terça-feira, 23 de agosto de 2022

Resenha #249 Olhos de Pixel (Lucas Mota)


"Olhos de Pixel" de Lucas Mota foi lançado pela Plutão Livros, uma editora focada em livros digitais. É uma aventura cyberpunk que se passa nas ruas de uma Curitiba num futuro próximo. É uma abordagem do cyberpunk amplamente diferente do introspectivo e intimista Diário Simulado de Delson Neto (também pela Plutão Livros), partindo para a aventura frenética usando e abusando da estética dos jogos eletrônicos, quase numa paródia ao cyberpunk oitentista. 

Acompanhamos Valentina Santeless, conhecida como Nina. Uma root, uma fora da lei que aceita trabalhos perigosos e duvidosos para descolar uma grana para buscar uma vida nova para ela e seu filho na colônia Chang'e. Junto com a temperamental Iza e o valente Tera, vão travar uma verdadeira guerra pela própria liberdade, após terem sido pegas pela polícia privada e terem que pagar capturando o Kalango, um terrorista que sabe dos segredinhos sujos da Igreja de Salomão. Entidade que controla a cidade com mãos de ferro e impõe um conservadorismo religioso que caça lésbicas como Nina e transexuais como Tera. Em certos momentos acompanhamos Lídia, a policial que tenta usar os roots para prender o Kalango.

O livro tem um ritmo alucinante, recheado de cenas de ação, que só não vai divertir quem não quer. Contudo, temos uma preocupação em colocar ideias tecnológicas interessantes, retiradas de jogos. Um processo coerente com a gamificação do trabalho que vemos hoje. Por exemplo, as smartselfs, que são apetrechos que aparentemente apenas servem para inserir programas utilitários mas que na mão dos hackers são modificados com modpacks que implementam melhorias nos sentidos e na força física dos usuários com o risco de superaquecimento e reboot - que deixa o usuário desacordado por algumas horas. Podemos imaginar que sofrer um reboot, em meio aos intensos combates que nossos roots se submetem enquanto estão arriscando-se para fechar seus trabalhos, é uma morte quase certa. Quando lemos esses sistema em ação durante o livro, temos algo fácil de visualizar, acompanhar e torcer pelos protagonistas.

Isso acontece porque também houve uma preocupação em dar mais camadas a Nina, pois ela teve atitudes condenáveis em relação ao seu filho e precisa arcar com as consequências, como podemos ver nesta história. Lidia Gaber, também foi bem trabalhada no seu dilema, uma vez que a narrativa em terceira pessoa a acompanha em suas reviravoltas. O resultado de tudo isso junto é um livro que não tem medo de dizer a que veio. Duro e sem meias palavras, Olhos de Pixel mete o pé na porta assim como nas suas cenas de ação! Recomendado!   




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segunda-feira, 15 de agosto de 2022

Resenha #248 Contos de Outrora, d'As Crônicas de Kérdar (Eduardo Alós)


"Contos de Outrora" de Eduardo Alós é uma pequena coleção de contos de Fantasia ambientados no mundo de Kérdar, o mesmo o romance "As Crônicas de Kérdar: A espada do dragão e os dragões vermelhos". Os contos exploram momentos antes do início do livro, revelando algumas origens e dando protagonismo a personagens secundários. É interessante como este conjunto de histórias funciona tanto quando lidos antes do romance (uma prévia do que esperar deste mundo, sem comprometer o romance) quanto depois (pois aprofunda alguns personagens secundários).

Nordhal e o tesouro de Hedlund acompanha um grupo de pescadores que, influenciados por um velho persuasivo, partem em busca de um tesouro numa ilha que ninguém parece saber a localização. Conhecemos Rekdal e a entidade que sabe o futuro, além dos que viriam a ser os donos do mercado de Udveske, que entrarão na trama do primeiro livro das Cronicas de Kerdar. É basicamente uma historia de piratas com tudo que queremos ver neste tipo de história, principalmente ação e maldições!

