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segunda-feira, 13 de março de 2023

Resenha #276 Ancestral (Israel Neto)


"Ancestral" é uma space ópera afrofuturista escrita por Israel Neto e lançada pela editora Kitembo em 2021. O primeiro volume entrega uma história ágil que caminha com habilidade por uma construção de mundo complexa abrangendo vários planetas do sistema solar de Rá. São os mundos de Orum, Kemeti, Europe, Inca e Oceânica que juntos formam a presença humana no sistema solar. Em Ancestral, não viajamos para um futuro distante, mas para um longínquo passado ancestral onde a Terra foi povoada por civilizações que hoje consideraríamos avançadíssimas, numa pegada de "Eram dos Deuses Astronautas?" mas carregada com a estética e temáticas afrofuturistas, ou seja, olhando para o futuro mas sem esquecer o passado. Isso está impresso no dilema e no conflito civilizacional no sistema de Rá. 

O corpo central do sistema Rá, está chegando ao ponto onde não conseguirá mais sustentar a vida no sistema e colapsará. Tal crise é irreversível mas isso não significa que os povos cessariam seus conflitos para resolver a questão. Acompanhamos um grupo de cientistas e diplomatas, principalmente de Orum, dedicados a desenvolver a tecnologia de viagem que permita o êxodo para o planeta Terra. Nessa aventura ágil, o autor foi bem habilidoso e conciso na ambientação de cada um dos planetas visitados, não deixando dúvidas quanto as referências usadas. Até porque este é apenas o primeiro volume da saga e logo entendemos que o foco logo se voltará para a Terra, destino da grande viagem.

A leitura é bastante fluída e vai agradar o leitor que gosta de uma boa aventura, mas nem tanto o que deseja tramas densas e carregadas de detalhes. O aspecto introdutório e o gancho no final é o que se pode esperar de um primeiro volume de uma saga, mas a história consegue se concluir e dar algumas respostas sem parecer que o livro acabou no meio. Agora é aguardar o segundo livro! 


  

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segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

Resenha #268 O Último Ancestral (Ale Santos)


"O Último Ancestral" é uma ficção científica afrofuturista de Ale Santos que saiu pela Harper Collins em 2021. O Ale Santos, para quem curte podcast, sabe que ele apresenta o Infiltrados da Cast e do Ficções Selvagens. A obra é o mais recente e, certamente o maior lançamento literário de ficção afrofuturista no Brasil até o momento. Isso já podemos medir pelo alcance que a obra ganhou até o momento. O livro foi lançado pela editora Harper Collins e é um lançamento pouco comum por ser ficção científica, afrofuturista e de autor brasileiro. Elementos que separados já tem dificuldade para ter espaço numa editora grande, combinadas então nem se fala. Mas contra todas as estatísticas, “O Último Ancestral” está ai.

O livro se passa num futuro distante no Distrito de Nagast - que parece ser o Rio de Janeiro – onde acompanhamos Eliah, um ladrão de carros especialista em fugas que vive em Obambo, uma favela onde vivem quase todos os negros, segregados pelo governo de Nagast. Na cidade, dominam o Cygens, ciborgues que rejeitaram seu lado humano, acumulando poder até se tornar a casta dominante da cidade. Eles instauraram uma ditadura segregacionista que persegue a população de Obambo e qualquer manifestação religiosa.

Isso fez com que a fé fosse totalmente esquecida pela população de Obambo e os que demonstrassem qualquer traço de mediunidade eram recolhidos para a Liga da Saúde Mental de nunca mais voltam. É esse perigo que Eliah tem que enfrentar quando sua mediunidade desperta e ele precisa aprender a dominar suas habilidades para defender o povo de Obambo.

O afrofuturismo da obra é bastante evidente quando temos uma obra em que a grande parte dos personagens são negros e que lutam tanto pela própria sobrevivência como também a lutar por algo a mais. Também temos o afrofuturismo na mistura de ficção científica com fantasia que fluiu muito bem na obra. Aliás, ela flui durante a leitura em diversos aspectos. Os elementos fantásticos científicos, na tecnologia Cygen, na estética cyberpunk com tatuagens que ativam equipamentos. O autor não se perde em explicações para unir os elementos tecnológicos e os de fantasia urbana, onde os espíritos se manifestam digitalmente. Tive uma agradável lembrança de Count Zero do William Gibson, onde as entidades da Matrix se identificaram com os loas do Vodum, mas em “O Último Ancestral” o corre o inverso. São as entidades – aqui tiradas das religiões de matriz-africana no Brasil - que se manifestam no mundo digital.

