segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Resenha #224 - Imaginários Vol. 1 (Tibor Moricz, Saint-Clair Stocler e Eric Novello)


"Imaginários Volume 1" É uma revista-coletânea da Editora Draco. O primeiro de uma longa série que reúne várias amostras do fantástico, fantasia e ficção científica. Os contos tem pouco a ver um com o outro (e muito menos com a ilustração da capa) mas consegue trazer boas histórias. 

Coleira do amor (Gerson Lodi-Ribeiro) - Félix perdeu sua amada Theresa mas não consegue aceitar a perda pois tem um sistema inibidor instalado que o impede de parar de amá-la. O conto tem momentos finais muito tensos, que envolvem violência sexual. Apesar do exagero na descrição das cenas, consegue fazer uma boa discussão sobre o livre-arbítrio, em relação aos sentimentos, e o pós-humano. Já resenhado na publicação sobre Fractais Tropicais.

Eu, a sogra (Giulia Moon) é uma fantasia muito divertida sobre uma bruxo que conhece uma nora muito inconveniente. Lembra muito o mundo de A Feiticeira, pela abordagem divertida e bem elaborada para uma ficção tão curta.

Veio... novamente (Jorge Luiz Calife) escrito pelo veterano da FC brasileira, trás uma ficção científica com cara de filme americano enlatado, contando a história de uma família estadunidense que se depara com um contato extraterrestre no deserto de Mojave. O conto é bem escrito mas o enredo não consegue sair do óbvio.

A encruzilhada (Ana Lúcia Merege) Uma fantasia ao estilo clássico, tendo na existência de magia e de uma ordem de magos soldados o foco, tem um início que promete muito mas encerra muito menos. A linguagem é excelente, mas o encerramento dá a impressão de ser algo maior. O que se provou verdade após uma pesquisa pelos enredos nos seus trabalhos.

Por toda a eternidade (Carlos Orsi) conto curto mas que mistura muito bem a ficção científica, crime e humor. É um dos meus contistas de FCB favoritos e eleva o nível da antologia.

"Twist in my sobriety" (Flávio Medeiros) conto que ambienta a Terra pós-invasão pacífica porém tomada de paranoia. Emula o clima da Guerra Fria, onde os vilões são falsos libertadores que trazem muitas benesses mas escondem planos funestos. Os valores individualistas e conservadores são os trunfos do protagonista. Tudo é feito de maneira bastante original e criativa.  

Um toque do real: óleo sobre tela (Roberto de Sousa Causo), Conta a história de um pintor que acorda enxergando o mundo sob o prisma de pinceladas de pinturas do seu estilo. Lembra bastante um enredo de Philip K. Dick pela estranheza mas ela não dura até a conclusão, que traça um caminho longe do estilo de PKD.

Alma (Osíris Reis) mistura fantasia e ficção científica em um conto bastante complexo e reflexivo, principalmente pelo ponto de vista de uma extraterreste que pretende resgatar sua filha.

Contingência, ou Tô pouco ligando (Martha Argel) tem um interessante tom misturando relato com artigo de revista ou crônica, com um argumento ecologista e vários termos ligados a biologia e a geografia. O tom bem humorado faz o conto ser uma leitura agradável.

Tensão Superficial (Davi M. Gonzales) é a aventura de um estudante que junto dos amigos, depara-se com um mistério inexplicável em um prédio velho. O conto é curto mas não consegue engatar até o final fraco.

Planeta Incorruptível (Richard Diegues) narra momentos de uma invasão extraterrestre que tem de lidar com a negação de eventos teológicos católicos como a aparição de santos e a ideia do Deus Único, rejeitados firmemente pela ideologia dos invasores.
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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Resenha #223 - A Terceira Expedição (Daniel Fresnot)


"A Terceira Expedição" (1987) de Daniel Fresnot é uma obra pouco conhecida e, que apesar de datada, tem alguns elementos que gostaria de ver mais na Ficção Científica brasileira. A história se passa no anos 1980, tal como na época em que foi escrito, na pequena cidade de Barra Velha, no interior de Santa Catarina. Acompanhamos o relato de Mané, um operário que sobreviveu a um holocausto nuclear que a princípio dizimou a metade norte do planeta e uma boa parte do hemisfério sul. O relato inicia com os primeiros anos de reorganização entre os sobreviventes, da busca por outras cidades, máquinas, veículos e recursos para reerguer a civilização. Contudo, grande do livro é dedicada a narrar às três expedições que buscaram recursos e vida em São Paulo.

O romance epistolar tem como atrativo as possibilidades promovidas pela parcialidade do depoimento. Contudo, aqui é utilizada como artificio para passar o isolamento que os sobreviventes se encontram. Sem saber se são as únicas pessoas vivas da humanidade. Efeito esse que impulsiona as explorações através das expedições. O relato é perpassado pela esperança de encontrar vida e as frustrações com os fracassos das expedições, em especial a última. Mané não nos esconde esse fato, uma vez que no futuro seria algo de conhecimento público, restando à curiosidade do como tal fato aconteceu.

Outra característica é a verossimilhança do relato de Mané. Isso vai dos detalhes narrados como uma pessoa comum, até o fato de que Fresnot constrói esse relato afastando Mané do protagonismo até o fim. Inclusive alguns detalhes do desenvolvimento são fornecidos por cartas escritas por outros personagens colocadas entre os capítulos. Por consequência, também não há um final apoteótico, mas são coerentes. Há uma porção de esperança no tom da narrativa que entendemos apenas no final, por conta do presente do livro.

