segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Resenha #195 - A Fila (Bazma Abdel Aziz)


"A Fila" foi escrito em 2013 e lançado no Brasil apenas em 2018, pela ativista egípcia Basma Abdel Aziz. É uma distopia embalada pelo desgosto com a primavera árabe escrita antes da ascensão da Irmandade Muçulmana no Egito dando ao livro, inclusive um aspecto premonitório senão uma excelente leitura política do país. 

A história acompanha um país árabe não especificado onde o regime totalitário ascende após uma revolução fracassada. O novo governo centraliza até as menores decisões obrigando a população a recorrer ao portão do Edifício Norte, passando a ser conhecido apenas como O Portão. Os personagens principais estão aguardando na fila, com os motivos mais diversos, muitas vezes banais outros com problemas urgentes.

O mais próximo de um protagonista é Yehya Saeed, que busca uma requisição para fazer a remoção cirúrgica de uma bala, desde que foi alvejado durante uma tentativa de tomar o Portão, nos chamados "Eventos Execráveis", contudo o governo nega a existência de tiroteios, logo a bala alojada no corpo e Yehya é negada. Enquanto isso o médico Tarek, que atendeu Yehya lida com o medo de ser apanhado fazendo algo proibido e o desejo de curar Yehya. Acompanhamos outros personagens, como Amani, a namorada de Yehya; Um Mabrouk que explicita a situação das mulheres no Egito, ops digo... nesse país árabe sem nome; um jornalista que organiza alguma resistência e o primo de um dos soldados do Portão que morreu durante os Eventos Execráveis.

O grande mérito de A Fila é como a autor desenha na vida cotidiana dos personagens a influência de um governo totalitário, muito menos pela repressão física e uma presença ameaçadora onipresente, como o clássico 1984 de Goerge Orwell, mas muito mais pelo abandono das necessidades dos seus cidadãos. Isso aproxima A Fila d'O Processo de Franz Kafa pelo absurdo da situação. A obra foi lançada apenas em 2018 no Brasil e infelizmente passou desapercebida. O absurdo do governo do Portão e o drama de Yehya servem de prenúncio macabro do drama de milhares de brasileiros mortos pelo COVID-19, que assim como Yehya, foram pegos por eventos fora do seu controle e são abandonados pelo negacionismo do governo que deveria assisti-los. O Portão brasileiro, consegue ser mais absurdo que o Portão imaginado por Bazma e apesar de todos as negações, segue inabalado no seu absurdo.

Este livro tem resenha em vídeo no Diário de Anarres, no YouTube



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segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Resenha #194 - Distrito Federal (Luiz Brás)


"Distrito Federal" é um autodenominada rapsódia de Luiz Brás que saiu pela editora Patuá em 2014. A rapsódia é narrada como épico em frases separadas. Acompanhamos um curupira, ou a sombra do que um dia foi um, que encarna em um ser humano, passando a trilhar um caminho de vingança contra os político e corruptos caçando e matando um de cada vez, não importa quantos sejam. Eles não podem escapar pois o curupira (que é também um ciborgue) os detecta através de um cheiro terrível que eles exalam e apenas o curupira sente. Ele vem de um cerrado praticamente eliminado pela destruição do meio ambiente como um espírito vingativo. É o cheiro que o incomoda e não qualquer senso ético que o guia. No seu caminho vamos cruzar com vários outros personagens e acontecimentos que vão deixar a história ainda mais carregada de simbologias que vão exigir mais atenção do leitor.

O primeiro é a própria voz narrativa que conversa com o curupira, colocando a narrativa em segunda pessoa, e este nos revela sua identidade apenas nos momentos finais do livro. Outro personagem é o Saci que tem a mesma sede de sangue mas não segue o padrão do curupira e cumpre um papel de oposição e complemento em vários sentidos. Também temos Moema que é uma obtusa (pessoa não-corrompida), que joga um MMORPG chamado Distrito Federal, ao qual ela envolve-se e acumula poder até que ela não é mais reconhecida pelos seus parentes e amigos. Uma menina-menino, que é salva por uma entidade esfera-cubo-pirâmide, que vemos na segunda parte. Outro destaque é a própria cidade que eleva-se a forma de criatura viva num dos momentos mais épicos do livro.

A linguagem é o ponto que tanto pode ser um atrativo ou pode ser um motivo para não ler a obra. A minha experiência com o discurso indireto livre (principalmente Saramago) não é muito boa, porém a forma épica, não apenas na história, mas na escrita dividida em frases de um ou dois períodos, acabou facilitando bastante a leitura para mim. Como pode se esperar de uma narrativa épica, temos construções líricas que nem sempre conseguiremos entender imediatamente, porém as coisas começam a ficar mais fáceis a partir do segundo terço do livro e a história passa a nos recompensar pelas esperas. Distrito Federal é um aviso, um grito selvagem em forma de linhas cantadas. A narrativa em estilo pós-moderno na FC é algo muito positivo porque a forma não costuma ser uma preocupação dos autores e leitores e já estava na hora de aparecer nas obras e Distrito Federal mostra que não precisamos esperar uma obra de fora para isso.

Esta resenha tem versão em vídeo no Diário de Anarres!



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segunda-feira, 26 de julho de 2021

Resenha #193 - Symetrias Dyssonantes (Luiz Brás)


Minha cópia de Symetrias Dyssonantes fez uma viagem longa até minha caixa de correio. Ficou um tempo inominável num vórtice espaço-temporal ou, explicando para leigos, houve um atraso na entrega. Symetrias Dyssonantes aparenta ser apenas um livro de contos curtos de Ficção Científica, escritos por Luiz Brás, alter-ego de Nelson de Oliveira, e os primeiros contos até passam essa impressão, porém logo a viagem ganha ares lisérgicos em que cada conto a seu modo aplica golpes contundentes nas normas ABNT, explorando a linguagem com rebeldia inspiradora. Contudo, não se trata de uma exploração inconsequënte, pois o domínio do idioma, como dito no texto de quarta capa de Ricardo Labuto Gondim, é seguro.

