segunda-feira, 28 de março de 2022

Resenha #228 - Poeira Lunar/Os Náufragos do Selene (Arthur C. Clarke)

 


Poeira Lunar (To Fall on Moondust) é uma obra de Arthur C. Clarke que foi lançada recentemente com este nome, pois a antiga Nova Fronteira já havia lançado como "Os Náufragos do Selene". É uma história sobre o drama de 21 ocupantes de uma nave de turismo na lua que sofre um naufrágio em um de seus mares. Os mares da lua imaginada por Clarke são repletos de uma poeira fina que em gravidade quase zero ganha uma consistência que se comporta como um liquido. Hoje sabemos que os mares da nossa lua são uniformemente firmes. Alguns poucos anos depois do livro ser lançado, a teoria dos mares de poeira foi derrubada, deixando o Poeira Lunar imediatamente obsoleto como especulação. Fica a pergunta: o que sobra para uma ficção científica que não serve mais para especulação?

Se olhar com extremo rigor, nada, a não ser uma história. A história de um desastre e o drama para a sobrevivência, a convivência sob o estresse do confinamento, o perigo eminente, até o resgate tornou-se comum no cinema nas décadas seguintes. Se o leitor conseguir se levar pelos acontecimentos, vai conseguir tirar o que a obra tem de bom. Contudo, mesmo erguida sob uma teoria que logo se tornou furada, temos um livro muito bem escrito e bem especulado em relação aos desafios que a tripulação e a equipe de resgate tem que enfrentar. É muito fácil cair em falar besteira ao imaginar um mar de poeira fina em gravidade quase zero e como retirar 21 pessoas de uma embarcação afundada de lá. Ainda assim, é uma obra que não é boa como seus maiores clássicos, "O Fim da Infância", "A Cidade e as estrelas" e "Encontro com Rama", mas é superior a "As Fontes do Paraíso".
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segunda-feira, 21 de março de 2022

Resenha #227 - Le Chevalier e a Exposição Universal (A. Z. Cordenonzi)


"Le Chevalier e a Exposição Universal" de André Zanki Cordenonsi é uma aventura detetivesca steampunk estrelada pelo agente francês sem nome, conhecido apenas como Le Chevalier. A história se passa numa Europa não muito diferente da nossa, em termos políticos sendo acrescida de tecnologia a vapor que possibilitou avanços e uma modernização mais acentuada em Paris (cenário do livro) e por consequência, um maior desigualdade e precarização da vida da classe baixa.

Le Chevalier recebe a incumbência de investigar a violenta morte do agente Pinard, as vésperas da Exposição Unviersal que reunirá inventos de todo o mundo e muitos deles podem ser mortais e ameaçam a vida do próprio Imperador Napoleão III. A escrita acompanha o estilo antigo com bastante descrições mas logo temos boas cenas de ação que aceleram a leitura, até a tornarem uma excelente "leitura de praia". É como chamo os bons livros com leitura fluida e que não complicam o entendimento enquanto divertem o leitor.

Quanto a caracterização dos personagens, eles são propositalmente caricatos, desde o heroísmo e determinação do protagonista passando pelo reclamão, esfomeado porém corajoso e leal, Persa. Confesso que gostaria de ver algo mais que as bravatas da parte dele, como houve com Julliete que aparece muito menos mas tem motivações mais claras e cativantes. Os vilões são apenas frutos da política e fez sentido serem descartáveis como mecanismos, pois quando caem são sempre substituídos por outros iguais (mais espertos e hábeis ou não).

