrubado por um navio republicano chamado Amazonas. Logo Antônio percebe que está em um universo paralelo, sob a desconfiança dos oficiais da Marinha de um Brasil republicano ás vésperas de um motim que seria conhecido como A Revolta da Chibata. O motim é a única chance de Antônio voltar a sua realidade e concluir sua missão. O conto conseguiu colocar em paralelo ambos os mundos sem deixar o conto confuso, conseguindo contar uma boa história, com ação e um gancho para o final sensacional.  

Romeu Martins "Modelo B" segundo conto do autor na edição onde retornamos com o detetive João Fumaça. O conto me agradou bem mais, que  "Tridente de Cristo", pois conseguiu valorizar a ação e os acontecimentos sem muita contextualização. Ambas as histórias são simples, mas o perigo e os vilões ficaram mais humanos e razoáveis. Diferente do conto anterior, aqui terminei a leitura querendo mais contos do João Fumaça. 

Jacques Barcia "O cerco de Dr. Vikare Blisset" acompanha através do relato de um detetive encarregado de prender o Dr. Vikare Blisset um célebre anarquista que usa suas tecnologias para quebrar patentes científicas e tecnológicas controladas pelo Estado. O conto funciona pelos relatos e por trechos de relatórios sobre as armas, tecnologias e associados do Dr. Vikare que nos imergem nesse mundo e trazem excelentes cenas de ação. Um conto que funciona como tal e ainda nos deixa com muita vontade de conhecer mais este mundo.

Cirilo S. Lemos "Meus pais, os pterodáctilos" é um steampunk com cara de New Weird que tras uma história doce sobre um menino que vive com pais em Varup, uma cidade povoada por pterodáctilos que falam e vivem em sociedade. O menino adotado não é bem visto pela sociedade mas os pais do menino fazem de tudo para que ele seja aceito. A construção de mundo é soberba e não perde em nada para mundos estranhos e exóticos de China Mieville. Excelente encerramento para a antologia!
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segunda-feira, 3 de maio de 2021

Resenha #181 - Back in the USSR (Fábio Fernandes)


"Back in the USSR" do Fábio Fernandes é um ponto fora da curva na Ficção Científica e, principalmente, no subgênero de História Alternativa onde se destaca o humor aliado a metalinguagem sobre a imortalidade. O mundo alternativo que o autor construiu parte do fato que o Método de Ressurreição de Frankenstein® foi refinado, patenteado pela empresa Ewigkeit e usado em larga escala, principalmente por reis, artistas pop e magnatas perpetuam desde que ressuscitados nas primeiras horas após a morte. As mudanças políticas são no mínimo curiosas: Os EUA nunca se tornaram uma potência pois sequer chegaram a se formar enquanto a União Soviética foi desmantelada com a volta dos Romanov ao poder travando uma Guerra Fria com a República de Weimar, após a vitória da Alemanha na Grande Guerra (a 2GM não foi necessária).

Nem tudo mudou: ainda tivemos os Beatles, ao menos, até o fim dos anos 1970 e John Lennon. Ok, ele é assassinado por Mark Chapman em frente ao hotel Dakota e é ai que começa a trama. Lennon é ressuscitado contra sua vontade (ele havia deixado uma ordem de não ressuscitar) e "convidado" a fazer um show na Rússia. Passamos a acompanhar Lennon em um jogo de poder e influência entre as potências e a quase onipresente Ewigkeit (Eternidade, na língua de Marx). A trama alterna entre a segunda vida de Lennon (com alguns flashbacks) e momentos que mostram como esse mundo foi ficar assim tanto geopoliticamente quando mostra como alguns pensadores e literatos pensam sobre o Método®. Tudo isso condizido com agilidade pela escrita fluida do autor (li as quase 220 páginas em dois dias), que consegue deixar as falas naturais e deixar interessantes até as suas partes mais descritivas.

"Back in the USSR" é, como toda obra com elementos metalinguísticos, um refresco necessário para quem lê bastante porque é fácil se acostumar a convenções (e a FC tem muitas) e é preciso sempre relembrar da necessidade de pensar fora da caixa e imaginar fora dela também.

p.s. tem vídeo no Diário de Anarres sobre esse livro!