O primeiro conto, Pupilas douradas, é um diálogo/entrevista com o desenvolvedor de um app que coloca uma IA para nos simular e poupar-nos de certas interações sociais que tanto evitamos. Como é de se esperar nem tudo vai como programado, até porque o programa passa a se controlar. É a primeira dose de ironia dessa vida conectada, seguida de Buscador, que trata de uma funcionalidade premonitória de um navegador ou uma profecia autorrealizável e, também, de Inteligência que contrapõe as maravilhas da tecnologia com os terrores que fazemos a nós mesmos. Em Você sai dois milhões mais pobre da arena dos negócios, começamos as explorações pela metalinguagem com uma versão menos eficaz da casa inteligente do conto anterior.

Presentinhos, foge da linha da FC explorando um caso de amor juvenil sentido pelo olfato. Polaroide é permeado pelo tom de despedida potencialmente suicida. Suspeita é uma conversa de um rapaz sobre uma garota estranha e uma camisinha que viajou no tempo. Manifestação muda o rumo da obra, nos jogando a um jogo de linguagem que nos faz oscilar entre o desejo de liberdade e as contenções que a vida impõe.

Distrito federal, é certamente o conto que originou o livro homônimo lançado pela Ed. Patuá em 2014. O conto é uma catarse de violência de um espírito vingador guiado pelo fedor da corrupção. O conto abre, o que poderia ser considerado uma segunda parte do livro. Com cenários distopicos, abordando um Estado Único e questões de gênero. Sob a cúpula acompanha uma trupe rebelde trans lutando contra o Estado Único e em Hotel extraordinarium explora um hotel tecnológico e deixa liberar a raiva contida e resolver o mistério na última frase.

Symetrias Dyssonantes é liricamente bizarro. Prosa exposta como música, referências a Beatles e Mutantes num portunhol narrando uma batalha épica entre Mapynguari Yabba Dabba Doo e a nuvem-nada. Passa a sensação de que só funciona para ser declamado em voz alta. O conto abre caminho para as loucuras que veem mais adiante, como por exemplo, personagens autoconscientes. O leitor atento vai suspeitar que Luiz Brás tenha passado a autoria deste e do último conto a mesma que assinou a orelha do livro. Revolução do ziper narra em duas camadas como o Estado Único empreende seu plano de dominação até um FIM que é devidamente derrubado por uma revolução. A metalinguagem brilha com um final lindo, ao menos na ficção.

Devorada pelo domingo, acontece em uma biblioteca em que Manuela conhece Tainá, mas ao fazê-lo desobedece a única regra da Velha. Parece se passar no mesmo mundo de Polaroide pois também temos uma Tainá, além dos Eumesmo e Elepróprio. Figuras recorrentes na obra do autor, como no conto seguinte Curto circuito camicase onde uma guerra surreal e uma contagem regressiva trazem uma conexão com o conto anterior e vemos contos que exploram a linguagem e sensações que em enredos amarrados. Saltos altos é frenético como tentar ler centenas de mensagens em poucos minutos e tentar entender o que aconteceu e precisar ler novamente para entender os detalhes. 

Este lado para baixo?, Obituário e Fim do lockdown, pourra! são pequenos minicontos cheios de raiva sobe a violência e nosso novo/velho normal, que nos fazem acelerar até Kurupira Maquinaíma alienigenus é o conto mais próximo possível de jogar cripto palavras na revista coquetel. A língua e a literatura se dissolvem sem que o narrador nada possa fazer para evitar. Por fim, [Epylogo] La profana santidad (ou El triunfo del completo y verdadeiro valor de pi) é um acerto de contas entre autor e personagens, narrado naquele portunhol do conto cantado que dá título a obra. É muito divertido ver o seguinte mantra transcender as eras e qualquer tentativa de enquadramento:

Então, fulana, você acredita mesmo que esse é o futuro da ficção? Marionetes que enxergam os fios? Criaturas sem corpo num mundo-fantasma? Personagens autoconscientes nascendo, vivendo, amando, sofrendo e morrendo num emaranhado de textos?

Symetrias Dyssonantes é uma coleção de ideias malucas, metalinguagens, que se tornam prolíficas quando aliadas a FC. Os que fazem questão de leituras (en)quadradas vão odiar suas linhas distorcidas porém não podemos acusar o autor de não tentar chegar até eles. A loucura, na forma, na metalinguagem, na recorrência de personagens é apresentada de forma progressiva.

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segunda-feira, 19 de julho de 2021

Resenha #192 - Homo Deus: Uma breve história do amanhã (Yuval Noah Harari)


"O liberalismo entrará em colapso no dia em que o sistema me conhecer melhor do que eu mesmo me conheço. O que é menos difícil do que pode parecer uma vez que a maioria das pessoas não se conhece realmente muito bem."

"Homo Deus: Uma breve história do amanhã" do historiador israelense Yuval Noah Harari é uma obra muito importante para pensar o futuro da humanidade e, logo, para quem gosta de pensar a Ficção Científica para além da ficção. Esse gênero que tanto amamos e que tanto resenho por aqui, ainda sofre com a falta de atualização dos próprios escritores. Para voar alto e imaginar mundos que extrapolem o nosso é preciso que nossas bases de conhecimento científico estejam minimamente atualizadas, sob o risco de sairmos do terreno da FC sem nem saber disso! Todo esse rodeio foi para justificar essa obra de não ficção em um blogue de FC. Imaginar a história amanhã, não é obrigação para o escritor de FC, mas é inegável que a arte, de uma forma geral, tem a capacidade de antecipar padrões que serão normais no futuro então buscar conhecimento para continuar imaginando e extrapolando é como fazer uma boa fundação, preparando voos mais altos e seguros.

