segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Resenha #171 - Frankenstein (Mary Shelley)


"Frankenstein" de Mary Shelley é considerado o primeiro livro de Ficção Científica já escrito pois estabelece a discussão do que é ser humano através de um evento fantástico derivado da ciência. Ainda que a ciência usada não seja o foco do livro e não seja explicada como nas histórias da Ficção Científicas que vieram depois, sem ela teríamos apenas uma obra do fantástico como as que já circulavam em seu tempo. 

A história já é conhecida vagamente pois é muito referenciada na cultura pop, mas nada que invalide a leitura, muito pelo contrário. "Frankenstein" é leitura obrigatória para quem gosta de Ficção Científica, e para quem está de passagem pela estante dos clássicos. Nela temos Victor Frankenstein que está em uma expedição rumo ao polo norte. Victor vive atormentado e arrependido por um monstro que o assombra e está em sua caçada. Começamos com um relato em cartas (o livro todo é escrito de forma epistolar) de um marinheiro civil narrando como conheceu seu amigo Victor Frankenstein, depois segue num relato do próprio Victor de como criou o monstro (que não chega a receber um nome) e como o renegou depois de ficar arrependido do sucesso de seu experimento. Contudo o monstro passa a persegui-lo colocando em risco a vida dos seus familiares. Mesmo sendo um livro tão antigo prefiro não dar spoilers. 

Shelley pinta o monstro de forma misteriosa e indireta tanto que o nosso visual é moldado pelas primeiras adaptações do cinema. O livro trava diálogos muito interessantes sobre a própria criação da vida e nos faz pensar sobre quem é o monstro e também o quanto de vítimas e algozes temos dentro de cada um de nós, trazendo uma alteridade para a obra que a colocou como um clássico da literatura em geral.
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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Resenha #170 - Mata-Mata (Zé Wellington)


Excepcionalmente hoje, vou fugir da Ficção Científica e afins, para falar de "Mata-mata". Uma novela, parte de um projeto multimídia do escritor e roteirista de HQs cearense Zé Wellington. Já resenhado aqui pelo excelente Cagaço Overdrive. O conto resgata a época da pistolagem no Ceará para os dias atuais, quando um assistente social se envolve com um pistoleiro aposentado que se viu obrigado a voltar a ativa. Os pistoleiros se envolviam na política local matando desafetos políticos, além de outros contratos para quem mais pedisse. O material consiste basicamente na novela, que conta a história do início ao fim; de um áudio que simula um podcast apresentado pelo assistente social entrevistando o pistoleiro e de uma trilha sonora - por Rafael Cavalcante - exclusiva para o projeto. A gravação do podcast acontece na história, e os principais eventos são contados na novela, mas a entrevista conta tudo com mais detalhes e é bem convincente. 

Quando a história, ela tem um inesperado (ao menos para mim) clima tarantinesco, principalmente pela forma que a violência aparece. O autor consegue envolver uma aura de ameaça ao pistoleiro, de um perigo que parecia extinto mas estava apenas adormecido. É um western nordestino com uma história bem montada, sucinta, direta e grossa. Apesar do assunto pesado, a leitura é muito leve e tem toques de humor bem vindos. É possível entender a história, apenas lendo a parte escrita, mas colocar a trilha enquanto lê e parar tudo para ouvir o podcast é a receita ideal para mergulhar nesse mundo. Então minha recomendação é aproveitar, caso não tenha lido o conto, e usar todas as mídias disponíveis. Ainda mais que estão de graça em uma página própria: https://matamata.iradex.net/.
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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Resenha #169 - Viva mais um dia (Lady Sybylla)


"Viva mais um dia" é uma novela de Ficção Científica de Lady Sybylla publicada originalmente no wattpad e depois na Amazon, na forma de e-book, a forma na qual li a obra. A autora já é conhecida pelo seu blogue Momentum Saga e aqui traz uma de suas primeiras histórias e já mostra a qualidade de alcançou nas obras maiores. Aqui temos a história de uma mulher que acorda sozinha sem a memória, tendo como companhia apenas uma cachorrinha. Seguindo o animal, que parece se lembrar de tudo, chegam até uma casa familiar e em meio a todo caos silencioso consegue se abrigar ali até que é abordada por um homem estranho que diz conhecê-la.