Em Thern e o Torneio de Verão conhecemos como o chefe da guarda de Sydlige chega ao seu posto e como a linha entre o sucesso e o fracasso é tênue. Além desta reflexão, podemos vislumbrar o reino dos humanos em uma época de paz, com suas estruturas sociais que são uma boa introdução ao primeiro romance. O torneio é bastante divertido de acompanhar e as cenas de ação bem conduzidas.

A Perdição de Álfheim nos leva até o Reino dos Elfos onde vemos que uma pequena fagulha de tragédia pode desencadear outras tragédias ainda piores. Além de conhecermos as origens de alguns personagens e as motivações de outros, temos o lado melancólico de um reino que aparenta ter sempre a sabedoria necessária para ser eternamente feliz mas nada é sempre tão feliz assim. 

A Senhora da Floresta acompanha uma menina que ao descobrir a verdade sobre sua mãe biológica tenta quebrar a maldição que persegue sua linhagem e ao mesmo tempo tenta viver ao lado de seu amado mesmo contra a vontade de todos. Novamente temos uma tragédia no sentido clássico do termo. Vale acompanhar este drama até o fim.






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segunda-feira, 8 de agosto de 2022

Resenha #247 O bebê em Netuno (Clare Winger Harris)


"O bebê em Netuno" de Clare Winger Harris é uma das histórias da autora que surgiu nas antigas revistas pulp dos anos 1920 nos Estados Unidos e que está sendo celebrada pela editora Cyberus com vários lançamentos de contos na Amazon. Este é um dos contos que foram lançados e o segundo da autora resenhado aqui.

Em O bebê em Netuno acompanhamos dois pesquisadores que conseguem estabelecer comunicações com vida em Netuno porém o tempo corre de maneira extremamente lenta para os netunianos o que faz com que as comunicações demorem bastante. Então uma expedição é formada para ir até o planeta para travar contato pessoalmente. Os protagonistas descobrem que além de seu tempo passar de forma muito rápida, não são vistos a olho nu. Quando os cientistas conseguem travar contato visual descobrem que os conterrâneos de Elzar, um cientista netuniano, estão em perigo e cabe apenas aos terráqueos ajudarem. Como muitos contos da era pulp, hoje soam absurdos mas trabalham muito bem com a ciência que tinham na época e, levando isso em consideração é uma história que faz especulações interessantes sobre outras formas de vida senciente tão diversa da humana e a autora conduz muito bem o mistério, com um final bonito e de encher os olhos.
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segunda-feira, 1 de agosto de 2022

Resenha #246 Afrofuturismo: O futuro é nosso. Vol 1 (Aisameque Nguengue, Alexandre Diniz, Anderson Lima e Israel Neto)


"Afrofuturismo. O futuro é nosso. Volume 1" é uma antologia da Kitembo Editorial. Uma editora dedicada publicar autores negros com histórias afrofuturistas, em formato impresso. Este primeiro volume foi organizado por Aisameque Nguengue, Alexandre Diniz, Anderson Lima e Israel Neto, reunindo cinco contos em um formato pequeno, curto porém muito bonito, caprichando nas ilustrações, na qualidade da diagramação e, no principal, os contos. Achei sempre interessante a opção de publicar menos contos ao invés de colocar o máximo possível apenas para fazer volume. O resultado é uma antologia curta mas muito gostosa de ler.

O livro abre com um texto de apresentação escrito por Eugênio Lima e trás uma reflexão bem embasada e apaixonada sobre o afrofuturismo, fazendo a expectativa sobre o livro aumentar bastante. Temos ainda um prefácio de Lu Ain-Zaila, pioneira na literatura afrofuturista no Brasil. A ilustração da capa e as internas são de Fabrício Flor e Lucimara Penaforte.

Black Looping: a (re)volta do presente (Felipe Augusto) abre a antologia com o conto de maior fôlego. Somos apresentados a Zwi que vive clandestinamente em Nova Ethiopia, mesmo local onde o General Arimbé e o Dr. Mbembe debatem sobre o futuro do país. Então Maria, comenta que seu filme favorito é Nova Ethiopia e entramos de fato na história do conto. Maria vive num futuro onde é comum viagens assistidas no tempo. Prestes a fazer sua primeira viagem rumo a Bahia do nosso tempo, Sueli, a mãe da menina decide acompanhá-la e é nos preparativos da viagem que temos as revelações do conto. Particularmente eu gostei delas porque remetem a um mundo aventuresco que podia ser mais explorado.