Outro aspecto que me agradou foi o bom uso das gírias pelos Obambos. (algo que se mal feito poderia ter colocado tudo a perder). As falas são ágeis e objetivas, combinando com personagens que, afinal de contas, estão em uma guerra pela própria vida. O sentido de urgência ajuda num livro que é um page-turner (como se diz nos EUA daquele livro que te faz virar páginas, prendendo o leitor). Aliada a linguagem fluida, temos capítulos curtos que nos permitem acompanhar várias linhas narrativas que vão se encontrando ao longo do livro.

Aliás, os personagens secundários são bem bacanas. É muito fácil gostar de Hanna (a hacker cheia de personalidade) e praticamente impossível ficar inferente ao Zero (que fascina como todo anti-herói, inclusive toma para si, o protagonismo em diversas situações ao longo do livro). Vale destacar também o trabalho gráfico do livro, que veio em capa dura, com as primeiras páginas dos capítulos com letras brancas e fundo preto, além das artes muito bacanas e também por um preço razoável em comparação a outros equivalentes.

Contudo temos uma obra que apesar de fechar uma história completa, é a primeira de uma série ou trologia, ou seja, precisaremos de mais livros para fechar a jornada do Eliah. Pessoalmente não gosto do formato de trilogia, que depende de outras obras para contar a história toda do protagonista, mas uma vez que o universo do livro me fisgou, não me resta alternativa a não ser esperar o próximo livro que já tem nome: “A Divindade Digital”. Além de uma sequência o livro tem chances de sair das páginas literárias para outras mídias. E aqui estaremos de olho.
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segunda-feira, 19 de setembro de 2022

Resenha #253 Ubuntu 2048 (Raphael Silva)



"Ubuntu 2048" (2020) é um thriller cyberpunk afrofuturista lançada pela Kitembo, editora voltada a publicar autores negros no Brasil. A obra é voltada ao publico adolescente e é eficiente em divertir e deslumbrar o leitor, com o carisma dos nossos heróis. A filosofia Ubuntu permeia o conto todo sem parecer didática demais e acrescenta a relação de solidariedade e amizade entre os protagonistas, Tsehai e Kinaya.

A história se passa num futuro caótico, repleto de desastres naturais e provocados pelo homem. Apesar da tecnologia ainda ser uma última barreira contra a extinção da humanidade, o seu fim parece inevitável. Os habitantes da cidade de Salvadora não tem permissão para sair da cidade mesmo que seus habitantes sejam obrigados a coletar Méritos para não serem aposentados (como em Blade Runner, um nome suave para assassinato). É aqui que Teshai (ou Tsehai) se vê obrigado a pegar um serviço perigoso para coletar Méritos, para tirar sua cabeça da lista de pessoas a serem aposentados. Sabemos que esse serviço vai colocar Tsehai em mais confusão e no caminho da androide procurada Kinaya. O livro acompanha a jornada de dois marcados para a morte, cheio de ação e carisma dos personagens. Inicialmente temos sequencias de perseguição mas logo o tema das inteligências artificiais toma conta do livro e conhecemos mais da dinâmica deste mundo onde estabelece o objetivo final do protagonista.

É preciso advertir o leitor que é um livro YA (Young Adult) e os personagens adolescentes podem não ser tão interessantes para velhos rabugentos como eu, que ainda assim gostei da construção leve dos protagonistas e da inserção da linda filosofia Ubuntu na história. Infelizmente a parte física da edição tem alguns erros muito difíceis de ignorar. O nome Tsehai estar grafado Teshai na contra capa e a inserção de separação entre os parágrafos e por fim a repetição de um capítulo inteiro, causam um desconforto ao ler a obra. Felizmente a leitura é muito fluída e tudo é muito ágil, o que ameniza os defeitos da edição. Como o mais importante é a história e a experiência da leitura, recomendo Ubuntu 2048!
 
