terça-feira, 28 de abril de 2020

Resenha #129 - O Planeta dos Macacos (Pierre Boulle)



"O Planeta dos Macacos" (Pierre Boulle) é um dos clássicos da Ficção Científica, escritos por um autor que não se consagrou pelo gênero e sequer se considerava escritor de Ficção Científica. Boulle, ganhou fama com seu "A Ponte do Rio Kwai", que assim como "O Planeta dos Macacos" ganharam adaptações cinematográficas que expandiram o sucesso de suas obras, ainda paradoxalmente o autor não tenha um nome conhecido, encoberto pelas adaptações no cinema de seus sucessos.

A história é simples e bastante conhecida: Ulysse Merou é membro de uma pequena tripulação que busca explorar o espaço por vida inteligente junto do Professor Antelle e Arthur Levain que parte rumo a estrela gigante vermelha de Betelgeuse. Chegando lá após um breve encontro com seres humanos bestializados e selvagens descobre que o planeta é tomado por macacos inteligentes e desenvolvidos, e Ulysse, desgarrado do resto da tripulação, tenta provar sua racionalidade.

É um esforço inútil tentar esconder algum spoiler como sempre tento fazer nas minhas resenhas, quando se fala de um dos finais mais conhecidos da história do cinema, mas cabe avisar que o final do livro é diferente e não menos impactante que o filme. E isso pode atrapalhar a leitura pois boa parte da genialidade da obra é seu final mas está longe de ser o único atrativo do livro. Primeiramente, além de ser curta, a escrita direta de Boulle é ótima para ler na praia, sem precisar um dicionário ao lado e tudo isso sem perder a capacidade de nos fazer refletir. Segundo, a ironia com o autor que conduz a história vai além da própria situação inicial e é aprofundada em várias situações ao longo do livro. Terceirto, a escrita ágil garante uma tensão que faz com que, mesmo conhecendo o final do cinema, queiramos saber o que (e como) vai acontecer no final e, por fim, a edição da Aleph traz materiais extras muito bons para ler após o fim da história: são dois artigos falando sobre o autor e uma entrevista transcrita do rádio. Sendo assim, o livro vale a leitura e não se deixe desanimar por já saber o final do cinema pois a leitura vale a pena.




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terça-feira, 21 de abril de 2020

Resenha #128 - Cyberpunk (Cirilo S. Lemos e Erick Santos Cardoso)


"Cyberpunk: registros recuperados de futuros perdidos" é uma coletânea da editora Dacro organizada por Cirilo S. Lemos (O Alienado e E de Extermínio) e Erick Santos Cardoso. A coletânea faz parte da série Mundo Punk, que nos trouxe coletâneas de diversos subgêneros retrofuturistas da ficção científica como Solarpunk, Steampunk (que na coleção se chamam: Vaporpunk I e II) e Dieselpunk, derivados justamente do ciberpunk, sendo este volume o auge da coleção. A coletânea privilegia autores brasileiros e contos inéditos e como o prefácio de Fábio Fernandes afirma, foi valorizado o lado "punk" ao invés de ficar restrito a estética "cyber". Agora vamos falar dos contos 

"De lentes invocadas e tapiocas de queijo" (Santiago Santos): Fabíola Etcheverria é uma fotógrafa reconhecida que aceita um trabalho para cobrir um evento empresarial em Cuiabá-MT. O autor faz uma bela viagem em uma cidade ciberpunk fora dos grandes centros urbanos de forma bastante fluida, ainda que devido as mudanças climáticas, o Mato Grosso ganhe importância nacional. A trama acaba se desenrolando como a maioria das histórias do gênero, com um trabalho que não é o que parecia ser e o autor conduz a história de forma que fica interessante enquanto a história chega ao final. Foi um excelente início para a coletânea.

