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segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Resenha #367 A Malta Indomável (Ale Santos)


"A Malta Indomável" é o segundo livro ambientado no mundo de "O Último Ancestral" de Ale Santos. Não é uma sequência imediata mas uma nova história ambientada neste mundo. Os personagens do primeiro livro fazem uma ponta e se integram muito bem a história, mas o protagonismo é de uma nova geração de personagens, que vivem em uma outra cidade chamada Sumé. Essa cidade é regida por um sistema religioso rígido que impõe aos cidadãos a função que vão exercer na cidade como se fosse uma revelação divina. Nossos três protagonistas são rejeitados pelo sistema, cada um por um motivo. Vik perdeu o movimentos das pernas e nunca pode recuperá-los pois a intervenção cirúrgica foi negada por motivos religiosos. Cosme é um hacker que vive isolado pois suas invasões são consideradas profanas ao regime de Sumé e sofre com crises de ansiedade e, por fim, Juba que é um beat-maker, dono de uma personalidade rebelde com origem de Nagast.

O destino une estes três jovens rejeitados pelo sistema de Sumé e passam a nutrir uma amizade entre eles, então, quando decidem invadir o sistema de escolha de funções em Sumé acabam despertando forças sobrenaturais poderosas, que podem destruir toda a cidade caso não façam nada. Então, o trio tem que engolir o orgulho e qualquer sentimento de vingança contra a cidade que os rejeitou e partem em uma missão para salvar a cidade de Sumé da ira do deus que dá nome a cidade. Para isso eles devem correr na Batalha das Maltas, pois é a única forma de acessar o Deserto de Nagast e salvar sua cidade. 

O livro expande em muito o universo do primeiro livro, que passa a ser um evento histórico relevante, e faz isso com uma pegada mais adolescente. É um livro claramente Young Adult, pois mostra conflitos típicos desta fase da vida e acho que faz muito bem. Mazelas que eram ignoradas na minha geração, são abordadas frontalmente no livro como a menina cadeirante, a religião impedindo uma cirurgia simples, a ansiedade impedindo de fazer certas coisas, pessoas imigrantes, entre outros. É um livro que pretendo deixar na biblioteca da minha escola pois acho que lá vai encontrar um público necessário para o livro. Sinceramente, não gosto tanto de ler livros YA, mas a construção de mundo do Ale Santos é tão bacana que pretendo ler as continuações mesmo que elas sejam YA. Nos vemos no próximo! 
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segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Resenha #355 Sobre Fantasmas e Outras Memórias (Pedro Teixeira)


Sobre Fantasmas e Outras Memórias é segundo livro de Pedro Teixeira, que conheço dos tempos de Entre Contos, e sempre tive afinidade por ambos gostarmos de ficção científica. Isso culminou no convite para escrever um dos textos de capa do livro, buscando sintetizar o que a obra nos oferece no seu conjunto. No texto de orelha eu menciono que uma leitura marcante é aquele que fica dentro de nós quando fechamos o livro, e no caso dos contos, esse momento se repete nos momentos entre a leitura de um conto para outro. No livro do Pedro isso aconteceu em todas as vezes. O tema da memória perpassa todos os contos transitando em diversos gêneros e subgêneros, paisagens e narrativas.

Obviamente os contos de ficção científica me saltavam aos olhos, como "Possessão" onde um hacker de mentes assassino é perseguido pela sua presa ou até "Sonhos Febris" que faz uma narrativa da loucura na memória com uma pegada muito philipkdickiana. Contudo, muito me agradei de histórias que não haviam nada de fantástico nem do terror como "Vocação", que é uma história sobre as memórias de um cangaceiro e "Anos Punk" que fala sobre a nostalgia da rebeldia de punk nos seus tempos de garoto. Em resumo, temos uma obra que aborda o tema da memória de forma transversal em várias narrativas. Acredito que tendo isso em mente, e não se prendendo a gêneros, o leitor conseguirá aproveitar melhor essa obra.