Como mencionei no início, o aspecto datado do livro se dá justamente pelo medo de uma guerra nuclear entre as potências da Guerra Fria, que desapareceu do imaginário popular com o fim da URSS. Outro aspecto é a total ausência dos relatos ou sequer de uma interação com personagens femininas (não há diálogos com nenhuma delas), que parecem não terem sido convocadas para as expedições.

A terceira expedição é um bom exemplo do uso da escrita epistolar na Ficção Científica. O autor soube usar a visão de um homem comum, para criar uma verossimilhança surpreendente em um cenário extraordinário. Uma história oral de algo que nunca aconteceu.



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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Resenha #222 - Dieselpunk: Arquivos confidenciais de uma bela época (Gerson Lodi-RIbeiro Org.)


"Dieselpunk: Arquivos confidenciais de uma bela época" é uma sequência de Vaporpunk I e II, tanto como na ordem de publicação da série Mundo Punk da Editora Draco, como do próprio subgênero. Os mundos Dieselpunk são geralmente cenários retrofuturistas onde a tecnologia a vapor é substituída pela diesel, e do ponto de vista histórico é uma versão da bella epóque sem a desilusão das Guerras Mundiais ou de uma crise avassaladora do capitalismo como o Crash da bolsa de 1929. Um prato cheio para imaginar os cenários históricos alternativos e a proposta da antologia é privilegiar cenários brasileiros e lusos. O resultado é uma antologia, que trouxe contos bastante extensos onde os autores tiveram espaço para trabalhar bastante os cenários e costurar essas novas realidades e, de uma forma geral os autores foram muito felizes nesse quesito, trazendo muita diversão para historiador nenhum botar (muito) defeito.    

“Fúria do Escorpião Azul” (Carlos Orsi) trabalha com o cenário em que o Brasil passa por uma revolução comunista nos moldes pseudo-stalinistas, e segue as peripécias de um vingador mascarado que enfrenta o regime descrito com uma dose tão elevada anticomunismo que me fez olhar o nome do autor para ver se não tinha sido escrita por Olavo de Carvalho. Porém, como o autointitulado filósofo já declarou abertamente que a FC é imbecilizante, fica a dúvida se o pseudo-filósofo gostaria da história. Nela acompanhamos o mistério que alterna, o Escorpião Azul e o jornalista chiquinho que investigando uma trama envolvendo um plano nefasto de um cientista comunista que faz algo pior do que comer criancinhas. A história é muito bem escrita, com boas cenas de ação, mas com personagens rasos que dá um tom canastrão a tudo, como o Batman dos anos 60, mas sem o mesmo carisma.

“Grande G” (Tibor Moricz) uma trama conspiratória palaciana/empresarial da família dona de Smoke City, forjada na poluição e motores a combustão. O megaempresário, o "Grande G", enfrenta uma conspiração tramada por seu filho e herdeiro para tomar o poder envolvendo a transferência de tecnologia limpa a cidade vizinha e atrasada Steam City. A trama é envolvente, a linguagem seca e cruel combina muito bem com o teor sádico cheio de cenas de incesto, que sobre mais um degrau que os Bórgias, no quesito sacanagem em família. Ainda que exagerado, muito mais próximo da realidade da burguesia empresarial que os comunistas do conto anterior.

“O dia em que Virgulino cortou o rabo da cobra sem fim com o chuço excomungado” (Octavio Aragão), nos retorna a um cenário de história alternativa, onde um cenário onde a Coluna Prestes (liderada por Luís Carlos Prestes e o tenente Siqueira Campos) e o bando de Lampião, com direito a participação de vários personagens históricos como Maria Bonita e Padre Cícero. Acompanhamos a história de forma parecida como aconteceu nos anos 20. Até um carioca misterioso oferecer armas com alta tecnologia para ambos os lados para que a coluna e os cangaceiros entrem em conflito, porém nada sai como os personagens esperavam. Para um historiador, é um conto cheio de fan service, porém achei os momentos finais bastante corridos. Talvez nem uma noveleta longa seja grande o suficiente para esta história.

"Impávido Colosso” Hugo Vera, conta uma história aventuresca de folhetim onde um Brasil imperial liderada por Dom Pedro III e um Barão de Mauá meio deslocado do tempo, descobrem-se em pé de guerra com a Argentina, patrocinada pelo imperialismo britânico que almeja derrotar o Brasil e o vizinho Paraguai. O conto tem total enfoque nas batalhas de robôs e não decepciona nesse quesito, porém a questão política é abordada de forma pobre e superficial, com patriotismos exagerados e ingênuos. Não me incomodaria se o conto não dispensasse tanto espaço para momentos elogiosos  e vazios dos políticos. Uma enxugada na patriotada para a adição de uma segunda batalha faria muito bem ao conto.

"País da Aviação" (Gerson Lodi-Ribeiro) ao invés de trabalhar um cenário Dieselpunk propriamente dito, na visão de um personagem em específico, o autor optou por fazer um panorama da Hegemonia Francesa, resultado do sucesso dos planos de conquista de Napoleão quando sai vitorioso na Batalha de Trafalgar. Uma vez que nesta realidade, Napoleão contratou Robert Fulton para criar as armas que he deram a vitória. Seguimos vários cenários que acompanham o desenvolvimento do poderio francês na Europa, até o início do século XX quando uma Guerra Fria surge entre os EUA e a França. Um pouco antes, o núcleo principal da noveleta, segue os Irmãos Wright sendo recrutados para serem meros assistentes de le Petit Santos, aqui também inventor do avião. Os cenários que se sucedem são consistentes e fazem muito com o pouco espaço formando um belo panorama do cenário político nesse mundo. Apesar de ter adorado ver as áreas periféricas bem desenhadas, o centro do poder hegemônico ficou muito vago. Porém a coleção de pequenos cenários funcionou bem tanto individualmente quanto no conjunto.