A história se divide em dois momentos bem distintos: no primeiro tente mais ao terror e ao suspense e no segundo tende totalmente a uma Ficção Científica, quando conseguimos entender o que está acontecendo. Pela novela ser curta o suspense não se estende demais e consegue prender com a tensão e depois com as reviravoltas. O final lembra muito os finais malucos que vemos em Philip K. Dick e me agradou bastante.
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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Resenha #168 - Shiroma: Pheonix Terra (Roberto de Sousa Causo)


"Shiroma: Pheonix Terra" é um noveleta que é sequência direta do livro "Shiroma: Matadora Ciborgue" de Roberto de Sousa Causo e inicia um novo ciclo de histórias que haviam se encerrado na coleção de contos que antecedeu. O livro Shiroma: Matadora Ciborgue, apesar de ser uma coleção de contos parte inéditos parte escritos especialmente para a obra, tem uma sequência que dá uma cara de romance que fechado, esta noveleta é como uma introdução a uma sequência de novos contos e começa respondendo algumas perguntas deixadas ao fim do último conto. Como é possível presumir, Shiroma sobrevive ao último confronto (dã) e escapa com uma coleção de artefatos do planeta que era a sua base de operações, e busca estabelecer contato com Torgo Borkien um comerciante de arte do distante planeta Pheonix Terra, que fica intrigado com a coleção de Shiroma (obviamente sob disfarce) que tem em sua posse mais peças do que o total conhecido até então. É nesse clima de desconfiança, ganancia e artigos de valor quase inestimável que Shiroma busca levantar fundos para combater seus inimigos e perseguidores no mundo do crime.

O mundo explorado por Shiroma é o mesmo que ambienta as histórias do capitão Jonas Peregrino, compondo o universo GalÁxis, que imagina um futuro com vários planetas explorados, contatos com várias povos alienígenas, mas ainda com a humanidade fendida politicamente em diversas alianças na Terra. O universo conhecido é dividido em Zonas de Expansão Humana, que são círculos concêntricos, que são mais movimentados de acordo com a proximidade com a Terra. Pheonix Terra está na Zona 3, considerada distante, só não mais que a Zona 4. As aventuras de Shiroma orbitam mais os submundos, onde as habilidades implantadas por seus antigos tutores são extremamente valiosas, mas agora Shiroma está por conta própria pela primeira vez. A protagonista continua interessante e bem construída e é impressionante ver como os contos, este e os anteriores continuam repletos de escolhas acertadas da parte do autor, que não permite que Shiroma vire uma boneca sexualizada invencível que vive aventuras de ação sem sentido mas uma mulher complexa, interessante e que se desenvolve um pouco a cada conto. Aguardamos por mais contos e pelo encontro com Jonas Peregrino!
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segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Resenha #167 - Nova York 2140 (Kim Stanley Robinson)

"Nova York 2140" é a primeira obra de Kim Stanley Robinson a ser traduzida para terras tupiniquins. O autor estadunidense é consagrado pela sua trilogia sobre Marte (Red Mars, Blue Mars e Green Mars) que ainda não tem tradução no Brasil. 

A obra é uma verdadeira colcha de retalhos multicultural de uma Nova York do futuro onde as histórias se cruzam várias vezes numa rede que por fim acaba contando a história da própria cidade num período turbulento. Tudo isso em meio a um cenário onde aquela geração teve de lidar com as consequências catastróficas do derretimento parcial das calotas polares. O suficiente para aumentar cerca de 15 metros o nível do mar, inundando a baixa Manhattan e invariavelmente danificando ou destruindo todas as cidades costeiras do planeta. 

Não se trata de um livro pós-apocalíptico, como poderia-se esperar, e sim de como as pessoas ainda conseguem toca a vida apesar de tudo. Mostra as novas tecnologias que mantém os prédios protegidos da degradação da água, experimentos comunitários dos prédios, como o capitalismo lidou com a crise das áreas alagadas, como vivem nas áreas mais pobres. Enfim, o autor usa vários personagens para compor uma ideia de como seria essa Nova Iorque do futuro, caótica, perseverante e sobrevivente. O autor opta por um equilíbrio entre a distopia pintada pelas mudanças climáticas e a utopia quando nos dá esperanças de um futuro melhor. Sem nenhum exagero em cada elemento, essa opção deixa a história extremamente palpável soando muito verdadeira. O autor constrói a história de forma calma e por personagens críveis, pessoas comuns. Passando da policial linha dura a dois pivetes que cresceram nas ruas. De uma influenciadora digital ecológica a um investidor da bolsa de valores. Ainda passando por um sombrio síndico Sérvio-croata e uma advogada sindicalista de um prédio onde moram todos esses personagens, o Met. O autor não se poupa de colocar suas preocupações ambientais, presentes na própria especulação e preocupações políticas, quando aborda a especulação imobiliária e a característica predatória e gananciosa do capitalismo de mercado.