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terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Resenha #161 - Humanidade à Deriva (Jean Gabriel Álamo)


"Humanidade à Deriva" é uma antologia de todos os trabalhos que englobam o mesmo universo do autor Jean Gabriel Álamo. Vão desde contos curtos até obras de maior fôlego que já foram resenhadas aqui. Aparentemente apenas algumas histórias tem ligação direta entre si, como as aventuras do bruxo Iago Lima em Feiticeiro de Aluguel e entre "Androides não são Perfeitos" e "Poder Absoluto", mas também há conexões mais sutis como o sistema de magia em alguns contos e contextualização de outros contos como a existência de um grupo chamado Frente Humana. Vamos agora falar de cada conto em separado:

"O Suspiro" é um conto bem curto que abre a coleção. É um relatório deixado por uma civilização que não encontrou mais motivos para continuar existindo e promoveram a sua própria extinção. A narrativa conta como se fosse uma carta deixada em uma garrafa no oceano. Como se trata de um texto curto, é exclusivamente dedicado ao que se propõe. É um conto que vale a leitura, mas que não aprofunda os argumentos, apenas os resume, nem conta mais sobre a civilização que toma essa decisão tão drástica, contudo como já disse, vale a leitura!

"A cidade sob as estrelas" é uma fantasia baseada em cidades míticas. Acompanhamos o mercador atlante Hastur que após perder toda sua mercadoria vai para Arã, na costa da Lemúria e lá conhece o pirata Malarã em um prostíbulo, que lhe faz uma proposta perigosa. O conto faz uma boa imersão neste mundo fantástico em que as cidades míticas existem e filhos de deuses pisam na terra, mas não garante a vitória de ninguém. O conto tem um final ousado e deixa um gosto amargo no final, o que pode fazer você gostar tanto da história quanto eu. Recomendo!

Depois temos as três primeiras histórias do bruxo Iago Lima: "Feiticeiro de Aluguel: Noite em Neon", "Feiticeiro de Aluguel: A Serviço de Exu" e "Feiticeiro de Aluguel: Bruxo Tutelar" que já havíamos resenhado no blogue antes.

"Rastros Invisíveis" conta a história de Max, um vigilante mascarado que após a morte do tio, ex-militar, passa a vagar pelas ruas fazendo justiça com as próprias mãos. Como o próprio autor declara, é um herói de direita. Nessa história, ele decide investigar a morte de um antigo professor da época da faculdade e rapidamente entra numa trama que coloca em perigo com outros professores, num rastro de sangue e perseguições. É uma tentativa de colocar realismo no mundo dos super-heróis vigilantes numa versão fascista, mas sem crítica alguma e para mim não funcionou.

"Cidade das Bonecas" conta a história da detetive particular Luciana Laurindo que aceita o caso de desaparecimento de uma criança, Laís após a descaso da polícia e do fracasso de outros detetives. Conto não escolhe entre a maldade humana e a sobrenatural. Temos os dois neste conto cheio de imagens fortes mas que não se baseia nisso e consegue contar uma história de redenção em um espaço de escrita curto.

"A Magia Negra do Natal" conta a história de um pai que decide fazer um pacto profano para que seu filho tenha um natal feliz. Conto curto, que não permite contar mais sem estragar. Não há tanto espaço para aprofundar ou detalhar as cenas, mas serve de amostra do sistema sobrenatural que já vimos no conto anterior e na série Feiticeiro de Aluguel.

"Admirável roça nova: Um Conto de Cybercoronelismo" Rafael volta a cidade do interior na ocasião de uma doença terminal de sua mãe. Tentando sobreviver, é pego com sua irmã Zoé roubando alimentos na fazenda do coronel dono da cidade e passa a ser alvo de uma perseguição. Típica história do rapaz do campo que volta depois de ser mudado pela cidade e arranja confusão. Tem boas cenas de ação, mas não passa muito disso.