O balanço final é de um livro do tipo leitura de praia. Divertido, que não pesa a mão em nenhuma característica de crítica ou científica, mas elas estão lá pra quem quiser algo além da aventura que predomina e (mais uma vez) diverte muito e deixa um gosto de quero mais, que acredito encontrar nos contos (As crônicas de Le Chevalier) que o autor deixou de graça na Amazon.
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segunda-feira, 14 de março de 2022

Resenha #226 - Vaporpunk: Novos documentos de uma pitoresca época steampunk (Org.Fábio Fernandes, Romeu Martins)


"Vaporpunk: Novos documentos de uma pitoresca época steampunk" ou apenas Vaporpunk 2, trouxe novos contos para expandir o conceito de Steampunk nos contos da primeira antologia. A primeira mudança é a maior quantidade de contos, e o menor número de páginas no total. A abordagem também é diferente, não seguindo apenas a História Alternativa, mas também abrindo o leque para a aventura e a fantasia, nem sempre em cenários brasileiros.

Fábio Fernandes, um dos organizadores da antologia, abre o livro com "Alferes de Ferro", uma história que reconta a vida de Joaquim José da Silva Xavier, que a história imortalizou como Tiradentes. Nesta nova versão o alferes inconfidente tem um destino mais heróico do que de mártir da independência em um mundo em que a porção nordeste do império foi tomada e consolidada pelos holandeses, além de não poupar nosso herói das contradições da luta pela liberdade com a manutenção da escravidão.

Dana Guedes nos trás um conto episódico em "V.E.R.N.E. e o Farol de Dover" onde um grupo de anarquistas e libertários luta pela liberdade da classe operária, sabotando diretamente as operações do governo para proteger os industriais. Naquela missão, em específico, o grupo pretende destruir o HMS Guardador que transportaria peças industriais e sua destruição atrasaria por meses a construção de um parque industrial novo. Os personagens Beatrice e Dmitri são os mais trabalhados, e os outros membros da equipe são caracterizados por peculiaridades estéticas e não sabemos se sobrevivem para serem aprofundados em episódios futuros. Aliás essa característica episódica dá um sabor folhetinesco ao conto e nos faz querer saber mais.

Romeu Martins "Tridente de Cristo" narra uma segunda história do investigador policial João Fumaça quando vai a festa de casamento do estadunidense Neil Gibson com a índia brasileira Maria Pinto, amigos da aventura anterior, porém Neil e João são rendidos por um agente estadunidense a serviço da coroa espanhola. Neste mundo o Império Brasileiro e a Coroa espanhola são equivalentes aos Estados Unidos e a Inglaterra no século XIX, como potências mais relevantes. Infelizmente o conto deixa a desejar pelo excesso de informação e contextualização, do que acontecimentos que levaram os personagens até aquela situação. Absolutamente tudo que sabemos do vilão sai de sua boca quando revela em longos parágrafos seus planos. Nem Tião Gavião, discursaria para Penélope Charmosa por tanto tempo.

Nikelen Witter "Uma missão para Miss Boite" acompanha Ana Joaquina que vem ao sul do Brasil, aparentemente em viagem a visita de um amigo, junto do marido Serafim. Porém o casal faz parte de uma Sociedade secreta em missão: resgatar/roubar um artefato que deve ser protegido a todo custo. Ana contrata Miss Boite, uma mercenária ousada que aceita a missão. O conto tem reviravoltas muito bem feitas e cenas de ação inspiradas. Meu conto favorito da edição!

Luiz Brás "Mecanismos Precários" coloca em choque uma série de dicotomias entre um casal enfurecidamente apaixonado, digladiando-se em mechas a vapor destruindo a cidade até que um personagem inusitado coloca tudo de ponta cabeça. Conto cheio de metalinguagem que foge do padrão de histórias Steampunks mas que tem muito valor como literatura.

Sid Castro "Notícias de Marte" cria seu Brasil steampunk em paralelo com o nosso Brasil. Acompanhamos o Visconde de Cerradinho Antônio Almeida, aviador do Império Brasileiro embarcado no navioaeródromo Amazonas, em uma missão misteriosa que se perde da esquadrilha e é derrubado por um navio republicano chamado Amazonas. Logo Antônio percebe que está em um universo paralelo, sob a desconfiança dos oficiais da Marinha de um Brasil republicano ás vésperas de um motim que seria conhecido como A Revolta da Chibata. O motim é a única chance de Antônio voltar a sua realidade e concluir sua missão. O conto conseguiu colocar em paralelo ambos os mundos sem deixar o conto confuso, conseguindo contar uma boa história, com ação e um gancho para o final sensacional.  