O leitor pode estranhar tantas histórias iniciadas, principalmente na primeira parte e adicionadas pela presença de um locutor que fala diretamente com o leitor, o "cidadão", mas essas vozes tem a mesma função da escolha do autor de uma cidade tão cosmopolita: Nova Iorque como representante de todo o planeta e aquele punhado de cidadãos como representantes daquela cidade. O resultado é o que o autor chama de "comédia dos comuns", cidadãos comuns contanto uma história com personalidade e cheia de verdade, dentro de uma especulação muito consistente. Vale a leitura!
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segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Resenha #166 - Rede Vermelha Sobre o Oceano de Merda (Cláudia Dugim)


"Rede Vermelha Sobre o Oceano de Merda e outros contos" é uma coletânea de contos de Cláudia Dugim, conhecida no Clube de Leitores de Ficção Científica no Facebook, onde administra (e coloca ordem no coreto) e contribui para ser uma das poucas comunidades de Ficção Científica onde podemos conversar sem o lado mais escroto do Fandom desse nicho que tanto amamos. Essa coleção, que é de 2018, fui conhecer durante o desafio Corrida Kindle 2020 que me rendeu muitas leituras agradáveis e esta foi uma delas. São seis contos bem curtos que fecham 51 páginas no total. 

"Entre Sólidos, Gelatina" conta sobre uma detetive que desconfia do cliente em um caso e acaba chegando a três trigêmeos num ferro velho. Conto se passa no mesmo mundo de "Boca Maldita" (publicado na no livro Cyberpunk) que se passa numa Antártida distópica. Conto é competente em manter um mistério num mundo diferente e aumentou minha curiosidade sobre esse mundo compartilhado da autora. 

"Para não dizer que falei de mim" é o primeiro conto que mostra a marca desse livro que é a criatividade em pensar em mundos absurdos. O conto é todo um diálogo de uma mulher ao espelho ponderando se envia o cadáver da amante numa viagem até a lua. "Rede Vermelha sobre o Oceano de Merda" é uma viagem insólita em um planeta que se degradou ambientalmente a ponto de se tornar um amontoado de vulcões e oceanos de merda na pele de um pesquisador que fica obcecado pelas áreas mais perigosas do continente. Inspirado em três quadros de Edvard Munch (Melancolia, O Grito e Separação).

"Bebês e Gatinhos Espiralam no Trono" uma operadora de torno mecânico que morre e renasce todo dia sem memória é abordada por um movimento revolucionário enquanto cria de bebês e gatos que não lembra de onde vieram. Alegoria instigante do ser humano pós-moderno. "Bossa Nova" segue uma entidade que tem seu movimento interrompido por cinco pessoas que tem seus desejos estranhamente atendidos. Conto repleto daquele absurdo que adoro tentar desvendar. "Para Elaézer Bouffier" é baseado no francês que após lutar na 2GM replantou uma reserva florestal inteira sozinho. O conto acompanha suas reflexões sobre a vida e é um relato muito emocionante.
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segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Resenha #165 - Shiroma: Matadora Ciborgue (Roberto de Sousa Causo)


"Shiroma: Matadora Ciborgue" é uma antologia de contos da personagem criada por Roberto de Sousa Causo que também faz parte do seu universo literário GalÁxis. O livro conta com onze contos, alguns estão espalhados em antologias que o autor participou e outros foram escritos especialmente para esse livro que lidos na ordem cronológica da história formam um ciclo, e tem um gosto de romance, pois cada conto vai acrescentando algo a uma trama e a construção da protagonista Shiroma.

Shiroma foi sequestrada, arrancada de sua mãe e submetida a experiências que a transformaram numa ciborgue com habilidades únicas até mesmo para o futuro imaginado por Causo. Tera e Tiago, seus tutores a usam como assassina de aluguel e foi literalmente educada para matar. Suas habilidades sociais, inclusive, foram direcionadas apenas para esse fim. A cada missão, os questionamentos sobre seu passado e sua origem ficam cada vez mais insuportáveis e seu único abrigo emocional é através de uma concha do mar, única lembrança de sua mãe que consegue revelar seu verdadeiro (Bella Nunes) nome através da concha. As visões de Shiroma/Bella, seriam alucinações por sua condição única? Seja qual for a resposta, a cada conto vemos uma personagem ganhando complexidade e somos brindados por uma série de escolhas bem acertadas do autor na construção das aventuras, dos personagens e da trama que perpassa todos os contos do livro. Vale muito a leitura!

