terça-feira, 25 de abril de 2023

Resenha #282 Entre os Dragões e as Sombras, As Crônicas de Kérdar (Eduardo Alós)


"Entre os dragões e as sombras" é o segundo livro de contos das Cronicas de Kérdar de Eduardo Alós. Da mesma forma que no livro anterior, é uma coleção de contos com personagens secundários do romance principal da saga. O primeiro livro foi A Espada do Dragão e os Dragões Vermelhos dando pontapé inicial na saga, a coleção de contos Contos de Outrora trouxe contos com personagens secundários e explica com detalhes alguns eventos que ocorrem no primeiro livro.  "Entre os dragões e as sombras" funciona da mesma forma em relação ao segundo romance da saga O Mestre das Sombras. Contudo, diferente dos contos de Contos de Outrora, esta coleção de contos são um prelúdio, trabalhando quatro coadjuvantes que vão aparecer em O Mestre das Sombras, o segundo romance da saga principal de Kérdar. Vamos aos contos isoladamente.

Os dois primeiros contos tem um tom de tragédia anunciada que me remeteu as tragédias gregas, onde o acaso leva a grandes dores, mais que decisões ruins. Pîcundir, o Hamtammr, acompanha a vida do amaldiçoado Pîcundir, numa sequência direta do conto do livro anterior, Maldição em Alfheim, que procura um caminho duvidoso para livrar-se de sua maldição e acaba caindo em mais desgraças. Gabil, o Soberbo, acompanha o anão Gabil, que vive na Ilha dos Anões, que tornou-se muito mais dura após a guerra contra os Dragões Vermelhos, mas recebe a chance de se redimir com uma missão dada por um dos poderosos Nahons.

Dois dois últimos contos, temos histórias mais otimistas, de guerreiros que enfrentam obstáculos de frente e triunfam basicamente sobrevivendo. Erikka, Guerreira de Zeme, temos uma guerreira que se molda na batalha, mas não antes de sofrer um revéz e do fracasso, encarar inimigos que pareciam mais fortes e espertos que a Guarda da Província de Zeme. O outro conto, Jarkko, Lobo Solitário, é uma sequência direta, visto que o personagem título é uma criança no conto anterior. Jarkko é um jovem em treinamento para entrar na feroz elite de guerreiros lobo mas após um ataque de gigantes se vê obrigado a caçar sozinho para se provar como apto a entrar no grupo mais formidável de batalha entre os humanos.

Os contos vão progressivamente ficando melhores, sendo o último meu favorito do autor até então. Isso mostra uma evolução enorme de sua escrita. Vale a pena conferir.
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segunda-feira, 17 de abril de 2023

Resenha #281 Jardins Suspensos (Victor Allenspatch)


"Jardins Suspensos" é o primeiro livro da série Dente-de-Leão de Victor Allenspatch. Victor é um autor que trabalha de forma independente e esse novo trabalho é fruto do isolamento da pandemia, afinal são cinco livros, escritos e lançados no fim do ano passado. Não há uma abordagem direta sobre a pandemia mas é impossivel não perceber o isolamento e solidão dos personagens mesmo vendo eles percorrerem a cidade do Rio de Janeiro, mas aqui o isolamento é condicionado pelo uso da tecnologia. 

Acompanhamos Yara e Pedro, que vivem no Brasil do futuro onde grande parte dos problemas sociais estão resolvidos. Há impressoras que imprimem quase tudo que precisamos, mas uma crise de desempregados por causa dessa mesma tecnologia ameaça uma crise em toda a América do Sul (agora um único país). Yara e Pedro são dois dos últimos brasileiros com emprego e se veem sem rumo, em meio a crise que se instaura. Começamos com longos capítulos imergidos no mundo de cada um dos protagonistas separadamente, mas a medida que o mundo como conhecem desaba, os trechos individuais se intercalam cada vez mais até o derradeiro encontro, após quase se esbarrarem várias vezes.