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segunda-feira, 29 de agosto de 2022

Resenha #250 Afrofuturismo: O Futuro é nosso! Vol 2 (Aisameque Nguenge, Alexandre Diniz, Anderson Lima e Israel Neto)


"Afrofuturismo: O Futuro é nosso. Volume 2" da Kitembo Editorial é a sequência que, tal qual o primeiro livro, reunir contos de autores negros que abordem o afrofuturismo. Ainda que não haja nenhuma obrigação dos contos serem FC, nesta edição todos são deste gênero. Basicamente tudo nesta edição está melhor que na anterior. O visual, de forma geral, está mais bonito. Além da ilustração da capa estar sensacional, também há gravuras que abrem e encerram cada um dos cinco contos. A diagramação com detalhes em tema ciber ficou muito agradável. Quanto ao conteúdo literário, temos uma coleção melhor. A decisão editorial de manter poucos contos, considero acertada. Enfim, agora vamos falar sobre os contos individualmente.

Te encontro no futuro (Kinaya) Aya é uma trabalhadora em uma cidade virtual, com estrutura fechada, onde os jovens são mandados de bem cedo para trabalharem sem contato social além do ambiente de trabalho. Então, em uma noite solitária, numa caminhada noturna Aya encontra um jovem que parece saber mais sobre o lado de fora. O conto abre bem a antologia, com um bom mistério desenvolvendo o mundo e ação para concluir o conto.

Como a gente (Junno Sena) Abidemi e Dandara são duas exploradoras espaciais em uma de muitas  missões exploratórias para encontrar um novo lar para a humanidade. Eles estão acompanhadas de Migu31, um robô androide, que as intriga e assusta devido ao sua curiosidade. Gostei como o autor desenvolveu tanto as astronautas como o robô, criando a tensão necessária para validar o final. Meu conto preferido da antologia. 

O último racista (Mateus Domont Fadigas) O detetive Motumbi está no encalço d'O Ariano, um perigoso terrorista que difunde discurso racista pela internet, até que é convocado para investigar a morte de um homem branco e envolvendo seus amigos de infância, Dandara, perseguida pelo Ariano e Kaio, nas investigações. Mistério bem trabalhado em tão poucas páginas e gostei como a tecnologia influi na trama de forma consistente. Muito bom!

A lua em minha palma (Sarah Aniceto) Ayo é uma demibot que devido a sua personalidade livre e inconstante não consegue encontrar sua função na sociedade e acaba fugindo na sua busca por significado. Conto muito bonito e singelo, principalmente pelo carisma da protagonista.

Aye Kekere: A cidade do futuro (Marcello Souza) A ambientação da cidade de Aye Kekere e a motivação do protagonista lembram bastante o clássico A Cidade e as Estrelas, de Arthur C. Clarke, porém com a pegada afrofuturista e um desfecho singelo e bonito.


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segunda-feira, 4 de abril de 2022

Resenha #229 - A Cor do Infinito (Editora Cyberus)



"A Cor do Infinito" é uma pequena coletânea de contos afrofuturistas, contando com apenas três contos. A proposta é sensacional pois é sempre bom ver que o afrofuturismo ter mais publicações e autores diferentes, criando e publicando histórias. Já faz um tempo que estou acompanhando as publicações, como podem notar neste blogue, principalmente dos autores Fábio Kabral e da Lu Ain-Zaila, os mais destacados autores do subgênero.

Nesta pequena coletânea, não há o que posso acrescentar, apenas aprender com os autores que demonstram saber onde querem chegar com o texto. Contudo, no que tange a literatura em si, os contos poderiam estar melhor lapidadas, pois as narrativas estão um tanto brutas. No primeiro conto "O Rei do Congo" de Lia Rodrigues, conta a história de Joel que volta formado em Direito para o interior do Espirito Santo, visitar seus pais passa por um processo de reconexão com suas raízes. A autora capixaba traz uma narrativa envolvente e bonita. Não há muita ficção científica porém o conto é bem conectado com o fantástico fechando bem o arco do protagonista.