"A lua é uma flor sem pétalas redux" (Cirilo S. Lemos): Conto faz uma versão ciberpunk das favelas cariocas com a linguagem seca e cruel que caracteriza tanto a favela quanto o high tech/low life, e tudo de forma bastante realista, afinal os últimos 50 anos de avanço tecnológico não diminuiram a desigualdade, porque os próximos 50 seriam diferentes? A história acompanha Mirolha, um menino soldado do tráfico que busca subir nas graças de Tubarão, chefe da Comunidade Autônoma do Buraco da Pedra, quando perde sua arma e que reconquistar o respeito. [melhor conto da coleção]      

"Caos Tranquilo" (Ricardo Santos): Zima trabalha em uma grande corporação na Bahia, mas encontra-se em uma caçada enquanto busca por informações de MC enquanto é ajudada por Max. Enquanto isso Edmo é um pacato pesquisador de antiguidades e possui segredos que afetam a grande caçada na qual Zima se vê como alvo. A novela tem bastante ação e uma história intrigante onde nada é jogado no colo do leitor.

"A gota d’água" (Daniel Grimoni): Milton é um vendedor de guarda-chuvas em um mundo afetado por mudanças climáticas que quer apenas atender ao desejo do seu filho em enxergar normalmente, mas encontra resistência de sua esposa. Milton vê o mundo desabar enquanto explora seus próprios segredos, quando tudo vem a tona. O forte nesse conto é a linguagem poética, enquanto os segredos e reviravoltas são muito bem colocados na trama. Uma leitura forte, tocante e é o conto mais bem escrito do livro.  

"Folhas no terraço" (Michel Peres): Conto noir numa Recife futurista, onde o investigador particular Flaiano aceita um serviço da senhora Miragaia que deseja vingança ao que fizeram ao seu irmão. Conto faz um tour pelo submundo da prostituição sado-masoquista e modificações genéticas e consegue prender com o mistério e o caminho investigativo de Flaiano. Conto fez bom uso dos clichês em um cenário brasileiro.

"Boca Maldita" (Claudia Dugim): Conto é uma viagem na pele de Hani, um garoto de programa que percorre os territórios de três culturas diferentes atendendo seus clientes e colecionando amantes. O conto encaixa-se perfeitamente no new wierd sem sair do ciberpunk. A história é uma viagem pela civilização que restou do mundo no continente antártico e suas três culturas. Elas coexistem mais em aceitação que guerra mas a passagem de Hani agita as coisas. Chama a atenção a linguagem crua e direta e a sexualidade livre desse mundo, feito para chocar a família tradicional brasileira (felizmente).

"Cyberfunk" (Carlos Contente e Rodrigo Silva do Ó): Cyberfunk é uma perseguição frenética na pele de Jorginho em meio a corporações chinesas e uma vida fodida nas favelas do Rio para tentar mudar de vida. Uma das melhores misturas do ciberpunk com a realidade brasileira e a baixa qualidade de vida ao nosso modo. A ação é frenética, que faz valer o "funk" no título, e os autores conseguiram deixar tudo muito fluído o que melhora a experiência da leitura, que antes de terminar já se tornou um dos meus preferidos do livro. 

"Próximo nível" (Marcelo A. Galvão): Alice é uma bug zapper reconhecida e é chamada para resolver um problema com a conta de dois jogadores de um MMORPG jogado no mundo todo, que a principio foram "assassinados" no jogo e tiveram contas excluídas, o que pode levar embaraço, processos e inclusive flopar o jogo. Alice entra no mundo do jogo e começa um trabalho investigativo para encontrar o bug. O conto consegue mesclar bem o mistério em um mundo virtual, sem parecer infantil ou fútil, de forma competente e convincente. O final consegue surpreender na forma dos acontecimentos com criatividade. 

"Sonho de Menino" (Marcel Breton): Conto passado em Minas Gerais, o que fica evidente pelo sotaque colocado por extenso nos diálogos, e conta a história de Paulo que se envolve com traficantes de sonhos quando compra um dos seus produtos que foi roubado deles. Começa a perseguição ao sonhador que quer apenas realizar uma fantasia e acaba em um esquema maior que ele. O conto teve uma leitura um pouco truncada pela forma de colocar o sotaque mineiro de forma literal nos diálogos, o que particularmente não apreciei muito mas a história é boa e tem um final que consegue surpreender.

"Recall" (Karen Alvares): O sonho de ser mãe ao alcance da mão em uma prateleira. A biotecnologia capaz de fabricar vida, ou melhor, de controlar a forma como a vida vem ao mundo é trazida de forma impactante neste conto. Flávia deseja realizar o sonho de ser mãe depois de dois anos de uma separação difícil e encontra no bebêmatic a solução mas ser mãe e controlar o destino de uma vida não é tão simples quanto comprá-la. O conto é envolvente e muito bem escrito.

