segunda-feira, 9 de agosto de 2021
Resenha #195 - A Fila (Bazma Abdel Aziz)
segunda-feira, 2 de agosto de 2021
Resenha #194 - Distrito Federal (Luiz Brás)
segunda-feira, 26 de julho de 2021
Resenha #193 - Symetrias Dyssonantes (Luiz Brás)
Minha cópia de Symetrias Dyssonantes fez uma viagem longa até minha caixa de correio. Ficou um tempo inominável num vórtice espaço-temporal ou, explicando para leigos, houve um atraso na entrega. Symetrias Dyssonantes aparenta ser apenas um livro de contos curtos de Ficção Científica, escritos por Luiz Brás, alter-ego de Nelson de Oliveira, e os primeiros contos até passam essa impressão, porém logo a viagem ganha ares lisérgicos em que cada conto a seu modo aplica golpes contundentes nas normas ABNT, explorando a linguagem com rebeldia inspiradora. Contudo, não se trata de uma exploração inconsequënte, pois o domínio do idioma, como dito no texto de quarta capa de Ricardo Labuto Gondim, é seguro.
O primeiro conto, Pupilas douradas, é um diálogo/entrevista com o desenvolvedor de um app que coloca uma IA para nos simular e poupar-nos de certas interações sociais que tanto evitamos. Como é de se esperar nem tudo vai como programado, até porque o programa passa a se controlar. É a primeira dose de ironia dessa vida conectada, seguida de Buscador, que trata de uma funcionalidade premonitória de um navegador ou uma profecia autorrealizável e, também, de Inteligência que contrapõe as maravilhas da tecnologia com os terrores que fazemos a nós mesmos. Em Você sai dois milhões mais pobre da arena dos negócios, começamos as explorações pela metalinguagem com uma versão menos eficaz da casa inteligente do conto anterior.
Presentinhos, foge da linha da FC explorando um caso de amor juvenil sentido pelo olfato. Polaroide é permeado pelo tom de despedida potencialmente suicida. Suspeita é uma conversa de um rapaz sobre uma garota estranha e uma camisinha que viajou no tempo. Manifestação muda o rumo da obra, nos jogando a um jogo de linguagem que nos faz oscilar entre o desejo de liberdade e as contenções que a vida impõe.
Distrito federal, é certamente o conto que originou o livro homônimo lançado pela Ed. Patuá em 2014. O conto é uma catarse de violência de um espírito vingador guiado pelo fedor da corrupção. O conto abre, o que poderia ser considerado uma segunda parte do livro. Com cenários distopicos, abordando um Estado Único e questões de gênero. Sob a cúpula acompanha uma trupe rebelde trans lutando contra o Estado Único e em Hotel extraordinarium explora um hotel tecnológico e deixa liberar a raiva contida e resolver o mistério na última frase.
Symetrias Dyssonantes é liricamente bizarro. Prosa exposta como música, referências a Beatles e Mutantes num portunhol narrando uma batalha épica entre Mapynguari Yabba Dabba Doo e a nuvem-nada. Passa a sensação de que só funciona para ser declamado em voz alta. O conto abre caminho para as loucuras que veem mais adiante, como por exemplo, personagens autoconscientes. O leitor atento vai suspeitar que Luiz Brás tenha passado a autoria deste e do último conto a mesma que assinou a orelha do livro. Revolução do ziper narra em duas camadas como o Estado Único empreende seu plano de dominação até um FIM que é devidamente derrubado por uma revolução. A metalinguagem brilha com um final lindo, ao menos na ficção.
Devorada pelo domingo, acontece em uma biblioteca em que Manuela conhece Tainá, mas ao fazê-lo desobedece a única regra da Velha. Parece se passar no mesmo mundo de Polaroide pois também temos uma Tainá, além dos Eumesmo e Elepróprio. Figuras recorrentes na obra do autor, como no conto seguinte Curto circuito camicase onde uma guerra surreal e uma contagem regressiva trazem uma conexão com o conto anterior e vemos contos que exploram a linguagem e sensações que em enredos amarrados. Saltos altos é frenético como tentar ler centenas de mensagens em poucos minutos e tentar entender o que aconteceu e precisar ler novamente para entender os detalhes.
Este lado para baixo?, Obituário e Fim do lockdown, pourra! são pequenos minicontos cheios de raiva sobe a violência e nosso novo/velho normal, que nos fazem acelerar até Kurupira Maquinaíma alienigenus é o conto mais próximo possível de jogar cripto palavras na revista coquetel. A língua e a literatura se dissolvem sem que o narrador nada possa fazer para evitar. Por fim, [Epylogo] La profana santidad (ou El triunfo del completo y verdadeiro valor de pi) é um acerto de contas entre autor e personagens, narrado naquele portunhol do conto cantado que dá título a obra. É muito divertido ver o seguinte mantra transcender as eras e qualquer tentativa de enquadramento:
Então, fulana, você acredita mesmo que esse é o futuro da ficção? Marionetes que enxergam os fios? Criaturas sem corpo num mundo-fantasma? Personagens autoconscientes nascendo, vivendo, amando, sofrendo e morrendo num emaranhado de textos?