O livro, mesmo não sendo um romance, consegue encerrar um ciclo que ganha sequência com uma nova noveleta para a personagem: Shiroma: Pheonix Terra, que será resenhado neste blogue em breve!
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segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Resenha #164 - Fábulas do Tempo e da Eternidade (Cristina Lasatis)


"Fábulas do Tempo e da Eternidade" (2008) é um dos melhores livros de contos que a Ficção Científica do Brasil já produziu. Cristina Lasatis, aborda o tempo de maneira universal com histórias carregadas de emoção, fazendo histórias simples em viagens profundas. O tempo e a Eternidade, é o conceito que percorre toda a obra e mostra seres humanos lidando com a morte. Cristina tem um domínio apurado da linguagem, algo não tão comum num gênero que sempre focou mais em imaginação e enredo, e mesmo esses elementos não faltam na obra. Suas histórias abordam o tempo sem apelar para o óbvio das histórias de viagem no tempo usando muitos tipos de personagens, girando em torno dos tipos humanos comuns e não em heróis infalíveis. É aquele livro que se recomenda para quem acha que Ficção Científica são apenas aventuras pueris. O livro tem 12 contos, um para cada hora do relógio. Vamos falar sobre cada conto individualmente.

"Além do Invisível" aborda um amor conectado a internet em realidade virtual. Marcos e Maya depois de um ano juntos em um amor intenso resolvem mostrar sua verdadeira identidade. A condução do conto é delicada, sem pressa e com um final muito bonito e melancólico. 

"As Asas do Inca" segue a paranoia do Imperador Inca Amaro Cápac, que vivei as vésperas da invasão espanhola, que não pouca recursos para saber se alguém o trairá pelo trono, até que chega aos Maias ao sul, onde o imperador poderá ter o que deseja.

"Nascidos das Profundezas", conta sobre uma tripulação de uma missão arqueológica encontra uma civilização isolada por acidente e no contato com eles, descobrimos que o desconhecido pode estar debaixo de seus narizes. O conto conduz bem a expectativa e as revelações do conto expandem a sensação de isolamento daquela civilização. O tempo é abordado no sentido da história como conhecimento acumulado.

"Revés Alquímico", se passa num campus de uma universidade comum no Brasil. Nos afeiçoamos ao Dr. Girandello que está em uma pesquisa que vai muito além da química e envolve Gláucia nesse mistério. Contudo, o clima de mistério não é sinistro mas doce, de uma amizade e de reflexões sobre a vontade de descoberta e, obviamente, o tempo.

"Assassinando o Tempo", conhecemos Cláudia Mansilha, desde a infância, dando a profundidade necessária, sem pressa e aqui o tema do tempo e da eternidade é envolto de uma competente Ficção Científica hard sobre uma teoria física bastante verossímil que a leva a construir um colisor de matéria para comprovar a sua teoria que, se confirmada, vai mudar a forma de ver o tempo para sempre.

"A Outra Metade" é bastante inspirada no trecho d'O Banquete de Platão sobre a ideia de almas gêmeas. Conto bastante sensível e mesmo em poucas páginas consegue desenhar lindamente os personagens e o conflito da trama.

"Viagem Além do Absoluto" conta a aventura final da vida cercada pela entropia que promete acabar com o movimento do pouco que resta do universo, a bordo da Aurora, ao mesmo tempo mostra a sobrevivência da entidade que restou, o Alpha e o Ômega. É aquela FC que nos faz viajar profundamente pelo mistério da existência. Conto para soltar o cinto e se deixar levar.

"De Onde Viemos, para Onde Vamos", mostra velhos intelectuais boêmios e fracassados reunidos num café para discutir a filosofia. Brinca com a ideia dos expectadores da vida enquanto um dos filósofos persegue a compreensão do que é o Nada. Conto que mostra um lado bem humorado e irônico da autora.