A peixeira e a esfinge (Alec Silva) autor que também integra o movimento Sertãopunk traz um conto que se encaixa em ambos os movimentos. Acompanhamos um assassino contratado por um traficante de arte dos povos africanos e da diáspora, para matar uma esfinge que queria proteger os artefatos. O desdobramento é o típico do cyberpunk, mas foi muito bem feito e isso é o que importa em um bom conto.

O caderno de Evee (Alisson Matheus) não costumo gostar de contos muito descritivos, mas este me surpreendeu. A narrativa e ambientação, muito imersiva e passa a sensação dos contos clássicos de passagem do tempo. Evee é uma mulher sobrevivente de uma das colônias, criadas numa reorganização pós-apocalíptica e em nova crise, ambiental e social. Vou deixar um detalhe sobre a personagem para que vocês descubram, pois o autor foi muito sutil. Mesmo sendo um conto, sobre uma personagem contemplativa, ainda guarda uma surpresa no final.

A guerreira Nabliahh: Conquistando a galáxia Mater Constructer (Fernando Gonzaga) conto curto sobre Nabliahh, a líder guerreira de um império galáctico que está nos momentos finais de uma investida a um antigo inimigo. Tem imagens muito bem construídas e interessantes, mas senti falta de um enredo mais elaborado.

Tempestade (Ana Meira) conto sobre uma habitante da cidade de Berten que é abordada por uma misteriosa mulher que a atrai e faz revelações sobre sua origem. Prosa carregada de poesia e alegorias bem construídas. Encerrou bem a antologia!
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segunda-feira, 25 de julho de 2022

Resenha #245 Fuligem (Evelyn Postali)


"Fuligem" é um romance policial de Evelyn Postali que traz uma trama envolvente em que os personagens são submetidos a pressão de resolver um crime que parecia fadado a ficar sem solução. O grande trunfo da obra é o tratamento psicológico dado aos personagens que nos coloca em dúvida sobre quem está do lado de quem. 

A história começa com a investigadora de Polícia Civil, Estela Lopes, chegando de Caxias do Sul para Porto Alegre, Rio Grande do Sul e logo é recebida pelo preconceito por Alexander Medina, seu novo parceiro. Medina tem um grande caso não resolvido que acaba caindo no colo de Estela. O assassinato de Tim Harlet, jornalista inglês que trabalhava para um jornal que investigava um figurão rico chamado Evilásio Prates. Quando Estela começa a encontrar novas pistas para o caso, envolve-se com Benjamin Müller, filho adotivo da vitima.

As coisas complicam quando o envolvimento amoroso de Estela por Müller, desperta o ciúmes de Medina e segredos cabeludos. O grande trunfo da obra é que os envolvimentos e conflitos amorosos e sentimentais se mesclam perfeitamente a trama, a medida que a investigação avança, pois realmente me confundiu sobre quem seria o assassino. Quanto ao desenlace, teve alguns momentos que poderíamos chamar de clichê, que quando bem feito é muito bom e ainda reservou umas surpresas. Ainda que a história tenha um encerramento, sem pontas soltas, podemos aguardar uma sequência. Espero que venha!  
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segunda-feira, 18 de julho de 2022

Resenha #244 Brasa 2000 e mais Ficção Científica (Roberto de Sousa Causo)


"Brasa 2000 e mais Ficção Científica" de Roberto de Sousa Causo é uma antologia, parte da coleção Futuro Infinito, muito representativa da versatilidade do autor, principalmente na Ficção Científica, retirados de diversas publicações. Como fã do trabalho do autor, foi muito bacana encontrar contos de publicações antigas e, por vezes, difíceis de encontrar. O livro celebrou isso da mesma forma que Fanfic, de Bráulio Tavares, lançado na mesma coleção. Vamos falar dos contos em separado.