"Sob os domos de aço" me chamou a atenção por se passar em Marte, que é um cenário que sempre me encantou, em um contexto de colonização recente do planeta e conta a história de Sandra, uma mulher que acabou de perder o filho para uma doença nova que está dizimando a população de colonos. Ela desconfia que a causa da doença não é natural e começa uma corrida frenética para encontrar o responsável pela morte do seu filho. A narrativa favorece a ação e consegue colocar um mistério e o cenário com detalhes da vida em Marte foi bem redigido o que deixou o conto imersivo apesar da pouca quantidade de páginas.

"Androides não são perfeitos"

"Poder Absoluto" já tem resenha publicada no blogue!
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segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Resenha #155 - Os Filhos do Pôr-do-sol (Anna Fagundes Martino)

Uma vez que conseguimos entender o universo criado por Anna Fagundes Martino, as histórias ficam mais sutis. A terceira novela da autora chega até 1947, quando Éamonn Dalaney passa a cuidar da casa da família de Stella, onde cria seus filhos Stíofan e Seaghán, híbridos como a mãe deles. A casa passa a se tornar um hospital psiquiátrico onde ex soldados passam por tratamento, mas agora que a guerra terminou o governo está revendo a necessidade de manter o financiamento que lhes permite cuidar dos soldados. Enquanto isso os filhos de Éamonn, tentam manter o segredo de sua origem do mundo feérico de uma freira que chega para ajudar a cuidar dos soldados.

A escrita continua sendo o ponto forte e a sutileza com que a história é escrita, sem procurar caminho mirabolantes, optando pelo mais reflexivo sobre a natureza fantástica do aspecto híbrido dos seres fantásticos que vivem na casa. A forma como a autora trama a existência do fantástico com o mundo real é muito viva e deixa um leve sorriso nos leitores quando concluímos a leitura. Recomendo! 
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segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Resenha #151 - Um Berço de Heras (Anna Fagundes Martino)

"Um Berço de Heras" foi lançado em 2017. A história se passa alguns anos depois (1927) de "A Casa de Vidro" e segue um misterioso homem preso em Belfast acusado de matar um policial que está apavorando os outros presos e carcereiros pelo jardim que brota espontaneamente de sua cela.

A história consegue estabelecer e resolver bem os mistérios e desenvolver melhor alguns personagens da primeira história, reforçando a ideia que "A Casa de Vidro" soa como prólogo. A personagem Stella é quem alavanca a história pois ela convence seu meio-irmão Mark a ver o misterioso homem. O que poderia ser uma história sobre a resolução do mistério, é baseada em revelações do passado, assim como no primeiro livro, mostrando a natureza do homem preso e seus filhos, o que dá mais profundidade a história. 

A escrita é continua muito boa e nesta história o contexto histórico aparece muito mais e aqui a formação acadêmica da autora aparece junto com o talento literário de mesclá-lo com o mundo feérico. O veredito é que valeu a pena continuar a ler essa série, pois Um Berço de Heras é melhor que A Casa de Vidro e as duas histórias combinam muito bem! 
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terça-feira, 1 de setembro de 2020

Resenha #146 - A Casa de Vidro (Anna Fagundes Martino)

"A Casa de Vidro" foi lançada em 2016, sendo o primeiro lançamento da Editora Dame Blache, que entrou no mercado para valorizar a autoria e valorização entre autores de minorias sociais (resumindo grosseiramente) e lançar novos nomes na ficção fantástica e científica. Anna Fagundes Martino, foi o primeiro nome escolhido com sua noveleta, "A Casa de Vidro", que conta a historia de Eleanor em dois tempos distintos: A jovem que se apaixona por um jardineiro misterioso e a senhora que relembra seu passado ao encontrar sua filha.

A história não tenta manter um mistério sobre as natureza fantástica do jardineiro Sebastian e sua habilidade de criar a vida vegetal por onde passa, o que encanta e instiga Eleanor, além de seu jeito autentico e alheio as convenções sociais. O amor entre os dois parece inevitável. Enquanto isso a velha Eleanor encontra pela primeira vez Stella, o fruto desse amor de dois mundos.