“Ao Perdedor, as Baratas” (Antonio Luiz M. C. Costa) acompanhamos um cenários muito curioso e bem montado. Os indígenas se integraram de forma mais saudável a sociedade brasileira, a revolução industrial aconteceu mais cedo e o cenário político é de eleições tendo Cosme Bento como principal candidato. Acompanhamos um agente de uma potência ao norte que está em uma missão de assassinato para abalar as eleições. O conto adiciona ao cenário alternativo personagens reais (Karl Marx e Richard Wagner) e elementos da literatura (as baratas de Clarice Lispector e Franz Kafka). O autor trouxe uma visão otimista sem cair na ingenuidade em uma história com reviravoltas.   

"Auto de Extermínio" (Cirilo Lemos) um dos meus autores preferidos da FC brasileira, trouxe uma história que privilegia a ação sem perder a consistência histórica, com um toque de New Weird. Nos anos 1920 o Império brasileiro ainda existe, porém seu monarca é um moribundo e sua queda é iminente. Integralistas, comunistas e militares apoiados pelos Estados Unidos estão na iminência de um golpe de estado. Acompanhamos Jerônimo Trovão um assassino de aluguel que terá um papel maior nesse jogo político do que gostaria. Ele é guiado por uma santa que atua como uma consciência exterior premonitória que o ajuda a ficar vivo. Seu filho, nômio, é seu auxiliar e também é acometido do mesmo tipo de visão, porém com um herói de HQ estadunidense. A noveleta derivou um romance "E de Extermínio" e o conto aumentou a vontade de ler o livro!

"Cobra de Fogo" (Sidemar Castro) trouxe a noveleta mais divertida da antologia. Num Brasil ainda imperial, a Grande Guerra Mundial de 1919-29 foi muito mais devastadora que a da nossa realidade, ao ponto em que a Liga das Nações impor uma "Pax Atômica" transferindo as resoluções políticas para uma forma presumidamente esportiva numa espécie de Corrida Maluca em que cada império compete com um tipo de locomotiva voadora gigante equivalentes a destróieres. O mundo é o cenário onde as etapas são disputadas, e na corrida em questão é por uma boa fatia da Amazônia. Os competidores são, obviamente o Império brasileiro, Alemanha, Áustria-Hungria (governada por Hitler), URSS (liderada por Trotsky), Japão, China, Estados Confederados (o sul venceu a Guerra Civil), Reino Unido, Mongólia, França, Espanha, Holanda entre outros. O bom uso dos clichês da corrida como uma boa fachada para a sujeira da política, espionagem e combates escamoteados uma torrente maravilhosa de referências cinematográficas e históricas. De Damocles Dummont, um espião brasileiro passando por Erving Hömmel, Jesse James III, Amon Göth, Charles de Gaulle, Antoine Saint-Éxupery, Olga Benário e até de Stalker de Tarkovsky e muito mais. É muito fácil imaginar essa novela numa aventura superprodução cinematográfica. Ao menos podemos fazer isso na nossa imaginação!

"Só a morte te resgata" (Jorge Candeias) alia uma linguagem mais sensível e intimista com um mundo alternativo. Se passa no mesmo mundo de "Unidade em Chamas" que saiu na Vaporpunk I, porém já no início do Século XX, onde as passarolas alçaram Portugal a condição de potência. O protagonista, Jefferson, um escravagista do Brasil do Sul que decide lutar contra a Confederação Portuguesa por sua postura multiracial. Acompanhamos as peripécias de Jefferson para retornar ao seu lar após ler uma carta de seu pai, cujo conteúdo conhecemos apenas no final. Apesar de ser difícil se conectar ao protagonista por conta de seu racismo aberto, podemos acompanhar um drama genuíno sem que necessitemos corroborar com sua visão de mundo. Uma pena essa viagem que o conto promove, no segundo e terceiro terço não serem tão dieselpunks quanto a primeira parte, mas ainda sim uma boa viagem.


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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Resenha #221 - Revista Fantástica Caligo número zero


"Revista Caligo numero zero" é lançamento da editora que mostra que está mergulhando de cabeça no Fantástico. Antes, com o lançamento da antologia Outros Brasis da Ficção Científica, abrindo o selo Outros Brasis, agora com uma revista semestral de contos que abrangem Ficção Científica, Terror e outros ramos do Fantástico.

"O Paciente da Segunda-feira" de Pedro Curnivel, é um retrato da paranoia. Conta sobre dois irmãos. Samanta que está na cidade e decide ler cartas do seu irmão, um médico psiquiatra que vai para um vilarejo no interior onde relata sobre um paciente psicótico. O conto é praticamente a leitura das cartas do médico. Particularmente, adoro escrita epistolar, e aqui Pedro consegue envolver o leitor na paranoia, nos fazendo virar páginas alucinadamente, até o derradeiro desfecho.

"Senescência ou como Charlie acorda Clarice" de Tânia Souza. Ficção Científica que não tem um enredo propriamente dito, mas que com muita competência, pinta um quadro de uma vida miserável. Clarice é um ciborgue que vive em um pequeno apartamento. Não há muito mais para se contar, é mais o epílogo de uma história trágica que conseguiu misturar cyberpunk e cotidiano sem agredir os elementos principais de duas narrativas tão diferentes.

"Divina Rotina" de Davenir Viganon, conto de minha autoria, é sobre Divino e seu dia de trabalho comum no inferno. Procuro aliar a comédia com situações absurdas, com referências tanto da Divina Comédia de Dante como referências atuais.

"Aysú" de Maria Eduarda Amadeu, é uma amostra da escrita madura para uma autora tão jovem. O conto é uma curta, mas intensa viagem na mente de uma amazona indígena conhecendo o amor, nos perdemos neste mundo diferente ao mesmo tempo que mostra a universalidade do sentimento.