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segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Resenha #143 - Nas Nuvens: Um conto para tempos sombrios (Fábio Fernandes)

"Nas Nuvens: Um conto para tempos sombrios", é um conto publicado em 2014 no quinto livro da série "Sagas: Revolução" e em formato digital pela Amazon em fevereiro deste ano. E o conto faz jus aos tempos sombrios que menciona no subtítulo, agora parecendo quase premonitória, por mais que a piada de mal gosto que se tornou o Brasil, já fosse um tipo de tragédia anunciada. 

Acompanhamos o protagonista que é chamado apenas de subversivo enquanto é torturado por agentes do Estado da novíssima República Teocrática do Brasil. A angústia da tortura é alternada por momentos da vida do subversivo que o levaram até ali. A tensão da iminência da tortura é tão angustiante quando o ato em si, tomando toda a narrativa pela tensão. O final ainda nos reserva uma boa revelação. Vale a leitura!

Foi o primeiro conto da minha Corrida Kindle 2020!

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segunda-feira, 18 de maio de 2020

Resenha #132 - A Construção do Imaginário Cyber (Fábio Fernandes)

"A Construção do Imaginário Cyber: William Gibson, criador da cibercultura" (2006) é um livro derivado da monografia do mestrado de Fábio Fernandes, onde o autor argumenta sobre a obra de William Gibson e como ela influenciou a cibercultura, não apenas especulando o futuro, propondo uma nova forma de vê-lo, mas contribuindo para molda-lo. Talvez essa resenha pareça um fichamento, provavelmente pois foi baseada num fichamento de uma leitura com marcações no texto, afinal não temos preocupação com spoiler aqui.


O primeiro capítulo analisa as contribuições de William Gibson para a criação da cibercultura com um entendimento melhor do conceito de Aldeia Global, de Marshal McLuhan e da comunicação instantânea especulada por Arthur C. Clarke. O conto "O Contínum de Gernsback" é a forma que Gibson mostra que o futuro limpo da FC dos anos 1930 parece uma propaganda nazista perto da realidade suja e desigual da visão dos ciberpunks.

O segundo capítulo busca trazer luz ao que é ficção científica trazendo o conceito de  estranhamento cognitivo/maravilhamento, além de caracterizar como um megatexto com palavras conhecidas (como robô ou nave) mesmo em obras diferentes.

O terceiro capítulo narra uma mudança na forma tradicional de FC dos anos 30-50, a Era de Ouro, onde despontaram nomes como Asimov e Clarke caracterizada pelo foco em áreas "duras" do conhecimento como a física, química e biologia em histórias limitadas ao confronto bem x mal, inspiradas no contexto da 2GM e passando pelo surgimento da New Wave nos anos 1970 onde despontaram Ballard, Ursula LeGuin e Delany, trocando o foco para áreas humanas como a antropologia, linguística e semiótica e tinha histórias multipolarizadas inspiradas no contexto da Guerra Fria e por fim, no movimento ciberpunk, que busca novas formas de especulação contrapondo-se fortemente a FC da Era de Ouro, tendo William Gibson e Bruce Sterling são os principais expoentes. 

O quarto capítulo faz um resumo da obra literária de Gibson, onde o autor extrai as principais contribuições conceituais de cada obra. Principalmente Neuromancer, Count Zero e Monalisa Overdrive. Para fazer isso o autor conta também os finais de algumas obras o que é importante para quem não leu algum dos livros doa autor. Como a obra é de 2006, ainda não haviam sido lançadas as sequências que formariam a Trilogia Blue Ant, apenas a primeira (Reconhecimento de Padrões) que é especialmente tratada no capítulo cinco. 

Em Reconhecimento de Padrões, o autor a aponta como uma repetição do que Gibson havia tratado em suas obras anteriores mas sem a especulação de uma FC, pois a obra se passa no presente. Por exemplo, a forma de megacorporações (como a Tessier-Ashpool de Neuromancer) é substituída pela pequena empresa Blue Ant, ágil e terceirizadora de staff, diferente do conglomerado que praticamente encarcera funcionários valiosos como em Count Zero. Isso também aparece na protagonista que reúne algumas características de personagens anteriores como Case, Laney, Molly Millions. O autor ainda faz reflexões sobre os fóruns que Cayce frequenta com comunidades na internet que ainda iriam se alastrar nas duas últimas décadas, dando o exemplo da época, o Orkut. As próprias repetições entre as especulações dos primeiros livros e Reconhecimento de Padrões mostram o quanto Gibson influenciou a criação da cibercultura e também como Gibson foi modificado por elas.