O ponto alto do livro é a qualidade da escrita que consegue aclimatar o leitor no cenário bucólico e isolado do interior da Inglaterra, e ainda tem passagens que nos coloca para refletir sobre a vida. Confesso que minha vontade de ver história em lugares inusitados murchou com a escolha batida de uma casa no interior da Inglaterra, mas o fato da autora tem uma história consistente com esse lugar (ela estudou Relações Internacionais nesse país) torna a escolha coerente com sua vivência. Não é o caso de autores iniciantes com histórias fruto de uma mente colonizada, que escolheriam facilmente esse mesmo cenário. Contudo, a história soa como um prólogo de algo maior e carece de alguma surpresa pois tudo que se imagina que vai acontecer, de fato acontece. Como essa história possui, até onde pesquisei, duas continuações, vou apostar minhas fichas nelas. A casa de Vidro sustenta-se como um excelente prólogo, estabelecendo bem as regras deste mundo fantástico (tanto que lerei as sequencias) mas não como uma história fechada em si.
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terça-feira, 14 de julho de 2020

Resenha #140 - Trabalho Honesto (Rodrigo Van Kampen)

Trabalho Honesto (2016) é uma das obras que foram distribuídas gratuitamente (junto de outros ebooks) no início da quarentena e fez parte das minhas leituras durante esse período. É uma novela escrita por Rodrigo Vam Kampen, conhecido pela sua Revista Trasgo. 

A obra é uma mistura cyberpunk com fantasia cheia de mitos brasileiros. Acompanhamos a história do lobisomem Ralphe que tenta se adaptar a vida em nossa dimensão após a abertura de portais para outras dimensões ondem vivem os seres como sacis, unhudos, cucas, botos e, claro, lobisomens. Com dificuldade de conseguir um trabalho normal aceita a oferta de Victor Sombrera para trabalhar em sua agencia de segurança onde suar força é posta a prova serviços perigosos ao lado de Lúcia, filha do seu patrão.

O livro é dividido em seis capítulos que funcionam como episódios, contando uma história isolada e, ao mesmo tempo, uma história maior no pano de fundo. As primeiras histórias ajudam a estabelecer o vínculo entre Ralphe e Lúcia enquanto apresenta as peculiaridades desse mundo. As ultimas histórias vão aprofundando na trama principal que gira entorno de uma máfia em Campinas. A escrita é direta e leve, favorecendo as boas cenas de ação e a interação entre Ralphe e Lúcia que funciona bem durante o livro. É uma excelente leitura de praia para se entreter e conhecer um pouco da fantasia feita com criaturas do nosso folclore.  

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terça-feira, 9 de junho de 2020

Resenha #134 - Vinte e Um (Nelson de Oliveira)

Vinte e Um é uma coletânea de contos de Nelson de Oliveira que junta duas épocas de sua escrita viajando no fantástico e insólito. O livro é um upgrade de Treze lançado em 1999, acrescido de mais oito contos. Predomina aqui o estilo característico de não desperdiçar as palavras em contos curtos que rapidamente te levam a viagens insólitas, ora se valendo da ficção científica, ora do mundo fantástico ou, inclusive, encontrando o fantástico sem evocar nada do sobrenatural.

A primeira parte do livro, os contos originais de 1999, Treze, conta com várias contos curtos que tem sempre algo inusitado. Algum ponto de vista que faça toda a diferença para entender a história ou um personagem fanho. Contos curtos demais para sintetizar sem entregar a graça deles. Contudo, o primeiro é mais longo. "Dies Irae", narra o dia enlouquecido de uma pedinte que se divide entre o amor selvagem e abusivo dos outros pedintes e uma dívida que todos tem com Gideão, um agiota que controla a entrada em um prédio como se guardasse os portões do céu/inferno, onde existem delícias misteriosas para quem pode pagar e horrores inimagináveis e gratuitos. 