"Sonhos wifi" (Fábio Fernandes): Problemas com um jogo de Realidade Virtual prendem um grupo de jogadores em camadas de falsas realidades numa São Paulo deserta e cheia de predadores bizarros. O conto tem uma linguagem furiosa e fluida, como se fosse uma história contada numa mesa de bar, mas com questionamentos profundos sobre a realidade, sem deixar claro se alguém sabe onde ela está.

"Amor em Antares" (Alexey Dodsworth): O conto entrou nessa coleção graças a superação das metas do financiamento coletivo que permitiu o lançamento do livro e o encerra com o conto mais tocante da coleção. Marie é uma menina autista com problemas para se relacionar com as pessoas e encontra no amor de Seon, o significado desse sentimento. O final é emocionante e tudo foi conduzido com bastante habilidade pelo autor.
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terça-feira, 14 de abril de 2020

Resenha #127 - Epílogo (Victor Allenspach)

"Epílogo" é o terceiro livro que Victor Allenspatch lança de forma independente e o segundo de Ficção Científica. Uma bibliografia curta mas que na segunda obra mostra uma grande evolução em comparação ao já ótimo A procura de vida inteligente de 2015. Em Epílogo, temos uma história densa em um mundo pós-apocalíptico com elementos de cyberpunk e do terror, resultando numa viagem profunda por fragmentos de uma civilização que falam diretamente com nosso presente.

A história começa com a protagonista acordando sem memória. Ela é ressuscitada por Lázaro que consegue salvá-la apenas dos ombros para cima. Transformada num ciborge, ou biônico, como a chamam nos esgotos onde passa a viver, recebe o nome de Proto. Neste futuro pós-apocalíptico, perdido no tempo, os ventos solares devastaram quase toda vida na superfície e os sobreviventes dos apagões sobrevivem em esgotos sujos, onde as doenças se alastram e membros são substituídos por próteses robóticas corriqueiramente enquanto o câncer devora os habitantes.

A narrativa é permeada por reflexões constantes de Proto, que apesar de todas as dificuldades, está sempre se reavaliando e se redescobrindo e por ter perdido a memória procura completar suas próprias lacunas existenciais. Tudo isso é permeado por momentos cheios de tensão e terror em que sua vida fica por um fio, seja por recorrentes falhas em seus componentes artificiais quanto pela fragilidade de sua parte biológica. O fato de Proto ser mulher não é gratuito: a posição das mulheres nesse mundo não é melhor, nem pior, que a atualidade entrando de cabeça nas reflexões do autor sobre o que de fato muda na humanidade em condições adversas, quando não terríveis.

A ambientação, apesar de limitada pela visão de Proto, é justificada pela característica de isolamento dos nichos populacionais de sobreviventes que Proto encontra ao longo da história. Ao mesmo tempo que ela é uma espécie de pária por sua condição ciborgue e por sua amnésia, a falta de laços concede uma mobilidade libertadora. É no deserto que ela passa a perambular que temos essa noção de forma marcante.


A escrita é bastante direta na descrição das cenas mais fortes, passando a visão de naturalidade da realidade deste mundo. Essa mesma naturalidade passa uma falsa impressão de que a obra não é profunda nas reflexões pelo simples fato de Victor não ter uma escrita prolixa, tornando Epílogo uma leitura bastante acessível a qualquer leitor. Concluindo, considero a obra um achado em meio a tantas obras independentes lançadas em e-book, onde não é raro encontrar obras pouco lapidadas, para não dizer mais. Já o autor, espero que consiga ganhar os olhares das editoras pois seus dois livros independentes já mostram sua qualidade.



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terça-feira, 7 de abril de 2020

Resenha - Revista Quadrante Sul 10

Chegamos a resenha da, até então, última edição da Quadrante Sul. Edição que celebra o personagem Lucas Blood, o Predador. Um vigilante urbano que perambula pelas ruas sujas apenas com sua moralidade e violência para fazer justiça com as próprias mãos. Temos duas histórias do personagem que ironicamente não estampa a capa, podemos vê-lo apenas no canto superior esquerdo. O personagem foi criado em 1988 pelo gaúcho Carlos Fernando Ferreira. São 30 anos dá edição número 1 e 30 anos do personagem. Mas vamos as histórias.