Em "Anseio do Rei" de Wilson Carvalho, soa confuso por foca em um momento muito curto num fluxo de consciência do protagonista Nadlu momentos antes de um ritual religioso onde encara uma dúvida sobre usar ou não drogas para desempenho. Pesquisei sobre a festa com o termo usado no conto, Dongada mas achei apenas referência a Congada, que se encaixava na descrição do conto. Não sei se é uma mesma forma de referenciar a mesma festa ou se é outra ou, ainda, se é um erro de digitação. Quando tiver a informação retifico o comentário. Por fim, "O que querem as filhas e os filhos da África?" da gaúcha Diônvera Coelho da Silva, narra uma grande quantidade de eventos, desde o encontro entre o caboverdiano Bonami e a brasileira Aduke que tem uma filha chamada Oyri e seu papel como cientista após a extinção das abelhas. A história é boa porém detalha muito o início dos pais de Oyri e atropela os acontecimentos decisivos com a filha, deixando o conto inconstante. Gostaria de ver uma versão com a segunda metade do conto mais detalhada e extensa para imergir melhor neste futuro bacana de imaginar.

A ilustração da capa de Andrew Derr é muito bonita e chama a atenção para a leitura, porém alguns detalhes da edição poderiam ter sido vistos pela editora, como por exemplo, no último conto. Quando a autor menciona grupos como "ele/ela", é algo simples que uma leitura de apoio poderia ter evitado e isso é trabalho da editora. Também senti falta de um pequeno texto de apresentação da organização do livro e inclusive uma apresentação do editor, afinal quem escolheu e juntou esses contos? Espero ver mais cuidado com os autores nas próximas edições pois são estes detalhes que fazem toda a diferença.
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segunda-feira, 7 de junho de 2021

Resenha #186 - O Caçador Cibernético da Rua 13 (Fábio Kabral)


"O Caçador Cibernético da Rua 13" de Fábio Kabral de 2017 é o primeiro romance de Macumbapunk, (no termo criado pelo próprio) que além de escrever também o divulga - Recomendo alguns vídeos no próprio canal do autor para saber mais. O que posso adiantar é como a construção do mundo aqui faz a diferença. A história se passa totalmente em Ketu 3, um lugar reconstruído após uma invasão alienígena onde vive um povo melaninado que sobreviveu após expulsá-los. A magia e a tecnologia encontram uma mistura que enche a imaginação de imagens vibrantes. Os elementos iorubás e do cyberpunk foram conectados com maestria pelo autor. A cidade cyberpunk como útero podre da civilização, agora floresce pela magia dos ancestrais, mas não sem seus problemas.

Acompanhamos o caçador João Arolê que vive amargurado pelos seus atos do passado a medida que vai reencontrando antigos amigos e inimigos. A história tem muitos retrocessos na juventude de Arolê que remontam seu passado sem pressa. Esses retornos são tão recorrentes, fonte de algumas das criticas negativas que já li por ai, que acabam por se tornar o grosso da história. Arolê é um èmi ẹjẹ, que é o nome dado aos que nascem com o "sangue espiritual" dos antepassados, desenvolvendo poderes (teleporte e telecinése, por exemplo). Quando nascem em famílias ricas costumam ascender a fama e os que nascem pobres são arrancados das famílias e são criados para trabalharem em um esquadrão de elite de assassinos a serviço da Corporação Ibualama. A organização social de Ketu Três, segue a hierarquia do Canomblé, matriarcais e tendo as Casas de Axé, desenvolvidas como corporações.

É nesse esquadrão onde João Arolê conhece Nina Oníṣẹ e Jorge Osongbo, que a medida que aprendem a usar sua habilidades, passam a questionar as missões que recebem. No presente, Arolê busca fugir de seu passado e conhece Maria Aroni e Jamila Olabamiji, que também manifestam poderes, uma para curar e outra inconscientemente para destruir. Como era de se esperar o passado encontra João Arolê e a história no presente fica menos contemplativa, rendendo cenas de ação empolgantes, sem perder o gosto pela viagem a Ketu Três que é muito bem embasada e construída. O enredo é bastante simples mas que ganha muito com a construção do mundo sensacional que certamente rende mais histórias, como de fato já rendeu outra: "A Cientista Guerreira do Facão Furioso" que tem Jamila Olabamiji como protagonista.