Destaco também, "Gorducha" que pinta uma vida em um quadro tragicômico de um distanciamento insuportavelmente suportável; "Não sei bem o que, aqui" é uma cacofonia de sujeitos que são momentos dentro de uma mesma pessoa, funciona como um Divertidamente para adultos; e "Homenagem a Tróia" parece a visão de Cassandra, a vidente amaldiçoada por Apolo, do alto de sua torre obrigada a saber de toda a tragédia que viria sem ninguém que acreditasse nela.

A segunda parte do livro, "Sete" traz os contos inéditos que apesar de seguirem a mesma pegada de contos curtos, são mais criativos. Destaco "Gritos Ocultos" que pinta um drama familiar com os nossos silêncios, alternando falas corriqueiras e pensamentos reveladores e "Pintando o Sete" é um divertido caso de amor com um final muito inspirado. Por fim a última parte do livro Um, com um conto narrando capas de disco de vinil clássicas encarnando na pele de pessoas aleatórias. O estilo de Nelson é uma aula de como escrever contos, tanto na forma quanto nas ideias que nos capturam para a leitura conto a conto.
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terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Resenha #114 - Pequenas Mortes Cotidianas (Paula Gianini)


"Pequenas Mortes Cotidianas" (2017) de Paula Gianini é um daqueles pequenos achados literários dos quais não podemos desperdiçar. Já tinha contato prévio com os contos da autora o que me deu segurança para começar a ler. Paula entrega um livro de contos bem curtos, sem perder a profundidade e com uma coerência de uma coleção de contos deviam sempre ter. 

O tema morte(vida) estão presentes em toda a obra. A morte aparece na forma de perdas e lutos, que invariavelmente nos modificam. A autora usa as mais variadas formas de nos trazer isso: Pontos de vista inusitados, como animais ou uma doente em coma, outras vezes momentos de desespero em linhas de pensamento fluídas, memórias em momentos limite.

Alguns contos já foram publicados na plataforma EntreContos e deixei os links nos títulos, enquanto comento os contos individualmente. Só lembrando que as versões linkadas, ainda não tinham sido revisadas para o livro. Demais contos da autora na plataforma estão aqui, para vocês apreciarem. Então vamos aos comentários individuais dos contos:

"Mariposa" conta as reflexões da breve vida uma idosa que desperta de um coma de muitos anos mas que não consegue se comunicar. Conto se destaca pela perspectiva da protagonista e o conceito do título bem atrelado ao conto. "Com a ponta dos dedos" narra as primeiras sensações de uma menina interagindo com o mundo. Outro conto que soube explorar bem o ponto de vista. 

"Dejavú" conta sobre uma mulher que repensa suas decisões da juventude quando encontra uma Kombi colorida numa autoestrada. "Passarinhos" é sobre Laura, uma menina com o dom de ressuscitar pequenos animais em uma pequena e cruel cidade distante de tudo. Gosto quando o conto abraça o fantástico de forma despretensiosa. "Quase" inverte o rumo introspectivo do livro, até então, e pinta um retrato bem humorado da baixa auto-estima de uma mulher que não percebeu o tempo passar. 

"Mar de vidro" conta sobre a rotina de uma menina bagunceira sob o ponto de vista de um peixinho de aquário. "Porco no rolete" passeia entre o trágico e o cômico nos traumas de uma vegetariana, agora viúva, que se vê obrigada a prestar pêsames em uma família que presenciou seu evento tragicômico com um porco no rolete. "Bob" conto narra sobre o abandono de um cachorro na visão do próprio. Vejo como a morte se encaixa aqui como a morte da empatia por quem dedicamos amor.