Romeu Martins "Modelo B" segundo conto do autor na edição onde retornamos com o detetive João Fumaça. O conto me agradou bem mais, que  "Tridente de Cristo", pois conseguiu valorizar a ação e os acontecimentos sem muita contextualização. Ambas as histórias são simples, mas o perigo e os vilões ficaram mais humanos e razoáveis. Diferente do conto anterior, aqui terminei a leitura querendo mais contos do João Fumaça. 

Jacques Barcia "O cerco de Dr. Vikare Blisset" acompanha através do relato de um detetive encarregado de prender o Dr. Vikare Blisset um célebre anarquista que usa suas tecnologias para quebrar patentes científicas e tecnológicas controladas pelo Estado. O conto funciona pelos relatos e por trechos de relatórios sobre as armas, tecnologias e associados do Dr. Vikare que nos imergem nesse mundo e trazem excelentes cenas de ação. Um conto que funciona como tal e ainda nos deixa com muita vontade de conhecer mais este mundo.

Cirilo S. Lemos "Meus pais, os pterodáctilos" é um steampunk com cara de New Weird que tras uma história doce sobre um menino que vive com pais em Varup, uma cidade povoada por pterodáctilos que falam e vivem em sociedade. O menino adotado não é bem visto pela sociedade mas os pais do menino fazem de tudo para que ele seja aceito. A construção de mundo é soberba e não perde em nada para mundos estranhos e exóticos de China Mieville. Excelente encerramento para a antologia!
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segunda-feira, 7 de março de 2022

Resenha #225 - Parthenon Místico (Eneias Tavares)


"Parthenon Místico" de Eneias Tavares é a sequência que tanto aguardava para "Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison" do já longínquo ano de 2014. O mundo de Brasiliana Steampunk tem tudo que um bom livro Steampunk precisa: uma estética apurada, cheia de charme, tecnologia a vapor, ação e personagens cativantes. A sequência, que na verdade é uma prequela, acompanha o grupo chamado Parthenon Místico, quinze anos antes dos eventos narrados em "Lição". Grande parte dos personagens criados e adaptados ao mundo a vapor estão lá. Dr. Antonie Louison e Beatriz de Almeida e Souza, entre os criados por Eneias e os retirados de obras clássicas, Solfieri (do Noite na Taverna de Alvares de Azevedo), Bento Alves, Sérgio Pompeu (d'O Ateneu de Raul Pompéia), Dr. Benignus (do livro homônimo de Emílio Augusto Zaluar), Vitória Acauã (dos Contos Amazônicos de Inglês de Souza) estarão ao lado de Giovani (personagem de Apeles Porto Alegre), Aristarco (também d'O Ateneu) e até de uma misteriosa aparição d'O Aleph de Jorge Luis Borges.

Na história, acompanhamos os primeiros momentos da criação do Parthenon Místico, grupo de insatisfeitos anarquistas que se veem obrigados a enfrentar a Ordem Positivista com planos de dominação que os colocam em choque com nossos heróis. Como no livro anterior, a narrativa é construída através de relatos dos diários, digo dos noitários, dos personagens, também de relatórios, transcrição de áudios e notícias. Porém quem assume um protagonismo desta vez é Sérgio Pompeu, que traz o primeiro relato de quando recebeu uma carta de um antigo colega do Ateneu, Bento Alves para vir a Porto Alegre. Sérgio que se sentia sem lugar no mundo aceita o convite e entra para o Parthenon Místico, e já tem de encarar suas primeiras aventuras com o grupo.

Minhas expectativas com relação a continuação eram as mais altas possíveis e elas foram totalmente atendidas. Obviamente meu apego ao mundo criado pelo autor facilitou que eu gostasse do livro, mas ele definitivamente não é apenas uma aventura boba e estética vazia. O livro está embebido de rebeldia, sabendo combinar o lado aventuresco e folhetinesco sem tornar seu aspecto rebelde em algo caricato. 