"Ensaio Sobre a Natureza Morta" de Fil Felix trata o fantástico de forma intimista, na história de Giovani que passa por suas decepções pessoais e lidando com seu poder de transformar-se em plantas. A escrita é o tempero do conto, que brinca com a passagem do tempo de acordo com o dom/maldição do protagonista.

"Espiral" Giselle Fiorini Bohn acompanha Ana, que passa a receber a visita de uma pequena menina maltrapilha e que passa a ser sua obsessão pessoal, visto que ninguém parece se importar com seu estado. A condução do conto passa a agonia de não ser ouvido, pela escrita em primeira pessoa e a revelação joga o elemento fantástico na cara do leitor.

"Vazio Tóxico" de Leonardo Jardim, acompanha Horácio um velho professor que tenta sobreviver em um mundo pós-apocalíptico em busca de água enquanto foge do gás tóxico quase onipresente na atmosfera, quando encontra uma biblioteca perdida nos escombros de uma casa e uma menina que vem de muito longe. Geralmente não gosto deste tipo de história mas o desenvolvimento e revelações finais da trama foram bem montados, sem extravagâncias narrativas e me fizeram gostar do conto.

"O terceiro menino" de Amana mostra uma realidade alternativa em que os nazis venceram e a família como conhecemos foi desmantelada. Os jovens são criados com tutores e são descartados após tutelarem o terceiro menino. A autora consegue trazer uma esperança misturada com amargor neste futuro inóspito e claustrofóbico. Construção de mundo e desenvolvimento são maduros e bem feitos. Gostei do conto.

"A casa xadrez" de Bruno Andrade, vai pelo caminho da alegoria ao narrar as viagens de um homem que decide ficar recluso numa residência cheia de segredos que o protagonista tem tanto anseio como medo de explorar. Conto que não demora a expor seu aspecto psicológico e que nos instiga a desvendar o que de fato se passou na mente do protagonista. O final é triste e bem feito.

"Homicídios manchados de rosa" de Thaís Lemes Pereira traz uma história de detetive nos mundos dos contos de fadas. O lenhador entrevista várias princesas e ver como foi o depois do felizes para sempre foi bem engraçado e a revelação final recompensa o leitor pela jornada do lenhador. Excelente final da secção de contos.

Após os contos de tamanho tradicional, a revista também trás minicontos na seção "Histórias para serem lidas durante o bater de asas de uma borboleta" trazendo contos dos autores Amana, Bruno Andrade, Davenir Viganon, Giselle Fiorini Bohn e Tânia Souza. Nesta secção contribuí com três micro contos presentes no livro, "Contos do Gregório ou Pelo direito de acordar metamorfoseado num inseto monstruoso". De uma forma geral a Revista está bem variada nas formas do fantástico e a viagem por estilos e formas diferentes vai agradar ao leitor que busca por coisas diferentes para ler e a secção de microcontos está especial pois adoro essa forma de narrativa. Como em qualquer junção de contos, nem todos vão agradar a todos os leitores mas ninguém poderá dizer que é pela falta de habilidade ou talento dos autores.
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segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Resenha #220 - O Crepúsculo dos Deuses, Perry Rhodan 4 (Clark Daltron)


[As resenhas do blogue não costumam ter spoilers, mas para esta série não teremos esta preocupação. Pois ela será escrita pensando em trocar ideia com os leitores que já leram as obras. Além disso contar o enredo das primeiras histórias não constitui grande prejuízo para quem deseja começar a série, mas de qualquer forma fica o aviso]

Perry Rhodan, comandante da Stardust, descobriu, na Lua, a nave gigantesca dos arcônidas que realizou um pouso forçado. Foi um acontecimento feliz para a humanidade.
Rhodan prestou auxílio aos arcônidas, uma raça em decadência que dominava um império galático que entrara em declínio. Na verdade, prestou um auxílio aos homens, ao empregar o enorme poderio de Árcon para impedir a eclosão da terceira guerra mundial. Já existem muitos homens que compreendem os esforços de Rhodan em prol da união do mundo. Mas falta percorrer um caminho longo até o Crepúsculo dos Deuses, representado pelo abandono do pensamento mesquinho que até então prevalecia...

"O Crepúsculo dos Deuses" é o quarto volume da série Perry Rhodan. Neste volume voltamos ao ritmo de prólogo, pois somos apresentados a muitos personagens e pouco evoluímos na história principal. Perry Rhodan e seu fiel escudeiro, Reginald Bell, são treinados em um aparelho arcônida que aumenta as habilidades cognitivas dos dois, equiparando-os aos arcônidas, ao custo de apenas um dia inconsciente. É nesta janela narrativa que somos apresentados aos mutantes. Seres humanos que receberam habilidades especiais, em decorrência da radiação. Não há muita questão em esconder que eles se unirão a Perry Rhodan. Não há como negar que a ideia dos mutantes desta série, publicado em 1961, é parecida com a dos X-men pela Marvel em 1963, porém os personagens são extremamente diferentes.

John Marshall, é um australiano com poder de ler pensamentos, que é descoberto por alguns policiais após impedir um assalto a banco. Ana Sloane, é uma americana que foi recrutada por Alan D. Merchant por usa habilidade com telecinésia. Rais Tchubai é um químico do Sudão, perdido em uma expedição, quando descobre sua capacidade de teletransporte. Ernest Ellert, um intelectual pobretão da Alemanha tenta convencer seus amigos em uma conversa regada a vinho, que é capaz de viajar no tempo, de forma imaterial, habilidade chamada de teletemporação. Por fim, Tako Takuda, um técnico japonês que trabalha na escavação que planeja colocar uma bomba de hidrogênio abaixo da abóbada energética que proteger Rhodan e a Terceira Potência. Tako acaba sendo vital para evitar o plano iniciado por Merchant e acaba sendo recrutado por Rhodan, junto com Marshall que momentos antes ajuda nosso herói quando este tenta levantar recursos para ajudar os arcônidas.