Symetrias Dyssonantes é uma coleção de ideias malucas, metalinguagens, que se tornam prolíficas quando aliadas a FC. Os que fazem questão de leituras (en)quadradas vão odiar suas linhas distorcidas porém não podemos acusar o autor de não tentar chegar até eles. A loucura, na forma, na metalinguagem, na recorrência de personagens é apresentada de forma progressiva.
segunda-feira, 19 de julho de 2021
Resenha #192 - Homo Deus: Uma breve história do amanhã (Yuval Noah Harari)
segunda-feira, 12 de julho de 2021
Resenha #191 - A Arma (Philip K. Dick) - CONTO
segunda-feira, 5 de julho de 2021
Resenha #190 - Arcanjo (William Gibson e Michael St. John Smith)
quinta-feira, 1 de julho de 2021
Não deixe o punk morrer (Davenir Viganon) - OPINIÃO
segunda-feira, 28 de junho de 2021
Resenha #189 - Contos dos Orixás (Hugo Canuto)
segunda-feira, 21 de junho de 2021
Resenha #188 - Por uma vida menos ordinária (Lady Sybylla)
segunda-feira, 14 de junho de 2021
Resenha #187 - As Crônicas de Marte (George R. R. Martin e Gardner Dozois)
quinta-feira, 10 de junho de 2021
Ficção Científica e Brasil: um filme de amor na metade (Davenir Viganon) - OPINIÃO
Texto originalmente publicado no blogue da editora Caligo, na Coluna Asas, para qual escrevo regularmente.
A literatura de Ficção Científica e o Brasil têm um caso de amor complicado. É como naqueles filmes mamão com açúcar. Sabemos que os dois se merecem e, uma vez se conhecendo, se apaixonariam e viveriam juntos, mas passam por uma série de problemas aparentemente bobos. Eu quero acreditar que esse filme existe e com um final feliz por acontecer.
Os motivos para que essa mistura ainda pareça tão atrativa ao grande público quanto uma picanha grelhada batida no liquidificador com banana ou salsicha com leite condensado, já foram pensados antes, e tentarei condensá-los em três.
Primeiro, o Brasil tem uma tradição literária atrelada ao realismo e ao romantismo, que se distanciam da FC, que por sua vez, é mais filha do fantástico. Segundo, a ideia de que pelo Brasil não ser um polo desenvolvedor de alta tecnologia e vivermos a tecnologia apenas na ponta que consume – de segunda mão – nos coloca em desvantagem ou até incapazes de imaginar, debater ou encantar como os autores de FC gringos fazem. Em outras palavras, o velho complexo de vira-latas. Terceiro, o próprio leitor brasileiro que gosta de FC (lembre-se do nosso filme, ainda não há amor aqui), ainda ser muito apegado aos autores clássicos estrangeiros (AsimovClarkeHeinlein) a ponto de não poder/querer acompanhar sequer, os autores estrangeiros atuais, menos ainda brasileiros de FC.
A Ficção Científica é uma das respostas em si, para quem tiver o olhar adequado. É uma forma de enxergar mundos possíveis, lindos, terríveis, ambíguos. Visões potencialmente libertadoras da imaginação. Aquelas que nos impedem de aceitar a realidade repulsiva que nos permeia como algo inescapável ou até aceitável. É um poder de dar um primeiro passo importante para afastar a tacanhice comum do vira-latismo. Entendeu, meu Brasil brasileiro? Os óculos podem até ser importados, mas os olhos não.
Ivan Carlos Regina, com muito mais vigor e habilidade, aborda essa relação no seu Manifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira (1988), na qual reproduzo apenas alguns trechos saborosos.
Precisamos deglutir urgentemente, após o Bispo Sardinha, a pistola de raios laser, o cientista maluco, o alienígena bonzinho, o herói invencível, a dobra espacial, o alienígena mauzinho, a mocinha com pernas perfeitas e cérebro de noz, o disco voador, que estão tão distantes da realidade brasileira quanto a mais longínqua das estrelas. […] Queremos despertar o iconoclasta que jaz em todo peito brasileiro.
Morte aos adoradores de máquinas. Um caipora verde amarelo devora hambúrgueres, destrói satélites, deglute armas e destroça tecnologias. Um índio descerá de uma estrela colorida brilhante.
Os futuros pioneiros dessa aguardada FC já estão por ai escrevendo, publicando, querendo encontrar você, caro leitor, desse meu Brasil brasileiro, para fazer esse filme ter um final bem mais criativo que uma comédia romântica enlatada. Quem sabe, algo mais parecido com um índio descendo numa estrela colorida brilhante.
Davenir Viganon
segunda-feira, 7 de junho de 2021
Resenha #186 - O Caçador Cibernético da Rua 13 (Fábio Kabral)