P.S. - Como se não bastasse tudo isso, o livro tem suportes gratuitos para ampliar o mundo abordado nas duas obras. Acessando o QRCode no fim do livro ou aqui o leitor tem acesso a audidramas e histórias em HQ virtuais, e informações sobre outras mídias que compartilham o universo criado pelo autor.
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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Resenha #224 - Imaginários Vol. 1 (Tibor Moricz, Saint-Clair Stocler e Eric Novello)


"Imaginários Volume 1" É uma revista-coletânea da Editora Draco. O primeiro de uma longa série que reúne várias amostras do fantástico, fantasia e ficção científica. Os contos tem pouco a ver um com o outro (e muito menos com a ilustração da capa) mas consegue trazer boas histórias. 

Coleira do amor (Gerson Lodi-Ribeiro) - Félix perdeu sua amada Theresa mas não consegue aceitar a perda pois tem um sistema inibidor instalado que o impede de parar de amá-la. O conto tem momentos finais muito tensos, que envolvem violência sexual. Apesar do exagero na descrição das cenas, consegue fazer uma boa discussão sobre o livre-arbítrio, em relação aos sentimentos, e o pós-humano. Já resenhado na publicação sobre Fractais Tropicais.

Eu, a sogra (Giulia Moon) é uma fantasia muito divertida sobre uma bruxo que conhece uma nora muito inconveniente. Lembra muito o mundo de A Feiticeira, pela abordagem divertida e bem elaborada para uma ficção tão curta.

Veio... novamente (Jorge Luiz Calife) escrito pelo veterano da FC brasileira, trás uma ficção científica com cara de filme americano enlatado, contando a história de uma família estadunidense que se depara com um contato extraterrestre no deserto de Mojave. O conto é bem escrito mas o enredo não consegue sair do óbvio.

A encruzilhada (Ana Lúcia Merege) Uma fantasia ao estilo clássico, tendo na existência de magia e de uma ordem de magos soldados o foco, tem um início que promete muito mas encerra muito menos. A linguagem é excelente, mas o encerramento dá a impressão de ser algo maior. O que se provou verdade após uma pesquisa pelos enredos nos seus trabalhos.

Por toda a eternidade (Carlos Orsi) conto curto mas que mistura muito bem a ficção científica, crime e humor. É um dos meus contistas de FCB favoritos e eleva o nível da antologia.

"Twist in my sobriety" (Flávio Medeiros) conto que ambienta a Terra pós-invasão pacífica porém tomada de paranoia. Emula o clima da Guerra Fria, onde os vilões são falsos libertadores que trazem muitas benesses mas escondem planos funestos. Os valores individualistas e conservadores são os trunfos do protagonista. Tudo é feito de maneira bastante original e criativa.  

Um toque do real: óleo sobre tela (Roberto de Sousa Causo), Conta a história de um pintor que acorda enxergando o mundo sob o prisma de pinceladas de pinturas do seu estilo. Lembra bastante um enredo de Philip K. Dick pela estranheza mas ela não dura até a conclusão, que traça um caminho longe do estilo de PKD.

Alma (Osíris Reis) mistura fantasia e ficção científica em um conto bastante complexo e reflexivo, principalmente pelo ponto de vista de uma extraterreste que pretende resgatar sua filha.

Contingência, ou Tô pouco ligando (Martha Argel) tem um interessante tom misturando relato com artigo de revista ou crônica, com um argumento ecologista e vários termos ligados a biologia e a geografia. O tom bem humorado faz o conto ser uma leitura agradável.

Tensão Superficial (Davi M. Gonzales) é a aventura de um estudante que junto dos amigos, depara-se com um mistério inexplicável em um prédio velho. O conto é curto mas não consegue engatar até o final fraco.

