segunda-feira, 25 de julho de 2022

Resenha #245 Fuligem (Evelyn Postali)


"Fuligem" é um romance policial de Evelyn Postali que traz uma trama envolvente em que os personagens são submetidos a pressão de resolver um crime que parecia fadado a ficar sem solução. O grande trunfo da obra é o tratamento psicológico dado aos personagens que nos coloca em dúvida sobre quem está do lado de quem. 

A história começa com a investigadora de Polícia Civil, Estela Lopes, chegando de Caxias do Sul para Porto Alegre, Rio Grande do Sul e logo é recebida pelo preconceito por Alexander Medina, seu novo parceiro. Medina tem um grande caso não resolvido que acaba caindo no colo de Estela. O assassinato de Tim Harlet, jornalista inglês que trabalhava para um jornal que investigava um figurão rico chamado Evilásio Prates. Quando Estela começa a encontrar novas pistas para o caso, envolve-se com Benjamin Müller, filho adotivo da vitima.

As coisas complicam quando o envolvimento amoroso de Estela por Müller, desperta o ciúmes de Medina e segredos cabeludos. O grande trunfo da obra é que os envolvimentos e conflitos amorosos e sentimentais se mesclam perfeitamente a trama, a medida que a investigação avança, pois realmente me confundiu sobre quem seria o assassino. Quanto ao desenlace, teve alguns momentos que poderíamos chamar de clichê, que quando bem feito é muito bom e ainda reservou umas surpresas. Ainda que a história tenha um encerramento, sem pontas soltas, podemos aguardar uma sequência. Espero que venha!  
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segunda-feira, 18 de julho de 2022

Resenha #244 Brasa 2000 e mais Ficção Científica (Roberto de Sousa Causo)


"Brasa 2000 e mais Ficção Científica" de Roberto de Sousa Causo é uma antologia, parte da coleção Futuro Infinito, muito representativa da versatilidade do autor, principalmente na Ficção Científica, retirados de diversas publicações. Como fã do trabalho do autor, foi muito bacana encontrar contos de publicações antigas e, por vezes, difíceis de encontrar. O livro celebrou isso da mesma forma que Fanfic, de Bráulio Tavares, lançado na mesma coleção. Vamos falar dos contos em separado.

A primeira parte Aqui, Agora, Futuro Próximo, trouxe contos com especulações e reflexões mais envolvidas com nosso presente. "Infiltrado" é narrado num fluxo de consciência que ao mesmo tempo que nos envolve numa sensação de fuga e nos entrega, aos poucos o contexto desta fuga entregando tudo na última frase. Uma aula de como não colocar infodump nas histórias e usar isso em favor dela para deixá-la mais instigante. 

"A mulher mais bela do mundo" conta sobre um fotógrafo brasileiro que encontra sua satisfação estética suprema e vê sua obra apreciada por um emissário do espaço. Adorei a forma como o debate entre o estético e o essencial é tratado aqui, num conto com desdobramentos instigantes.

"O salvador da pátria" um soldado acorda após um acidente aéreo, que vitimou todos os outros tripulantes. Contudo ele é auxiliado por uma indígena que lhe incumbe uma última missão. O conto se passa na floresta amazônica, um cenário muito caro ao autor que já escreveu uma trilogia de romances sobre a Amazônia. A índia logo revela-se vinda do futuro e a missão ganha uma importância extrema, contudo ainda coube espaço para uma discussão sobre o que afinal de contas é o Brasil. Mais do que fornecer qualquer resposta determinista, temos um punhado de boas reflexões que valem tanto quando a ação bem narrada, costumeira dos escritos do autor. 

"Pré-natal" acompanhamos Paulo, que busca proteção na ONU para proteger um segredo de Estado de uma nação totalitária. Seus segredo tem um potencial único de acabar com o domínio de um ditador aparentemente Imortal. De fato seria um pesadelo, existir um país assim, não é verdade?!

"Brasa 2000" acompanhamos uma fuga de um soldado, único sobrevivente do seu esquadrão em uma São Paulo devastada pelo exército argentino munido de drones estrangeiros. Menos importante que as grandes movimentações militares e tramas políticas, esta é uma história sobre um soldado lutando para sobreviver, a condições que ele não criou.  