Espero não ter distorcido nenhuma reflexão do autor aqui, ao tentar colocar o que li em menos palavras. A monografia que gerou este livro é uma das pioneiras na abordagem da ficção científica na academia, aqui no Brasil e isso deve ser o suficiente para começar a leitura. Então, se você gosta de ciberpunk, cibercultura e não tem medo de uma leitura de não-ficção inteligente recomendo esse livro!
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terça-feira, 5 de maio de 2020

Resenha #130 - Como Ler Melhor 1 e 2 (Fábio Fernandes)

"Como Ler Melhor: Dicas para quem quer ser foda na leitura" e "Como Ler Melhor 2: Em tempos de quarentena" são guias para quem gosta da atividade da leitura e quer tirar dela o melhor proveito possível. Foram escritos pelo Fábio Fernandes, que além de escritor, tradutor e professor é um leitor voraz que já teve problemas por não conseguir ler tanto quanto gostaria e compartilhou nesses livros uma série de dicas que podem iluminar o caminho de quem anda confuso e é para esses que o livro vale a pena. Pois além de indicar possíveis caminhos, as dicas podem nos revelar que já fazemos algumas coisas certas mas apenas não nos damos conta disso ou achamos que é errado. A argumentação simples e direta do autor tem um ritmo de leitura muito agradável e, ao menos para este que vos resenha, fez reavaliar novas possíveis atitudes que pretendo tomar e tirou o peso de algumas coisa que já fazia.

O autor escreveu o "Como Ler Melhor: Dicas para quem quer ser foda na leitura" em fevereiro deste ano reuniu as primeiras dicas e em abril, escreveu "Como Ler Melhor 2: Em tempos de quarentena" ampliou o conteúdo direcionando as dicas para os tempos de isolamento. Resolvi fazer um texto para os dois livros pois o segundo complemente o primeiro e as considerações para ambas as obras não mudam. Recomendo ler os dois em sequência, mesmo depois que o isolamento terminar pois são leituras muito breves e devem ajudar nas próximas leituras.
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terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Resenha #82- Oneironautas (Fábio Fernandes e Nelson de Oliveira)

Vamos abrir os trabalhos de 2019 com uma breve resenha de um livro breve: "Oneironautas" da dupla dinâmica Fábio Fernandes e Nelson de Oliveira, o Gordo e o Magro da Ficção Científica brasileira que se juntaram nesse livro para uma viagem surrealista no mundo dos sonhos, como o título sugere ao fazer referência ao deus grego dos sonhos.

O livro foi escrito em capítulos alternados de 300 palavras cada, onde os acontecimentos começam a ficar cada vez mais loucos e divertidos mas nem por isso deixamos de ter uma história: Nelson e Fábio se encontram na Festa Eterna em 2066 onde navegantes dos sonhos se encontram e são encontrados também. A partir daí a coisa desanda e descamba para as situações mais insólitas, divertidas e encharcadas de referências da cultura nerd em geral. Como num teste de "quais filmes que você viu?", a não ser que você gabarite sempre, alguma coisa vai se perder, mas nada que uma releitura não resolva. 

Aliás, a releitura é tão recomendada quanto a leitura, pois pode ser feita sem pressa alguma, pois o livro é bem curto, como a remanescência de um sonho que tentamos relembrar com detalhes mas com a vantagem que neste sonho em forma de livro podemos reler sem esperar o sono chegar.
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quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Livros que mais gostei em 2016

Olá.
Não costumo postar muito em forma de conversa mas isso é algo que quero mudar para o ano que vem. Acho que fui muito frio nas minhas postagens desde o início do blogue. Pensando nisso acredito que estava tentando não impor minha opinião sobre os livros privilegiando a análise. Pretendo manter os textos curtos mas de alguma forma mais "simpáticos" no intuito de aumentar um pouquinho a aproximação com os visitantes do blogue pois o volume de comentários e da quantidade de visualizações, estão excelentes. Apesar do blogue ser despretensioso é voltado para um nicho e nichos são sempre exigentes. Desta forma, considerem-se abraçados. 