Planeta Incorruptível (Richard Diegues) narra momentos de uma invasão extraterrestre que tem de lidar com a negação de eventos teológicos católicos como a aparição de santos e a ideia do Deus Único, rejeitados firmemente pela ideologia dos invasores.
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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Resenha #223 - A Terceira Expedição (Daniel Fresnot)


"A Terceira Expedição" (1987) de Daniel Fresnot é uma obra pouco conhecida e, que apesar de datada, tem alguns elementos que gostaria de ver mais na Ficção Científica brasileira. A história se passa no anos 1980, tal como na época em que foi escrito, na pequena cidade de Barra Velha, no interior de Santa Catarina. Acompanhamos o relato de Mané, um operário que sobreviveu a um holocausto nuclear que a princípio dizimou a metade norte do planeta e uma boa parte do hemisfério sul. O relato inicia com os primeiros anos de reorganização entre os sobreviventes, da busca por outras cidades, máquinas, veículos e recursos para reerguer a civilização. Contudo, grande do livro é dedicada a narrar às três expedições que buscaram recursos e vida em São Paulo.

O romance epistolar tem como atrativo as possibilidades promovidas pela parcialidade do depoimento. Contudo, aqui é utilizada como artificio para passar o isolamento que os sobreviventes se encontram. Sem saber se são as únicas pessoas vivas da humanidade. Efeito esse que impulsiona as explorações através das expedições. O relato é perpassado pela esperança de encontrar vida e as frustrações com os fracassos das expedições, em especial a última. Mané não nos esconde esse fato, uma vez que no futuro seria algo de conhecimento público, restando à curiosidade do como tal fato aconteceu.

Outra característica é a verossimilhança do relato de Mané. Isso vai dos detalhes narrados como uma pessoa comum, até o fato de que Fresnot constrói esse relato afastando Mané do protagonismo até o fim. Inclusive alguns detalhes do desenvolvimento são fornecidos por cartas escritas por outros personagens colocadas entre os capítulos. Por consequência, também não há um final apoteótico, mas são coerentes. Há uma porção de esperança no tom da narrativa que entendemos apenas no final, por conta do presente do livro.

Como mencionei no início, o aspecto datado do livro se dá justamente pelo medo de uma guerra nuclear entre as potências da Guerra Fria, que desapareceu do imaginário popular com o fim da URSS. Outro aspecto é a total ausência dos relatos ou sequer de uma interação com personagens femininas (não há diálogos com nenhuma delas), que parecem não terem sido convocadas para as expedições.

A terceira expedição é um bom exemplo do uso da escrita epistolar na Ficção Científica. O autor soube usar a visão de um homem comum, para criar uma verossimilhança surpreendente em um cenário extraordinário. Uma história oral de algo que nunca aconteceu.



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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Resenha #222 - Dieselpunk: Arquivos confidenciais de uma bela época (Gerson Lodi-RIbeiro Org.)


"Dieselpunk: Arquivos confidenciais de uma bela época" é uma sequência de Vaporpunk I e II, tanto como na ordem de publicação da série Mundo Punk da Editora Draco, como do próprio subgênero. Os mundos Dieselpunk são geralmente cenários retrofuturistas onde a tecnologia a vapor é substituída pela diesel, e do ponto de vista histórico é uma versão da bella epóque sem a desilusão das Guerras Mundiais ou de uma crise avassaladora do capitalismo como o Crash da bolsa de 1929. Um prato cheio para imaginar os cenários históricos alternativos e a proposta da antologia é privilegiar cenários brasileiros e lusos. O resultado é uma antologia, que trouxe contos bastante extensos onde os autores tiveram espaço para trabalhar bastante os cenários e costurar essas novas realidades e, de uma forma geral os autores foram muito felizes nesse quesito, trazendo muita diversão para historiador nenhum botar (muito) defeito.    