A primeira se chama "Primeiras Vezes" e mostra planos urbanos interessantes e bem desenhados para depois mostrar um estuprador atacando uma mulher até que o predador intervêm. Na segunda história "Chaver" (amigo, em hebraico) o Predador recebe ajuda de um rabino das redondezas e faz amizade com ele. A história foca nas conversas e não tem ação, ao contrário da primeira história. Depois a edição traz uma entrevista com o fanzineiro Sérgio Toshihiro e conclui com uma matéria sobre a Fanzine Metrópolis. A edição é boa, apesar de preferir as que tem várias histórias curtas mas ainda assim é uma boa adição a coleção.


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terça-feira, 31 de março de 2020

Resenha #126 - O Conto da Aia (Margareth Atwood)

"O Conto da Aia" (1985) é um clássico das distopias, que narra uma experiência intensa de uma mulher em uma situação extrema e expõe o lado mais sombrio de uma cultura que se coloca como o bastião da liberdade. O livro, que já era bastante conhecido, ganhou mais notoriedade quando foi adaptado para a televisão em forma de série.

A história se passa em um futuro próximo onde a protagonista, que se identifica apenas pelo nome/posto de Offred, narra sua rotina sob vigilância pesada e obrigações humilhantes numa ditadura teocrática de base cristã que emergiu após uma crise de infertilidade.

Offred, na escrita de Atwood, narra com uma riqueza de detalhes as nuances de sua monotonia e do enclausuramento tanto físico quanto mental. A protagonista tem dificuldade de obter informações sobre o mundo exterior enquanto faz digressões sobre todo o processo de perda de liberdade e separação da sua família. A única coisa a qual Offred se prende é a sua filha que lhe foi tomada.

A escrita da autora acompanha os sentimentos da protagonista: Narra o tédio de forma lenta, nos trazendo muitas nuances do pouco que ela consegue ver do mundo. Há muitas troca de olhares, impressões, dúvidas, conversas sussurradas, informações de terceiros e sinais combinados que chegam a conferir um ar de espionagem a história. Contudo, a obra pode desagradar por ser parada. Não há coisas acontecendo o tempo todo, em oposição a série de televisão. Essa trouxe bastante interesse para o livro e adaptou muito bem a história em vários elementos. A história é bem fiel ao livro e a medida que as renovações de temporadas foram acontecendo os eventos do livro foram extrapolados. 

A série tem um ritmo mais tenso, emocionante e tem muitas reviravoltas. Essa experiência pode acentuar a impressão de lentidão do livro devido a uma expectativa equivocada, caso o leitor comece a leitura após ver a série. Se o leitor aceitar bem essa característica, vai poder aproveitar melhor a leitura mas recomendo ler o livro antes da série pois a adaptação vai funcionar melhor devido a fidelidade entre as mídias.
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terça-feira, 24 de março de 2020

Resenha #125 - Trilogia REQU13M (Lídia Zuin)



A trilogia REQU13EM é o conjunto de três noveletas que expandem as aventuras da hacker Lynks, sendo a primeira "Deus sonha o homem", narrando eventos antes do conto Dies Irae, enquanto as outras duas partes, "O homem sonha a máquina" e "A máquina sonha deus" dão continuidade ao conto original. Apesar de serem três novelas separadas, elas são mais coesas juntas que como partes separadas, principalmente as duas últimas. Espero que todo esse material seja lançado como um dia como um romance, pois é a forma que acho que me agradaria e seria mais justa de ver publicado. 

Em "Deus sonha o homem" Lynx aceita um trabalho no melhor estilo cyberpunk, para manter seu estilo de vida hedonistamisterioso e perigoso o suficiente para ser uma cilada. A narrativa mantem a linguagem seca mostrando não apenas a podridão dessa sociedade mas como afeta a percepção do real por conta do uso de Realidade Virtual que não se diferencia muito do uso das drogas, pois ambas são formas de alucinação sendo a do ciberespaço, consensual. Outro aspecto que chama a atenção é a constante de artificialidade que cerca a protagonista, desde que Lynx sai(?) do ciberespaço até o consumo dos alimentos análogos aos originais. A história aumenta a velocidade até ser quase tão frenética quanto o conto original levando a uma boa revelação no final.