A primeira parte Aqui, Agora, Futuro Próximo, trouxe contos com especulações e reflexões mais envolvidas com nosso presente. "Infiltrado" é narrado num fluxo de consciência que ao mesmo tempo que nos envolve numa sensação de fuga e nos entrega, aos poucos o contexto desta fuga entregando tudo na última frase. Uma aula de como não colocar infodump nas histórias e usar isso em favor dela para deixá-la mais instigante. 

"A mulher mais bela do mundo" conta sobre um fotógrafo brasileiro que encontra sua satisfação estética suprema e vê sua obra apreciada por um emissário do espaço. Adorei a forma como o debate entre o estético e o essencial é tratado aqui, num conto com desdobramentos instigantes.

"O salvador da pátria" um soldado acorda após um acidente aéreo, que vitimou todos os outros tripulantes. Contudo ele é auxiliado por uma indígena que lhe incumbe uma última missão. O conto se passa na floresta amazônica, um cenário muito caro ao autor que já escreveu uma trilogia de romances sobre a Amazônia. A índia logo revela-se vinda do futuro e a missão ganha uma importância extrema, contudo ainda coube espaço para uma discussão sobre o que afinal de contas é o Brasil. Mais do que fornecer qualquer resposta determinista, temos um punhado de boas reflexões que valem tanto quando a ação bem narrada, costumeira dos escritos do autor. 

"Pré-natal" acompanhamos Paulo, que busca proteção na ONU para proteger um segredo de Estado de uma nação totalitária. Seus segredo tem um potencial único de acabar com o domínio de um ditador aparentemente Imortal. De fato seria um pesadelo, existir um país assim, não é verdade?!

"Brasa 2000" acompanhamos uma fuga de um soldado, único sobrevivente do seu esquadrão em uma São Paulo devastada pelo exército argentino munido de drones estrangeiros. Menos importante que as grandes movimentações militares e tramas políticas, esta é uma história sobre um soldado lutando para sobreviver, a condições que ele não criou.  

A segunda parte, Tupinipunk, é um termo cunhado pelo próprio autor que é basicamente uma visão brasileira do cyberpunk. O primeiro conto é "A luta do Cangaceiro Jedi" que narra uma breve aventura de um hacker que disfarça grandes roubos de dados com atos puramente rebeldes. Vemos a abordagem tupinipunk florescer ao modo de falar brasileiro, no contra ponto do protagonista conversando com uma estrangeira russa bem politizada.    

"Para viver na barriga do monstro" o autor retorna a Amazônia para mostrar um indígena que trabalha em um centro de pesquisas em meio a uma pane tecnológica de escala global. Junto com sua namorada carioca e um colega estadunidense, vemos todos exibirem seu interior na eminência de um apocalipse tecnológico.

"Vale-tudo" é uma dos dois trabalhos de mais fôlego do autor neste livro. Acompanhamos Jareen, uma jornalista americana que vem ao Brasil para entrevistar um apresentador de programas policiais, ex-lutador de Vale-tudo (nome antigo para o MMA) André Mattar. Após um atentado durante a entrevista, Jareen se vê em meio a uma disputa política, rebeldes e um Brasil parcialmente destruído após um desastre nuclear. Vemos novamente o autor trabalhando as peculiaridades do Brasil contraponto com algum personagem estrangeiro, aqui a protagonista.  

A terceira parte contém apenas dois contos Steampunks curtos, que servem como homenagens, primeiro a H. G. Wells, em "A vitória dos minúsculos" onde a invasão dos tripods acontece no Rio de Janeiro e em "Dactilomancia", acompanhamos um inventor de máquinas de datilografia em busca da máquina perfeita quando suspeita da existência de seres de outro mundo habitando entre nós.

