sábado, 12 de setembro de 2015

Conto autoral - Breve relato da última existência na terra


Primeiro conto que escrevi e publiquei.

Primeira versão publicada no blog Fantasticontos

Segunda versão publicada no blog Undermundo.

Versão atual em PDF. Baixe aqui

ou leia no blog mesmo.

* * *

Olhava para o horizonte em meio a todo o caos que tomara conta do mundo. Nádia imaginou as pessoas buscando abrigo. Soube da correria e desespero de famílias unidas buscando lugar em alguma nave rumo à Marte ou a alguma lua de Júpiter ou Saturno. Mas não havia abrigo suficiente para o que estava por vir. Pensou também nos solitários conectados que buscavam informações que lhe acalmassem. Sabiam eles do inevitável, porém recusavam-se a sair de suas poltronas e consoles. Sentiu pena em imaginar o que fariam quando a energia acabasse.
Sentada em posição de flor de lótus. Solitária. Sobre uma colina próxima do centro urbano de Astana encarou o astro-rei em seus suspiros finais. O sol pulsante havia semanas, enviando ondas de calor que destruíram cidades inteiras em questão de segundos. Os cientistas já haviam desistido.
O que Nádia via era o sol. O astro-rei. O objeto mais importante para a manutenção de toda a vida e existência na Terra e nas colônias dentro do sistema solar entrando em colapso. Aquele evento que nunca preocupou a humanidade tornara-se presente. O momento em que o sol explodiria e passaria de uma estrela do tipo anã amarela para se tornar uma gigante vermelha. Era um absurdo aquilo acontecer milhões de anos antes do previsto.
Nádia já havia parado de matutar sobre as dúvidas que os astrofísicos compartilharam com ela. Será que erramos cálculos tão sólidos? Será que há outro agente que está causando isso? Gritavam desesperados perto dela. Nunca saberia. Sequer se preocupou mais em divagar sobre isso. Afinal se os especialistas não sabiam, uma historiadora não ajudaria muito. Apenas relembrou o que aprendeu sobre isso. Imagens gráficas do evento. Os planetas rochosos sendo engolidos pela presença física da estrela em nova fase até deixar Júpiter ocupando o posto que era de Mercúrio.
Talvez, continuou a refletir, aqueles que tentaram fugir para Ganimedes, Europa ou ainda para a longínqua Titã, queiram mesmo acreditar que estariam seguros nessas colônias e se agarraram com todas as forças nesta mínima possibilidade. Lá no fundo sabiam que o futuro das colônias não era melhor que o da Terra. Mas Nádia não queria se enganar. Escolheu um final diferente para sua existência. Nada de encolher-se e esperar o calor infindável. Preferiu colocar um par de óculos de lentes douradas especiais e encarar a estrela prestes a entrar em colapso de frente.
Relembrou de sua juventude, redescobrindo a primeira de várias ciências mortas que virou a missão de sua vida. Apenas para ver tudo morrer novamente. Remoendo mais coisas, ficou aliviada diante da situação por nunca ter sido mãe. Remexeu em outras decisões de sua vida, mas afastou esses pensamentos afirmando a si mesma que são inúteis numa hora dessas. Alguma coisa seria útil?
Pensar no passado era o que restava para quem não poderia mais pensar no futuro. Como historiadora não me falta material mental para refletir. Alegrou-se brevemente. Mas a história serve para refletir sobre o que faremos no futuro e…
Seu raciocínio foi interrompido por um estrondo e uma luz que durou pouco mais que alguns segundos. Se não fossem os óculos estaria cega por ela. Uma região habitada a quase perder de vista ardeu em chamas e radiação. O calor aumentou e podia observar o sol pulsar para os lados como se empurrando alguém que estivesse ao seu lado lhe incomodando.
- Está chegando. Finalmente! - Murmurou para ninguém.
Ao contrário do que havia visto em filmes de fim do mundo não havia lugar para niilismo sóbrio. Nem para ela que estava apenas contemplando o sol pela última vez em toda a história da humanidade. Não houve escatologia que nos preparasse para o que se iniciara, nem um crepúsculo para a coruja de minerva e ela se sentiu impotente pela última vez.

Pôde ver o astro-rei aumentar de tamanho rapidamente e sentiu as suas lentes derreterem em seu rosto antes de ficar completamente cega. O calor tomou conta se seu corpo, mas em seguida não sentiu mais nada. Estranhamente sentiu-se como no fundo do oceano quando mergulhara em sua juventude, mas sem o aperto da roupa de mergulho. Buscou olhar para os lados e raciocinar mas não conseguiu e então a última existência chegava ao fim.

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