O motivo principal desta postagem é compartilhar uma lista com as leituras que mais gostei este ano e, ao contrário das resenhas, serei muito subjetivo. Foi muito difícil escolher e acho que se a lista fosse feita em outro dia teria um resultado diferente. 

Este ano fiz 45 resenhas, entre livros e contos, com os quais fiquei bem satisfeito em conseguir uma boa abrangência nas leituras variando bastante dentro da Ficção Científica. Quando sai da FC, para resenhar clássicos da literatura brasileira, foi por um bom motivo, impulsionado por uma das minhas obras preferidas esse ano. Também sai do escopo da ficção para buscar boas leituras de não-ficção mas que tivesse alguma relação com a Ficção Científica. Acho que fiz boas escolhas de leitura esse ano. Li clássicos e novidades, brasileiros e estrangeiros, livros de autoras e autores. Também compartilhei alguns contos próprios e pretendo melhorar como escritor. A lista não tem livros de não-ficção, não li tantos para valer uma lista.

Então, ai vai uma lista, em ordem aleatória dos 10 livros de ficção que mais gostei de ler em 2016. Seriam 5 e mesmo dobrando acabei deixando ótimos livros de fora. Cliquem no título do livro e você serão levados a respectiva resenha. Vamos a eles:
Um exercício de alteridade imersivo e profundo. Este livro foi como realizar uma viajem a um planeta desconhecido e, como toda boa viagem, nunca mais retornamos os mesmos. Já tinha lido, "Os despossuídos", outra viagem excepcional, e, por este ser o mais conhecido, me deixou com altas expectativas e foram totalmente atingidas. Um livro para levar onde for.
Última resenha deste ano. Tem clima e historias pesadas mas ao mesmo tempo cativantes. Ébrios apaixonados capazes de qualquer coisa, a decadência e miséria misturadas ao desejo e o amor. Amor romântico e amor tesão, sem distinção alguma. Baita livro!
Ficção Científica com Policial, que promove uma reflexão apurada e necessária do nosso cotidiano. Esse "estranhamento" da New Weird, deveria ser comum na Ficção Científica, nos fazer viajar para lugares estranhos e fazer pensar sobre a nossa vida normal. Esse livro me fez refletir muito e nunca mais consegui caminhar casual mente pelas ruas da minha (e de qualquer) cidade. Já estou, conhecendo outra cidade de Miveville, a Nova Crobuzon, em Estação Perdido.
Esta história alternativa imagina um rumo muito absurdo para o Brasil, onde a escravidão nunca acabou, mas pensemos uma segunda vez: Quem somos nós para chamar o Brasil imaginado pela autora de absurdo? Cheguei a criticar levemente o livro pela falta de interação entre personagens negros, mas isso faz mais sentido no Brasil de pesadelo da autora, sem heróis, sem final feliz, do que no nosso Brasil que de sonho não tem nada. [É fim de ano pessoal, fico pra baixo mesmo, mas continuem lendo que eu melhoro]
Após ler Farenheit 451, não devia me surpreender mais com a qualidade da escrita de Bradbury, mas em "Crônicas Marcianas", mais do que qualquer sensação de viajar pelo espaço, foi uma viagem na humanidade, afinal, não é quando somos estrangeiros que pensamos mais no local de onde viemos? Fico imaginando as pessoas que acham a Ficção Científica vazia de profundidade, lendo esse livro, e mordendo a língua.
Como pode um livro ser de leitura tão fluida e trazer tantas reflexões apuradas numa mesma pegada. Encontrei este livro num sebo e não pensei duas vezes. Li muito rápido e me vi obrigado a desacelerar para aproveitar melhor. Como disse na resenha, a FC foi montada em cada página, na minha frente. É como ver a linha de montagem desse nicho que tanto amamos. Fiquei empolgado novamente em saber que existem sequências, não-lançadas ainda, para o livro. Já estão automaticamente na minha lista de desejos. Já disse que gosto muito de romance epistolar? Vou acabar falando isso de novo aqui.
Já faz anos que queria ler este livro pelo plot maravilhoso. Restava ver como seria abordado. A ironia afiadíssima do PKD me deixou muito satisfeito. A New Weird, do China Mieville, deve ter bebido nesse estilo pela convivência relativamente normal entre raças tão diferentes. A loucura e a normalidade dos personagens me fizeram viajar longe.
Tomei conhecimento do autor por meio dos desafios literários do Entre Contos, dos quais participo. O livro me surpreendeu pois foi uma experiência muito melhor do que contos soltos do autor, que já são ótimos. A proposta de quebra da quarta parede me conquistou logo de cara. O livro é cheio de armadilhas nas quais cai com gosto. Terminei a leitura querendo ser que nem o Rubem quando crescer.
A Ficção Científica mais brasileira que tive a oportunidade de ler. Não pela putaria e palavrões que respingam na cara do leitor, (também isso, né?!) mas pela viagem cantada e crua desse cyberpunk brasileiro que, até onde sei, é o primeiro e até agora o melhor cyberpunk nacional que já li. Por isso, indiquei como primeiro na lista dos livros mais importantes da FC brasileira.
As características desse livro fecharam perfeitamente comigo. É um romance epistolar, uma baita estória, muito bem escrito e ambientando em Porto Alegre, cidade que amo odiar. Acima de tudo por salvar dos confins empoeirados dos sebos personagens e estórias da Literatura Brasileira, ignorados mal-tratados (para não dizer, mal lidos), pela grande maioria de leitores brasileiros. É aquele tipo de livro que já deveria existir a muito tempo. Quem ainda não notou, eu estou resenhando aqui os clássicos da literatura que foram reinventados neste livro. Já disse que é uma baita estória e muito bem escrito?