"O espeleólogo", usa o inusitado cenário do Camboja para contar sobre um menino que se espelha no seu avô, detalhando suas lembranças que moldam o seu caráter. "A lagartixa" conta sobre a relação de uma transsexual filha de um político e consigo mesma. "De saltos altos" é uma narrativa insólita de uma mulher que não se vê por completo e depende de outra figura para se completar. "(...)" conta das lembranças fragmentadas de uma mulher que observa o mar e encontra uma garrafa com uma mensagem. A forma narrativa do conto é sensível e brilhante. 

"Ossos Largos" narra uma trajetória de baixa auto-estima com um final tragicômico, que nos relembra que o caminho para melhorar não pode excluir a nós mesmos. "Casal Perfeito" mostra o desmoronamento da hipocrisia de um casamento falido no desespero do marido abandonado. É o único homem protagonista e foi moldado de maneira muito crível. "Inventário" conta sobre acumuladora de objetos que repassa sua vida ao vasculhar sua casa procurando uma caixa com maçanetas. O título condensa bem a ideia se reavaliar, e pensar no que não fez durante a vida.

É necessário advertir ao nosso leitor de Ficção Científica, que é uma obra fora do tema do tema do blogue, contudo o livro é uma boa forma de intercalar entre nossas leituras. Vale a pena não apenas pelo flerte com o fantástico, mas pela qualidade desses contos em tão poucas páginas. A recomendação aqui é colocar esse livro na sua lista entre a leitura daquela nova edição de Fundação e de Duna que vale a pena!
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terça-feira, 11 de junho de 2019

Resenha #97 - Planeta do Exílio (Úrsula K. Le Guin)

"Planeta do Exílio" (1966) é junto com "O Mundo de Rocannon" uma das primeiras obras publicadas pela autora e faz parte do ciclo Hainnish que contam histórias que se passam em vários planetas onde a Liga dos Mundos busca intercâmbio cultural com planetas com menos tecnologia e complexidade civilizacional. É possível notar a qualidade da escrita da autora já neste livro do seu segundo livro e, lendo os seguintes, como evoluiu nas posteriores até chegar nas obras de maior sucesso: "A Mão Esquerda da Escuridão" e "Os Despossuídos". 

A história se passe no planeta Eltanin, também chamado de Alterra, 600 anos terrestres depois que a Liga dos Mundos abandonou milhares de colonos sem restabelecer contato novamente. Os alterranos que remanesceram estão definhando lentamente em sua cidade - Landin - enquanto convivem com seus vizinhos, os Tevar. São nativos do planeta ao qual a Liga estabeleceu contato quando da sua chegada mas hoje apenas aturam os alterranos devido as condições climáticas. Existe muito preconceito entre os dois povos, mas a chegada de um inverno terrível, num planeta em que as estações do ano duram uma geração inteira, e uma invasão em massa organizada pelos hostis Gaal, obrigam aos tevaranos e alterranos lutarem lado a lado. Em meio a esse conflito, Hiff Rolery, uma neta do líder tevarano Wold e Jakob Agat, o líder dos Alterranos se apaixonam e tentam selar uma aliança entre os povos para o iminente ataque dos Gaal. Contudo, apenas Agat parece disposto a passar por cima do preconceito para isso.        

A característica mais marcante da obra é a habilidade em misturar Ficção Científica e Fantasia, assim como vimos em O Mundo de Rocannon. A obra é essencialmente Ficção Científica, pois os colonos usam tecnologia avançada ainda que limitada pelas regras da Liga dos Mundos de não sobrepujar os nativos e todo o pano de fundo da própria da Liga dos Mundos. O elemento de Fantasia fica por conta de toda a ambientação e baixa tecnologia do mundo de Eltanin que remete muito a Fantasia medieval. Úrsula consegue mesclar os dois ambientes de forma coesa e escreve tudo isso em personagens com uma boa evolução e complexidade para um livro tão curto. Nesse ponto pode não agradar muito ser curto demais e as coisas se resolverem um tanto rápido, mas levando em conta que é a segunda obra da autora (a primeira foi lançada no mesmo ano) e que as obras seguintes são melhores trabalhadas, nos mostra que Úrsula Le Guin no início de sua carreira ainda é excelente! Enfim, recomendo a obra para quem quer saber mais da Liga de Todos os Mundos, que gosta de uma boa mistura de FC e Fantasia e que quer apreciar uma boa escrita.