Na segunda parte, "O homem sonha a máquina", se passa logo após os eventos do conto Dies Irae. A história logo abandona o ritmo frenético de fuga do conto e passa ao investigativo. Lynx encontra o mesmo homem misterioso da primeira parte, que pede ajuda para investigar uma série de assassinatos cometidos contra um grupo de tecnognósticos. Na terceira e última parte "A máquina sonha deus", Lynx retorna a investigar os assassinatos, mas o verdadeiro enigma tem mais a ver com o destino do homem misterioso e das irmãs que a mantém segura. A conclusão da saga de Lynks leva para caminhos que exploram o aspecto teológico da visão gibsoniana do ciberespaço como alucinação coletiva, mas ao invés da cosmologia do vodum caribenho temos a budista.

A leitura é bem recomendada para quem gosta do cyberpunk, principalmente quando os elementos teológicos estão envolvidos. A escrita é carregada da aspereza e ambienta de forma intensa o mundo cyberpunk que pode ser em qualquer grande centro urbano.
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terça-feira, 17 de março de 2020

Resenha #124 - Dies Irae (Lídia Zuin)


"Dies Irae" é um conto de Lídia Zuin, uma das poucas escritoras que além de escrever, também pensa o cyberpunk no Brasil, através de textos e seu trabalho acadêmico, tornando-se assim uma das referências no assunto. Publicado pela primeira vez na revista Imaginários da Editora Draco em 2010, e depois em e-book em 2012, o conto é uma corrida frenética da hacker Lynx que foge de uma gangue perigosa após ter divulgado arquivos secretos cheios de filmes snuff colocando sua cabeça a prêmio.

O ponto forte do conto é a qualidade da narração que é seca, visceral e pinta muito bem a severidade desse mundo e faz questão de andar pelas suas partes mais sujas. A influência de William Gibson é bastante evidente, tanto que o conto poderia muito bem se passar no Sprawl. O conto não se preocupa em desenvolver uma história completa, ficando como uma pincelada desse mundo. Este cenário mudou no ano seguinte com a publicação de três noveletas que abrangem essa paisagem cyberpunk contando momentos antes de "Dies Irae", na primeira história e momentos após nas outras duas, formando a trilogia REQU13M.

Para saber mais sobre esse conto, recomendo além da leitura do proprio, a resenha do blogue Cyber Cultura!
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terça-feira, 10 de março de 2020

Resenha #123 - Justiça Anciliar (Ann Leckie)


"Justiça Anciliar" ganhou vários prêmios quando foi lançado em 2013, como o Nebula e o Hugo e isso gerou um expectativa quando foi lançado no Brasil em 2018. A história segue Breq ex-membro do Império Radchaai, que agora busca vingança. Breq era a IA da nave Justiça de Toren um gigantesco porta-tropas utilizado em anexações de planetas ao território do império Radch. Grande parte da expectativa se dá a forma linguística, a flexão no gênero feminino em todo o livro, segundo a cultura do império que ignora tais diferenças. 

A história alterna capítulos no passado e no presente. No presente, Breq está em um planeta distante, gelado quando encontra a capitã Seivarden que acompanha Breq numa vingança contra a Senhora do Radch. No tempo passado, Breq retoma mil anos antes, quando ainda era a Justiça de Toren durante a anexação de um novo planeta e nos acontecimentos que levaram a dissidência da Justiça de Toren

A leitura tem o grande atrativo do estranhamento proporcionado pela flexão no gênero e na feliz escolha do tradutor, Fábio Fernandes, pois essa escolha influi muito mais numa língua que separa os gêneros como a portuguesa, do que na inglesa. O que pode atrapalhar a apreciação do livro é a grande expectativa que os prêmios geraram, e também o uso de duas linhas narrativas que precisam, cada uma um tempo para contextualizar e esquentar a história até o climax. Contudo, esse espaço que ocupa o primeiro terço do livro, é usado para pintar esse universo de várias raças, a cultura dominante do Radch e esse império em crise. 