Então é isso, o episódio quatro soa como um novo prólogo, mas que mostra uma agilidade na trama que abre um novo arco sem ter resolvido de fato a Terceira Potência. Nos vemos no próximo episódio, "Alarma Galático"!


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segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Resenha #219 - A Terra Longa (Stephen Baxter e Terry Pratchett)


"A Terra Longa" é o primeiro volume de uma hexalogia livros escrito pela dupla Terry Pratchett e Stephen Baxter e extrapola uma ideia simples mas muito interessante. A terra é pega se surpresa pelo do "Dia do Salto", quando a nossa terra descobre a existência de inúmeros planos de existência, como se estivessem enfileiradas em ordem. Aparentemente todas as outras estão ausentes de seres humanos. São outras terras para quais qualquer um pode saltar, usando um pequeno aparelho simples que qualquer um pode fazer (e suportar os enjoos e perigos de cair na mata virgem) ou em alguns casos excepcionais, saltadores naturais que não sofrem efeitos de enjoo quando se transportam para outra terra. Esse é o caso de Joshua Valienté, um saltador natural, que é convocado por Lobsang um tibetano que após morrer num acidente de moto, tornou-se uma IA que trabalha para uma grande corporação.

Lobsang, que também tem a habilidade de saltar, além de poder ser carregado em várias plataformas físicas, parte com Joshua numa missão exploratória saltando por milhares de terras, onde os autores concretizam várias possibilidades e destinos para cada terra. A graça do livro é acompanhar essa viagem e conhecer os confins do que chama de Terra Longa. É um daqueles livros que você lê pelo meio e não pelo final (afinal estamos falando do livro 1 de 6) explorando sem pressa cada mundo e os mistérios que se revelam. Esperar por um final revelador depois de 350 páginas vai ser bem frustrante, mas acredito que é uma questão de expectativa e ela é mais frustrada pela provável volume dois que não parece que será lançado pela Bertrand Brasil até que a série de livros vire uma série de TV.
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segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Resenha #218 - Vislumbres de Um Futuro Amargo (Damaris Barradas, Gabriela Colicigno)


"Vislumbres de Um Futuro Amargo" é uma antologia da Agência Magh, agência editoral independente que promoveu essa antologia por financiamento coletivo no Catarse, na qual eu participei. Infelizmente demoro para ler os livros e ainda mais para publicar minha opinião sobre eles, mas isso não diminuiu minha satisfação com a leitura. São seis contos de autores que já tive algum contato prévio.

A introdução de Roberto de Sousa Causo detalha bastante as bases desta antologia e anuncia muito bem os contos. O futuro amargo que nomeia a antologia é uma forma de colocá-la entre a distopia e utopia. São futuros amargos pois mostram a humanidade cometendo os mesmos erros, apesar da alta tecnologia.  

Antônio do Outro Continente (Anna Martino) se passa na Terra e nas colônias espaciais, estabelecidas em satélites artificiais. A autora entrelaça muito bem a simples história de dois jovens que se apaixonam e tem de lidar com as diferenças culturais. O conto é muito competente em desenvolver os personagens e as diferenças na vida cotidiana nas colônias com a Terra. Quando o conto termina, ficamos com vontade de saber como continua a vida, mas como a vida, ela sempre continua. Achei acertado o final, meio repentino.

Corra, Alícia, Corra (Lady Sybylla) Acompanhamos Alícia, em uma verdadeira corrida pela liberdade. Ela vive em uma instalação e nunca viu o exterior, sabendo somente do que Bianca lhe conta. O conto desenvolve bem o mistério, mas é focado na corrida e pelos sentimentos da protagonista. O final é amargo como o título da antologia, que não me deixa mentir.

Waldson Souza (Eletricidade em suas veias) nos brinda com um conto afrofuturista em que acompanhamos uma criatura artificial colocada para viver na Terra, por um membro de uma raça ancestral. O androide é feito com pele negra o que muda as suas vivências no nosso planeta e se torna veículo de reflexões muito relevantes. Tem uma pegada de Homem Bicentenário, de Asimov, mas escrito para leitores deste século. Meu conto favorito do livro.

Eu, algorítimo (Lu Ain-Zaila) Também trilhando o caminho do afrofuturismo, Lu Ain-Zaila traz uma aventura que entrelaça-se com reflexões que poderiam estar em uma crônica. Acompanhamos Aija, uma cyberativista que é perseguida pelos moradores da sua cidade a mando de uma misteriosa entidade cibernética. O conto é interessante tanto pelo desenvolvimento, e as reflexões, quanto pela aventura. Li devorando as páginas.

O Pingente (Cláudia Fusco) conta a história pelo ponto de vista de uma inteligência artificial responsável por cuidar de uma criança humana e acompanhar seu desenvolvimento. O conto tem um clima de história de Black Mirror, em que aguardamos o momento em que tudo vai dar muito errado, mas o conto toma a trajetória de um drama mais pé no chão, ao invés de um gore para chocar o leitor no final.

Roberto Fideli (SIA está esperando) tudo começa com uma space ópera em que um desastre numa nave leva os sobreviventes a lutarem pela vida em um planeta inóspito e desconhecido. Acompanhamos essa luta pelo olhar da inteligência artificial embarcada na nave, chamada SIA. O conto prende pelos desdobramentos que mudam tudo na história e a deixam muito interessante, sem ficar forçado. Excelente encerramento!