A segunda parte, Tupinipunk, é um termo cunhado pelo próprio autor que é basicamente uma visão brasileira do cyberpunk. O primeiro conto é "A luta do Cangaceiro Jedi" que narra uma breve aventura de um hacker que disfarça grandes roubos de dados com atos puramente rebeldes. Vemos a abordagem tupinipunk florescer ao modo de falar brasileiro, no contra ponto do protagonista conversando com uma estrangeira russa bem politizada.    

"Para viver na barriga do monstro" o autor retorna a Amazônia para mostrar um indígena que trabalha em um centro de pesquisas em meio a uma pane tecnológica de escala global. Junto com sua namorada carioca e um colega estadunidense, vemos todos exibirem seu interior na eminência de um apocalipse tecnológico.

"Vale-tudo" é uma dos dois trabalhos de mais fôlego do autor neste livro. Acompanhamos Jareen, uma jornalista americana que vem ao Brasil para entrevistar um apresentador de programas policiais, ex-lutador de Vale-tudo (nome antigo para o MMA) André Mattar. Após um atentado durante a entrevista, Jareen se vê em meio a uma disputa política, rebeldes e um Brasil parcialmente destruído após um desastre nuclear. Vemos novamente o autor trabalhando as peculiaridades do Brasil contraponto com algum personagem estrangeiro, aqui a protagonista.  

A terceira parte contém apenas dois contos Steampunks curtos, que servem como homenagens, primeiro a H. G. Wells, em "A vitória dos minúsculos" onde a invasão dos tripods acontece no Rio de Janeiro e em "Dactilomancia", acompanhamos um inventor de máquinas de datilografia em busca da máquina perfeita quando suspeita da existência de seres de outro mundo habitando entre nós.

Por último e não menos importante, a última parte é uma Space Ópera que reúne seus dois personagens principais de suas sagas interestelares. Jonas Peregrino e Shiroma em "Tengu e os assassinos", uma noveleta que exemplifica bem a riqueza do mundo espacial do autor. Peregrino está em uma missão para salvar uma herdeira de uma dinastia nipônica, mas ela é perseguida por perigosos assassinos. Durante a missão o autor explora bem todas as variáveis, das políticas até as táticas. O resultado é a solidez e imersão nas histórias.
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segunda-feira, 11 de julho de 2022

Resenha #243 Estrela Vermelha (Aleksandr Bogdanov)


"Estrela Vermelha" de Aleksandr Bogdanov é um livro raro, pois poucos os envolvidos naqueles anos revolucionários na Rússia até a vitória da revolução se dedicaram a escrever ficção e menos ainda Ficção Científica. O autor teve uma formação intelectual muito vasta, da medicina passando pela matemática e física, contudo sua Ficção Científica, plenamente satisfatória no quesito hard também era muito sensível no aspecto social e humano. Esses dois aspectos são muito bem alinhados em Estrela Vermelha.

Acompanhamos a história de Leonid, contada por ele próprio através de um longo relato de sua experiência incrível. Leonid, assim como o autor, é um revolucionário do PSDR (Partido Social Democrata Russo), um bolchevique da velha guarda, que recebe um convite estranho de um colega estranho, que logo se mostra um marciano, chamado Menny, recrutando Leonid para visitar marte. Quando este aceita, segue um panorama pela vida e organização social do planeta vermelho, que aderiu ao comunismo. Mais do que uma mera exposição das conquistas do povo marciano Leonid é apresentado também ao lado sensível dos habitantes, incluindo um romance com Netty, a médica da expedição que o trouxe da Terra.

A escrita em forma de relato, é bastante rica em percepções do personagem que não deixa de ser trabalhado emocionalmente pelo autor. Inclusive, as partes mais interessantes, não são as técnicas como a especulação da radiação, recém desenvolvida por Mary Curie e as naves imaginadas escrupulosamente pelo autor. O desenvolvimento do amor e dos sentimentos numa sociedade comunista são brilhantemente imaginados. Antes de pensarmos em "amor livre", temos Bogdanov tecendo considerações avançadíssimas para seu tempo. Imagino como devia ter sido arrojado para os leitores de sua época, pois ainda hoje a leitura tem momentos de frescor tanto em aspectos sociais, quanto em aspectos das ciências duras.