Harari nos traz visões para possíveis rumos da humanidade baseado em tecnologias que estão nos afetando hoje (2016, quando publicou o livro) mas não o faz buscando ser sensacionalista, chocando o leitor. A sua escrita é leve, descontraída sem exageros e sua habilidade em explicar processos complexos faz a obra ser muito agradável de ler. Contudo, suas previsões são de mudanças profundas e podem chocar os mais sensíveis, quando não ofender os mais crentes. Obviamente que para explicar sob quais bases novas o futuro será construído, é necessário mais que apenas recapitular as bases atuais de nossa sociedade, política, religião e economia, mas analisá-las para acompanharmos o próximo passo da humanidade.

A premissa, que dá nome ao livro é que o ser humano dará um passo evolutivo de Homo Sapiens para Homo Deus. É uma afirmação aparentemente poderosa e implica em uma mudança grandiosa, contudo não seria a primeira delas. Para o autor essas mudanças serão causadas pela nova agenda humana que são: A busca pela felicidade; a busca pela imortalidade e a busca pela divindade/poder que substitui a antiga agenda de prioridades da humanidade. Evitar a guerra, a peste e a fome. O autor defende-se de antemão as novas demandas signifiquem que as antigas estejam erradicadas, apenas controladas de forma que não representam um risco imediato para a a vida humana na Terra. Guerra, peste e fome hoje são problemas que a humanidade pode combater e não apenas rezar e esperar uma intervenção divina. Hoje o ser humano consegue suprir as demandas que antes eram feitas a entidades sobrenaturais e neste momento já desenvolve-se a tecnologia que busca alcançar as novas demandas. A imortalidade é considerada apenas uma questão técnica, que quando resolvida elevará o ser humano a amortalidade. A felicidade encontra uma barreira pela expectativa que a conquista gera e as reações químicas que disparam no cérebro e essa pode oferecer uma chave para a felicidade. O poder de realizar o que antes eram apenas pedidos realizados em preces dá o poder para o Homo Sapiens tornar-se Homo Deus.

O autor divide o livro em três partes: na primeira o autor retoma como o ser humano dominou as outras espécies animais, o mundo através da capacidade de contar histórias, ficções, convenções que unem indivíduos que não se conhecem como o dinheiro, a nação e a religião. Mamíferos como o porco ou o macaco são incapazes disso por isso foram dominados. Um exemplo é a narrativa da bíblica de Adão e Eva como forma de narrar a passagem de caçadores-coletores para agricultores.   

Na segunda parte, o autor fala sobre como o humanismo é a nossa religião atual. Religião no sentido de orientar e estruturar a sociedade, dando significado em forma de leis sobre-humanas. Assim as novas neo-religiões (Nazismo, Liberalismo e Comunismo) propuseram soluções para os problemas da humanidade através da ciência: curar doenças, fazer guerra e produzir alimentos. O humanismo fornecia a justificativa ética para que a ciência resolvesse esses problemas. No fim das contas, o liberalismo humanista acabou sendo a forma de humanismo vencedora baseada nos valores do individualismo e livre-arbítrio com os lemas do "cliente/eleitor sempre tem a razão".

A terceira parte é onde, depois de todo embasamento, o autor chega ao seu ponto. Novas tecno-religiões vão substituir o liberalismo humanista na busca e conquista da própria agenda (divindade, imortalidade e felicidade) pois os valores do livre-arbítro e do individualismo se perderão pelos avanços tecnológicos. A extrapolação disso gerará duas novas religiões: O tecnohumanismo e dataismo. A primeira busca usar a tecnologia para manter o ser humano útil enquanto o dataísmo, tira a centralidade do ser humano e coloca no fluxo de dados e informação e o ser humano é apenas uma parte e o nosso significado é apenas para dar existência das máquinas. O meio para aumentar o fluxo de dados é através da internet das coisas e promover uma integração sem limites. Fica os questionamentos sobre se os organismos são algoritmos e a vida processamento de dados. Também sobre a inteligência e a consciência e os destinos da política, economia e sociedade quando os algoritmos nos conhecerem melhor que nos mesmos.

É importante mencionar que o autor traça o nosso futuro baseado apenas nas extrapolações do que tem se desenvolvido até o momento. Qualquer exercício de futurismo, por melhor embasado que seja, não pode prever tecnologias que ainda não foram inventadas como por exemplo o nosso mundo digital. Muitas obras de FC são facilmente contextualizadas como antigas por conta da tecnologia analógica. De qualquer forma o exercício é válido principalmente porque é muito bem embasado e nos ajuda a pensar a sociedade hoje mais que a futura.  
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segunda-feira, 12 de julho de 2021

Resenha #191 - A Arma (Philip K. Dick) - CONTO


"A Arma" é um conto de Philip K. Dick, traduzido por Laura Scaramussa Azevedo e publicado diretamente na plataforma Amazon e faz parte do projeto de traduções de obras de domínio público Literatura Descoberta, onde há muitos contos clássicos como Edgar Allan Poe, H. G. Wells, Rudyard Kiping, Ambrose Pierce, Mark Twain. Infelizmente não há muitos contos de Ficção Científica na coleção, mas o projeto gráfico simples e bonito e a boa tradução (ao menos neste conto) valem a pena, principalmente se você assina o Kindle Unlimited.

O conto narra uma nave exploratória que chega a um planeta desconhecido e é alvejada por uma arma enorme. Os sobreviventes da nave decidem explorar e se arriscar chegar perto da misteriosa arma e descobrem que não há ninguém vivo para ser protegido pela arma e que ela opera de modo totalmente automático. Conto antibelicista ao mostrar a estupidez da arma e muito corajoso da parte do autor, tendo em vista a tradição dos EUA em relação a armas de fogo. O conto é curto e a leitura vale a pena pela reflexão e o final tem aquela criatividade que já conhecemos do autor!    
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segunda-feira, 5 de julho de 2021

Resenha #190 - Arcanjo (William Gibson e Michael St. John Smith)


"Arcanjo" é a primeira HQ criada por William Gibson, que escreveu essa história inicialmente como um roteiro para o cinema. A história certamente daria um ótimo filme pela ação e carisma dos personagens (quem sabe isso não acontece, um dia...) e parte deste carisma está na arte de Butch Guice. A história é sobre viagem no tempo e mesmo que essa não seja muito complexa, o roteiro conseguiu explicá-la sem desperdiçar muito espaço, abrindo espaço para a ação que move o enredo.