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segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Resenha #217 - A Abóbada Energética, Perry Rhodan 3 (K.H.Sheer)


[As resenhas do blogue não costumam ter spoilers, mas para esta série não teremos esta preocupação. Pois ela será escrita pensando em trocar ideia com os leitores que já leram as obras. Além disso contar o enredo das primeiras histórias não constitui grande prejuízo para quem deseja começar a série, mas de qualquer forma fica o aviso]

Perry Rhodan, comandante da primeira nave terrena tripulada a pousar na Lua, retornou a nosso planeta. Pousou no Deserto de Gobi onde, valendo-se da super-técnica da nave exploradora dos arcônidas, uma raça vinda da região central da Via Láctea, instalou uma base que vem desafiando os ataques das grandes potências da Terra.
Perry Rhodan conseguiu impedir a terceira guerra mundial, mas ainda não está satisfeito. Quer promover a união da humanidade.
Mas a humanidade ainda não está madura para os planos de Perry Rhodan, Por isso a luta prossegue em torno da Abóbada Energética.

"A Abóbada Energética" é o terceiro volume da série Perry Rhodan, aquela mesma que começamos e não temos nenhuma perspectiva para terminar. Nesta volume voltamos a ter um clima de ameaça mais sério, uma vez que as potências começaram a aprender como lidar com a tecnologia dos arcônidas. Não superá-la mas conseguiram se recobrar das humilhações e do despreparo. Agora estão em condições de alvejar a cúpula de energia com uma barragem de mísseis terra-terra enquanto as potências começam a ensaiar uma união, conforme planejava nosso protagonista. Agora voltamos a ter uma ameaça real contra o protagonista, diferente do episódio anterior, a energia da cúpula além de não ser infinita, não impede o som do impacto das barragem de artilharia atormente os ocupantes da stardust, como era comum nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial.

Por outro lado, Rhodan tem de lidar com sua aliança com os arcônidas que depende da sobrevivência de Crest, que no fim do volume, acorda e dá as orientações necessárias para Thora, ainda aguardando o cumprimento do trato de curar Crest, na nave principal. Thora, é orgulhosa e impulsiva, muito diferente da maioria dos arcônidas, imersa na apatia quase total. Os arcônidas são retratados como um império decadente pela falta de vontade de manter seu império, tendo em algumas das mulheres de sua raça, um resto desta vontade, porém insuficiente para manter o império. Thora é o retrato no mínimo antiquado de uma mulher no comando, principalmente pelo orgulho e impulsividade, enquanto Crest é o velho sábio ancestral, ponderado. Há muito da aristocracia inglesa nos arcônidas, neste primeiro momento.

A impulsividade de Thora não permite ver que as potências terrenas, se juntaram para uma missão espacial de bombardeio a nave dos arcônidas, com uma arma nuclear de fusão a frio, para o qual eles não estavam preparados para se defender. A humanidade ainda não estava classificada baseada nesta descoberta recente, logo as defesas não estavam esperando uma bomba deste tipo. A nave é destruída, enquanto Thora havia chegado na Terra para levar Crest e a tripulação da Stardust. Um final que me surpreendeu na época e me surpreendeu agora, relendo. Foi um bom fim para a parte terrestre da jornada de Rhodan que agora promete iniciar sua jornada aos confins do universo. Que é o mote principal da série.
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segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Resenha #216 - Território Lovrcraft (Matt Ruff)


"Territorio Lovercratf" de Matt Ruff é uma mistura de coleção de contos com romance, podendo ser encarados das duas formas, porém nas histórias finais tentem mais ao romance. Acredito que isso se deve ao fato de que o autor já escreveu a história pensando numa versão em série. No fim das contas, a adaptação foi feita.

Acompanhamos vários personagens negros que são de alguma forma aparentados e se envolvem em uma trama relacionada a maçonaria em uma disputa por poderes sobrenaturais. O cenário é muito importante, os anos 1950, quando os EUA impunham uma segregação racial sobre os negros e mais localizado no que se chama Território Lovercraft, uma região composta pelos locais onde o escritor nascido em Providence teria se inspirado para escrever seus livros. Os mistérios ocultos começam a ser desvendados a medida que o protagonista da primeira história Atticus vai ao encontro do seu pai Montrose Turner, com quem estava brigado há anos. Atticus loco chega a uma pequena vila que só existe nos livros de Lovercraft e conhece Caleb Braithwithe, que lhe revela uma descendência em comum.

Apesar dos mistérios sobrenaturais serem relativamente apavorantes, eles o são muito menos que a realidade dos negros daquele período. A primeira cena do livro deixa isso bem evidente: Atticus, utilizando um guia de viagem para lugares seguros para negros, sendo parado na estrada por um policial branco que pode atirar nele por qualquer motivo. Os monstros mais perigosos do livro são bastante reais e ainda estão vivos até hoje. Isso torna o tom do livro uma jogada genial do autor. Os protagonistas dos contos são coadjuvantes dos contos seguintes, sempre permeados por histórias cheias de referências as revistas pulp, além do próprio Lovercraft. A maioria dos personagens é cativante, sendo que Letitia a mais carismática e a história de Ruby/Hillary a mais instigante. Leitura mais que recomendada. 
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segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Resenha #215 - A Terceira Potência, Perry Rhodan 2 (Clark Darlton)


[As resenhas do blogue não costumam ter spoilers, mas para esta série não teremos esta preocupação. Pois ela será escrita pensando em trocar ideia com os leitores que já leram as obras. Além disso contar o enredo das primeiras histórias não constitui grande prejuízo para quem deseja começar a série, mas de qualquer forma fica o aviso]

