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segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Resenha #218 - Vislumbres de Um Futuro Amargo (Damaris Barradas, Gabriela Colicigno)


"Vislumbres de Um Futuro Amargo" é uma antologia da Agência Magh, agência editoral independente que promoveu essa antologia por financiamento coletivo no Catarse, na qual eu participei. Infelizmente demoro para ler os livros e ainda mais para publicar minha opinião sobre eles, mas isso não diminuiu minha satisfação com a leitura. São seis contos de autores que já tive algum contato prévio.

A introdução de Roberto de Sousa Causo detalha bastante as bases desta antologia e anuncia muito bem os contos. O futuro amargo que nomeia a antologia é uma forma de colocá-la entre a distopia e utopia. São futuros amargos pois mostram a humanidade cometendo os mesmos erros, apesar da alta tecnologia.  

Antônio do Outro Continente (Anna Martino) se passa na Terra e nas colônias espaciais, estabelecidas em satélites artificiais. A autora entrelaça muito bem a simples história de dois jovens que se apaixonam e tem de lidar com as diferenças culturais. O conto é muito competente em desenvolver os personagens e as diferenças na vida cotidiana nas colônias com a Terra. Quando o conto termina, ficamos com vontade de saber como continua a vida, mas como a vida, ela sempre continua. Achei acertado o final, meio repentino.

Corra, Alícia, Corra (Lady Sybylla) Acompanhamos Alícia, em uma verdadeira corrida pela liberdade. Ela vive em uma instalação e nunca viu o exterior, sabendo somente do que Bianca lhe conta. O conto desenvolve bem o mistério, mas é focado na corrida e pelos sentimentos da protagonista. O final é amargo como o título da antologia, que não me deixa mentir.

Waldson Souza (Eletricidade em suas veias) nos brinda com um conto afrofuturista em que acompanhamos uma criatura artificial colocada para viver na Terra, por um membro de uma raça ancestral. O androide é feito com pele negra o que muda as suas vivências no nosso planeta e se torna veículo de reflexões muito relevantes. Tem uma pegada de Homem Bicentenário, de Asimov, mas escrito para leitores deste século. Meu conto favorito do livro.

Eu, algorítimo (Lu Ain-Zaila) Também trilhando o caminho do afrofuturismo, Lu Ain-Zaila traz uma aventura que entrelaça-se com reflexões que poderiam estar em uma crônica. Acompanhamos Aija, uma cyberativista que é perseguida pelos moradores da sua cidade a mando de uma misteriosa entidade cibernética. O conto é interessante tanto pelo desenvolvimento, e as reflexões, quanto pela aventura. Li devorando as páginas.

O Pingente (Cláudia Fusco) conta a história pelo ponto de vista de uma inteligência artificial responsável por cuidar de uma criança humana e acompanhar seu desenvolvimento. O conto tem um clima de história de Black Mirror, em que aguardamos o momento em que tudo vai dar muito errado, mas o conto toma a trajetória de um drama mais pé no chão, ao invés de um gore para chocar o leitor no final.

Roberto Fideli (SIA está esperando) tudo começa com uma space ópera em que um desastre numa nave leva os sobreviventes a lutarem pela vida em um planeta inóspito e desconhecido. Acompanhamos essa luta pelo olhar da inteligência artificial embarcada na nave, chamada SIA. O conto prende pelos desdobramentos que mudam tudo na história e a deixam muito interessante, sem ficar forçado. Excelente encerramento!

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segunda-feira, 19 de abril de 2021

Resenha #179 - Ìségún (Lu Ain-Zaila)


"Ìségún" é uma novela de ficção científica da escritora Lu Ain-Zaila, que se classifica como cyberfunk, uma variação do cyberpunk. Essa mudança não é apenas lançar moda ou apenas estético. É uma mudança filosófica que faz toda a diferença. A obra faz isso mudando a forma de encarar a distopia.