Acompanhamos vários personagens e começamos em um 2016 alternativo onde um desastre nuclear global colocou o Coronel Henderson como presidente vitalício (um ditador, obviamente) dos EUA e seu filho (Henderson Júnior) parte em uma missão no tempo para a Alemanha já derrotada em 1945 para controlar "nossa" linha do tempo, em resposta, a Major Torres lança uma missão para impedir os planos dos Henderson, mas o bombardeiro B-2 se choca em pleno ar com um esquadrão de B-52. O piloto sobrevivente é aprisionado num quartel estadunidense na Alemanha. Então a oficial do Naomi Givens é incumbida de buscar informações sobre o acidente com o Capitão Vince Mathews, um antigo caso que não terminou bem. Começa então um jogo de perseguição e busca pela verdade que pode transformar o nosso futuro tão terrível quanto o 2016 comandado pelos Henderson. Outros personagens de destaque são o Alemão Fritz, um refinado sobrevivente do Holocauso (por ser gay), que conhece os caminhos secretos das ruas para ajudar Naomi; e o agente soviético Yerenkov, retratado quase como sempre se retratam os soviéticos, sisudo e desconfiado, mas longe de ser um vilão automático. Aliás, é uma constante de William Gibson não se render a dicotomia cansada da Guerra Fria para ambientar esse período. Recomendo essa HQ para quem curte FC, viagem no tempo e o trabalho de Gibson mais focado na aventura sem perder a inventividade do autor. 
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quinta-feira, 1 de julho de 2021

Não deixe o punk morrer (Davenir Viganon) - OPINIÃO


O cyberpunk é meu subgênero favorito da Ficção Científica, desde que vi pela primeira vez (quando era um guri nos anos 90) aquele mundo escuro de Blade Runner, cheio de riqueza e pobreza coexistindo em caos. Com o passar do tempo, surgiram muitos gêneros derivados dele; o primeiro, o steampunk, foi criado pelos próprios expoentes do cyberpunk, William Gibson e Bruce Sterling, mas algo se perdeu nas quatro últimas décadas.

Antes de externar minha quase indignação/lamento, vamos desmontar um pouco essas engrenagens, ou chips se preferirem. O cyberpunk que conhecemos surgiu nos anos 1980 nos EUA, como um movimento literário na Ficção Científica. Referiam-se a si mesmos apenas como O Movimento e buscavam novos ares para o gênero, contrapondo-se à Era de Ouro da Ficção Científica, marcada por heróis virtuosos, conquistando o espaço, combatendo monstros como William Gibson criticou em seu conto, The Gernsback Continuum, de 1981. Nesse conto, um fotógrafo encontra-se com um casal, esteticamente muito parecidos com personagens de Flash Gordon, série que representa bem a FC que os cyberpunks buscavam contrapor. O fotógrafo do conto refere-se ao casal como algo saído de um pôster de propaganda nazista. Os cyberpunks buscavam novos caminhos para a FC, que incluíssem falar de sexo, política e drogas abertamente, pelo prisma das ciências sociais e humanas, não apenas das ciências exatas.

A rebeldia e a atitude dos punks são os elementos cruciais do que viria a se chamar cyberpunk. O termo é uma mistura, a grosso modo, da palavra cyber, que remete a tecnologia e punk, no sentido de pessoas marginalizadas da sociedade, impressas no lema “High Tech, Low Life”. Uma atitude desacreditada em um mundo que se pauta na alta tecnologia e baixa qualidade de vida. Expor essas contradições sociais, por meio da pervasividade da tecnologia é o centro da abordagem política do cyberpunk. Passadas quatro décadas, o cyberpunk acabou se tornando realidade em muitos aspectos.

No início dos anos 90, os dois maiores expoentes do cyberpunk, lançaram A Máquina Diferencial. Uma obra retrofuturista numa Inglaterra vitoriana, ou seja, recriou um momento do passado (o sucesso do invento de Charles Babbage, por exemplo), caso algo acontecesse diferente de nossa história. Na obra, ainda se fazem presentes os elementos de rebeldia e a relação com a tecnologia. O nome steampunk fazia sentido na obra, pois ela guarda muitas semelhanças na essência com Neuromancer, obra essencial do cyberpunk.

Tanto o cyberpunk quanto o steampunk extrapolaram os limites da literatura. A estética cyberpunk dominou o cinema de ação, de Blade Runner a Matrix, e a estética oitentista de uma maneira geral. O steampunk, se não tão famoso, trilhou um caminho que, na literatura, o aproximou da Fantasia, e ganhou espaço entre cosplayers encantados com a estética (neo)vitoriana. Algo se perdeu. A estética suja de fuligem e fumaça dessa Inglaterra vitoriana que nunca existiu tornou-se algo limpinho e elegante, que em nada tem da atitude e rebeldia punk, que Gibson e Sterling escreveram em A Máquina Diferencial. É triste ver o sufixo punk em algo que muitas vezes não tem nada de punk. Estética pela estética. Poderia ser apenas retrofuturismo e não haveria nada de essencialmente errado nisso.

Contudo, nem tudo está empapado de beleza e estilo. Especificamente na literatura, podemos acompanhar várias obras brasileiras de steampunk que mantêm viva a rebeldia, a contestação e a atitude que fazem jus ao punk desse subgênero tão amado. Mais especificamente ainda, as obras steampunks de Eneias Tavares, A. Z. Cordenonzi e Nikelen Witter. São histórias retrofuturistas, cheios de personagens marginalizados com destaque e respeito, escritos com habilidade e referências histórias que deixam maravilhado este historiador que vos escreve. Tudo isso sem perder a atitude e a rebeldia que me fazem gostar tanto dessas visões semeadas, há quarenta anos, por Gibson e Sterling. Concluo clamando aos leitores e escritores que não deixem o punk morrer como um sufixo vazio.