Pessoalmente o livro me agradou bastante, o fim da leitura teve um tom amargo pois concluí já sabendo que o livro não teve uma boa recepção no Brasil, (talvez o hype dos prêmios, como disse anteriormente) e acabou deixando a trilogia sem previsão da editora Aleph para lançar as continuações até o momento.
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terça-feira, 3 de março de 2020

Resenha - Revista Quadrante Sul 9

Estamos de volta para a série de resenhas da Quadrante Sul, desta vez com a edição 9 de 2018. Este número está bem melhor que o anterior, que eu achei o mais fraco até então. A primeira história é da vigilante Lady D em "A lista de Kadosh" que traz um mistério interessante de um ex maçom que caça impiedosamente seus antigos companheiros de seita após ser traído, como em toda boa história curta deixa pontas soltas e desperta curiosidade em saber mais sobre. Depois, vem "Ponto de Vista" que se destaca pelas artes incríveis de Eugênia Leitzke (o que mais gostei nessa edição) que traça um paralelo entre a natureza e a violência urbana. "Androide" é um curtíssima história de duas páginas tiradas da Fanzine Tchê nº 12, que é uma ficção científica muito boa. 

Em "...o fim do mundo!" a história é protagonizada pelo mutante Enigma em um mundo pós-apocalíptico com uma pegada cyberpunk no que tange a desagregação social, pois Enigma vive escondendo sua condição de mutante em um mundo onde não se pode confiar em ninguém o que foi bem aproveitado na história que tem um final bom. "Os sete sábios cegos" é uma adaptação de uma antiga fábula indiana que ficou bem adaptada. A última história da edição é "A olho nu" que mostra um cego que volta a enxergar após ser operado e se aterroriza ao ver o mundo. O tom niilista é forte mas um pouco ingênuo e adolescente demais e acredito que poderia passar a mesma mensagem em menos quadros ou aprofundar o conteúdo no mesmo espaço. A edição encerra com uma homenagem a Diego Müller, que era membro ativo da comunidade de Fanzines falecido em 2017.

A edição 9 é muito rica em boas histórias e bem caprichada nas artes. A arte de capa e a contra capa tem estilos artísticos que fogem das HQs comuns e enchem os olhos. Recomendo. 

Ficha técnica:
"A Lista de Kadosh": Roteiro de Marcelo Tomazi, Arte de Jader Corrêa e Letras de Alex Doeppre.
"Pontos de Vista": Roteiro e texto de Gervásio Santana, Arte de Eugênia Leitzke e Letras de Alex Doeppre.
"Andróide": Texto e arte de Jack Jadson.
"...o fim do mundo!": Argumento de Diego Müller, Adaptação e Roteiro de Gervásio Santana, Arte de Carlos Lima, Sullivan Suad e Zilson Costa e Letras de Alex Doeppre. 
"Os sete sábios cegos": Texto de Jerônimo Souza, Arte de Iwfran Costa e Letras de Alex Doeppre.
"A olho nu": Texto de Jean Magalhães, Arte de Andf e Letras de Alex Doeppre.
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terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Resenha #122 - Rio 2054 - Os Filhos da Revolução (Jorge Lourenço)


"Rio 2054 - Os filhos da revolução" (2014) é uma distopia (pós)cyberpunk brasileiro escrito pelo jornalista Jorge Lourenço, que mistura diversas influências do cyberpunk num cenário pós-guerra no Rio de Janeiro.

A história se passa no ano de 2054 em um Rio de Janeiro devastado por uma guerra ocorrida há décadas que culminou na tomada do poder por megacorporações que agora gerem a cidade. Cercaram-se em uma área abastada, o Rio-Alfa, chamado popularmente de Luzes, deixando apenas as áreas contaminadas e abandonadas sem qualquer assistência no Rio-Beta (Escombros), acentuando a separação Favela/Asfalto, trazendo o High Tech/Low Life que tanto caracteriza o cyberpunk. 

Miguel, o protagonista, vive nos escombros e se envolve-se numa guerra de gangues de motoqueiros, quando decide salvar a existência de uma androide senciente com quem fez amizade. Juntando-se a gangue do seu amigo Anderson, Miguel acaba descobrindo também habilidade psíquicas que o tornam o único capaz de combater a nova gangue, aparentemente financiada pelas Luzes, que desencadeiam uma guerra de proporções muito maiores que as violentas competições da área dos escombros. As habilidades psíquicas e gangues de motoqueiros são a influência direta do cyberpunk japonês Akira enquanto a androide senciente, é evidentemente de Ghost in the Shell.