O que pode desagradar eventualmente o leitor é que a trama não se movimenta muito no meio do livro, e depois de um início bastante movimentado e de um final curto mas também agitado, tem um desenvolvimento mais lento. Contudo é uma obra curta e que pode ser lida em uma ou duas sessões de leitura atenta. Recomendado!
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segunda-feira, 4 de julho de 2022

Resenha #242 O ciclo do macaco (Clare Winger Harris)


"O ciclo do macaco" de Clare Winger Harris é uma das histórias da autora que surgiu nas antigas revistas pulp dos anos 1920 nos Estados Unidos e que está sendo celebrada pela editora Cyberus com vários lançamentos de contos na Amazon. Este é um dos contos que foram lançados e o segundo da autora resenhado aqui.

Em O ciclo do macaco" acompanhamos a saga da família Stoodart quando na década de 1910 Daniel decide iniciar um empreendimento de domesticação de símios e macacos para substituir a mão de obra humana para trabalhos braçais e em poucos anos já obtém sucesso com algumas espécies, até que Beta o gorila mais inteligente e forte entre os animais de Daniel começa a se rebelar. Apesar do desfecho trágico a família Stoodart não desiste de levar o experimento adiante. Passa-se três séculos e os macacos estão em quase todas as posições de trabalho. Os macacos passam a se organizar e ensaiam uma revolução para sair do jugo dos homens mas Wil Stoodart, um descendente direto de Daniel, é o único que desconfia dos planos dos macacos.

A fórmula do conto lembra bastante as já conhecidas das revoluções das máquinas e me lembrou bastante "O Planeta dos Macacos" de Pierre Boule, no sentido de organização dos macacos mas sob um prisma diferente, o do confronto. Algo que só vi nos últimos filmes baseados na obra de Boule, onde uma humanidade enfraquecida tem de lutar contra os macacos em ascensão. Obviamente temos as limitações das extrapolações da literatura pulp de FC dos anos 1920. Levando-se isso em consideração é possível embarcar na viagem e ver um "protótipo" do filme Planeta dos Macacos: o confronto.
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segunda-feira, 27 de junho de 2022

Resenha #241 Contos Reversos (Romy Schinzare)


"Contos Reversos" da Romy Schinzare é um livro de contos da autora, pela Editora Patuá, participante da antologia Outros Brasis da Ficção Científica, onde podemos ver seu total domínio da narrativa curta. Temos contos de terror, ficção científica e alegorias muito intrigantes que ficam ainda melhores no conjunto pois não tem como saber o que esperar dos contos até que a autora queira que você saiba.

O livro abre com dois contos alegóricos: "Ministério da Solidão" e "O Prédio". O primeiro se passa num mundo tomado pelos homens-bananas e sua rápida proliferação, sempre flutuando ao sabor do mercado e, depois, com a rotina de um prédio onde a evolução se alcança de bípedes para quadrúpedes. Em "O colecionador" um homem atormentado por uma herança de família, num conto cheio de imagens bem construídas. "Ms. Liberty" é outra alegoria, que embora menos complexa é cheia de fúria e paixão, quando narra uma breve desventura da Estátua da Liberdade indignada com o mau uso de seu conceito.

"Os robôs de Marte" é a primeira FC do livro e tem o sabor daquelas antigas FC sobre Marte, em que imagens e reflexões vão se acumulando na cabeça do leitor. "Canal 66" parece um terror saído da série Além da Imaginação tanto na criatividade quanto no suspense no desenvolvimento. "Buraco de Minhoca" volta a FC com a viagem insólita de um cosmonauta russo e seu regresso do espaço não menos insólito e saindo da Rússia para os EUA, com a mesma desenvoltura "Operação Baltimore" narra um suspense sobre uma organização que combate a KKK. Sem aviso algum, voltamos ao nosso quintal, a autora nos joga no misterioso caso de "O Vampiro de Sta Efigênia" no Brasil, que ganha tons tragicômicos quanto mais perto do desenlace chega. 