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segunda-feira, 28 de junho de 2021

Resenha #189 - Contos dos Orixás (Hugo Canuto)




"Conto dos Orixás" de Hugo Canuto, começou com uma brincadeira onde o autor desenhou supostas capas de revistas de heróis da Marvel, onde, ao invés da mitologia Nórdica, os personagens seriam baseados na mitologia Ioruba (a saber uma das mais influentes nas religiões de matriz africana no Brasil). As capas homenageavam o traço clássico de Jack Kirby, fazendo alusões as capas clássicas dos anos 1970, a era de prata dos quadrinhos nos EUA. A atenção que as capas despertaram incentivaram o autor a criar uma história e uma campanha no Catarse para tirar o projeto do papel e colocar, bem no papel! O projeto de financiamento foi um sucesso tremendo, chegando a terceira edição com facilidade. Felizmente para mim, que perdi os dois primeiros financiamentos, consegui participar do terceiro. E hoje vamos falar sobre como ficou o trabalho!

A primeira coisa que chama a atenção é como Hugo conseguiu ao mesmo tempo transformar uma homenagem a Jack Kirby em algo perceptível e ao mesmo tempo colocou elementos originais. O estilo colorido e vibrante combinou muito bem com as divindades iorubas. A história tem como herói principal Xangô, senhor dos trovões, que seria o equivalente a Thor (bem, vamos parar com as comparações). A mitologia ioruba é muito rica e tem uma cosmogonia muito bonita e complexa para abarcar um universo inteiro de histórias. Depois de uma introdução rápida, temos conhecemos o vilão Ajantala e a seu exército que chama de Manada, que destrói vilarejos impiedosamente e usando de magia para aumentar seu exército. Logo ficamos sabendo que ele busca uma cidade sagrada coberta de ouro mas sua localização é um segredo. Os sobreviventes deste último ataque buscam a cidade de Oyó Ilé, capital de um poderoso império, auxílio para se proteger da Manada. Ai conhecemos o herói principal, o Rei Xangô e a Rainha Oyá que aceitam ajudar os sobreviventes daquele povoado.

Não convém avançar demais na história, posso adiantar que ela é simples, com heróis e vilões bem delimitados, como eram as histórias da Era de Prata, bem alinhado com o que entendemos por histórias em quadrinhos. A profundidade que encontramos está na imersão na mitologia ioruba que é apresentada com simplicidade e competência nesta HQ. É redundante falar de representatividade sobre este projeto tanto para os negros quanto para quem tem algum envolvimento com alguma religião de matriz africana, pois acredito que estes tem tudo para apreciar a HQ, contudo, é válido para qualquer um que aprecia histórias em quadrinhos pois nos oferece um mundo novo para explorar e admirar. Espero que o projeto ganhe novos números o quanto antes!   

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segunda-feira, 21 de junho de 2021

Resenha #188 - Por uma vida menos ordinária (Lady Sybylla)


"Por uma vida menos ordinária" de Lady Sybylla, é a segunda novela da saga da Amaterasu que iniciou em "Deixe as estrelas falarem" (que já lemos e resenhamos no blogue), acompanhamos Rosa Okonedo, capitã envolvida num dilema que divide sua preocupação constante com a tripulação e a vontade incontrolável pelo perigo. Essa vontade é despertada quando em visita a uma velha amiga, ela se depara com uma corrida ao tesouro desconhecido que pode render um lucro imenso ou levar a nave e a tripulação para a ruína.

Nesta segunda história a autora fez uma abordagem completamente diferente da primeira. Em "Deixe as estrelas falarem" temos a narração em primeira pessoa na visão de Rosa, numa história mais intimista focada na capitã e que demora mais para engrenar no enredo. Aqui temos um início empolgante com uma cena do meio da história, instigando a curiosidade do leitor, depois retorna para narrar os momento que levaram todos até ali, para só então, concluir. Particularmente eu preferi essa estrutura, que valorizou os outros membros da tripulação deixando cada um ter seu momento de brilho. O efeito mais bem vindo é a vontade de ler cada vez mais histórias com a Amaterasu. A escrita continua segura e habilidosa. Gosto de imaginar essa série vários em pequenos livros colecionáveis como os Perry Rohdan, mas com um universo que enxerga o futuro com muito mais lucidez. Que venham mais!  
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segunda-feira, 14 de junho de 2021

Resenha #187 - As Crônicas de Marte (George R. R. Martin e Gardner Dozois)


"As Crônicas de Marte" é uma coleção de contos organizada por George R. R. Martin e Gardner Dozois. Marte é o cenário de todos os contos e é um assunto que sempre me encantou, ainda que seja pelos motivos diferentes que os leitores mais antigos. George R. R. Martin explica bem, na introdução, o sentimento de fascínio que o planeta gerou nos primeiros leitores de Ficção Científica. Marte ambientou histórias de civilizações antigas, invasões alienígenas, antes das primeiras sondas, as Mariner, nos anos 1960 e 70 acabarem com qualquer aura de magia e o sonho de encontrar vida em Marte, da mesma forma que em Vênus e Mercúrio. George R. R. Martin cita a trilogia marciana de Kim Stanley Robinson como a obra mais relevante escrita sobre Marte após as descobertas do início da corrida espacial. Obra que em nada relembra os tempos de ouro da FC. O objetivo da coletânea é trazer histórias que retomem aquela inspiração e imaginação que havia sobre o Velho Marte, o planeta conforme era sonhado antigamente. Confesso que não partilho do mesmo fascínio, pois não vivi aquele tempo, apesar de adorar As Crônicas Marcianas de Ray Bradbury, o Marte de Kim Stanley Robinson e de Andy Weir me atraem mais. Vamos ver conto a conto, como ficaram essas histórias. 

"Sangue Marciano" (Allen M. Steele) - Acompanha Ramsey, um guia turístico nascido e criado em Marte em um trabalho para o astrobiólogo Dr. Al-Baz que veio em busca de uma amostra de sangue de um shatan, aborígene original de Marte, para por a prova uma teoria. O conto prende pelo protagonista esperto e pela contraposição aos colonos de Marte e pela composição do povo original que ficou interessante. Um paralelo óbvio mas bem construído dos tempos de colonização.