"Irmãos Siameses" se aproxima do Fantástico, sem chegar a tocar nele. Conta a história de dois irmãos siameses - Luri e Mani, Sol e Lua - que nasceram em Nova Tulor, na área montanhosa perto do Deserto do Atacama, Chile. Eles tentam levar uma vida tranquila como pastores de alpacas enquanto lidam com as diferenças de temperamento e pensamento, principalmente em relação a vontade de explorar o mundo de um deles, quando tem de lidar com um grande dilema. Podemos refletir como uma alegoria psicológica para nossas contradições internas sem deixar de nos emocionar com os personagens (como é de praxe da autora) bem construídos e aqui carismáticos também.

"Caçadores de Anjos" se passa na Idade Média onde nem os anjos escapam da inquisição, e Lúcifer está muito bem aclimatado. A reflexão do conto gira entorno das escolhas frente ao tempo e da imortalidade.

"Os Parênteses da Eternidade", se passa no mesmo mundo onde a Dra. Cláudia Mansilha, já modificado pela sua descoberta onde um correio entre épocas permite conversas entre pessoas completamente separadas pelo tempo. A autora consegue mesclar bem o clima amistoso das correspondências (contos epistolares me encantam) com a revelação final que pode arrancar aquele sorriso no canto da boca.

"Meia Noite" encerra com a continuação do primeiro conto, mudando o tom da narrativa, que na primeira vaga pelo intimo do protagonista, agora acompanha Syl, uma operadora de segurança eletrônica que tem de resolver um problema sério de invasão provocada por uma IA pertencente a própria empresa. É o conto mais longo do livro mas que expande muito o universo cyberpunk. Um universo que, como muitos criados neste livro, merecem um livro apenas para eles.
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segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Resenha #163 - Terra Verde (Roberto de Sousa Causo)


"Terra Verde" (2013) é outra leitura do Kindle Unlimited, muito difícil de achar na forma física. Escrito por Roberto de Sousa Causo, já resenhado no blogue pelos livros Selva Brasil e Glória Sombria. Assim como Selva Brasil, usa a amazônia como cenário, mas ao invés da aventura militar numa história alternativa, "Terra Verde" usa o tema batido do alienígena que desembarca sozinho na Terra e o despeja na realidade brasileira, tento ai sua originalidade, pois aborda sem medo temas pesados como a prostituição infantil, além da exploração da amazônia. O alienígena utiliza um índio que trabalha para a FUNAI como hospedeiro e ambos tem que fugir de um grupo de garimpeiros. Estes representam bem os a crítica de Causo a situação da amazônia e do Brasil: Koch, o mercenário estadunidense sedento por violência; Fonseca, o mafioso do garimpo e Gomes que abandonou a docência para enriquecer fechando os olhos para as barbáries de uma região praticamente sem lei. O alienígena chamado apenas de "Explorador" está em um teste de sobrevivência e caráter e aceita ajudar a menina Didinha a fugir da exploração sexual arriscando a vida do hospedeiro e seu propósito. Assim como em Selva Brasil, o romance é curto, direto e ágil, com bastante ação e mostra a versatilidade de Causo para além das batalhas espaciais. Terra verde faz uma síntese crua e direta do Brasil e merece ser lido.

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segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Resenha #162 - Violetas, Unicórnios e Rinocerontes (Cláudia Dugim Org.)


"Violetas, Unicórnios e Rinocerontes" (2020, Editora Patuá) é uma antologia organizada por Cláudia Dugim com a proposta de reunir autores e contos LGBTQIA+. Grande parte dos contos (ao menos os que consegui identificar) revisitam mundos de obras clássicas com novas histórias. Todos os contos refletem nos personagens a diversidade tanto em elementos mundanos, como um simples relacionamento entre dois personagens que são relevantes por serem inseridos sem alarde, até questões existenciais e de identidade de gênero inseridas nas extrapolações das histórias. No que tange a Ficção Científica, a qualidade está também excelente.  

Feito Bicho na Lama (Camila Fernandes) pinta um retrato de opressão e liberdade quando decidisse começar um mundo novo, livre desde a sexualidade até a organização social e econômica. Acompanhamos Ravnu que decide entrar para uma comunidade com essas características. A comunidade surgiu após Hubna Rak, uma catedrática ser questionada por seus superiores após uma escavação arqueológica que visava resgatar a história dos povos que foram conquistados por aquela sociedade. Hubna compra a briga e enfrenta os ditames legais enquanto Ravnu se encontra no amor de Nanu e Naida, ao mesmo tempo que sua família tradicionalíssima vai fazendo menos sentido. A construção desse mundo me lembra Ursula K. Leguin em "Os Despossuídos", no uso de um local alienígena para traçar comparações óbvias com a nossa sociedade extrapolando-a em um quase ensaio social. Vou guardar esse conto no meu coração como se fosse pertencente a Liga dos Mundos.