O autor consegue fazer essas influências conversarem muito bem entre si, numa trama bastante atraente e ágil. Somando isso a uma boa quantidade de ação e excelentes reflexões sobre a desigualdade social conseguem entregar uma boa ficção científica. Minhas ressalvas, ficam a referência ao personagem Fred e ao Nicolas, chamados quase sempre apenas de "negro", foi uma escolha infeliz pois deixa o livro com cara de romance do século XIX. Outra coisa que pode incomodar o leitor é que o desenvolvimento do Miguel é praticamente nulo, mesmo com a descoberta de poderes e todos os tipos de perigo que ele passa, parece que apenas confirma que o que ele pensava era o certo mesmo. Inclusive seus amigos não demonstram ter qualquer influência nas decisões que Miguel toma e apenas seguem a sua vontade sem muita resistência.

A trama é bem rica em acontecimentos e reviravoltas que, somadas as excelentes cenas de ação deixam a leitura eletrizante. Influência dos melhores mangás do gênero. O autor consegue nos transportar para esse futuro com uma boa construção dessa sociedade desigual. As reflexões sociais, junto com a qualidade da ação, são os pontos altos do livro. A leitura é recomendada e inclusive me pergunto porque o autor não lançou mais outra história, pois ele escreve bem.   
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terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Resenha #121 - Periferia Cyberpunk (org. Raphael Fernandes)


"Periferia Cyberpunk" (2018) é uma coletânea de histórias em quadrinhos que traz valor do quadrinho brasileiro ao mostrar uma versão brasileira da estética cyberpunk em oito histórias que variam em narrativa e traço, sem compartilhar um universo em comum mas firmes na sua proposta geral.

"Só os vilão" mostra um grupo de assalto que habita os esgotos de um rio tóxico radioativo que gerou uma casta de mutantes deformados. Eles buscam um artefato robótico que os daria vantagem para enfrentar o Estado que os segrega mas a arma acaba se voltando contra eles. O traço é bom e os diálogos são fluídos por se distanciarem da linguagem formal.

"Iansã Ferida" a população pobre vive no subterrâneo, quando duas garotas acordam de uma bad trip não conseguem mais acesso para a superfície até que uma amiga da PM, Dendê, tem uma saída. A linguagem informal flui muito bem. O traço aqui é muito bonito e elegante, com ângulos que dão efeitos muito bons e a página que representa o uso de uma nova droga merecia um quadro na parede.

"Um tucano me ensinou a voar" é aspecto cyberpunk aparece muito mais pela essência que pela estética. Usa bem o humor para estampar as paranoias do trabalho e o fracasso do protagonista, que trabalha sem parar e continua sem qualquer perspectiva de melhorar de vida. Toda dor do protagonista é regada pela leveza enganosa do traço de mangá.

"Babel de Cristo" mostra a volta de Alexandre ao Rio de Janeiro, de 2054 e recebe o leitor com um Cristo Redentor com um braço protético. A história é bastante clichê. Veterano voltando a ativa ao receber um pedido de uma mãe de um filho desaparecido e no caminho se depara com bandidos armados. O que me agradou foi o cenário numa favela montada no morro do corcovado que sofre uma ocupação da polícia. A referencia ao presidente e aos capacetes dos soldados podiam ser mais incisivas, pois o clima de clichê e aquele cyberpunk que não se leva muito a sério já esta estabelecido.

"Golen Binário" Nuke é uma hacker que vive numa cidade poluída até que forçada a aceitar um trabalho invadindo um sistema, mas seu passado que a tinha aposentado retorna para atormentá-la em um ciclo sem fim. A resolução da trama passa mais tempo explicando a resolução do que desenrolando a trama, mas mesmo assim é uma boa história.

