quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Resenha #3 - Androides sonham com ovelhas elétricas? (Philip K. Dick)

Lançado no Brasil com o título "Blade Runner" e "O Caçador de androides", com o claro intuito de surfar na onda do filme que foi basado Do Androids Dream of Electric Sheep? ganhou recentemente uma reedição com um titulo fiel ao original: "Androides sonham com ovelhas elétricas?" Apesar do filme ser absurdamente bom, o livro trabalha aspectos que a película simplesmente não poderia conceber com qualidade em duas horas de filme. Pretendo comentar ambas as obras. Primeiro a literária e depois a cinematográfica.

Resenha do livro: Androides sonham com ovelhas elétricas?

A historia acompanha em paralelo dois personagens: Rick Deckard e John Isidore. Eles vivem em futuro distópico em que uma guerra nuclear contaminou o ar, o solo e praticamente extinguiu a vida animal no planeta. Existem colônias fora do planeta onde androides (replicantes) semelhantes a humanos fazem o trabalho duro. Os que escapam das colônias e fogem para a Terra tem as cabeças postas a prêmio. A polícia paga, por cabeça, caçadores de recompensas para "aposentá-los". Essa é a profissão de Rick Deckard. Contudo os androides que fugiram recentemente são diferentes dos demais. São do modelo Nexus-6. Sofisticados a ponto de confundir os métodos de detecção dos caçadores. 

Deckard é incumbido da missão de aposentar os seis que recentemente fugiram para a terra. Ele é motivado pelo desejo de juntar dinheiro para comprar um animal vivo. É o bem mais precioso para um habitante classe média da Terra. Quem não tem condições de comprar um animal vivo, o substitui por um animal elétrico muito parecido com um de verdade.

Em paralelo temos John Isidore. Ele é um auxiliar de "veterinário" de animais elétricos. Considerado anormal por não ter ido bem no teste de Q.I. Isidore não tem autorização para sair da Terra. Ele é adepto de uma religião chamada mercerismo, que prega a empatia como forma de conectar-se ao divino. É a partir daqui que a história se desenrola. 

Sentir empatia ou não é a grande tônica do livro. Deckard busca um animal genuíno pois é o modo de socialmente mostrar que tem empatia para cuidar de um animal. Seu vizinho tem um animal verdadeiro e exibe para todos no prédio onde moram. É algo imposto pela sociedade como possuir um carro na nossa. Já os androides, apesar de muito inteligentes, não possuem essa faculdade emocional. Contudo Isidore, considerado anormal, muito menos inteligente que um androide, é plenamente capaz de sentir empatia. Durante a obra é o ser mais empático e emocional de todos.

A questão "quem sou eu" ou "quem somos nós" perpassa toda a obra de Philip K. Dick. A relação de Deckard com uma das androides, Rachel Rosen, colocam o questionamento título do livro. Como um Frankenstein cyberpunk, os androides do modelo nexus-6 são tão similares a humanos que Deckard se coloca em dúvida sua própria condição de humano. Suas memórias seriam implantadas? Sentia realmente empatia ou sua busca por um animal era apenas o instinto de sobrevivência para que ninguém (inclusive ele) descobrisse ser um androide?

Com Isidore a relação com a religião da empatia - o mercerismo - é mais intima que com Deckard, que não pratica o ritual, afinal ele mata androides o que o afasta do principio de empatia. Coisa que Isidore não deixa de fazer. Este consiste em acessar uma caixa de empatia. Objeto que o conecta a um estado alterado de consciência (como estar drogado, por exemplo). Enquanto "entorpecido", os fiéis são conduzidos a uma representação onde podem sentir-se como o próprio profeta da religião Wilbur Mercer (qualquer semelhança com o nome deste blog não é mera coincidência). A experiência é descrita em semelhança ao mito de sísifo, onde se empurra uma pedra morro acima para sentir as dores, se penitenciar, e a conectando-se a todos que estão usando a caixa naquele momento.

Considerações finais
A possibilidade de debate que este livro concebe é o maior beneficio que esta leitura pode fazer. Se isso não serve de atrativo para a leitura, apenas a viagem na psicodelia futurista do autor já vale a leitura. Contudo é difícil ficar impassível de questionamentos que a obra desperta.

2 comentários:

  1. Só em Ler sua resenha fiquei com vontade de ter este livro! quanto ao filme so tenho a lastima... o filme ruim do cassete! não sei se foi por conta do clima noir que o scott adotou...(?) so sei que achei o fio "O" uma bosta!

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    1. Bah mas é justamente o clima noir somado a tecnologia do futuro que faz o filme ser bacana!!!
      Esse filme ditou a estética adotada pelo cinema de ação dos EUA, pelo menos, nas duas décadas seguintes.
      Exterminador do Futuro I e II, Mad Max, Vingador do Futuro e tantos outros se inspiraram nesse filme. Claro, colocaram mais ação para ganhar uma grana e divertir o público que não queria refletir muito...

      E para o cyberpunk é importante também, pois ninguém tinha visto nada cyberpunk no cinema (só livros e gravuras) e esse filme fez isso.
      O clima do filme te transporta para outra realidade e isso faz, para mim o filme foda pra caralho!

      Mas o que eu queria saber mesmo é o motivo de você ter achado o filme uma bosta?

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