A tecnologia que parece ter resolvido todos os problemas, mas o isolamento parece cada vez maior e a tecnologia de lentes não consegue mais encobrir. Pedro e Yara são jovens que se sentem completamente deslocados e sem propósito. Yara consegue se contectar a natureza e encontra conforto se distanciando de toda a convulsão social que se espalha nos grandes centros, mas Pedro acaba entrando para um grupo de revolucionários bastante típico de histórias Young Adult, onde um pequeno grupo de jovens tem chances reais de "derrubar o sistema", seja lá o que isso signifique. Esta foi a parte mias difícil de me conectar com a história, pois realmente não gostei, mas o drama pessoal de Pedro foi mais recompensador de acompanhar. Sem contar mais sob o risco de spoiler, a história de Yara e Pedro não termina neste livro. Neste ponto também esperava um fechamento de ciclo mais consistente, mesmo para um primeiro volume. Contudo, a escrita é tão boa quanto os outros escritos do autor e o crescimento pessoal dos personagens encontram uma curva satisfatória. Agora é acompanhar o próximo volume, Estaleiro Voltaire.

 
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segunda-feira, 10 de abril de 2023

Resenha #280 Fuga para parte alguma (Jeronymo Monteiro)


"Fuga para parte alguma" é uma obra clássica da primeira onda da ficção científica brasileira lançada em 1961 pelas Edições GRD, primeiro foco da ficção científica no Brasil. Temos aqui uma obra que faz um desenho filosófico de um pessimismo em relação a civilização humana. O livro se passa no longínquo século 122 em uma cidade avançada tecnologicamente. O autor não busca uma extrapolação social tão sofisticada mas se vale da ficção científica para extrapolações filosóficas.

A humanidade passa a enfrentar um inimigo inusitado. Formigas amazônicas mutantes que se espalham e começam a devorar humanos e animais. Começa um combate a esta praga mas logo vemos que a humanidade começa perdendo e se obriga a fugir, apesar de toda a tecnologia que dispõe. Podemos apontar o primeiro problema do livro: não há um esforço em retratar os humanos explorando outras formas de matar as formigas, como usando veneno, por exemplo. Vemos os humanos pegos de surpresa e incapazes de reagir. Reduzidos a sua animalidade e instinto de sobrevivência, como qualquer outro animal acuado. Acredito que é esse lembrete que o autor busca com a obra. Relembrar a nossa vulnerabilidade apesar de já termos dominado a natureza com tamanha eficácia ainda que de forma destrutiva.

Ainda que a reflexão seja válida, a obra não envelheceu bem. A imaginação ao retratar uma sociedade tão patriarcal e normatizada, neste futuro tão futuro soa como as obras de Asimov. Encaixa no contexto limitado da época em que foi escrita, mas como disse, envelheceu mal. Contudo, para o leitor que se dispuser a mergulhar nessa reflexão e neste mundo aterrador, será presenteado pela potência do drama humano, potencializado por cenas violentas dos ataques de formigas de vinte centímetros que agem como se fossem piranhas. Recomendo!
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segunda-feira, 3 de abril de 2023

Resenha #279 - Aqueles que chegaram antes (Jean Gabriel Álamo)


"Aqueles que chegaram antes" é um livro de terror cósmico e aventura de Jean Gabriel Álamo. Um bem vindo retorno as publicações do autor após um hiato de lançamentos. O autor conseguiu um relevante alcance de forma independente e escreve todas as suas obras dentro do mesmo universo, mesmo com obras de vários gêneros do fantástico. Em última instancia, tudo é ficção científica, mas o autor consegue isolar o estilo pretendido em obras de fantasia e horror, preservando o universo compartilhado e aqui não é diferente.