E você, caro leitor, já leu algum dessa lista?
Consegue listar os 10 que mais gostou, lidos em 2016?
ou acha isso tudo uma tremenda bobagem e eu deveria capinar uma roça?
Comentem!
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domingo, 14 de agosto de 2016

Resenha #38 Conto, Charlotte Sometimes (Fábio Fernandes)

"Charlotte Sometimes" é um conto de Fábio Fernandes pela Editora Draco, que faz parte da coleção Contos do Dragão que são os contos publicados pela editora em formato digital que por vezes aparecem em coletâneas.

A estória se passa em um sonho ou na realidade? O que importa aqui é acompanhar a viagem de Júlio enquanto ele tenta descobrir enquanto testa seus sentidos e suas lembranças com sonhos. A única coisa que ele sabe é que está num bar tomando cerveja. A leitura flui rápida e prende o leitor pelas referências que não são apenas citações mas influências na estória, como a de Philip K. Dick. O final é surpreendente.

O conto possui cerca de 10 páginas e pode ser encontrado de graça aqui e é uma boa pedida para quem ainda não tem contato com livros digitais ou, como no caso deste que vos bloga, não suporta ler muitas páginas seguido no celular ou pc.
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terça-feira, 26 de julho de 2016

Resenha #34 - Os dias da peste (Fábio Fernandes)

[SEM SPOILERS] Os dias da peste é um romance de Fábio Fernandes (tradutor de várias obras de FC para o português no Brasil) que foi lançado pela extinta Tarja Editorial em 2009. Um romance (pós)cyberpunk nacional com dosagens certas de informalidade (palavrões, cotidiano) e formalidade (informações técnicas, especulação), colocadas de forma convincente no Brasil.

A estória segue Artur, um Técnico em Informática carioca que volta a escrever num blog dias antes do evento que passaria a ser chamado de "despertar", quando os computadores passaram a ser dotados de inteligência e consciência.

Suas três partes, que consistem basicamente no relato feito por Artur. É pelos seus registros, escritos e de voz, que conhecemos as grandes mudanças que o mundo atravessa com o despertar, bem como a própria vida do protagonista. Pela voz de Artur também conhecemos os outros personagens mais próximos a ele. Destaque para as conversas de Artur com Sant'ana, um ex-professor, possuidor de uma personalidade ácida. Os debates entre eles são inteligentes e descontraídos.

O tom informal da escrita deixa a leitura muito leve e fluída. Poucas vezes vi isso num romance de Ficção Científica. Os parágrafos onde Artur evoca algum intelectual para tentar entender o que acontece, eles são interessantes e pouco extensos, afinal são como conteúdos de um blog em que Artur conta sua vida.

Os dias da peste consegue construir sua especulação encaixa as peças desse cenário na frente do leitor. Nos joga na cara a pervasividade e a ubiquidade do ciberespaço, na forma de um relato escrito/oral de uma sociedade que não pode abandonar o vício quando bem entender.
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