“Fúria do Escorpião Azul” (Carlos Orsi) trabalha com o cenário em que o Brasil passa por uma revolução comunista nos moldes pseudo-stalinistas, e segue as peripécias de um vingador mascarado que enfrenta o regime descrito com uma dose tão elevada anticomunismo que me fez olhar o nome do autor para ver se não tinha sido escrita por Olavo de Carvalho. Porém, como o autointitulado filósofo já declarou abertamente que a FC é imbecilizante, fica a dúvida se o pseudo-filósofo gostaria da história. Nela acompanhamos o mistério que alterna, o Escorpião Azul e o jornalista chiquinho que investigando uma trama envolvendo um plano nefasto de um cientista comunista que faz algo pior do que comer criancinhas. A história é muito bem escrita, com boas cenas de ação, mas com personagens rasos que dá um tom canastrão a tudo, como o Batman dos anos 60, mas sem o mesmo carisma.

“Grande G” (Tibor Moricz) uma trama conspiratória palaciana/empresarial da família dona de Smoke City, forjada na poluição e motores a combustão. O megaempresário, o "Grande G", enfrenta uma conspiração tramada por seu filho e herdeiro para tomar o poder envolvendo a transferência de tecnologia limpa a cidade vizinha e atrasada Steam City. A trama é envolvente, a linguagem seca e cruel combina muito bem com o teor sádico cheio de cenas de incesto, que sobre mais um degrau que os Bórgias, no quesito sacanagem em família. Ainda que exagerado, muito mais próximo da realidade da burguesia empresarial que os comunistas do conto anterior.

“O dia em que Virgulino cortou o rabo da cobra sem fim com o chuço excomungado” (Octavio Aragão), nos retorna a um cenário de história alternativa, onde um cenário onde a Coluna Prestes (liderada por Luís Carlos Prestes e o tenente Siqueira Campos) e o bando de Lampião, com direito a participação de vários personagens históricos como Maria Bonita e Padre Cícero. Acompanhamos a história de forma parecida como aconteceu nos anos 20. Até um carioca misterioso oferecer armas com alta tecnologia para ambos os lados para que a coluna e os cangaceiros entrem em conflito, porém nada sai como os personagens esperavam. Para um historiador, é um conto cheio de fan service, porém achei os momentos finais bastante corridos. Talvez nem uma noveleta longa seja grande o suficiente para esta história.

"Impávido Colosso” Hugo Vera, conta uma história aventuresca de folhetim onde um Brasil imperial liderada por Dom Pedro III e um Barão de Mauá meio deslocado do tempo, descobrem-se em pé de guerra com a Argentina, patrocinada pelo imperialismo britânico que almeja derrotar o Brasil e o vizinho Paraguai. O conto tem total enfoque nas batalhas de robôs e não decepciona nesse quesito, porém a questão política é abordada de forma pobre e superficial, com patriotismos exagerados e ingênuos. Não me incomodaria se o conto não dispensasse tanto espaço para momentos elogiosos  e vazios dos políticos. Uma enxugada na patriotada para a adição de uma segunda batalha faria muito bem ao conto.

"País da Aviação" (Gerson Lodi-Ribeiro) ao invés de trabalhar um cenário Dieselpunk propriamente dito, na visão de um personagem em específico, o autor optou por fazer um panorama da Hegemonia Francesa, resultado do sucesso dos planos de conquista de Napoleão quando sai vitorioso na Batalha de Trafalgar. Uma vez que nesta realidade, Napoleão contratou Robert Fulton para criar as armas que he deram a vitória. Seguimos vários cenários que acompanham o desenvolvimento do poderio francês na Europa, até o início do século XX quando uma Guerra Fria surge entre os EUA e a França. Um pouco antes, o núcleo principal da noveleta, segue os Irmãos Wright sendo recrutados para serem meros assistentes de le Petit Santos, aqui também inventor do avião. Os cenários que se sucedem são consistentes e fazem muito com o pouco espaço formando um belo panorama do cenário político nesse mundo. Apesar de ter adorado ver as áreas periféricas bem desenhadas, o centro do poder hegemônico ficou muito vago. Porém a coleção de pequenos cenários funcionou bem tanto individualmente quanto no conjunto.