Aqui temos um livro curto, baseado no Manuscrito 512. Um dos vários que exploram a existência de uma cidade perdida, tal qual como Eldorado ou Paititi, nas quais haveriam vestígios de uma civilização morta e tesouros ancestrais. Nenhuma destas cidades ou lendas passaram disso e justamente por isso são fontes para a imaginação para histórias como esta. Aqui, buscou-se um apelo direto ao documento (inclusive pode ser lido na íntegra no e-book) que serve de início até os mistérios que se ligam de alguma forma a construção de mundo cósmico do autor. Tudo devidamente disfarçado pelo ponto de vista ignorante dos personagens que não passam de homens da época.
   
Desta forma, a história acompanha uma expedição (poucos anos depois) instigada pelo relato do documento 512. Um aventureiro que perdeu um familiar na primeira expedição, um patrocinador, um padre misterioso, um indígena estranho e homens escravizados formam o grupo de expedicionários ou como se denominam, uma bandeira. Gostei como os personagens são desenvolvidos ao longo da viagem e a completa falta de apego a vida deles por parte do autor. Difícil não manter a tensão enquanto a obra vai chegando nos momentos decisivos. O amadurecimento do autor é perceptível e isso aumenta a vontade de ler seus próximos escritos. Ainda que o livro tenha um certo apelo ao terror, a aventura domina praticamente toda a obra. Uma leitura que vale a pena!






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segunda-feira, 27 de março de 2023

Resenha #278 Saros 136 (Alexey Dodsworth, Ioannis Fiore)


"Saros 136" é uma HQ lançada pela editora Draco com roteiro de Alexey Dodsworth e desenhada por Ioannis Fiore. A história se passa no mesmo universo da duologia Dezoito de Escorpião e Esplendor, cruzando o destino de quatro personagens separados pela distância e pelo tempo mas unidos em um evento catártico que vai salvar a raça humana, modificando-a para sempre.

Acompanhamos um sacerdote africano em 1865 fugindo de captores portugueses. Um astrofísico inglês na expedição que comprovou a tese de Einsein no Ceará de 1919. Uma astronauta brasileira arriscando a vida para proteger uma base lunar em 2045. Uma pesquisadora indiana que tem sobre os ombros a capacidade de trazer a cura de uma epidemia em 2135. Esses personagens e tempos se misturam com visões destes personagens uns com os outros, que os fazem parecer loucos para seus próximos. O narrador também está envolto de mistério pois apenas "ouvimos" a sua voz e sabemos que a sua vida é o resultado do evento catártico que une esses quatro seres.

Cada um é afetado de alguma forma pela sensibilidade eletromagnética, de forma semelhante a que Artur, o protagonista de Dezoito de Escorpião. O inglês de 1919 é o que mais sofre pois é o mais desconectado do fenômeno, enquanto o feiticeiro angolano é o mais conectado, tanto que entende seus dons como feitiçaria. Uma contradição bem colocada pelo autor. Surgem também outras reflexões sobre a ciência e a religião. Sobre a arte, não é meu forte, mas as visões pintadas pelo artista Ioannis Fiore, são lindíssimas. Dos detalhes das cenas mais comuns até os deslumbrantes quadros que trazem eventos cósmicos e abstrados de uma forma bela, apreciável e inteligível. Esta foi uma das melhores HQ nacionais que li até o momento. Uma peça maravilhosa!


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segunda-feira, 20 de março de 2023

Resenha #277 Espere agora pelo ano passado (Philip K. Dick)


"Espere agora pelo ano passado" é um romance do meu autor favorito Philip K. Dick de 1966 que aborda a viagem no tempo, uso de drogas e um inesperado aspecto político, que ficou bastante interessante sem perder a ironia típica do autor.