Distopias, sem querer teorizar muito, é uma forma que a FC retrata o oposto da Utopia, construindo futuros em que tudo deu errado (de forma irremediável) seja por ditadura, tecnologia, catástrofe ambiental ou a combinação de dois ou mais desses elementos. Já a narrativa utópica pressupõe uma história onde a sociedade evoluiu atingindo objetivos que hoje são apenas vontades. A Utopia de Thomas Morus, assim como as distopias clássicas (1984, Farenheit 451, Admirável Mundo Novo e, como gosto sempre de acrescentar, O Conto da Aia), fazem, a seu modo, críticas a sociedade atual, usando modelos perfeitos ou desastrosos. A utopia, porém, é mais que apenas um mundo perfeito. É um horizonte para se perseguir que quando se realiza deixa de ser utopia para ser realidade para então dar vazão a novas utopias no horizonte. Onde Ìségún entra nisso tudo?!

Acompanhamos Zuhri uma detetive do NCCOAH (Núcleo de Combate a Crimes da Ordem Ambiental-Humana) incumbida de investigar a morte do Dr. Diop, um pesquisador da Alphabio Tech. Zuhri percorre os meandros da Cidade Alta e Cidade Baixa em um mundo onde a degradação ambiental fez os poderosos buscarem as áreas mais elevadas para escapar da contaminação radioativa, enquanto a Cidade Baixa vive prensada entre os limites murados da Cidade Alta e a nuvem tóxica que contamina ao nível do mar. Além do mistério do crime, Zuhri precisa entender sua conexão com Ayomide, que veio da África cheio de mistérios ancestrais que tem profunda relação com Zuhri.

Zuhri vive num cenário distópico cyberpunk clássico mas a diferença está além do fato da protagonista ser negra e momentos de afirmação que vão além de retratar o sofrimento (o que já é ótimo) mas no elemento de agregação social entre o povo que vive oprimido. Está na comida boa e barata da Tia Cita; na ajuda que o pessoal do barracão da escola de samba da região dá a Zuhri; na rebeldia da rádio pirata, principalmente por essa rebeldia ser consciente e não ser um grito desesperado. Apesar de a sociedade em geral ter chegado aquele ponto de degradação ambiental e social, diferente das distopias clássicas, ainda há esperança e ela é pungente na vida cotidiana que é mostrada em paralelo a investigação de Zuhri. Essa esperança e esse cotidiano se entrelaça de forma mais orgânica aos mistérios do livro que a própria investigação de Zuhri e é isso que faz a novela brilha, e faz tudo isso sem que a investigação se torne irrelevante.

A escrita flui bem como uma aventura, sem permitir que os aspectos mais profundos da trama pesem a leitura e, tampouco, que a aventura se torne pueril. É uma obra consciente do que fala e sabe onde encaixar essa consciência de forma fluída em poucas páginas. Leitura obrigatória e prazerosa para quem quer conhecer o afrofuturismo e o que está rolando de novo na FC no Brasil.
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segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Resenha #154 - Sankofia: breves histórias afrofuturistas (Lu Ain-Zaila)


Sankofia, como o subtítulo já descreve, é uma coletânea de contos da autora brasileira Lu Ain-Zaila e foi lançado em 2018 de forma independente. A proposta é reunir contos afrofuturistas que se encaixam em gêneros como a Ficção Científica (principalmente), Espada e Magia, Fantasia e afins. Vamos falar sobre os contos em separado!

"Era Afrofuturista" segue uma menina que é levada pelo pai para uma exposição de arte e cultura que tem como tema a presença negra nas artes, principalmente na literatura, num futuro que coloca tudo em retrospectiva. O texto é bastante descritivo, e se lido como um artigo, fica mais interessante pois não há uma trama entre os personagens. É o equivalente escrito a um documentário com dramatização. O ponto central é a ideia de que o afrofuturismo (representado pelo momento presente da menina e sua própria juventude) não existiria sem as contribuições do passado que são representadas pelas atrações do museu. Muitos conteúdos sobre pensadores e artistas importantes, tanto da África quanto da diáspora, tive o privilégio de acompanhar em minha formação em História, e tamanha dimensão desse conhecimento tem chance de encantar os leitores que ainda não conhecem.