Perry Rhodan e mais três oficiais da Força Espacial dos EUA haviam pousado na Lua a bordo da nave Stardust.
Lá encontraram a gigantesca nave espacial dos arcônicas, que tinha realizado um pouso de emergência. Era tripulada pelos representantes de uma grande potência galáctica que, apesar de sua superioridade técnica e científica, estavam em decadência. O cientista-chefe da expedição, um dos poucos que não fora atingido pela total apatia que dominava os tripulantes, padecia de uma enfermidade do sangue que só a medicina terrena podia curar.
Perry Rhodan decide ajudar os arcônidas: retorna à Terra em companhia de Crest, o cientista-chefe e, ao invés de aterrissar em território dos EUA, prefere a solidão do deserto de Gobi a fim de evitar que os avançados conhecimentos arcônidas caiam nas mãos de qualquer potência terrena.
Rhodan tem motivos de sobra para proceder dessa forma. Seus superiores hierárquicos, contudo, veem nele um traidor…

"A Terceira Potência " é o segundo volume dessa série gigantesca que sabemos que começamos e não temos nenhuma perspectiva para terminar. Neste segundo volume Perry Rhodan, começa a colocar em prática seu plano de unificar a terra, objetivando a construção de um grande império galáctico. Notemos a mudança no tom, pois no primeiro volume, Rhodan falava apenas em preparar a humanidade para um universo cheio de raças alienígenas e tecnologia evoluída, através de uma aliança humanidade-arcônidas, e não em um império galáctico.

Apesar de sabermos das intenções do Perry Rhodan e das linhas gerais do plano, não sabemos como ele vai concretizar seus planos. Não acompanhamos os pensamentos de Rhodan, ao contrário do primeiro episódio, o que temos é um foco na humanidade reagindo a sua chegada inesperada. Acompanhamos suas decisões por fora. Entendemos que Rhodan quer consolidar a aliança arcônida-humanidade, para isso precisa evitar a terceira guerra mundial e trazer uma cura para leucemia. A doença que acometeu Crest, como já sabemos desde o episódio anterior.

A ideia de humanidade unida é muito bonita, mas não faz isso sem tomar partido nas rivalidades da Guerra Fria que tanto tenta superar e acaba agarrando-se em alguns vícios anticomunistas. Quando Rhodan é abordado por um general e alguns soldados, da “Federação Asiática”, são feito de palhaços com uma arma antigravitacional, enquanto o general americano é tratado com respeito, mesmo que ambos representem dois lados do mesmo status quo a ser superado.

De uma forma geral, temos um episódio em que os acontecimentos são muito mais acelerados que no episódio anterior. Não há suspense a ser feito em relação aos arcônidas, apenas em relação a uma possível guerra nuclear, mas mesmo esse suspense não tem muito efeito, pois já sabemos que a tecnologia arcônida tem soluções fáceis para evitar o temido holocausto nuclear. Sendo assim, além de acelerado, o episódio tem um tom mais leve, com cenas até engraçadas. O episódio termina com Rhodan conseguindo manter seu acordo com o Arcônida Crest, mas sem conseguir unir a humanidade, mesmo que seja para matar ele mesmo.
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segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

Resenha #214 - Silicone XXI (Afredo Sirkis)


"Isso foi o começo, depois ele começou a defender umas ideias loucas sobre eutanásia. Disse que era a favor de eutanásia social, política, cultural e demográfica. Falou um monte de besteiras. (...) Disse que os grandes problemas do Brasil eram o excesso de gente e as eleições, que a gente precisava precisava de um homem forte pra diminuir a população, essas coisas." p.189.

"Silicone XXI" é a obra que inaugura o que veio a ser chamado de Tupinipunk, um subgênero que faz uma releitura brasileira ao Cyberpunk. Santa Clara Poltergeist (Fausto Fawcett) de 1991, Piritas Siderais (1994), de Guilherme Kujawsky e Distrito Federal (Luiz Brás) são outras obras que se encaixam no Tupinipunk, ainda que o próprio autor não visse sua obra como Ficção Científica, ressaltando apenas seu aspecto Policial, sou obrigado a discordar, pois não é a Pistola Laser e os carros flutuantes que tornam a obra uma FC.

Como em um bom romance policial, acompanhamos uma investigação de uma serie de assassinatos, cometidos pelo chamado "Maníaco da Pistola L" e também de "siliconpênis" contra homossexuais. O investigador negro de 52 anos, da polícia metropolitana José Balduino e a jovem Lili Braga, jornalista investigativa de 25 anos, sexualmente liberal, logo chegam ao nome de Estrôncio Luz, major reformado do exército que exige ser chamado de general, que alimenta ideias de eugenia social e limpeza étnica, mas que tenta compensar sua impotência com um pênis de silicone cirurgicamente implantado.

O vilão é, na verdade, uma das mensagens principais do livro, referência a truculência dos militares, ironicamente associado a uma homossexualidade enrustida e a um saudosíssimo, uma vez que o romance (de 1985) se passa em 2019. Estrôncio Luz é uma referência quase direta ao elemento radioativo e ao General Cruz, que exemplificava a truculência dos militares. Retirando a questão atômica, que saiu de pauta após o fim da Guerra Fria e do medo nuclear, e substituindo pela conveniência do Corona vírus, a questão ideológica do saudosismo militar ganha tons quase proféticos, e até otimistas, vide o nosso atual governo que se orgulha de cancelar CPFs. Por outro lado, também temos um futuro pós governos social-democratas, em que iniciativas e comunidades verdes, com respeito ao sincretismo religioso brasileiro, se espalharam pelo país, dando um aspecto utópico ao futuro tecnológico cyberpunk, um vez que o autor é um dos fundadores do Partido Verde e teve ocupou várias vezes seguidas cargos legislativos, até seu falecimento em 2020.