Acompanhamos o Dr. Eric Sweetcent em 2055, um médico especialista em transplantes de órgãos artificiais que é convocado para cuidar de Gino Molinari, o Secretário-Geral da ONU que tem a saúde muito frágil e está na corda bamba em uma guerra entre duas raças alienígenas. Os starman, de Lilistar, uma raça humanoide e beligerante de seres acinzentados e os reegs, seres insetóides de aspecto repulsivo mas extremamente empáticos. Os reegs estão vencendo a guerra mas a Terra apoia formalmente Lilistar. Presos por um pacto, Molinari tenta evitar que a Terra se afunde ainda mais numa guerra perdida. Enquanto isso, os starman criaram uma droga altamente viciante para usar como arma de guerra contra os reegs. A JJ-180, ainda experimental, faz o usuário retornar ao passado, porém em Eric o efeito é o inverso, viajando para o futuro. Contudo, não há efeito, ou quase um superpoder, que mude a essência patética de Sweetcent. Com sua esposa Kathy, formam o típico casal philipkdiciano. Uma mulher controladora e de personalidade forte e um homem dependente, depressivo e, em outras palavras, um reflexo do próprio autor e seus relacionamentos.

"Espere agora pelo ano passado" foi o segundo lançamento da Suma de obras, depois que a Aleph parou de publicar as obras novas do autor. Fico feliz de ver tantas obras, inclusive algumas mais obscuras como esta. Ela é bem representativa do autor, com sua ironia e toques autorreferenciados nos personagens de Eric e Kathy, e além disso, aqui há uma boa trama politica para além da viagem no tempo. Outra curiosidade é que antes de "A Máquina do Tempo" de H. G. Wells, as viagens no tempo na Ficção Científica eram imaginadas como viagens na percepção, sonhos ou hibernações induzidas. Dick faz uma releitura dessas viagens com a viagem no mundo das drogas sintéticas, que foram parte de sua vida.
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segunda-feira, 13 de março de 2023

Resenha #276 Ancestral (Israel Neto)


"Ancestral" é uma space ópera afrofuturista escrita por Israel Neto e lançada pela editora Kitembo em 2021. O primeiro volume entrega uma história ágil que caminha com habilidade por uma construção de mundo complexa abrangendo vários planetas do sistema solar de Rá. São os mundos de Orum, Kemeti, Europe, Inca e Oceânica que juntos formam a presença humana no sistema solar. Em Ancestral, não viajamos para um futuro distante, mas para um longínquo passado ancestral onde a Terra foi povoada por civilizações que hoje consideraríamos avançadíssimas, numa pegada de "Eram dos Deuses Astronautas?" mas carregada com a estética e temáticas afrofuturistas, ou seja, olhando para o futuro mas sem esquecer o passado. Isso está impresso no dilema e no conflito civilizacional no sistema de Rá. 

O corpo central do sistema Rá, está chegando ao ponto onde não conseguirá mais sustentar a vida no sistema e colapsará. Tal crise é irreversível mas isso não significa que os povos cessariam seus conflitos para resolver a questão. Acompanhamos um grupo de cientistas e diplomatas, principalmente de Orum, dedicados a desenvolver a tecnologia de viagem que permita o êxodo para o planeta Terra. Nessa aventura ágil, o autor foi bem habilidoso e conciso na ambientação de cada um dos planetas visitados, não deixando dúvidas quanto as referências usadas. Até porque este é apenas o primeiro volume da saga e logo entendemos que o foco logo se voltará para a Terra, destino da grande viagem.

A leitura é bastante fluída e vai agradar o leitor que gosta de uma boa aventura, mas nem tanto o que deseja tramas densas e carregadas de detalhes. O aspecto introdutório e o gancho no final é o que se pode esperar de um primeiro volume de uma saga, mas a história consegue se concluir e dar algumas respostas sem parecer que o livro acabou no meio. Agora é aguardar o segundo livro! 


  

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segunda-feira, 6 de março de 2023

Resenha #275 Não Verás País Nenhum (Ignácio de Loyola Brandão)


"Não Verás País Nenhum" é um clássico das distopias e da literatura brasileira. Para um leitor brasileiro que gosta de distopias, esta obra é presença certa em qualquer lista decente sobre o assunto. A obra carrega os elementos mais comuns das distopias mas com uma profundidade e um conhecimento do Brasil excepcionais. Temos um Brasil corroído pela corrupção (ou apenas governado como o habitual?), para a dominação e não sob princípio do bem comum.