"O Caçador Cibernético da Rua 13" vale pela construção de mundo e pela viagem sensorial que proporciona. É mais focado no protagonista, como se fosse um estudo do personagem, o que pode afastar os que gostam de enredos mais elaborados, ainda assim é uma leitura sensacional.


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segunda-feira, 19 de abril de 2021

Resenha #179 - Ìségún (Lu Ain-Zaila)


"Ìségún" é uma novela de ficção científica da escritora Lu Ain-Zaila, que se classifica como cyberfunk, uma variação do cyberpunk. Essa mudança não é apenas lançar moda ou apenas estético. É uma mudança filosófica que faz toda a diferença. A obra faz isso mudando a forma de encarar a distopia.

Distopias, sem querer teorizar muito, é uma forma que a FC retrata o oposto da Utopia, construindo futuros em que tudo deu errado (de forma irremediável) seja por ditadura, tecnologia, catástrofe ambiental ou a combinação de dois ou mais desses elementos. Já a narrativa utópica pressupõe uma história onde a sociedade evoluiu atingindo objetivos que hoje são apenas vontades. A Utopia de Thomas Morus, assim como as distopias clássicas (1984, Farenheit 451, Admirável Mundo Novo e, como gosto sempre de acrescentar, O Conto da Aia), fazem, a seu modo, críticas a sociedade atual, usando modelos perfeitos ou desastrosos. A utopia, porém, é mais que apenas um mundo perfeito. É um horizonte para se perseguir que quando se realiza deixa de ser utopia para ser realidade para então dar vazão a novas utopias no horizonte. Onde Ìségún entra nisso tudo?!

Acompanhamos Zuhri uma detetive do NCCOAH (Núcleo de Combate a Crimes da Ordem Ambiental-Humana) incumbida de investigar a morte do Dr. Diop, um pesquisador da Alphabio Tech. Zuhri percorre os meandros da Cidade Alta e Cidade Baixa em um mundo onde a degradação ambiental fez os poderosos buscarem as áreas mais elevadas para escapar da contaminação radioativa, enquanto a Cidade Baixa vive prensada entre os limites murados da Cidade Alta e a nuvem tóxica que contamina ao nível do mar. Além do mistério do crime, Zuhri precisa entender sua conexão com Ayomide, que veio da África cheio de mistérios ancestrais que tem profunda relação com Zuhri.

Zuhri vive num cenário distópico cyberpunk clássico mas a diferença está além do fato da protagonista ser negra e momentos de afirmação que vão além de retratar o sofrimento (o que já é ótimo) mas no elemento de agregação social entre o povo que vive oprimido. Está na comida boa e barata da Tia Cita; na ajuda que o pessoal do barracão da escola de samba da região dá a Zuhri; na rebeldia da rádio pirata, principalmente por essa rebeldia ser consciente e não ser um grito desesperado. Apesar de a sociedade em geral ter chegado aquele ponto de degradação ambiental e social, diferente das distopias clássicas, ainda há esperança e ela é pungente na vida cotidiana que é mostrada em paralelo a investigação de Zuhri. Essa esperança e esse cotidiano se entrelaça de forma mais orgânica aos mistérios do livro que a própria investigação de Zuhri e é isso que faz a novela brilha, e faz tudo isso sem que a investigação se torne irrelevante.

A escrita flui bem como uma aventura, sem permitir que os aspectos mais profundos da trama pesem a leitura e, tampouco, que a aventura se torne pueril. É uma obra consciente do que fala e sabe onde encaixar essa consciência de forma fluída em poucas páginas. Leitura obrigatória e prazerosa para quem quer conhecer o afrofuturismo e o que está rolando de novo na FC no Brasil.
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segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Resenha #154 - Sankofia: breves histórias afrofuturistas (Lu Ain-Zaila)


Sankofia, como o subtítulo já descreve, é uma coletânea de contos da autora brasileira Lu Ain-Zaila e foi lançado em 2018 de forma independente. A proposta é reunir contos afrofuturistas que se encaixam em gêneros como a Ficção Científica (principalmente), Espada e Magia, Fantasia e afins. Vamos falar sobre os contos em separado!