"O patinho feio" (Mathew Hughes) - Fred Mather é um arqueólogo que trabalha para a companhia de mineração New Ares em Marte, preparando o terreno para grandes máquinas (Leviatãs) que separam os minérios, terra e insumos orgânicos de antigas cidades de marcianos autóctones. Porém o real interesse de Mather é conhecer aquela civilização que foi extinta quase que ao mesmo tempo da chegada dos terráqueos. Mather faz descobertas que o colocam em constante vigilância de seu chefe, Red Bowman. O conto tem um final aberto e quase decepcionante mas a exploração e a imaginação para essa civilização marciana compensam e salvam o conto. É o segundo conto consecutivo que segue a linha de paralelo entre a colonização de Marte com a colonização do continente americano.

"O acidente do Mars Adventure" (David D. Levine) - Conto narra a história do Capitão William Kidd que prestes a ser executado por pirataria recebe um perdão real, contanto que faça uma missão exploratória até Marte, junto com o o filósofo Dr. Sexton em um barco movido a balões, velas e remos! A premissa chega a ser engraçada em comparação com o que sabemos hoje mas é muito coerente com o que se sabia há mais de um século, e também com o espírito aventureiro dos colonizadores. Neste conto não temos o ele o elemento crítico como das duas primeiras histórias o que deixou o conto uma aventura engraçada mas pueril.  

"Espadas de Zar-tu-Kan" (S. M Stirling) - O conto se passa numa Marte ocupada por uma maioria de nativos em choque cultural com os humanos colonizadores. Seguimos Sally e Teyud, uma humana e uma marciana coerciva (mercenária) em uma missã de resgate a um colega de quarto de Sally, um cientista chamado Beckwoth. Em meio a aventura, ricamente narrada, temos um cenário que parodia os filmes orientais e bons momentos de ação. Muitos contos dessa "velha Marte", tem o pano de fundo do colonialismo e do choque cultural, talvez o autor tenha apenas trocado o choque cultural com indígenas da América do Norte pelos chineses atualmente. Seja como for, o conto vale pela ação e é bem escrito.

"Bancos de areia" (Mary Rosenblum) - O conto tem como protagonista um menino com problemas cerebrais e é pelo prisma dele que temos que coletar informações para entender o mistério do conto. A leitura exige mais atenção do leitor. O que se perde em fluidez ganhamos em satisfação a medida que vamos entendendo o desenrolar do conto. Difícil não lembrar do Charlie de Flores para Algernon, pois mesmo não sendo um relato em primeira pessoa, nem epistolar, temos a relação conflituosa de quem é tido apenas como um "retardado". Jorge, um dos mineiros, tenta traduzir o que Maartin sabe mas a incompreensão é a tônica do conto, tanto entre Maartin e as pessoas, quanto da sociedade, voraz por riquezas e as verdadeiras riquezas do local. 

"Nas Tumbas dos Reis Marcianos" (Mike Resnick) - Depois de um conto mais complexo, temos uma aventura arqueológica leve e fluida em busca de uma tumba secreta de um rei antigo milenar. Acompanhamos Scorpio, um mercenário da Terra e seu amigo venusiano Merlin, que apesar de andar sob quatro patas, é um telepata inteligente. Ambos aceitam um trabalho de Quedipai, um estudioso marciano atrás de uma tumba que apenas ele acredita existir de verdade. O grosso do conto é uma aventura no melhor estilo Indiana Jones espacial. A interação entre os personagens é divertida e faz as 42 páginas passarem muito rápido. 

"Saindo de Scarlight" (Liz Wiliams) - Acompanhamos Zuneida Peace, uma caçadora de recompensas que se disfarça de homem (Thane) e aceitou o trabalho de Houlsen para recuperar Hayfre, uma princesa de uma tribo, que era mantida trancafiada por Houlsen até quem um feiticeiro de Ithiss a raptou. Nessa perseguição ela encontra várias surpresas em um mundo que poderia encaixar-se em qualquer fantasia mas apesar das liberdades que a autora se dá em uma coletânea de FC, o conto se sobressai pela boa construção dos personagens. Zuneida é forte mas não é uma guerreira treinada ou especialmente habilidosa mas uma mulher que se vira da maneira que pode e isso se molda organicamente a história.

"Os manuscritos do fundo do mar morto" (Howard Waldrop) - Conto relata uma viagem de forma epistolar. Tanto de quem faz a viagem no presente como trechos e comentários sobre uma viagem passada. A vantagem do relato em primeira pessoa é muito bem explorada pela parcialidade da visão do protagonista que não sente necessidade de se descrever, e isso só acontece no final o que torna tudo muito surpreendente e satisfatório. Conto sucinto, sincero e elegante.

"Um homem sem honra" (James S. A. Corey) - Conto com narração epistolar, acompanhamos o relato  do capitão Lawton para a Sua Majestade de uma aventura, um embate com o capitão Smith dos mares do Atlântico até dos desertos marcianos atrás de um metal mais precioso que ouro. A escrita epistolar é coerente com as aventuras planetárias, aliás é a proposta da antologia. O conto esconde muitos ganchos de outras aventuras, nos deixando com vontade de saber mais, mesmo sem ainda terminar essa aventura, e consegue marcar bem os coadjuvantes como o jovem Carter, La'an que é de uma das espécies de Marte e da valente Carina Meer. O conto ainda deixa um questionamento sobre o que é a Honra e caráter, uma vez que Lawton é o desonrado que salva o dia, enquanto Smith que segue um estrito código de honra, é capaz de cometer atrocidades. Questionamento que expõe, a meu ver a contradição e a hipocrisia do pensamento europeu no período colonial.