Acompanhamos a história de Souza, que tem uma vida pacata num escritório, fazendo trabalho burocrático. Uma vida no trajeto casa-trabalho-casa, onde vive com sua pacata esposa Adelaide. Então, um furo surge em sua mão. Pausa para falar de que Brasil é este em que Souza vive: Basicamente a Floresta amazônica transformou-se num deserto e as consequências climáticas, para a metade sul do Brasil são as piores possíveis, afinal a Amazônia não é chamada de "Pulmão do Mundo" a toa. As bacias hidrográficas e biomas brasileiros secaram. O Brasil, outrora grande produtor da agricultura, passou a racionar água ao extremo, desenvolvendo gêneros alimentícios baseados em química para alimentar a população. O calor nunca mais abandonou o clima de São Paulo (local onde passa a história) onde os topos dos prédios calcinam qualquer coisas esquecida neles e grupos de andarilhos com a pele escamada vagam sem forças para correr atrás de água.

Voltando a Souza: Sua vida entra em uma espiral de queda, que o vai levar para uma jornada interna de autoconhecimento, autocritica, autocomiseração. Idas e vindas de um homem covarde que foi levado pelo tempo dele. Essa jornada tem probabilidades de ser bem cansativa para o leitor. Brandão, tem um estilo reflexivo de conduzir o livro. Souza está reavaliando sua vida a todo estante, relutando em tomar atitudes, mas há vários momentos interessantes onde conhecemos mais da paisagem devastada desse Brasil minguado, seco por dentro e por fora. Há cenas que destoam com uma crueza desconcertante e certamente vão ficar rodando na sua cabeça enquanto os monólogos de Souza dissecam o Brasil, com secura e ironia. É interessante ver o Brasil ser pintado nessas páginas como uma nova era de ditadura após um lapso de democracia. Vale lembrar que o livro foi escrito em 1981, em plena ditadura civil-militar, mas a história passada no início do século 21 soa hoje como um sonho estranho da nossa atualidade. Alías, toda boa distopia consegue capturar a essência podre e imutável dos piores momentos da modernidade, Brandão conseguiu capturar tudo isso no Brasil, montando um cenário completamente diferente e bizarro, que aos poucos vai ficando cada vez mais familiar. Essa familiaridade é o Brasil.  


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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

Resenha #274 Socorro para a Terra, Perry Rhodan 9 (W.W. Schols)


[As resenhas do blogue não costumam ter spoilers, mas para esta série não teremos esta preocupação. Pois ela será escrita pensando em trocar ideia com os leitores que já leram as obras ou que não se importam com spoilers. Além disso contar o enredo das primeiras histórias não constitui grande prejuízo para quem deseja começar a série, mas de qualquer forma fica o aviso]

"Socorro para a Terra" é o nono livro da série Perry Rhodan. Após as a exploração planetária e as descobertas em Vênus, retornam para o derradeiro confronto contra os DIs (Deformadores Individuais). Temos várias sequências interessantes. A primeira mostra os pilotos americanos servindo como pilotos de uma flotilha de caças que consegue abater uma nave dos DIs mas os problemas que enfrentam na Terra. Pausa para uma curiosidade sobre como funciona a produção de alimentos na Terceira Potência, usando as áreas circundantes e agricultores mongóis arando terras revitalizadas com a tecnologia arcônida.