Por último e não menos importante, a última parte é uma Space Ópera que reúne seus dois personagens principais de suas sagas interestelares. Jonas Peregrino e Shiroma em "Tengu e os assassinos", uma noveleta que exemplifica bem a riqueza do mundo espacial do autor. Peregrino está em uma missão para salvar uma herdeira de uma dinastia nipônica, mas ela é perseguida por perigosos assassinos. Durante a missão o autor explora bem todas as variáveis, das políticas até as táticas. O resultado é a solidez e imersão nas histórias.
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segunda-feira, 11 de julho de 2022

Resenha #243 Estrela Vermelha (Aleksandr Bogdanov)


"Estrela Vermelha" de Aleksandr Bogdanov é um livro raro, pois poucos os envolvidos naqueles anos revolucionários na Rússia até a vitória da revolução se dedicaram a escrever ficção e menos ainda Ficção Científica. O autor teve uma formação intelectual muito vasta, da medicina passando pela matemática e física, contudo sua Ficção Científica, plenamente satisfatória no quesito hard também era muito sensível no aspecto social e humano. Esses dois aspectos são muito bem alinhados em Estrela Vermelha.

Acompanhamos a história de Leonid, contada por ele próprio através de um longo relato de sua experiência incrível. Leonid, assim como o autor, é um revolucionário do PSDR (Partido Social Democrata Russo), um bolchevique da velha guarda, que recebe um convite estranho de um colega estranho, que logo se mostra um marciano, chamado Menny, recrutando Leonid para visitar marte. Quando este aceita, segue um panorama pela vida e organização social do planeta vermelho, que aderiu ao comunismo. Mais do que uma mera exposição das conquistas do povo marciano Leonid é apresentado também ao lado sensível dos habitantes, incluindo um romance com Netty, a médica da expedição que o trouxe da Terra.

A escrita em forma de relato, é bastante rica em percepções do personagem que não deixa de ser trabalhado emocionalmente pelo autor. Inclusive, as partes mais interessantes, não são as técnicas como a especulação da radiação, recém desenvolvida por Mary Curie e as naves imaginadas escrupulosamente pelo autor. O desenvolvimento do amor e dos sentimentos numa sociedade comunista são brilhantemente imaginados. Antes de pensarmos em "amor livre", temos Bogdanov tecendo considerações avançadíssimas para seu tempo. Imagino como devia ter sido arrojado para os leitores de sua época, pois ainda hoje a leitura tem momentos de frescor tanto em aspectos sociais, quanto em aspectos das ciências duras.

O que pode desagradar eventualmente o leitor é que a trama não se movimenta muito no meio do livro, e depois de um início bastante movimentado e de um final curto mas também agitado, tem um desenvolvimento mais lento. Contudo é uma obra curta e que pode ser lida em uma ou duas sessões de leitura atenta. Recomendado!
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segunda-feira, 4 de julho de 2022

Resenha #242 O ciclo do macaco (Clare Winger Harris)


"O ciclo do macaco" de Clare Winger Harris é uma das histórias da autora que surgiu nas antigas revistas pulp dos anos 1920 nos Estados Unidos e que está sendo celebrada pela editora Cyberus com vários lançamentos de contos na Amazon. Este é um dos contos que foram lançados e o segundo da autora resenhado aqui.

Em O ciclo do macaco" acompanhamos a saga da família Stoodart quando na década de 1910 Daniel decide iniciar um empreendimento de domesticação de símios e macacos para substituir a mão de obra humana para trabalhos braçais e em poucos anos já obtém sucesso com algumas espécies, até que Beta o gorila mais inteligente e forte entre os animais de Daniel começa a se rebelar. Apesar do desfecho trágico a família Stoodart não desiste de levar o experimento adiante. Passa-se três séculos e os macacos estão em quase todas as posições de trabalho. Os macacos passam a se organizar e ensaiam uma revolução para sair do jugo dos homens mas Wil Stoodart, um descendente direto de Daniel, é o único que desconfia dos planos dos macacos.

A fórmula do conto lembra bastante as já conhecidas das revoluções das máquinas e me lembrou bastante "O Planeta dos Macacos" de Pierre Boule, no sentido de organização dos macacos mas sob um prisma diferente, o do confronto. Algo que só vi nos últimos filmes baseados na obra de Boule, onde uma humanidade enfraquecida tem de lutar contra os macacos em ascensão. Obviamente temos as limitações das extrapolações da literatura pulp de FC dos anos 1920. Levando-se isso em consideração é possível embarcar na viagem e ver um "protótipo" do filme Planeta dos Macacos: o confronto.
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segunda-feira, 27 de junho de 2022

Resenha #241 Contos Reversos (Romy Schinzare)


"Contos Reversos" da Romy Schinzare é um livro de contos da autora, pela Editora Patuá, participante da antologia Outros Brasis da Ficção Científica, onde podemos ver seu total domínio da narrativa curta. Temos contos de terror, ficção científica e alegorias muito intrigantes que ficam ainda melhores no conjunto pois não tem como saber o que esperar dos contos até que a autora queira que você saiba.