Segue a ordem cronológica das obras do Ciclo Hainnish, junto com o ano de publicação de cada obra:
- Os Despossuídos (The Dispossessed) – 1974;
- Floresta é o Nome do Mundo (The Word for World Is Forest) – 1976;
- O Mundo de Rocannon (Rocannon’s World) – 1966;
- Planeta do Exílio (Planet of Exile) -1966;
- A Cidade das Ilusões (City of Illusions) – 1967;
- A Mão Esquerda da Escuridão (The Left Hand of Darkness) – 1969;

- The Telling – 2000;
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terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Resenha #54 - A Metamorfose/O Veredicto (Franz Kafka)

“Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”.

A primeira frase de "A Metamorfose" de Franz Kafka é uma das, se não a mais, geniais da literatura mundial. Em primeiro lugar, é um excelente sinopse jogando o leitor diretamente na trama e, segundo, adianta o estilo direto e seco do autor. Esta secura é uma das formas de mostrar seu amargor em meio a um turbilhão de sentimentos pessoais do autor que transbordam em toda sua obra.

A metamorfose não tem explicação. A desgraça cai sobre Gregor Samsa da noite para o dia mas a máquina não pode parar. Gregor continua tensionado a ir trabalhar, inclusive deseja voltar, mesmo odiando o emprego, enquanto isso todos continuam com suas preocupações. Gregor que antes sustentava a família, agora era literalmente um inválido, porém é indigno até de pena. Nesta forma, contudo, parece livre do emprego e das obrigações o oprimiam e seu aprisionamento no quarto se dá mais pelo sustento que não pode mais prover do que pela sua condição de inseto monstruoso. 

O que fica mais evidente em "A Metamorfose" é sua relação de respeito e ódio de Gregor com o pai. Essa situação é confidenciada, sem o manto da ficção, em "Carta ao pai". Entre essas duas obras, Kafka escreveu "O Veredicto" um conto escrito para sua noiva contando a estória de Bergeman um comerciante que troca cartas com um amigo na Rússia e, por mentir em suas correspondências sobre a sua situação, não sabe se o convida para seu casamento. O conto é um tanto confuso como estória e só faz sentido uma vez entendidos os dilemas de Kafka, que ainda não era tão habilidoso em cobrir seus sentimento, como viria a ser em "A Metamorfose". Ainda sim é um bom conto.

A edição lida para a resenha é a da L&PM pocket contem a novela "A Metamorfose" e o conto "O veredicto". Contém, também, textos analíticos no início e no fim do livro sobre a obra do autor e notas de rodapé que auxiliam leitores pouco iniciantes. Elas apontam as ironias e características literárias de Kafka por todo o texto. Apesar de forçar uma interpretação da obra considero como boas muletas para o leitor.
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domingo, 14 de agosto de 2016

Resenha #38 Conto, Charlotte Sometimes (Fábio Fernandes)

"Charlotte Sometimes" é um conto de Fábio Fernandes pela Editora Draco, que faz parte da coleção Contos do Dragão que são os contos publicados pela editora em formato digital que por vezes aparecem em coletâneas.

A estória se passa em um sonho ou na realidade? O que importa aqui é acompanhar a viagem de Júlio enquanto ele tenta descobrir enquanto testa seus sentidos e suas lembranças com sonhos. A única coisa que ele sabe é que está num bar tomando cerveja. A leitura flui rápida e prende o leitor pelas referências que não são apenas citações mas influências na estória, como a de Philip K. Dick. O final é surpreendente.

O conto possui cerca de 10 páginas e pode ser encontrado de graça aqui e é uma boa pedida para quem ainda não tem contato com livros digitais ou, como no caso deste que vos bloga, não suporta ler muitas páginas seguido no celular ou pc.
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