Voltando aos DIs, temos uma sequencia que temos Marshall, o telepata, infiltrando-se na fortaleza superprotegida do gangster Clive Cannon, sobre o qual cai a acusação de ser um DI. No entanto, Rhodan não tem ainda a tecnologia para detectar com segurança dos invasores e precisa capturar Cannon vivo. Seguiu-se assim um plano de fato perigoso e teve de enfrentar os interesses das potências terrenas e necessitou de muita astúcia para dar certo. O plano termina com uma tensa negociação entre Rhodan e a mente coletiva dos invasores. Contudo ainda restava a invasão de fato, concentrada na cidade de Nova Iorque. Lá a ausência de um método de identificar os DIs causou pânico na população e quase destruiu a cidade até que se encontrassem os meios de separar os tomados pelos DIs das pessoas normais. Foi muito interessante ver os duelos mentais entre os membros da Terceira Potência. Marshall sobrevivendo a uma assimilação de um DI e Rhodan quando consegue caputrar e negociar diretamente com um DI.

O episódio termina com, obviamente, uma vitória da Terceira Potência. A invasão em maior escala dos DIs foi a última tentativa desta raça, mas a incerteza da segurança da Terra ainda mais ameaças de invasão podem acontecer. Também, o sucesso na invasão não acabou com as desconfianças entre as potências terrenas. Essa nova história de invasão, deu a complexidade que falou para situação anterior. Isso é algo que é muito bacana na série.
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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Resenha #273 E de Extermínio (Cirilo S. Lemos)


"E de Extermínio" é o segundo livro de Cirilo S. Lemos, autor do excelente O Alienado. Aqui há uma proposta bem diferente primeiro livro, puxado para o wierd, reflexivo e filosófico, agora dando vazão para sua veia de historiador e mergulhando de cabeça na a ação e na história alternativa, com uma estética Dieselpunk. Essa mudança mostra a versatilidade do autor, mas para quem leu o primeiro livro, é importante alertar que o estilo quase philipkdickiano não é uma constante do autor, apenas uma de suas facetas.

A obra é uma ampliação da noveleta Auto de Extermínio da antologia Dieselpunk da Draco, que aqui é praticamente usada por completo, como uma abertura ou uma primeira de várias aventuras da família Trovão, que vão se acumulando como se fossem várias noveletas juntas alternando narradores. O primeiro, Jerônimo Trovão, é pai que ensinou o oficio do assassinato ao filho, Deuteronômio, chamado apenas de Nômio. Ambos nasceram com uma espécie de mediunidade, personificada em uma figura que conversa e alerta dos perigos dando uma vantagem em combate que mantém tanto Jerônimo, quanto Nômio vivos e perigosos. Jerônimo vê uma Santa (pela sua formação religiosa) e Nômio vê o Democrata (personagem dos quadrinhos que lia na infância). Há também um terceiro filho, que mesmo sendo adotado, também desenvolve a mesma mediunidade mas com uma diferença que pode destruir a família e mudar o destino do Brasil.

Aliás Cirilo brinca com os destinos não tomados pela História com o domínio que só um historiador apaixonado poderia fazer com tanta segurança. O turbulento início de século, com a ascensão das ideologias do nazismo, comunismo e liberalismo, ganha ainda mais impacto por conta de um Império muito mais teimoso em desaparecer, com direito a um Dom Pedro III velho e querendo perpetuar-se através de um clone. Protásio Vargas, é a primeira figura republicana, que emerge após um golpe de Estado no imperador, contudo um herdeiro do trono muito bem escondido ressurgirá para colocar fogo no Brasil. A trama é bem ágil em entrelaçar o destino da família Trovão com o marco do destino do país, no jogo da política externa.

Esse pano de fundo, contudo não toma conta da narrativa, que é permeada pela ação e pelo mistério que envolve as aparições da Santa para Jerônimo e do Senhor Democrata para Nômio e do cachorro para Levítico o filho caçula da família. Recomendo bastante o livro para quem gosta de ação e não tem medo de conhecer essa história alternativa, cheia de ótimas sacadas mas que nem por isso perde a essência do Brasil que conhecemos e isso garante uma viagem fantástica e crível.
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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Resenha #272 2021 (Edgar Franco Org.)