“Ao Perdedor, as Baratas” (Antonio Luiz M. C. Costa) acompanhamos um cenários muito curioso e bem montado. Os indígenas se integraram de forma mais saudável a sociedade brasileira, a revolução industrial aconteceu mais cedo e o cenário político é de eleições tendo Cosme Bento como principal candidato. Acompanhamos um agente de uma potência ao norte que está em uma missão de assassinato para abalar as eleições. O conto adiciona ao cenário alternativo personagens reais (Karl Marx e Richard Wagner) e elementos da literatura (as baratas de Clarice Lispector e Franz Kafka). O autor trouxe uma visão otimista sem cair na ingenuidade em uma história com reviravoltas.   

"Auto de Extermínio" (Cirilo Lemos) um dos meus autores preferidos da FC brasileira, trouxe uma história que privilegia a ação sem perder a consistência histórica, com um toque de New Weird. Nos anos 1920 o Império brasileiro ainda existe, porém seu monarca é um moribundo e sua queda é iminente. Integralistas, comunistas e militares apoiados pelos Estados Unidos estão na iminência de um golpe de estado. Acompanhamos Jerônimo Trovão um assassino de aluguel que terá um papel maior nesse jogo político do que gostaria. Ele é guiado por uma santa que atua como uma consciência exterior premonitória que o ajuda a ficar vivo. Seu filho, nômio, é seu auxiliar e também é acometido do mesmo tipo de visão, porém com um herói de HQ estadunidense. A noveleta derivou um romance "E de Extermínio" e o conto aumentou a vontade de ler o livro!

"Cobra de Fogo" (Sidemar Castro) trouxe a noveleta mais divertida da antologia. Num Brasil ainda imperial, a Grande Guerra Mundial de 1919-29 foi muito mais devastadora que a da nossa realidade, ao ponto em que a Liga das Nações impor uma "Pax Atômica" transferindo as resoluções políticas para uma forma presumidamente esportiva numa espécie de Corrida Maluca em que cada império compete com um tipo de locomotiva voadora gigante equivalentes a destróieres. O mundo é o cenário onde as etapas são disputadas, e na corrida em questão é por uma boa fatia da Amazônia. Os competidores são, obviamente o Império brasileiro, Alemanha, Áustria-Hungria (governada por Hitler), URSS (liderada por Trotsky), Japão, China, Estados Confederados (o sul venceu a Guerra Civil), Reino Unido, Mongólia, França, Espanha, Holanda entre outros. O bom uso dos clichês da corrida como uma boa fachada para a sujeira da política, espionagem e combates escamoteados uma torrente maravilhosa de referências cinematográficas e históricas. De Damocles Dummont, um espião brasileiro passando por Erving Hömmel, Jesse James III, Amon Göth, Charles de Gaulle, Antoine Saint-Éxupery, Olga Benário e até de Stalker de Tarkovsky e muito mais. É muito fácil imaginar essa novela numa aventura superprodução cinematográfica. Ao menos podemos fazer isso na nossa imaginação!

"Só a morte te resgata" (Jorge Candeias) alia uma linguagem mais sensível e intimista com um mundo alternativo. Se passa no mesmo mundo de "Unidade em Chamas" que saiu na Vaporpunk I, porém já no início do Século XX, onde as passarolas alçaram Portugal a condição de potência. O protagonista, Jefferson, um escravagista do Brasil do Sul que decide lutar contra a Confederação Portuguesa por sua postura multiracial. Acompanhamos as peripécias de Jefferson para retornar ao seu lar após ler uma carta de seu pai, cujo conteúdo conhecemos apenas no final. Apesar de ser difícil se conectar ao protagonista por conta de seu racismo aberto, podemos acompanhar um drama genuíno sem que necessitemos corroborar com sua visão de mundo. Uma pena essa viagem que o conto promove, no segundo e terceiro terço não serem tão dieselpunks quanto a primeira parte, mas ainda sim uma boa viagem.