"O Baile" temos um conto insólito de uma dançarina, que poderia ter saído de um sonho, apenas para ser imergido em um pesadelo em "Ookie Dookie" onde um jovem casal se depara com uma cidade turística. No embalo do estranho e do fantástico, "Moça Enularada" nos dá um rapa em nossas expectativas ao contar a história de um ET que visita fazendeiros mineiros. Agora em meio a tecnologia da cidade grande "Rede ZZZ" nos faz uma pergunta simples: e se tudo parasse de funcionar?

O livro encerra com duas histórias com criaturas fantásticas. "Oziris" onde uma raça estelar convive em meio aos humanos de forma secreta, num conto bonito e emocionante, contrapondo violentamente com "Mutantes" que tem uma narrativa frenética na busca por um emprego em meio a transformações involuntárias.
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segunda-feira, 20 de junho de 2022

Resenha #240 Floresta é o nome do mundo (Úrsula Le Guin)


"Floresta é o nome do mundo" da Úrsula Le Guin é o terceiro livro do Ciclo Hainnish que chega ao Brasil em Português-BR, já havia sido traduzido em Portugal pela Europa-América. Foi uma excelente notícia pois estava difícil imaginar, que a Editora Aleph iria voltar a publicá-la mesmo já tendo publicado "A Mão Esquerda da Escuridão" e "Os Despossuídos".

Acompanhamos o encontro civilizacional dos Humanos da Terra com os nativos de Athshe. Distante 27 anos da Terra, os colonos da Terra impõe uma dominação brutal, ao modo europeu com os nativos indígenas. Da intenção para extrativismo, ao uso de trabalho escravo, os athesheanos não conhecem o uso da violência para aqueles que reconhecem como humanos (ou yumanos, na língua deles) enquanto que os colonos reduzem a animais, chamando-os de "creechies" - de criatura.

Apenas Raj Lyubov demonstra interesse em um intercâmbio cultural com os nativos. Dessa forma conhece Selver que após ter sua esposa estuprada e morta por Don Davidson, o típico brucutu que tem prazer na violência e mostra ao longo do livro como é desprezível. São esses os três narradores que intercalam a obra. Selver tem um papel crucial pois sua vivência o coloca como líder de uma revolta que pode por em risco a colônia yumana e nem uma comissão de emissários de outros planetas parece ser capaz de frear essa onda de violência que se anuncia.

Os hainianos, são a raça originária dos povos retratados nas obras de Le Guin, inclusive os humanos da Terra, porém essa civilização perdeu contato com suas colônias e elas se esqueceram umas das outras, de forma que todos são humanos. Em "Floresta é o nome do mundo" estamos no início da criação da Liga dos Mundos, com base na criação do anísvel, uma máquina capaz de comunicação interplanetária instantânea. Contudo, nem mesmo a jovem Liga pode evitar o confronto que se anuncia. Chama a atenção a relação dos athesehanos com os sonhos que os colocariam como um dos seres mais importantes para a Liga dos Mundos.

De volta a obra, Úrsula foi muito competente em colocar os dilemas ambientais, do colonialismo, ecologia em uma obra tão maravilhosa como triste, como de fato foi a história do colonialismo europeu, mas que pelo seu caráter ficcional, infelizmente envelheceu bem, permanecendo atual, pois uma vez que aprendemos algo, não podemos mais voltar atrás. 
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segunda-feira, 13 de junho de 2022

Resenha #239 - Diário Simulado (Delson Neto)


"Diário Simulado" de Delson Neto foi a minha primeira aquisição de livro exclusivamente digital, uma vez que a Plutão Livros tem trabalhado apenas neste formato. Um marco pessoal pois, desde que adquiri meu leitor Kindle, li apenas livros gratuitos e pelo sistema de empréstimo Kindle Unlimited. Como não poderia deixar de ser, essa aquisição foi um cyberpunk brasileiro. Subgênero que sempre estou catando algo para ler e não me decepcionei aqui.

Acompanhamos Shura, que vive em Nova Avalon, num futuro indeterminado. Após cair no fogo cruzado, durante um atentado terrorista, ela se vê no meio do conflito. Recrutada tanto pelo departamento de polícia quanto pelos neodruidas. Shura é uma personagem muito bem construída, antes de mais nada, pelas suas reflexões em forma de diário antes de cada capítulo. Durante a história, Shura se mostra impulsiva, reprimindo emoções em meio a vida atribulada. Nenhum de seus familiares de sangue, a ajuda, e ela encontra esteio emocional apenas em Violet, sua namorada, que serve de contraponto para sua impulsividade, que aflora quando as duas estão longe uma da outra. Já em Trisha, sua melhor amiga, a apoia em tudo, ainda que essa amizade não tenha sido tanto posta a prova.