A História Antes do Fóssil (Cristina Laisatis) da autora de sensacional Fábulas do Tempo e da Eternidade no traz outro conto com o mesmo nível, trazendo uma história de seres de tempos imemoriais, sem forma física, na formação do planeta Terra. É aquele conto que nos faz viajar como o conto "Viagem Além do Absoluto" e alguns trechos do "Aguas vivas não sabem de si" da Aline Valek. Obrigado pelo passeio, Cristina!

Tudo é Macio Por Dentro (Sol Coelho) conto distopico em um mundo em que flores são catalizadores de uma contaminação mundial. Acompanhamos a pequena Nina, que se arrisca em túneis contaminados. O final é inesperado e emocionante, mesmo num conto curto como esse.

154 segundos (Celso Duvecchi) conto inspira-se no clássico Farenheit 451, (começando pelo anagrama numérico) no que parece um futuro desta distopia onde, além dos livros, os filmes de longa metragem passaram a ser proibidos, não permitindo-se programas com mais de 154 segundos. Espaço de tempo chamado período. Acompanhamos Fayola, que está participando de uma entrevista de emprego, no canal de televisão Telas, com a intenção de trabalhar com Marsha, a última artista que fazia longas metragens de quem Fayola é fã. O cenário faz uma espécie de continuação muito digna e criativa deste mundo lembrando do valor da sétima arte e seu potencial crítico.

Emiliano (Cláudia Dugim) Frederica Wari está em missão no planeta Agadi Toi Bebede em busca uma parte desprendida do seu povo/entidade. Frederica é uma parte dessa entidade coletiva formada por Vasos, Utilitárias e Opuais, que tem dificuldade para entender a individualidade do ser humano, ainda mais quando a sua extensão física precisa se misturar com os humanos para cumprir seu objetivo, mas a jornada acarretará em mudanças irreversíveis. O conto é muito instigante, pois se passa na pele de um ser estranho e o raciocínio que nos conduz a perdermos esse estranhamento, em parte pela linguagem e outra pela jornada de autoconhecimento são muito bacanas de acompanhar.

Teste Anti-Turing (Tiago Ambrósio Lage) Malva está em uma missão em busca de novos mundos para a humanidade, acompanhado apenas de Turquesa, uma IA que guia a nave. Malva começa a desenvolver uma paixão por Turquesa que começa a mostrar mais humano do que Malva imaginava. O conto começa com um pano de fundo que lembra 2001, mas a história guarda muitas reviravoltas.

Valei-me, Zé! (Saren Camargo) Zé é um jóquei de console, numa aventura de Neuromancer nas favelas do Rio de Janeiro. O conto faz uma mistura muito divertida, adaptando o cenário gibsoniano ao cenário brasileiro. A viagem pelo ciberespaço e outros termos dão um ar retrofuturista ao conto que absorve bem a pegada cyberpunk, com direito a um samurai urbano namorado de Zé.

Das Dores (Puri Matsumoto) Conto com ares de mitologia em que Maria das Dores é a última mulher do mundo, perambula acumulando dores até um fim catártico.

Filha da Terra (Alexandra Cardoso) Uriel é uma IA criada por um cientista a serviço de humanos na lua para espionar, influenciar e dominar os humanos na Terra mas o contato com uma jovem brasileira vai mudar tudo. Conto narrado por uma IA fornece uma visão da neutralidade de gênero interessante.

A Francesa (G. G. Diniz) conto de um caso de amor entre Amélie e uma cearense. A francesa se mostra misteriosa o que é revelado no final do conto.

Pensem nas crianças (Alexey Dodsworth) o que aconteceria se O evento de O Fim da Infância, de Artur C. Clarke, acontecesse em 1986. Iara de Oxumaré e seus netos Marcos e Jandira, descobrem uma ligação dos Senhores Supremos com Iara. O conto exige que tenhamos lido O Fim da Infância, para pegar todas as referências mas recompensa o leitor porque são muito inspiradas. Outro conto que já imagino no mesmo mundo da obra inspiradora. 