"Condomínio Paradise" segue o desespero de uma mulher sendo expulsa de um edifício que logo fica evidente se tratar de uma área abastada da sociedade, para um exílio no local esquecido e pobre. Quando a mulher chega ao solo ela encontra uma sociedade que aguardava e uma pessoa de seu passado e percebe que sua chegada pode mudar tudo. A cena inicial é bem desenvolvida e angustiante, mas compensa mesmo apressando um pouco o resto do desenvolvimento da história que tem uma virada e resolução muito boas. O roteiro consegue prender  o leitor com uma boa construção de acontecimentos.

"Midriasi" conta sobre uma sociedade pós-apocalíptica que vive em uma cohab num navio cargueiro que obriga os habitantes a utilizar um colírio, mas a protagonista começa a investigar em cima de suas duvidas e chegar a uma revelação sobre o que é a verdade. 

"Fortaleza 2068" é uma típica aventura cyberpunk, cheia de humor, ironias gritantes e violência desmedida na pele do policial brucutu Everaldo que é obrigado a trabalhar com nerd Júnior. O primeiro quadro já mostra essa ironia ao vermos Everaldo acertando vários inocentes  (vinte mortos, segundo seu capitão) enquanto massacrava uma quadrilha de assaltantes. Mais que o dobro das oito vitimas feitas pelo assassino que a dupla persegue. A história consegue divertir e expor com humor a violência desse futuro.

Ficha Técnica.
Só os vilão: Roteiro - Airton Marinho, Arte: Jader Corrêa.
Iansã Ferida: Roteiro - Guilherme Wanke, Arte: Braziliano.
Um tucano me ensinou a voar - Roteiro: Cauê Marques, Arte: Cássio Ribeiro.
Babel de Cristo - Roteiro: Lucas Barcellos, Arte: Jean Sinclair.
Golen Binário - Roteiro: Antonio Tadeu, Arte: Thiago Lima.
Condomínio Paradise - Roteiro: Larissa Palmieri, Arte: Azrael de Aguiar.
Midriasi - Roteiro: Bruna Oliveira, Arte: Akemi, Hayashi.

Fortaleza 2068 - Roteiro: Raphael Fernandes, Arte: Doc Goose.
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terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Resenha #120 - 2001: Odisseia Espacial (Arthur C. Clarke)


"2001" é a obra mais conhecida de Arthur C. Clarke e, graças a adaptação ao cinema, uma das obras de ficção científica mais famosas do cinema. Um dos poucos filmes considerados melhor que o livro. Apesar do filme e do livro serem indissociáveis, o assunto é apenas o livro que traz o que Clarke tem de melhor: Uma história cheia de criatividade que nos leva longe na imaginação e precisão científica apurada.

A história começa 3.000 anos atrás acompanhando um grupo de hominídeos na visão de seu líder, referido como Amigo da Lua, que se depara com o monólito que o ensina habilidades que tornariam o homem a espécie dominante do planeta. O que chama a atenção nessa primeira parte são as descrições da vida cotidiana bem embasadas no conhecimento científico disponível até então. 

A segunda parte da obra, se passa no então futuro em 2001 e segue o Dr. Heywood Floyd, em uma missão até a base internacional na nossa Lua onde é encontrado o misterioso monólito, referido apenas como ATM-1. A própria tecnologia alcançada pela humanidade em 2001, mostra muito do otimismo que Clarke tinha no desenvolvimento tecnológico, comprovável pelo atual andamento da conquista do espaço. A terceira parte, que dura até o final do livro acompanha a da nave Discovery, pouco tempo depois da missão de Floyd, para explorar a pequena lua de Saturno (Jápeto) passando por Júpiter. Bowman, Poole e o computador HAL 9000, conduzem a nave com mais três membros em estado criogênico. Contudo, há um objetivo secreto, investigar uma nova ocorrência de um monólito igual ao encontrado na Lua. 

As primeiras sequências parecem acumular sem ter uma resolução, mas são muito boas para criar mistério e se mostram partes de uma única jornada de transformação e busca por respostas. Clarke usa bem as descrições dos momentos mais insólitos. Elas exigem da imaginação do leitor, até então bem abastecido de referenciais científicos, passam a acompanhar uma viagem lisérgica ao desconhecido, que é muito difícil de mensurar. Essa mudança no ritmo e da própria forma da narrativa é o que costuma desagradar o leitor desavisado. Para quem puder ler e deixar que a obra lhe abra a mente, o livro é muito recomendado!
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