"2021" organizado por Edgar Franco, o ciberpajé, foi lançado em 2020 durante os primeiros e mais tensos meses da pandemia de COVID-19. A obra é também vencedora do Prêmio Argos 2021 na categoria antologia. A coleção é baseada num álbum de gravuras que o autor desenhou para inspirar os autores, e são belíssimas. Uma mistura de psicodelia com tecnologia que refletem o conceito de hipernormalidade do autor ao buscar uma extrapolação tão próxima, no caso um ano no futuro. Ironicamente dois anos no passado, agora.

Um exoantropólogo em um mundo pós-humano, de Edgar Smaniotto abre a antologia este conto em formato de ensaio científico, na pele de um pesquisador num futuro onde a raça humana aprendeu muito com outras formas de vida. Um conto utópico muito bem vindo cheio de alteridade. Et in Arcadia Ego, de Fábio Fernandes, faz uma releitura da alegoria do mito da caverna, num conto de exploração planetária, que poderia se passar no mesmo mundo do conto anterior.

O nascimento do Rei Poedi de Fábio Shiva se parece com o conto de seu xará, pela via da influência dos filósofos gregos antigos. Em um grande império a sucessão é uma história trágica para o rei e o príncipe. Conhecer a história de Édipo ajuda bastante a aproveitar melhor o conto. Onde as (nano)cores se arvoram de Gazy Andraus entrega um conto potente em imagens, que precisam ser formadas na cabeça do leitor para uma melhor imersão, pois não há um enredo linear, tradicional para seguir. O aplicativo, de Gian Danton, por outro lado traz um conto com enredo com uma revelação no seu desenlace. O conto alia o terror a ficção científica para nos impactar com nossa relação com a tecnologia, como se passou a dizer, a la Black Mirror

Pandemônyo em Pyndorama: alegrya, alegrya de Nelson de Oliveira voltamos a vibração imagética no estilo característico do autor, que já foi melhor digerido por já ter lido mais do autor que alia várias influências buscando a arte brasileira. Por fim Octávio Aragão com seu O Ninho no Nariz do Boneco” começa pintando o conto com traços lisérgicos, como numa pintura vista a distância que vai ganhando traços bem delineados quanto mais perto chegamos perto até um final mostrando um enredo bem amarrado.


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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Resenha #271 Multiverso Pulp Volume 1: Espada e Feitiçaria (Duda Falcão Org.)


"Multiverso Pulp: Espada e Feitiçaria" é o lançamento da editora AVEC que buscou resgatar aquele clima de revista de contos curtos onde predomina a ação. Aqui são dez contos de fantasia no melhor estilo Espada e Feitiçaria. Vou analisar os contos separadamente.

A Peônia (Alec Silva) conta sobre Marja uma guerreira que enfrenta todas as dificuldades de uma caçadora de recompensas mulher pode enfrentar. Há uma aura que paira sobre Marja devido as lendas que circulam a seu respeito sobre o severo treinamento, que lhe rendeu uma cicatriz no rosto. O conto usa bastante páginas para compor essa aura e poucas para mostrá-la em si. Acho que se esses dois momentos fossem alternados, o impacto seria maior, mas eu gostei do conto. Introduziu a personagem que pode ser facilmente expandido para algo maior.  

Khamir, o Sem Rosto (Lucas Viapiana Baptista) Assim como o conto anterior é uma aventura de um personagem que pode ser expandido ou até adicionado em outras aventuras. É algo muito comum e agradável nas histórias de Espada e Feitiçaria. Khamir é um guerreiro em estado severo de lepra, que foi contraída por uma maldição. Após uma visão ele tem a esperança de quebrar a maldição. A composição do personagem mostra que a maldição já faz parte dele e é difícil vislumbrá-lo sem ela. O mundo está contra ele e isso é evidente no uso da máscara para poder entrar nas cidades, como nem por isso, ele é bem recebido. 