"Era Afrofuturista" segue uma menina que é levada pelo pai para uma exposição de arte e cultura que tem como tema a presença negra nas artes, principalmente na literatura, num futuro que coloca tudo em retrospectiva. O texto é bastante descritivo, e se lido como um artigo, fica mais interessante pois não há uma trama entre os personagens. É o equivalente escrito a um documentário com dramatização. O ponto central é a ideia de que o afrofuturismo (representado pelo momento presente da menina e sua própria juventude) não existiria sem as contribuições do passado que são representadas pelas atrações do museu. Muitos conteúdos sobre pensadores e artistas importantes, tanto da África quanto da diáspora, tive o privilégio de acompanhar em minha formação em História, e tamanha dimensão desse conhecimento tem chance de encantar os leitores que ainda não conhecem.

"Existência" segue a Dra. Adimu que participa como astro-antropóloga em uma missão de reconhecimento em um planeta desconhecido, mas como já ficamos sabendo nas primeiras linhas, uma forma de vida contaminou quase todos os tripulantes, tornando-os uma unica entidade coletiva. Quando esta entidade toma conta da Dra. Adimu ela trava uma batalha mental tanto para entender a criatura quanto para resgatar sua individualidade, e sobreviver.

"Conexão" temos novamente a Dra. Adimu, desta vez mais nova e inexperiente, quando é convocada para decifrar uma mensagem de alienígenas, mas parece que nenhuma linguagem ocidental ou conhecimento científico seja suficiente para estabelecer contato, obrigando a Dra. a buscar o auxílio de um conselho de anciãos reunidos nas ruinas da Universidade Timbukto, que existiu na antiguidade, no séc. XII.

"Ternodes" é uma região protegida por magia, que por sua vez, é protegida por guardiões da magia. Sela e Iruwa são dois guardiões que são corrompidos por magia maligna, porém Sela consegue se manter fiel enquanto Iruwa se corrompe totalmente e sequestra Jailu para corromper todas as cidades-estado de Ternodes. É um conto bastante curto, com uma história fechada. Gostaria que fosse maior e não tão simples, pois gostei do mundo e do que vi do sistema de magia.  

"A invenção das tranças" se passa num vilarejo na África, e conta a história de duas crianças que encantam cada uma o sol e outra a lua. Quando elas se conhecem melhor, se apaixonam, e acabam ignorando as divindades, estas buscando reaver a atenção delas acabam trazendo problemas no clima do lugar. Um grupo de criaturas busca a ajuda da Amansi, uma divindade aranha que tem uma ideia para ajudá-los. Trata-se de uma fábula e é narrada como tal. Particularmente não gosto de ler fábulas, mas esta vale por vir de uma cultura diferente do que se costuma ver. 

"Admissão"  Narra os momentos que antecedem o teste da jovem Kwili para a Frota Estelar, com base no Congo, de fato democrático. O conto é bastante linear, pinta um futuro muito interessante mas é narrado de forma totalmente introdutória, pois quando parece que vai começar, acabou. 

"Ode à Laudelina" Amma parece que encontrou o trabalho que estava precisando para tirar sua conta do vermelho. Trabalho simples na casa de família, patroa - Pami - educada que lhe dá até um fone de ouvido para que ela escute música no trabalho. Tudo lindo e maravilhoso. Outras mulheres negras também são contratadas. Mesmo trabalho, mesmo fone de ouvido. Tudo lindo e maravilhoso, só que não! A narrativa consegue gerar curiosidade e não tem pressa de revelar a trama e quando o faz, deixa a história frenética e com um final que dá satisfação ao leitor. 

"O Artefato" Anele é uma pesquisadora arqueológica que está em Angola quando recebe um chamado de emergência de seu antigo professor - Dr. Sadiki Odongo - que tem um artefato precioso, quase lendário nas mãos e perseguidores o procurando. O final é abrupto e nos deixa querendo saber o que acontece depois.

"Crianças Vermelhas" Narra o fenômeno relacionado ao povo Dogon e sua relação com o planeta Sirius (vi isso pela primeira vez em VALIS do Philip K. Dick) em que as crianças começam a despertar em toda parte do mundo. Interessante, tanto que é uma pena quando acaba. 

"Fragmentos" seque alguns pequenos textos, fragmentados, reflexivos, sem tentar organizar muito as ideias, passeando pelos temas do livro. É uma forma interessante de encerrar uma coletânea pois busca instigar o leitor para a reflexão, e é seguido por imagens afrofuturistas muito bacanas.
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segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Resenha #150 - Coletânea Afrofuturismo (Junno Sena, Org.)


