segunda-feira, 17 de maio de 2021

Resenha #183 - Até que a brisa da manhã necrose teu sistema (Ricardo Celestino)


"Até que a brisa da manhã necrose teu sistema" é um lançamento independente, via Clube dos Autores, e também romance de estreia de Ricardo Celestino. É um romance que classifico como cyberpunk, apesar das várias particularidades, que misturam elementos trash, numa prosa disposta em formas bastante diferentes, com bastante experimentação, sem deixar escapar a relevância da tecnologia, como numa boa FC. Certamente uma das melhores contribuições recentes da Ficção Científica Brasileira (sim, com iniciais maiúsculas).

Acompanhamos a história de Mário, ou M4594, em sua jornada por uma vida melhor na Orbe Norte em uma São Paulo cyberpunk que leva a sério o punk. Nessa São Paulo, os que não conseguem lugar nessa sociedade são realocados no Complexo Comunitário Reabertura, onde a vida é mais difícil ainda. Mário é apenas um veículo narrativo, um sujeito como qualquer outro, para uma viagem bastante profunda nesse mundo. É apenas mais um habitante que tem a vida registrada e controlada pelo PÁTRIA AMADA, programa responsável por separar os mais aptos a viver na Orbe Norte.

Mário vive a típica história cyberpunk. Um cara fodido que recebe uma proposta boa demais para não ser um mal negócio, e de fato é. O elemento trash, como nos filmes de terror dos anos 1970/80, dá o clima que vemos na ilustração da capa e no clima bizarro onde a principal fonte de proteína é carne humana, e os habitantes do Reabertura podem ser vítimas de carniceiros ilegais. Ricardo conseguiu imaginar tempos piores que a nossa realidade. Algo que o absurdo do trash foi muito eficiente, nos imergindo nessa estranheza e horror, para depois vermos como não é tão diferente do que é e do que pode ser. Um efeito que os ficcionistas tem suado a camiseta para imaginar recentemente. 

A forma é um atrativo a parte. Frases curtas desalinhadas como numa poesia modernista mas que não deixam de ser prosa. São as partes ágeis da leitura. Exigem uma cadência de leitura própria. Esses momentos são alternados com textos em itálico, onde as vezes são inseridos os diálogos de forma indireta. Eu apreciei bastante a novidade, depende do leitor estar aberto ou não a algo novo.

A capa é convidativa a algo mais despojado de reflexão, como eram os filmes o terror trash oitentista, mas o texto é complexo, passa longe de ser leitura de praia, mas isso acontece pela profundidade que o texto de fato tem e não pelo gosto de se prolixo. Isso torna um texto que exige do leitor mas o recompensa quando ele se dispõe a mergulhar na obra. A obra exige gosto pela tecnologia de informação, pelo cyberpunk e um pouco de estômago forte sempre ajuda, porém como disse, é uma obra que recompensa o leitor que decidir imergir nela. Recomendo muito!

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