O livro abre com dois contos alegóricos: "Ministério da Solidão" e "O Prédio". O primeiro se passa num mundo tomado pelos homens-bananas e sua rápida proliferação, sempre flutuando ao sabor do mercado e, depois, com a rotina de um prédio onde a evolução se alcança de bípedes para quadrúpedes. Em "O colecionador" um homem atormentado por uma herança de família, num conto cheio de imagens bem construídas. "Ms. Liberty" é outra alegoria, que embora menos complexa é cheia de fúria e paixão, quando narra uma breve desventura da Estátua da Liberdade indignada com o mau uso de seu conceito.

"Os robôs de Marte" é a primeira FC do livro e tem o sabor daquelas antigas FC sobre Marte, em que imagens e reflexões vão se acumulando na cabeça do leitor. "Canal 66" parece um terror saído da série Além da Imaginação tanto na criatividade quanto no suspense no desenvolvimento. "Buraco de Minhoca" volta a FC com a viagem insólita de um cosmonauta russo e seu regresso do espaço não menos insólito e saindo da Rússia para os EUA, com a mesma desenvoltura "Operação Baltimore" narra um suspense sobre uma organização que combate a KKK. Sem aviso algum, voltamos ao nosso quintal, a autora nos joga no misterioso caso de "O Vampiro de Sta Efigênia" no Brasil, que ganha tons tragicômicos quanto mais perto do desenlace chega. 

"O Baile" temos um conto insólito de uma dançarina, que poderia ter saído de um sonho, apenas para ser imergido em um pesadelo em "Ookie Dookie" onde um jovem casal se depara com uma cidade turística. No embalo do estranho e do fantástico, "Moça Enularada" nos dá um rapa em nossas expectativas ao contar a história de um ET que visita fazendeiros mineiros. Agora em meio a tecnologia da cidade grande "Rede ZZZ" nos faz uma pergunta simples: e se tudo parasse de funcionar?

O livro encerra com duas histórias com criaturas fantásticas. "Oziris" onde uma raça estelar convive em meio aos humanos de forma secreta, num conto bonito e emocionante, contrapondo violentamente com "Mutantes" que tem uma narrativa frenética na busca por um emprego em meio a transformações involuntárias.
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segunda-feira, 20 de junho de 2022

Resenha #240 Floresta é o nome do mundo (Úrsula Le Guin)


"Floresta é o nome do mundo" da Úrsula Le Guin é o terceiro livro do Ciclo Hainnish que chega ao Brasil em Português-BR, já havia sido traduzido em Portugal pela Europa-América. Foi uma excelente notícia pois estava difícil imaginar, que a Editora Aleph iria voltar a publicá-la mesmo já tendo publicado "A Mão Esquerda da Escuridão" e "Os Despossuídos".

Acompanhamos o encontro civilizacional dos Humanos da Terra com os nativos de Athshe. Distante 27 anos da Terra, os colonos da Terra impõe uma dominação brutal, ao modo europeu com os nativos indígenas. Da intenção para extrativismo, ao uso de trabalho escravo, os athesheanos não conhecem o uso da violência para aqueles que reconhecem como humanos (ou yumanos, na língua deles) enquanto que os colonos reduzem a animais, chamando-os de "creechies" - de criatura.

Apenas Raj Lyubov demonstra interesse em um intercâmbio cultural com os nativos. Dessa forma conhece Selver que após ter sua esposa estuprada e morta por Don Davidson, o típico brucutu que tem prazer na violência e mostra ao longo do livro como é desprezível. São esses os três narradores que intercalam a obra. Selver tem um papel crucial pois sua vivência o coloca como líder de uma revolta que pode por em risco a colônia yumana e nem uma comissão de emissários de outros planetas parece ser capaz de frear essa onda de violência que se anuncia.

