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domingo, 2 de agosto de 2026

Resenha #373 Eros Ex Machina Robos Sexuais (Org. Luiz Bras)


"Eros Ex Machina: Robôs Sexuais" é uma antologia organizada por Luiz Bras e publicada em 2018 e tem uma proposta bastante explicita. Tratar o sexo com a ficção científica com um toque indiscutivelmente brasileiro. São 18 contos curtos, de autores que orbitam o organizador que além de autor é um pensador e divulgador da Ficção Científica como uma arte que pode ser feita no Brasil com referências e técnicas mais amplas que a que importamos da tradição literária anglo-saxônica. Este é mais uma antologia escrita com vários autores em comum do Coletivo KriptoKaipora, entre outra que já abordamos aqui como Mundo Vertigem,  Era de Aquária e Realidades Voláteis & Vertigens Radicais, além de obras do próprio Luiz Brás e de autores como Ricardo Celestino.

Os contos tem uma boa variedade de abordagens, muitas vezes passam longe do épico e usam a tecnologia para imaginar causos em um cenários do futuro. Maridos e esposas se deliciando com ginoides e androides sexuais, desilusões amorosas e sexuais, embebido de diálogos bem brasileiros, e bastante humor. Isso há na maioria dos contos, mas não é uma regra. Nem todos os contos expões ou abordam a erótico frontalmente, mas também debatem tangenciando de forma mais tímida, mas o assunto vai permear toda a antologia. Como um bom antologista, soube reunir contos que não caem fora da proposta de guarda-chuva temático, que foi o erótico.

A leitura foi muito prazerosa pois os contos curtos são dinâmicos, muitas vezes divertidos e impactantes, não apenas pelo erótico e como é um livro curto, passa rápido mas te deixa com várias dicas de autores para procurar por ai. Recomendo como, recomento tudo que o Luiz Bras faz.
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segunda-feira, 22 de julho de 2024

Resenha #345 Banho de Sol (Ricardo Celestino)


Banho de Sol é o segundo livro de Ricardo Celestino que já nos trouxe o sensacional Até que a Brisa da Manhã Necrose teu Sistema trouxe um livro mais provocante e profundo que o anterior. Uma obra que acabou me acertando em níveis pessoais e o fará com qualquer pessoa que minimamente já questionou o sistema.

Ricardo usa de sua escrita característica, que usa de frases em linhas quebradas combinadas com blocos, as vezes, longos de texto em itálico. Recurso esse que torna a leitura muito dinâmica apesar da prosa densa do autor. Acompanhamos Richie, (uma redução de Ricardo?) um transeunte paulistano que descobre que os registros de sua consulta com sua psiquiatra é usado em um show de comédia Stand Up. Um início muito sarcástico para a saga de um homem completamente médio e por isso mesmo ideal para mostrar a canalhice de uma São Paulo cyberpunk que não é apenas um personagem (como consuma acontecer em obras cyberpunks) como é também um dos narradores do livro. Outro narrador, é a doença psicológica de Richie, ou seria apenas uma parte dele mesmo (?) que responde por eu-neurótico-delirante. Sendo constantemente humilhado, desde o Stand Up, que é só a ponta do iceberg, a sua relação com o pai (Odair) e com a ex (Stella) o aproximam de um grupo revolucionário chamado EMB 5.0 com seu líder João da Gagueira. 

Como disse antes, é um livro que me balançou. Primeiro pois eu o li a primeira vez como leitor beta e não consegui dar nenhuma contribuição relevante mesmo tendo gostado muito da obra. Acredito que seja porque a obra não carecia de nenhum retoque. Tanto que, na segunda leitura, com a obra impressa e pronta, não encontrei nem procurei mudanças em relação a primeira versão que li. Digo isso porque a obra e a história de Richie teve muitas afinidades com minha própria história. Se no primeiro livro, Ricardo conquistou com sua prosa aliada a estética crua e cenas gore, em Banho de Sol, Ricardo entrega o microfone a cidade de São Paulo cometer um sincericídio, cheio de sarcasmo encanando uma fala de uma personalidade cheia de poder. Enquanto isso faz uma análise de todas as nossas angustias centralizadas em Richie, que são as de toda pessoa que já se questionou severamente sobre o mundo dominado pelo capitalismo.