A leitura é muito divertida, uma vez que o autor trata a ironia e irreverência das pornochanchadas, os assuntos sérios e o próprio estilo policial e a enxurrada de termos técnicos do cyberpunk. Infelizmente o livro foi incompreendido, na sua época, recebendo resenhas negativas na época, talvez tenha influenciado a encerrar sua carreira literária. Ironicamente, o publico mais capaz de entender a beleza da obra, é justamente o nicho da FC, gênero negado pelo próprio autor. Espero que essa resenha possa ajudar a promover esse reencontro, entre deste belo exemplo de Ficção Científica Brasileira, com B maiúsculo mesmo, antes tarde do que nunca.
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segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Resenha #213 - Cyberlogia (Tauã Lima Verdan Rangel Org.)


"Cyberlogia" é uma antologia de contos Cyberpunk. Foi uma boa surpresa em alguns pontos e em outros tem a média comum de antologias. Os pontos fortes são a introdução, que mostra um bom conhecimento sobre o que é o cyberpunk, mesmo sem mencionar as referências e autores consagrados. Os contos bons são muito bons, porém são contos muito curtos. 15 contos em 100 páginas. Alguns contos não se encaixam bem no cyberpunk, e eu esperava um cuidado maior na escolha, uma vez que o livro é curto e a introdução demonstrou conhecimento do tema. 

A Sete Palmos do Chão (Ana Gabriela Pacheco) A divisão social nesse mundo é entre os pobres que moram na superfície e a elite que vive em prédios flutuantes. Acompanhamos uma rebelde que acorda após um atentado a uma fábrica e logo se vê perseguida pela polícia. O conto surpreende no final, por uma resolução aparentemente cansada mas que por alguns detalhes pouco explicados consegue fazer diferente. 

O Roubo de Naguile (Ana Rosa) A humanidade está ameaçada por ter perdido o controle de sua reprodução. Tem mais aproximações com Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, que com o cyberpunk em si, porém é um bom conto.

Éramos Mais Felizes Antes (Clara Formatti) Acompanhamos Maia, que trabalha em um hospital em um futuro de extenso uso de próteses para repor partes orgânicas, quando após um acidente com sua esposa, descobre que ela voltou muito diferente do que ela conhecia. O conto tem uma ideia boa, mas tem uma resolução muito expositiva.

Atualização Mental (Enzo S. Macedo) Júlia é convencida pelos amigos a fazer uma atualização mental, para suprimir sentimentos. Acompanhamos os motivos e as consequências de sua decisão. É um paralelo as fugas diárias que fazemos hoje para nossos problemas. 

A Programação (Fábio Cachamorra) Acompanhamos um Sintético, criado pela IURD (Indústrias Unidas pelo Reino de Deus) em uma analogia muito bem feita entre a ideologia religiosa e a corporativa e a forma como descobrimos é bem explorada.

Cidade Baixa (Fábio Muller) Um mercenário que vive na área privilegiada cai na Cidade Baixa, onde acompanhamos como é a vida lá e a luta do protagonista para sobreviver. Conto digno da ação que promove.

Peças de Reposição (Humberto Lima) Uma linda ruiva dos níveis superiores (dos privilegiados) decide passear pelos níveis inferiores (ultra violentos). Um crime e a vingança, regada a tecnologia robótica. É uma ação clichê como o conto anterior, porém mais esteticamente divertido.

Metallo (Igor Moraes) Mais um conto de robôs, ao estilo Asimov, brincando com as três leis da robótica, que um conto cyberpunk, mas um bom conto de robôs a Asimov, brincando com as três leis da robótica.

Boneca Cibernética (Léon Edson) Um investigador encontra o corpo de uma jovem morta tragicamente, então começa uma torrente de revelações que deixam o conto muito frenético e cheio de ação. Uma pena que o final tenha cara de episódio piloto, ou capítulo, do que um conto fechado.

"Chaos-2120" (M. Consanni) Conto distopico futurista com poucos elementos cyberpunks, mas ainda sim vale a pena forma de escrita na primeira pessoa em forma de relato.

Os Irmãos (Maurício Coelho) Conto típico do cyberpunk, em que dois irmãos pegam um trabalho perigoso, que é mais perigoso que imaginaram. Aqui foi bem ambientado no Pará, o que deu o elemento de nossa relação com a tecnologia.

Drone (Nick Scabello) Acompanhamos Amanda que está fazendo uma incursão em uma área restrita protegida por um drone. Um duelo com a tecnologia, muito bacana de acompanhar. Parece uma cena isolada de um livro, mas consegue ser eficiente como peça isolada, o desfecho traz o motivo para aquele confronto, mas é um conto que vale pelo desenvolvimento. 

Visão (Rodrigo Ortiz Vinholo) Narra em primeira pessoa, um homem que passa a ter visões de uma mulher. O autor consegue montar um suspense sobre o que se trata tudo isso, como se fosse um conto de terror mas que tem um desfecho completamente calcado na tecnologia e condizente com o cyberpunk. Meu conto favorito do livro! 

No Boulevard das Sombras (Tauã Lima Verdan Rangel) Temos a história de uma prostituta que involuntariamente se envolve em uma conspiração envolvendo corporações e espionagem industrial. O conto perde bastante parágrafos em descrições de cenário no início e acaba deixando pouco para detalhar mais o final deixando muito enigmático.

Cabeça Vazia (Wilson Carvalho) Conto sobre robôs que tem mais aproximação com os antigos contos de robôs do Asimov que com o cyberpunk contestador dos anos 80, mas ainda sim, um bom conto sobre robôs.
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