"Escrito no pó" (Melinda M. Snodgrass) - Conto é um drama familiar transposta para um cenário de Ficção Científica. Acompanhamos Tilda, uma menina dividida entre a obrigação do legado da família e a vida que ela deseja. Stephen, avô de Tilda, é um viúvo amargurado pela solidão e pela perspectiva de ver seu legado (a fazenda) perdido por falta de quem o leve para frente. Seu filho Kane é casado com Noel, um militar e estão em Marte para ficar com Stephen após perder Catherine (mãe de Kane), e sua segunda esposa Mikaiko. O que era para ser provisório acaba dividindo o casal depois que Kane, influenciado pelo pai, decide que todos não devem criar raízes em Marte. Além da família dividida, pois Noel e Tilda querem sair de Marte e Stephen e Kane querem a vida da fazenda, temos os sonhos de Tilda que levam a uma cidade proibida onde as pessoas morrem e voltam nos sonhos dos vivos. A narrativa constrói os personagens com profundidade pelos seus desejos e conflitos, e direciona o leitor até o ápice onde a decisão de Tilda. Outro destaque é o casal homossexual, Kane e Noel, que é retratado de forma simples como deveria ser sempre.

"O canal perdido" (Michael Moorcock) - Este conto tem um clima de western muito envolvente, pela solidão do protagonista que teve de se virar pois a outra alternativa era a morte. Então, para Mac roubar e matar é apenas um meio de não morrer. Temos um herói improvável escolhido entre eras de possibilidades para uma missão de extrema importância. A história tem um ritmo irregular pois tem um infodump que toma 1/3 da obra. O conteúdo é interessante mas não deixa de ser infodump por causa disso. Ainda assim, o conto vale a leitura porque o estilo do autor é muito agradável. Falando nele, o autor é uma lenda na FC mas é incrível que tenhamos tão pouco dele traduzido para a língua de Camões, além da sua série de Fantasia Elric.

"A pedra do sol" (Phyllis Eisenstein) - Aqui a autora foca no relacionamento familiar como em "Escrito no pó", mas aqui disfarçado de escavação arqueológica. A procura de Dave, quando chega a Marte, é por seu pai, e quando ele descobre que ele há havia falecido decide terminar o último trabalho de seu pai com a ajuda de Rekari, um marciano nativo que estava com seu pai nos seus últimos momentos. As revelações e o desenvolvimento da história são sensíveis e recompensadores par ao leitor.

"Rainha do romance barato" (Joe R. Landsdale) - Outro conto focado no relacionamento familiar. Tal qual no conto anterior, o pai da protagonista está morto aqui ele morre na frente dela enquanto estavam em uma missão de transportar vacinas contra uma doença pela área congelada de Marte. Eles nos são apresentados apenas pelos sobrenomes (King). A menina King, decide levar o corpo do pai e precisa passar por provações para sobreviver e salvar as vidas das pessoas que precisam da vacina. Apesar de morto o pai King aparece o tempo todo nas lições e treinamento que refletem nas ações da filha. É como seu seu pai só pudesse morrer mesmo depois que a menina sobrevivesse. Uma boa aventura e, de brinde, uma reflexão sobre a função dos nossos ritos de passagem. Ah e a filha King ainda consegue tempo para encontrar segredos milenares de Marte. Vale a leitura!

"Marinheiro" (Chris Roberson) - Outro conto de piratas em Marte. Aqui temos menos galhofa e alguma tentativa de fazer um cenário mais coerente no "Velho Marte". Os piratas navegam pela areia e convivem com a degradação dos canais de água que agora são bolsões isolados. Esses lagos são basicamente como as ilhas na Terra. São porções onde a civilização ainda respira por aparelhos. Nesse cenário o pirata humano, Jason Carmody (o único "pele-rosada" em Marte), a bordo do seu Argo, luta para ser aceito enquanto tenta ajudar refugiados de uma nação autoritária do norte que estão para serem vendidos para a nação plutocrática do sul. A questão é levada a cidade livre dos piratas que leva a um confronto com um antigo desafeto de Jason. O cenário riquíssimo apresentado pelo autor deixa um gosto de querer ler mais aventuras neste mundo, ironicamente a mesma sensação deixada pelo outro conto de pirata dessa antologia.

"A ária da rainha da noite" (Ian McDonald) - COnto que encerra com chave de ouro a antologia. Escrito pelo autor de Brasyl (que infelizmente foi mal recebido por aqui) que nos mostra personagens cativantes em cenários inusitados. Acompanhamos dois músicos lorde Jack, um excelente músico em decadência e seu fiel Faisal, que além de tocar piano, também é um faz-tudo e muleta psicológica de Jack. Acompanhamos o ponto de vista de Faisal. O estilo de vida de Jack deixou ambos falidos e agora para pagar suas dívidas eles topam fazer shows para soldados que estão na linha de frente de uma guerra e acabam em meio ao conflito sangrento lutando para sobreviver. A relação dos dois é um dos pontos altos do conto. Faisal tem uma atração que se divide entre a admiração pelo talento e a sexual por Jack, que por usa vez consegue enxergar uma beleza na guerra que Faisal não vê e fica deprimido por saber que nunca terá a mesma percepção que Jack. Somando isso ao final surpreendente temos uma visão da guerra interessante, de alguém que não está diretamente vinculado a nenhum dos lados.

Neste vídeo que fiz no Diário de Anarres no YouTube, eu falo do livro de forma geral:


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quinta-feira, 10 de junho de 2021

Ficção Científica e Brasil: um filme de amor na metade (Davenir Viganon) - OPINIÃO

Texto originalmente publicado no blogue da editora Caligo, na Coluna Asas, para qual escrevo regularmente. 

A literatura de Ficção Científica e o Brasil têm um caso de amor complicado. É como naqueles filmes mamão com açúcar. Sabemos que os dois se merecem e, uma vez se conhecendo, se apaixonariam e viveriam juntos, mas passam por uma série de problemas aparentemente bobos. Eu quero acreditar que esse filme existe e com um final feliz por acontecer.

Os motivos para que essa mistura ainda pareça tão atrativa ao grande público quanto uma picanha grelhada batida no liquidificador com banana ou salsicha com leite condensado, já foram pensados antes, e tentarei condensá-los em três.