Shura vive no limiar do real em um mundo tomado por simulações, sendo que para os neodruidas, ela é imposta como forma de opressão, o que dá ares de Philip K. Dick a obra. Contudo, não temos uma escrita prolixa sobre o mundo das simulações, mas boas reflexões que entranham-se com muita coesão no mundo futurista. Acredito que acima de tudo temos uma boa história em um livro bom tanto para novatos quanto veteranos na FC.
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segunda-feira, 6 de junho de 2022

Resenha #238 - A quinta dimensão (Clare Winger Harris)


"A quinta dimensão" de Clare Winger Harris é uma das histórias da autora que surgiu nas antigas revistas pulp dos anos 1920 nos Estados Unidos e que está sendo celebrada pela editora Cyberus com vários lançamentos de contos na Amazon. Este é um dos contos que foram lançados e o segundo da autora resenhado aqui.

"A quinta dimensão" é um conto curto onde acompanhamos Ellen e John, um típico casal estadunidense conversando no café da manhã. Ellen tenta convencer o marido de que tudo que acontece ao seu redor é uma de muitas repetições e tenta provar a sua teoria. John não dá muita atenção até Ellen presenciar um acidente trágico na vizinhança e tentar convencer de que algo terrível pode acontecer com ele. Tudo é muito simples nesse conto, as situações e os acontecimentos, sendo a parte complexa a teoria que Ellen usa para explicar o tempo cíclico, que seria algo que me lembra a visão do cosmo pela civilização Maia. Algo que, a própria Ellen entende, bate frontalmente com a ideia de progresso. Tive um gostinho das loucuras de Philip K. Dick mas num estilo mais contido da autora.
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segunda-feira, 30 de maio de 2022

Resenha #237 - O Exército de Mutantes, Perry Rhodan 6 (W. W. Shols)


[As resenhas do blogue não costumam ter spoilers, mas para esta série não teremos esta preocupação. Pois ela será escrita pensando em trocar ideia com os leitores que já leram as obras. Além disso contar o enredo das primeiras histórias não constitui grande prejuízo para quem deseja começar a série, mas de qualquer forma fica o aviso]

"O Exército de Mutantes" é o sexto volume da série Perry Rhodan, que diferente do que o título aponta não explora muito os mutantes, porém joga na trama algo que já se esperava após o encontro com inteligências amigáveis (arcônidas), que seria uma invasão de inteligências hostis (cena retratada na capa). Contudo, antes dessa revelação, acompanhamos o recrutamento de Homer Adams, um especulador financeiro que vai ajudar a Terceira Potência a integrar-se usando de táticas que poderiam ser consideradas criminosas ou desonestas. Somando-se isso ao caráter aparentemente segregado do Exército de Mutantes, a Terceira Potência, como Estado independente em meio as grandes potências funciona, ao menos até o momento, como uma Força-tarefa independente para proteção da humanidade. 

Rhodan não precisa superar as potências imediatamente, pois acredita que elas vão perder a razão de existir pela força de seu exemplo, ainda que nesse episódio, quando Homer entra a Terceira Potência, vemos que esta pode andar por uma área cinzenta de moralidade e nem sempre pelo caminho da virtude. Acredito que esta seja a maior contribuição deste episódio para a série, mais que a formalização do Exército de Mutantes.
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segunda-feira, 23 de maio de 2022

Resenha #236 - A Rainha do Ignoto (Emília Freitas)


"A Rainha do Ignoto" de Emília Freitas é uma das primeiras obras de ficção fantástica no Brasil. Publicada pela primeira vez em 1899, porem caiu no ostracismo justamente pelo caráter fantástico e arrojado demais para o naturalismo dominante na literatura brasileira. Emília mistura os elementos fantásticos aos da cultura regional do norte e nordeste para falar sobre a situação das mulheres em uma sociedade que as coloca de lado, as inferioriza e subjuga.