Em Busca do Éden (Tom Borges) nos trás de volta ao mundo habitado pelo oceano em Solaris de Stanislaw Lem. Acompanhamos a dr. Malta em uma nova missão de pesquisa ao planeta que está ainda mais abandonado desde que os soviéticos abandonaram a base e as pesquisas da ciência solarística. Sabe-se mais sobre o oceano mas isso não significa literalmente nada até que Malta, com a ajuda do visitante Matias, o noivo que abandonou, é obrigada a revisitar seus temores e defender seu novo achado científico. Conto imersivo e trouxe o clima de desolação de Lem com um tempero próprio.

Abissal (Saskia Sá) é ambientado no futuro do mundo de "Águas-vivas não sabem de si" de Aline Valek, em 2230 uma nova estação subaquática chefiada por Cecília investiga os mistérios abissais que ameaçam a integridade da estação que é quase uma cidade. Fazendo uso dos trajes (aqui já operacionais), a jovem Muriel é uma exploradora que ouve o chamado do oceano, que guarda segredos profundos como os de Cecília e Muriel. Conto faz um retorno muito agradável ao  mundo instigante de "Águas-vivas" e elaborar uma trama consistente em pouco espaço.

Download Concluídos... (Tiago Joy) O sensual Craig, ou o professor falido Lucas, enfrentam um grupo de hackers conservadores que caçam LGBTQIA+ para infectá-los com vírus que matam tanto a parte física como o virtual dos seus alvos. Conto parece ser inspirado no livro Jogador nº1 de Ernest Cline, mas como não li o livro, não posso confirmar. O conto parece que vai ter uma pegada divertida no começo mas o assunto vai ficando sério com o passar das páginas. Final ala PKD, do jeito que eu gosto.

XXX (Naná DeLuca) uma inteligência do espaço vigia nosso planeta diariamente, sem entender porque os humanos insistem em viver. É uma crônica disfarçada de conto, pois não há trama mas um punhado de reflexões sobre o mundo. Foi uma boa escolha para encerrar a antologia, pois ainda que destoe do gênero conto, as reflexões se encaixam perfeitamente com o restante da obra, como um manifesto que me agradou bastante.





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terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Resenha #161 - Humanidade à Deriva (Jean Gabriel Álamo)


"Humanidade à Deriva" é uma antologia de todos os trabalhos que englobam o mesmo universo do autor Jean Gabriel Álamo. Vão desde contos curtos até obras de maior fôlego que já foram resenhadas aqui. Aparentemente apenas algumas histórias tem ligação direta entre si, como as aventuras do bruxo Iago Lima em Feiticeiro de Aluguel e entre "Androides não são Perfeitos" e "Poder Absoluto", mas também há conexões mais sutis como o sistema de magia em alguns contos e contextualização de outros contos como a existência de um grupo chamado Frente Humana. Vamos agora falar de cada conto em separado:

"O Suspiro" é um conto bem curto que abre a coleção. É um relatório deixado por uma civilização que não encontrou mais motivos para continuar existindo e promoveram a sua própria extinção. A narrativa conta como se fosse uma carta deixada em uma garrafa no oceano. Como se trata de um texto curto, é exclusivamente dedicado ao que se propõe. É um conto que vale a leitura, mas que não aprofunda os argumentos, apenas os resume, nem conta mais sobre a civilização que toma essa decisão tão drástica, contudo como já disse, vale a leitura!

"A cidade sob as estrelas" é uma fantasia baseada em cidades míticas. Acompanhamos o mercador atlante Hastur que após perder toda sua mercadoria vai para Arã, na costa da Lemúria e lá conhece o pirata Malarã em um prostíbulo, que lhe faz uma proposta perigosa. O conto faz uma boa imersão neste mundo fantástico em que as cidades míticas existem e filhos de deuses pisam na terra, mas não garante a vitória de ninguém. O conto tem um final ousado e deixa um gosto amargo no final, o que pode fazer você gostar tanto da história quanto eu. Recomendo!

Depois temos as três primeiras histórias do bruxo Iago Lima: "Feiticeiro de Aluguel: Noite em Neon", "Feiticeiro de Aluguel: A Serviço de Exu" e "Feiticeiro de Aluguel: Bruxo Tutelar" que já havíamos resenhado no blogue antes.