Os hainianos, são a raça originária dos povos retratados nas obras de Le Guin, inclusive os humanos da Terra, porém essa civilização perdeu contato com suas colônias e elas se esqueceram umas das outras, de forma que todos são humanos. Em "Floresta é o nome do mundo" estamos no início da criação da Liga dos Mundos, com base na criação do anísvel, uma máquina capaz de comunicação interplanetária instantânea. Contudo, nem mesmo a jovem Liga pode evitar o confronto que se anuncia. Chama a atenção a relação dos athesehanos com os sonhos que os colocariam como um dos seres mais importantes para a Liga dos Mundos.

De volta a obra, Úrsula foi muito competente em colocar os dilemas ambientais, do colonialismo, ecologia em uma obra tão maravilhosa como triste, como de fato foi a história do colonialismo europeu, mas que pelo seu caráter ficcional, infelizmente envelheceu bem, permanecendo atual, pois uma vez que aprendemos algo, não podemos mais voltar atrás. 
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segunda-feira, 13 de junho de 2022

Resenha #239 - Diário Simulado (Delson Neto)


"Diário Simulado" de Delson Neto foi a minha primeira aquisição de livro exclusivamente digital, uma vez que a Plutão Livros tem trabalhado apenas neste formato. Um marco pessoal pois, desde que adquiri meu leitor Kindle, li apenas livros gratuitos e pelo sistema de empréstimo Kindle Unlimited. Como não poderia deixar de ser, essa aquisição foi um cyberpunk brasileiro. Subgênero que sempre estou catando algo para ler e não me decepcionei aqui.

Acompanhamos Shura, que vive em Nova Avalon, num futuro indeterminado. Após cair no fogo cruzado, durante um atentado terrorista, ela se vê no meio do conflito. Recrutada tanto pelo departamento de polícia quanto pelos neodruidas. Shura é uma personagem muito bem construída, antes de mais nada, pelas suas reflexões em forma de diário antes de cada capítulo. Durante a história, Shura se mostra impulsiva, reprimindo emoções em meio a vida atribulada. Nenhum de seus familiares de sangue, a ajuda, e ela encontra esteio emocional apenas em Violet, sua namorada, que serve de contraponto para sua impulsividade, que aflora quando as duas estão longe uma da outra. Já em Trisha, sua melhor amiga, a apoia em tudo, ainda que essa amizade não tenha sido tanto posta a prova.

Shura vive no limiar do real em um mundo tomado por simulações, sendo que para os neodruidas, ela é imposta como forma de opressão, o que dá ares de Philip K. Dick a obra. Contudo, não temos uma escrita prolixa sobre o mundo das simulações, mas boas reflexões que entranham-se com muita coesão no mundo futurista. Acredito que acima de tudo temos uma boa história em um livro bom tanto para novatos quanto veteranos na FC.
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segunda-feira, 6 de junho de 2022

Resenha #238 - A quinta dimensão (Clare Winger Harris)


"A quinta dimensão" de Clare Winger Harris é uma das histórias da autora que surgiu nas antigas revistas pulp dos anos 1920 nos Estados Unidos e que está sendo celebrada pela editora Cyberus com vários lançamentos de contos na Amazon. Este é um dos contos que foram lançados e o segundo da autora resenhado aqui.

"A quinta dimensão" é um conto curto onde acompanhamos Ellen e John, um típico casal estadunidense conversando no café da manhã. Ellen tenta convencer o marido de que tudo que acontece ao seu redor é uma de muitas repetições e tenta provar a sua teoria. John não dá muita atenção até Ellen presenciar um acidente trágico na vizinhança e tentar convencer de que algo terrível pode acontecer com ele. Tudo é muito simples nesse conto, as situações e os acontecimentos, sendo a parte complexa a teoria que Ellen usa para explicar o tempo cíclico, que seria algo que me lembra a visão do cosmo pela civilização Maia. Algo que, a própria Ellen entende, bate frontalmente com a ideia de progresso. Tive um gostinho das loucuras de Philip K. Dick mas num estilo mais contido da autora.
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