A história começa pelo olhar do Dr. Edmundo, um bom vivant que veio assumir as posses dos pais ricos no Passo das Pedras, no Ceará, quando conhece Carlotinha, uma bela, recatada e do lar, que logo se apaixona por ele. Porém em uma andança pela noite, Edmundo se encanta pela misteriosa Funesta, também chamada de Fada do Areré. Obcecado pelo mistério, Edmundo consegue disfarçar-se até a Ilha do Nevoeiro, local escondido da sociedade onde a Rainha do Ignoto governa uma sociedade utópica de mulheres, que atuam pelo bem em missões disfarçadas na sociedade.

Dominado por uma curiosidade quase obsessiva, Edmundo consegue a ajuda de Probo, para entrar infiltrado na Ilha do Nevoeiro, de forma que pela sua visão acompanhamos primeiro como é a Ilha e como se organizam as Paladinas, e depois, episódios em que as Paladinas ajudam infiltradas na sociedade, mulheres que são maltratadas e enganadas por homens. A literatura que costuma dar o lugar de traiçoeiras e manipuladoras as mulheres, tem um tratamento diferente, as mostrando o lado leal e o lado manipulador de homens, que muitas vezes brincam com seus sentimentos.

O livro tem um final bastante melancólico, mas que faz um excelente contraponto entre a utopia com a realidade. Nos anos 1980 a obra ganhou uma segunda edição, que foi um verdadeiro resgate. Por financiamento coletivo, vieram mais duas edições relativamente recentes. Uma pela Editora Wish e outra pela Editora Fora do Ar, e amsi duas outras exclusivamente digitais. Além de uma antologia baseada na obra. As Artes Mágicas de Ignoto.
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segunda-feira, 16 de maio de 2022

Resenha #235 - Tau Zero (Poul Anderson)


"Tau Zero" de Poul Anderson é um dos clássicos da ficção científica hard, chamada assim por sua aproximação com as ciências exatas, como a física, química e também das ciências biológicas, para separá-las da ficção científica soft onde estariam as obras amparadas pelas ciências humanas. Hoje essa classificação é antiquada pois as ciências humanas não tornam o debate menos complexo ou profundo e quem já cursou qualquer curso superior de humanas sabe bem que não é nada soft.

Classificações a parte, a física é o foco de nossa aventura pelo espaço. Imagine a Teoria da Relatividade afetando a idade dos astronautas em viagens espaciais. Longe da gravidade terrestre, do nosso sol ou até de alguma estrela, os tripulantes de uma nave envelheceriam relativamente de forma muito mais lenta. Com base nessa suposição Poul Anderson imaginou uma nave, Lenora Chirstine com o objetivo de colonizar uma estrela na constelação de Virgem, há 32 anos-luz de distância, no século XXIII. Já era esperado que após 5 anos de viagem, para os passageiros da nave, sejam 33 anos para a Terra. O que já torna a missão praticamente uma missão só de ida. Contudo, um imprevisto, um choque com uma nebulosa impede os sistemas de frenagem funcionar obrigando a nave a aumentar a sua velocidade aproximando-se do valor Tau, que quando chega a Zero é o mesmo que a velocidade da luz. Apesar de não haver tecnologia (nem no mundo do livro, muito menos no nosso) para igualar a velocidade da luz, o valor de contração Tau é a única forma de estimar uma velocidade em escalas tão elevadas. O autor explica bem melhor que eu no livro. No que tange a aventura, o drama dos passageiros é que o tempo na começa a passar relativamente muito mais depressa que o esperado, enquanto a nave cruza o espaço cada vez mais veloz. Distante no tempo e no espaço. Com pouca esperança de encontrar qualquer lugar para colonizar.