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segunda-feira, 17 de maio de 2021

Resenha #183 - Até que a brisa da manhã necrose teu sistema (Ricardo Celestino)


"Até que a brisa da manhã necrose teu sistema" é um lançamento independente, via Clube dos Autores, e também romance de estreia de Ricardo Celestino. É um romance que classifico como cyberpunk, apesar das várias particularidades, que misturam elementos trash, numa prosa disposta em formas bastante diferentes, com bastante experimentação, sem deixar escapar a relevância da tecnologia, como numa boa FC. Certamente uma das melhores contribuições recentes da Ficção Científica Brasileira (sim, com iniciais maiúsculas).

Acompanhamos a história de Mário, ou M4594, em sua jornada por uma vida melhor na Orbe Norte em uma São Paulo cyberpunk que leva a sério o punk. Nessa São Paulo, os que não conseguem lugar nessa sociedade são realocados no Complexo Comunitário Reabertura, onde a vida é mais difícil ainda. Mário é apenas um veículo narrativo, um sujeito como qualquer outro, para uma viagem bastante profunda nesse mundo. É apenas mais um habitante que tem a vida registrada e controlada pelo PÁTRIA AMADA, programa responsável por separar os mais aptos a viver na Orbe Norte.

Mário vive a típica história cyberpunk. Um cara fodido que recebe uma proposta boa demais para não ser um mal negócio, e de fato é. O elemento trash, como nos filmes de terror dos anos 1970/80, dá o clima que vemos na ilustração da capa e no clima bizarro onde a principal fonte de proteína é carne humana, e os habitantes do Reabertura podem ser vítimas de carniceiros ilegais. Ricardo conseguiu imaginar tempos piores que a nossa realidade. Algo que o absurdo do trash foi muito eficiente, nos imergindo nessa estranheza e horror, para depois vermos como não é tão diferente do que é e do que pode ser. Um efeito que os ficcionistas tem suado a camiseta para imaginar recentemente. 

A forma é um atrativo a parte. Frases curtas desalinhadas como numa poesia modernista mas que não deixam de ser prosa. São as partes ágeis da leitura. Exigem uma cadência de leitura própria. Esses momentos são alternados com textos em itálico, onde as vezes são inseridos os diálogos de forma indireta. Eu apreciei bastante a novidade, depende do leitor estar aberto ou não a algo novo.

A capa é convidativa a algo mais despojado de reflexão, como eram os filmes o terror trash oitentista, mas o texto é complexo, passa longe de ser leitura de praia, mas isso acontece pela profundidade que o texto de fato tem e não pelo gosto de se prolixo. Isso torna um texto que exige do leitor mas o recompensa quando ele se dispõe a mergulhar na obra. A obra exige gosto pela tecnologia de informação, pelo cyberpunk e um pouco de estômago forte sempre ajuda, porém como disse, é uma obra que recompensa o leitor que decidir imergir nela. Recomendo muito!
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segunda-feira, 12 de abril de 2021

Resenha #178 - Era de Aquária (Coletivo KriptoKaipora)


"Era de Aquária" é uma publicação do coletivo KriptoKaipora capitaneados por Nelson de Oliveira, e criaram esta verdadeira obra da coletividade. O livro é uma coleção de contos com a ambientação em comum num futuro distopico, entre os anos 2050-60, onde a água ocupou quase todas as faixas de terra na superfície. Os acontecimentos do livro se passam no que restou de São Paulo, agora, Nova Piratininga. 

Os contos podem ser lidos separadamente mas juntos ganham força pois formam um mosaico rico e bem explorado como ficção científica, uma vez que esse mundo urbano submergido vai ganhando cores humanas a cada conto. Os contos conseguem se aprofundar nos personagens com muita agilidade, em comparação a outras coleções de Ficção Científica e ir direto ao que está acontecendo com cada um pois não precisam gastar linhas para se contextualizar a cada história.

O trabalho coletivo apresentado aqui lembra a série Wild Cards, guardadas as devidas proporções. Como em toda antologia, alguns contos vão agradar mais que outros mas mesmo os que não me chamaram tanto a atenção não destoam ou atrapalham a construção de mundo o que é o diferencial do livro, pois coletâneas de vários autores é difícil controlar e estreitar a discrepância entre os melhores e os piores, mantendo a qualidade. Era de Aquária consegue esse equilíbrio, pela proposta, pelo respeito ao tema e por ter sido uma leitura que me divertiu e agradou bastante. O destaque individual vão para "UIARA (Nathalie Lourenço), "Vias de fato, linha reta, caminhar" (Ricardo Celestino) e Uma constelação de estrelas adormecidas (Luiz Brás) muito devido a habilidade na escrita que conseguiu imprimir a brasilidade nas linhas desta Ficção Científica brasileira que está cada vez mais brasileira.
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