Primeiro, o Brasil tem uma tradição literária atrelada ao realismo e ao romantismo, que se distanciam da FC, que por sua vez, é mais filha do fantástico. Segundo, a ideia de que pelo Brasil não ser um polo desenvolvedor de alta tecnologia e vivermos a tecnologia apenas na ponta que consume – de segunda mão – nos coloca em desvantagem ou até incapazes de imaginar, debater ou encantar como os autores de FC gringos fazem. Em outras palavras, o velho complexo de vira-latas. Terceiro, o próprio leitor brasileiro que gosta de FC (lembre-se do nosso filme, ainda não há amor aqui), ainda ser muito apegado aos autores clássicos estrangeiros (AsimovClarkeHeinlein) a ponto de não poder/querer acompanhar sequer, os autores estrangeiros atuais, menos ainda brasileiros de FC.

Quer mais drama que impede essa união feliz? Ainda herdamos os preconceitos que a Ficção Científica enfrenta nos EUA, de que se trata de uma literatura menor que nunca deveria ter saído das revistas pulp dos anos 20 – onde Hugo Gernsback cunhou o termo Science Fiction. Sendo assim, a FC é uma tradição literária importada do mundo anglófono – Estados Unidos. Apreciá-la seria vira-latismo? Nossa, parece que esses dois nunca vão ser felizes, meu deus ex-machina! Não temam, românticos e fantásticos amigos. As respostas, como em todo filme mamão com açúcar, estavam na cara de todo mundo o tempo todo.

A Ficção Científica é uma das respostas em si, para quem tiver o olhar adequado. É uma forma de enxergar mundos possíveis, lindos, terríveis, ambíguos. Visões  potencialmente libertadoras da imaginação. Aquelas que nos impedem de aceitar a  realidade repulsiva que nos permeia como algo inescapável ou até aceitável. É um poder de dar um primeiro passo importante para afastar a tacanhice comum do vira-latismo. Entendeu, meu Brasil brasileiro? Os óculos podem até ser importados, mas os olhos não.

Ivan Carlos Regina, com muito mais vigor e habilidade, aborda essa relação no seu Manifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira (1988), na qual reproduzo apenas alguns trechos saborosos.

Precisamos deglutir urgentemente, após o Bispo Sardinha, a pistola de raios laser, o cientista maluco, o alienígena bonzinho, o herói invencível, a dobra espacial, o alienígena mauzinho, a mocinha com pernas perfeitas e cérebro de noz, o disco voador, que estão tão distantes da realidade brasileira quanto a mais longínqua das estrelas. […] Queremos despertar o iconoclasta que jaz em todo peito brasileiro.

Morte aos adoradores de máquinas. Um caipora verde amarelo devora hambúrgueres, destrói satélites, deglute armas e destroça tecnologias. Um índio descerá de uma estrela colorida brilhante. 

Os futuros pioneiros dessa aguardada FC já estão por ai escrevendo, publicando, querendo encontrar você, caro leitor, desse meu Brasil brasileiro, para fazer esse filme ter um final bem mais criativo que uma comédia romântica enlatada. Quem sabe, algo mais parecido com um índio descendo numa estrela colorida brilhante.

Davenir Viganon

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segunda-feira, 7 de junho de 2021

Resenha #186 - O Caçador Cibernético da Rua 13 (Fábio Kabral)


"O Caçador Cibernético da Rua 13" de Fábio Kabral de 2017 é o primeiro romance de Macumbapunk, (no termo criado pelo próprio) que além de escrever também o divulga - Recomendo alguns vídeos no próprio canal do autor para saber mais. O que posso adiantar é como a construção do mundo aqui faz a diferença. A história se passa totalmente em Ketu 3, um lugar reconstruído após uma invasão alienígena onde vive um povo melaninado que sobreviveu após expulsá-los. A magia e a tecnologia encontram uma mistura que enche a imaginação de imagens vibrantes. Os elementos iorubás e do cyberpunk foram conectados com maestria pelo autor. A cidade cyberpunk como útero podre da civilização, agora floresce pela magia dos ancestrais, mas não sem seus problemas.

Acompanhamos o caçador João Arolê que vive amargurado pelos seus atos do passado a medida que vai reencontrando antigos amigos e inimigos. A história tem muitos retrocessos na juventude de Arolê que remontam seu passado sem pressa. Esses retornos são tão recorrentes, fonte de algumas das criticas negativas que já li por ai, que acabam por se tornar o grosso da história. Arolê é um èmi ẹjẹ, que é o nome dado aos que nascem com o "sangue espiritual" dos antepassados, desenvolvendo poderes (teleporte e telecinése, por exemplo). Quando nascem em famílias ricas costumam ascender a fama e os que nascem pobres são arrancados das famílias e são criados para trabalharem em um esquadrão de elite de assassinos a serviço da Corporação Ibualama. A organização social de Ketu Três, segue a hierarquia do Canomblé, matriarcais e tendo as Casas de Axé, desenvolvidas como corporações.

É nesse esquadrão onde João Arolê conhece Nina Oníṣẹ e Jorge Osongbo, que a medida que aprendem a usar sua habilidades, passam a questionar as missões que recebem. No presente, Arolê busca fugir de seu passado e conhece Maria Aroni e Jamila Olabamiji, que também manifestam poderes, uma para curar e outra inconscientemente para destruir. Como era de se esperar o passado encontra João Arolê e a história no presente fica menos contemplativa, rendendo cenas de ação empolgantes, sem perder o gosto pela viagem a Ketu Três que é muito bem embasada e construída. O enredo é bastante simples mas que ganha muito com a construção do mundo sensacional que certamente rende mais histórias, como de fato já rendeu outra: "A Cientista Guerreira do Facão Furioso" que tem Jamila Olabamiji como protagonista.

"O Caçador Cibernético da Rua 13" vale pela construção de mundo e pela viagem sensorial que proporciona. É mais focado no protagonista, como se fosse um estudo do personagem, o que pode afastar os que gostam de enredos mais elaborados, ainda assim é uma leitura sensacional.


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