"Rastros Invisíveis" conta a história de Max, um vigilante mascarado que após a morte do tio, ex-militar, passa a vagar pelas ruas fazendo justiça com as próprias mãos. Como o próprio autor declara, é um herói de direita. Nessa história, ele decide investigar a morte de um antigo professor da época da faculdade e rapidamente entra numa trama que coloca em perigo com outros professores, num rastro de sangue e perseguições. É uma tentativa de colocar realismo no mundo dos super-heróis vigilantes numa versão fascista, mas sem crítica alguma e para mim não funcionou.

"Cidade das Bonecas" conta a história da detetive particular Luciana Laurindo que aceita o caso de desaparecimento de uma criança, Laís após a descaso da polícia e do fracasso de outros detetives. Conto não escolhe entre a maldade humana e a sobrenatural. Temos os dois neste conto cheio de imagens fortes mas que não se baseia nisso e consegue contar uma história de redenção em um espaço de escrita curto.

"A Magia Negra do Natal" conta a história de um pai que decide fazer um pacto profano para que seu filho tenha um natal feliz. Conto curto, que não permite contar mais sem estragar. Não há tanto espaço para aprofundar ou detalhar as cenas, mas serve de amostra do sistema sobrenatural que já vimos no conto anterior e na série Feiticeiro de Aluguel.

"Admirável roça nova: Um Conto de Cybercoronelismo" Rafael volta a cidade do interior na ocasião de uma doença terminal de sua mãe. Tentando sobreviver, é pego com sua irmã Zoé roubando alimentos na fazenda do coronel dono da cidade e passa a ser alvo de uma perseguição. Típica história do rapaz do campo que volta depois de ser mudado pela cidade e arranja confusão. Tem boas cenas de ação, mas não passa muito disso.

"Sob os domos de aço" me chamou a atenção por se passar em Marte, que é um cenário que sempre me encantou, em um contexto de colonização recente do planeta e conta a história de Sandra, uma mulher que acabou de perder o filho para uma doença nova que está dizimando a população de colonos. Ela desconfia que a causa da doença não é natural e começa uma corrida frenética para encontrar o responsável pela morte do seu filho. A narrativa favorece a ação e consegue colocar um mistério e o cenário com detalhes da vida em Marte foi bem redigido o que deixou o conto imersivo apesar da pouca quantidade de páginas.

"Androides não são perfeitos"

"Poder Absoluto" já tem resenha publicada no blogue!
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segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Resenha #160 - Tony e os Besouros e outras histórias (Philip K. Dick)


"Tony e os Besouros e Outras Histórias" é uma a reunião de 4 contos de Philip K. Dick, traduzidas por Maurício Coelho e lançadas na Amazon em 2020. Foi a única obra escrita por um estrangeiro que li na minha Corrida Kindle Unlimited! Infelizmente o tradutor e editor não deixou qualquer informação sobre os contos, ou sobre como surgiu a ideia de traduzi-los. Até onde pude averiguar, são contos que estão em domínio público. Como fã do autor, também gostaria de uma introdução.  

"Tony e os Besouros" (Tony and the Beatles) conta a história de Tony que vive numa colonia terrestre junto com os Pas-Udeti, uma raça insetoide, que convivem razoavelmente bem, mas tudo deteriora-se quando ambas as raças entram em guerra em outro sistema, mas as notícias que chegam do espaço vão mudar a vida de Tony e dos habitantes da colônia. O conto parece incompleto, quando a história vai engrenar, ela acaba.

"Além da porta" (Beyond the door) foi publicado pela primeira vez em Janeiro de 1954 na revista Fantastic Universe. Não se trata de uma Ficção Científica (classificaria como Weird Fiction se o termo existisse na época. O conto é bastante curto e não se dedica a explicar muita coisa. Larry compra um relógio cuco para sua esposa, Doris. Ela fica muito feliz até descobrir que Larry adquiriu em uma troca de quinquilharias. Contudo, ela parece adorar o cuco, enquanto Larry fica cada vez mais raivoso. O conto deixa coisas demais no ar. Seria o cuco apenas um veículo imaginado para a tensão do casal?

"Intrometido" (Meddler) publicado pela primeira vez na revista Future Science Fiction em outubro de 1954, é uma história sobre viagem no tempo e suas consequências. O conto é bastante envolvente e com um final excelente!

"Progênie" (Progeny) foi publicado em 1954 e mostra a destruição de uma família que não tem mais o direito de criar o próprio filho, pois o governo se encarrega de ensinar tudo através de robôs. Ironicamente o pai fica indignado com a situação e a mãe aceita passivamente a ideia de só poder conviver com o filho apenas quando for adulto.
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