"Existência" segue a Dra. Adimu que participa como astro-antropóloga em uma missão de reconhecimento em um planeta desconhecido, mas como já ficamos sabendo nas primeiras linhas, uma forma de vida contaminou quase todos os tripulantes, tornando-os uma unica entidade coletiva. Quando esta entidade toma conta da Dra. Adimu ela trava uma batalha mental tanto para entender a criatura quanto para resgatar sua individualidade, e sobreviver.

"Conexão" temos novamente a Dra. Adimu, desta vez mais nova e inexperiente, quando é convocada para decifrar uma mensagem de alienígenas, mas parece que nenhuma linguagem ocidental ou conhecimento científico seja suficiente para estabelecer contato, obrigando a Dra. a buscar o auxílio de um conselho de anciãos reunidos nas ruinas da Universidade Timbukto, que existiu na antiguidade, no séc. XII.

"Ternodes" é uma região protegida por magia, que por sua vez, é protegida por guardiões da magia. Sela e Iruwa são dois guardiões que são corrompidos por magia maligna, porém Sela consegue se manter fiel enquanto Iruwa se corrompe totalmente e sequestra Jailu para corromper todas as cidades-estado de Ternodes. É um conto bastante curto, com uma história fechada. Gostaria que fosse maior e não tão simples, pois gostei do mundo e do que vi do sistema de magia.  

"A invenção das tranças" se passa num vilarejo na África, e conta a história de duas crianças que encantam cada uma o sol e outra a lua. Quando elas se conhecem melhor, se apaixonam, e acabam ignorando as divindades, estas buscando reaver a atenção delas acabam trazendo problemas no clima do lugar. Um grupo de criaturas busca a ajuda da Amansi, uma divindade aranha que tem uma ideia para ajudá-los. Trata-se de uma fábula e é narrada como tal. Particularmente não gosto de ler fábulas, mas esta vale por vir de uma cultura diferente do que se costuma ver. 

"Admissão"  Narra os momentos que antecedem o teste da jovem Kwili para a Frota Estelar, com base no Congo, de fato democrático. O conto é bastante linear, pinta um futuro muito interessante mas é narrado de forma totalmente introdutória, pois quando parece que vai começar, acabou. 

"Ode à Laudelina" Amma parece que encontrou o trabalho que estava precisando para tirar sua conta do vermelho. Trabalho simples na casa de família, patroa - Pami - educada que lhe dá até um fone de ouvido para que ela escute música no trabalho. Tudo lindo e maravilhoso. Outras mulheres negras também são contratadas. Mesmo trabalho, mesmo fone de ouvido. Tudo lindo e maravilhoso, só que não! A narrativa consegue gerar curiosidade e não tem pressa de revelar a trama e quando o faz, deixa a história frenética e com um final que dá satisfação ao leitor. 

"O Artefato" Anele é uma pesquisadora arqueológica que está em Angola quando recebe um chamado de emergência de seu antigo professor - Dr. Sadiki Odongo - que tem um artefato precioso, quase lendário nas mãos e perseguidores o procurando. O final é abrupto e nos deixa querendo saber o que acontece depois.

"Crianças Vermelhas" Narra o fenômeno relacionado ao povo Dogon e sua relação com o planeta Sirius (vi isso pela primeira vez em VALIS do Philip K. Dick) em que as crianças começam a despertar em toda parte do mundo. Interessante, tanto que é uma pena quando acaba. 

"Fragmentos" seque alguns pequenos textos, fragmentados, reflexivos, sem tentar organizar muito as ideias, passeando pelos temas do livro. É uma forma interessante de encerrar uma coletânea pois busca instigar o leitor para a reflexão, e é seguido por imagens afrofuturistas muito bacanas.
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