A coletânea "Afrofuturismo" da editora Recorte foi a primeira das minhas leituras sobre o tema, aproveitando os 30 dias gratuitos de Kindle Unlimited. Aqui são oito contos curtos de autores negros brasileiros, que tem o negro como personagem e tema principais. A introdução me empolgou bastante quando falou da literatura afrofuturista, como uma forma de imaginar e construir um futuro em que os negros estão vivos, o que é particularmente significativo num país onde tantos negros morrem. Fiquei com a expectativa alta por esperar contos de ficção científica (estava na prateleira de FC na Amazon) mas ao ler os contos percebemos que apenas três contos são FC. Lá pela metade do livro já entendi que a temática era outra, então consegui aproveitar melhor os contos, que são bem variados e bem escritos. Então os leitores de FC controlar essa expectativa ou para quem não gosta de FC, se abrir para os contos que são de FC, vão aproveitar melhor os contos. Vamos agora, falar dos contos separadamente: 
 
"Os ensinamentos ancestrais da menina senhora Luandê" (Caena Rodrigues Conceição) conta a história da menina Luandê, que nasceu com maturidade, inteligência de adultos ou divindades e suas mensagens para o povo. Tem um ritmo como se fosse contado por um Griô.

"O reino de Agunttah" (Fernando Gonzaga) é uma ficção científica que conta de Agunttah que vive na cidade Supertrix, uma cidade de uma diáspora interplanetária onde ainda se reverencia a ancestralidade do velho continente africano. O conto desenha um cenário muito interessante, de um povo que vive em harmonia com a natureza e como chegaram até ali. Novamente temos uma história que tem um ritmo de história contada por um griô, o que é ótimo, mas acho que mesmo para um conto curto, faz falta um conflito que movimente a história e não a deixe com cara de introdução a uma história maior.

"Saudades Creitino" (Giovany de Oliveira) Conta a história de Creiton que tem um encontro casual com Djanilton, quando este briga com a namorada pelo telefone. O conto é um slice of life, conta apenas um momento de um dia, um causo que o protagonista vá contar para um amigo e trabalha muito bem com as minucias de uma conquista, uma conversa cheia de descrições dos pensamentos, intenções e gira entorno do não dito, principalmente as hipocrisias diárias da sexualidade.

"O ano?" (Junno Sena) O organizador da coletânea traz um conto que é um drama distópico sobre um fugutivo que depois de ser capturado com o amante passa sofrer a perseguição de um agente da polícia. O clima opressor é bem conduzido e o estabelecimento de uma distopia é feito de forma orgânica no conto. A revelação do final faz uma reflexão bem vinda. Prefiro não falar mais para não estragá-la.

"Indecisão" (Kuku Dada) Conto é um momento do cotidiano, muito curto de uma violência sexual em um transporte coletivo. Foca mais nas sensações e pensamentos da protagonista, em ritmo de confissão e desabafo, e passa bastante autenticidade no cotidiano.

"O futuro negro" (Lorena Nascimento) Outra ficção Científica que narra como um desastre natural favoreceu a morte de quase toda a humanidade menos o povo africano, pelo seu modo de convivência com o clima árido e a melanina da pele. Novamente um cenário muito interessante mas sem apresentar um conflito ou personagens, parecendo mais um texto de apoio para uma história a ser escrita. 

"OMARA OMNIRA" (Margarete Carvalho) Conta a história de entidades que encarnam em negros escravizados na travessia do atlântico. Foca bastante na relação entre eles e sua condição sobrenatural. A revelação no final, me fez querer saber loucamente o que ia acontecer no final.
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segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Afrofuturismo em imagens: conheça a arte que pensa o futuro

Afrofuturismo é uma mistura de ficção científica e cultura africana. Uma filosofia que rege diversos trabalhos de artistas negros na cultura imaginando um futuro onde o cara negro não morre primeiro, ou seja tem protagonsimo. Neste post trago um pequena amostra de imagens feitas por artistas imbuídos desta filosofia, listados aqui. Se curtir o artista, clica no nome e verá mais de sua obra.





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