A nave é composta por 25 homens e 25 mulheres, entre cientistas e tripulação da nave. Apesar de acompanharmos mais Reymont, o oficial com poderes de polícia, na nave. A nave Lenora Christine é a grande protagonista, pois é em seu ambiente e a sua missão que mobilizam todos os acontecimentos do livro. Podemos fazer questionamentos baseados no conhecimento atual da física, mas ela ainda é suficientemente sólida para os propósitos de extrapolação do livro e ajudam a deixá-lo divertido. Os personagens são pouco trabalhados, mas podemos sentir bem o clima geral de pressão e depressão que vai tomando conta da nave. Os homens ficam ora agressivos, ora apáticos/estoicos enquanto as mulheres dão ataques histéricos, o que faz o livro envelhecer mal. Enquanto a pressão psicológica vai exigindo mais da tripulação, Reymont acaba sendo um esteio de sobriedade e vontade de viver em meio a apatia. Algo que me lembrou outra FC: a relação entre Perry Rhodan e os Arcônidas. Em outras palavras, Reymont é o típico herói espacial: valente e forte tanto física quanto psicologicamente, plenamente capaz de desbravar mundos, colonizando-os.

A história me fisgou, por gostar de ficção científica, onde a parte científica é bem explicada e entendemos ela com facilidade, o que ajuda muito a embarcamos na história. Contudo, é fácil entender que o leitor médio se desgoste do tratamento dos personagens que é, na falta de palavra melhor, mediano, mas suficientemente instigante para nossas próprias reflexões. O final me pareceu um pouco corrido mas de certa forma inevitável em relação ao desenvolvimento e considero satisfatório. Talvez satisfatória até demais. Certamente uma excelente obra da FC e recomendo a leitura.
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segunda-feira, 9 de maio de 2022

Resenha #234 - Alarma Galatico, Perry Rhodan 5 (Kurt Mahr)


[As resenhas do blogue não costumam ter spoilers, mas para esta série não teremos esta preocupação. Pois ela será escrita pensando em trocar ideia com os leitores que já leram as obras. Além disso contar o enredo das primeiras histórias não constitui grande prejuízo para quem deseja começar a série, mas de qualquer forma fica o aviso]

O impossível acontece! Num ataque de surpresa, as superpotências terrenas destruíram, na superfície lunar, a nave dos arcônidas, uma raça semelhante aos homens, que domina um grande império galático. Apenas dois arcônidas sobreviveram ao ataque e encontram-se em segurança junto a Perry Rhodan, o homem que descobriu a nave dos arcônidas e, com o auxílio dos recursos tecnológicos infinitamente superiores dos mesmos, formou a Terceira Potência. Perry Rhodan impediu a guerra mundial que há tanto tempo ameaçava a humanidade. E agora, quando um novo perigo, vindo do espaço cósmico, desencadeia o Alarma Galático, mais uma vez a Terceira Potência realiza uma intervenção decisiva.

"Alarma Galático" é o quinto volume da série Perry Rhodan. Neste volume um grande percalço acaba se tornando uma oportunidade de solidificar a Terceira Potência, frente aos outros governos da Terra. O episódio se divide em três momentos. No primeiro acompanhamos o teleportador Tako Takuda disfarçado para adquirir materiais para que a Terceira Potência possa construir uma nave capaz de fazer cumprir o trato que Perry Rhodan fez em nome da humanidade. É uma parte com espionagem que termina de forma inusitada, com Tako fazendo um acordo com um sindicato de metalúrgicos.

No segundo momento, Perry Rhodan ativa um Alarme Galático, um dispositivo das naves arcônidas quando são destruídas que envia um esquadrão automatizado para dizimar em retaliação ao Império Arcônida. Perry faz uma invasão, retornando o ritmo de espionagem deste volume, para encontrar Alan Merchant e pedir apoio por uma causa maior. O que acaba tornando todo o esforço de Tako inútil, mas providencial visto que as naves automatizadas chegariam muito antes das peças por via ilegal.

Na terceira e derradeira parte, descobrimos que a base automatizada que enviaria as naves robôs, enviaram uma nave do povo Fantan. Rebeldes do Império Arcônida. Rhodan manobra a nave para interceptá-los da única maneira que consegue: dizimando os inimigos em combate. Interessante como a descrição dos Fantan procura enfatizar suas características não humanas, como se eles não fossem sencientes. Para que sua forma repulsiva torne Perry Rhodan menos assassino, uma vez que nenhum fantan sobreviveu a incursão. Apesar de tudo, Rhodan tem motivos concretos para usar o medo de um ataque externo para colocar as potências terrenas ao seu lado e validar cada vez mais a Terceira Potência. Plano que vai ganhar corpo com "O Exército de Mutantes".
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