O lorde sombrio do castelo em ruínas (Tarcísio Lucas Hernandes Pereira) Diferente dos contos de espada e feitiçaria em que há combates empolgantes com (duh) espadas e feitiçarias, aqui temos um duelo em que as armas são a conversação, a inteligência e a astúcia. Assim se desenrola esse embate entre Alkar, um ladrão contratado pelo Lorde Zamiel, que espanta mas instiga a cobiça do ladrão com sua figura cadavérica e macabra. O conto é extenso, em comparação aos outros mas o duelo flui muito bem, pois a curiosidade de Alkar é transferida para o leitor com muita facilidade (e sem os riscos, felizmente).

A Última Luz (Jonatas Tosta Barbosa) se passa em um mundo decadente onde uma formação tribal está minguando enquanto faz uma travessia desesperada em busca de melhores dias. Tentando sobreviver, a filha mais velha Ardruna, junto com seu pai e irmãs lutam contra o clima gelado, contra predadores que querem devorá-las e membros da próprio povo que querem escravizá-las. O conto é muito competente em passar essa ambientação de decadência em todos os sentidos e entregar uma aventura cheia de horror.

A Caçada ao Paladino (Fernando Fiorin) Acompanhamos uma fantasia histórica, onde uma maldição por um gênio destruiu uma família inglesa. O kafir fugiu com sua lâmpada e o senhor estava assolado pelo peso da maldição. Então, um misterioso paladino do oriente oferece ajuda para o inglês e ambos partem na caçada do demônio. A aventura é linear e o final simples, porém durante a jornada o choque cultural entre o oriente e ocidente é bem explorado e acaba sendo o principal atrativo do conto.

A Bruxa (Marina Mainardi) Temos uma busca por sair do clichê da Bruxa malvada e aqui temos uma personagem que também não cai no extremo oposto. Na perspectiva de um homem que tem o contrato para matar uma bruxa, vamos explorando o cenário até o derradeiro encontro. Se pensarmos a exploração e o cenário como parte da própria bruxa, conseguimos tirar do conto algo mais profundo desta personagem. 

Enseada Abissal (Rodrigo B. Scop) Acompanhamos Neshad em uma busca fantástica por uma criatura marinha ancestral e incrivelmente poderosa. Não há porque negar a influência em Moby Dick, pois ela é bem vinda. Uma aventura marítima em um conto no qual não há porque ter pena dos personagens. A caçada e a loucura que motiva o protagonista permeiam todo o conto e a visão da criatura é outro atrativo.

Considerações acerca de Anathemus a espada perdida (Roberto Fideli) O conto é basicamente uma escrita epistolar, simulando um artigo acadêmico dissertando sobre uma espada mágica, levantando hipóteses sobre os poderes da espada e sobre quem a portou ao longo do tempo. Um dos melhores contos da antologia, pois além da ideia bastante criativa, foi muito bem executada. É aquele tipo de texto que você leria com gosto em uma aba explorando um cenário de jogo de RPG. Muito bom! 

Nas Ruínas de Ka'Drath (João Ricardo Bittencourt) No melhor estilo lovercraftiano, acompanhamos uma bruxa em busca de uma criatura abissal capaz de cruzar a fronteira da vida e da morte. Temos uma jornada bem escrita e tensa, principalmente para os que se envolvem mais facilmente no estilo. O mistério é deixado de lado pela aventura e o tom macabro que percorre o conto todo. 

Guízer contra a aranha de mil filhotes (Duda Falcão) conto que fecha com chave de ouro a antologia com um conto muito divertido que consegue colocar muita coisa em poucas páginas. Acompanhamos Guízier, um fugitivo de uma fazenda escravagista mas acaba preso e enviado a uma arena de gladiadores. Lá enfrentam muitos inimigos que se colocam em frente dele e sua liberdade. A conexão da magia deste mundo com os animais é muito simples e conquista o leitor muito facilmente. Como organizador, o peso de colocar um bom conto na antologia aumenta bastante (sei exatamente como é) e posso dizer com tranquilidade que o autor extrapolou qualquer expectativa e colocou o meu conto favorito. 

 
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