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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Resenha #221 - Revista Fantástica Caligo número zero


"Revista Caligo numero zero" é lançamento da editora que mostra que está mergulhando de cabeça no Fantástico. Antes, com o lançamento da antologia Outros Brasis da Ficção Científica, abrindo o selo Outros Brasis, agora com uma revista semestral de contos que abrangem Ficção Científica, Terror e outros ramos do Fantástico.

"O Paciente da Segunda-feira" de Pedro Curnivel, é um retrato da paranoia. Conta sobre dois irmãos. Samanta que está na cidade e decide ler cartas do seu irmão, um médico psiquiatra que vai para um vilarejo no interior onde relata sobre um paciente psicótico. O conto é praticamente a leitura das cartas do médico. Particularmente, adoro escrita epistolar, e aqui Pedro consegue envolver o leitor na paranoia, nos fazendo virar páginas alucinadamente, até o derradeiro desfecho.

"Senescência ou como Charlie acorda Clarice" de Tânia Souza. Ficção Científica que não tem um enredo propriamente dito, mas que com muita competência, pinta um quadro de uma vida miserável. Clarice é um ciborgue que vive em um pequeno apartamento. Não há muito mais para se contar, é mais o epílogo de uma história trágica que conseguiu misturar cyberpunk e cotidiano sem agredir os elementos principais de duas narrativas tão diferentes.

"Divina Rotina" de Davenir Viganon, conto de minha autoria, é sobre Divino e seu dia de trabalho comum no inferno. Procuro aliar a comédia com situações absurdas, com referências tanto da Divina Comédia de Dante como referências atuais.

"Aysú" de Maria Eduarda Amadeu, é uma amostra da escrita madura para uma autora tão jovem. O conto é uma curta, mas intensa viagem na mente de uma amazona indígena conhecendo o amor, nos perdemos neste mundo diferente ao mesmo tempo que mostra a universalidade do sentimento.

"Ensaio Sobre a Natureza Morta" de Fil Felix trata o fantástico de forma intimista, na história de Giovani que passa por suas decepções pessoais e lidando com seu poder de transformar-se em plantas. A escrita é o tempero do conto, que brinca com a passagem do tempo de acordo com o dom/maldição do protagonista.

"Espiral" Giselle Fiorini Bohn acompanha Ana, que passa a receber a visita de uma pequena menina maltrapilha e que passa a ser sua obsessão pessoal, visto que ninguém parece se importar com seu estado. A condução do conto passa a agonia de não ser ouvido, pela escrita em primeira pessoa e a revelação joga o elemento fantástico na cara do leitor.

"Vazio Tóxico" de Leonardo Jardim, acompanha Horácio um velho professor que tenta sobreviver em um mundo pós-apocalíptico em busca de água enquanto foge do gás tóxico quase onipresente na atmosfera, quando encontra uma biblioteca perdida nos escombros de uma casa e uma menina que vem de muito longe. Geralmente não gosto deste tipo de história mas o desenvolvimento e revelações finais da trama foram bem montados, sem extravagâncias narrativas e me fizeram gostar do conto.

"O terceiro menino" de Amana mostra uma realidade alternativa em que os nazis venceram e a família como conhecemos foi desmantelada. Os jovens são criados com tutores e são descartados após tutelarem o terceiro menino. A autora consegue trazer uma esperança misturada com amargor neste futuro inóspito e claustrofóbico. Construção de mundo e desenvolvimento são maduros e bem feitos. Gostei do conto.

"A casa xadrez" de Bruno Andrade, vai pelo caminho da alegoria ao narrar as viagens de um homem que decide ficar recluso numa residência cheia de segredos que o protagonista tem tanto anseio como medo de explorar. Conto que não demora a expor seu aspecto psicológico e que nos instiga a desvendar o que de fato se passou na mente do protagonista. O final é triste e bem feito.

"Homicídios manchados de rosa" de Thaís Lemes Pereira traz uma história de detetive nos mundos dos contos de fadas. O lenhador entrevista várias princesas e ver como foi o depois do felizes para sempre foi bem engraçado e a revelação final recompensa o leitor pela jornada do lenhador. Excelente final da secção de contos.

Após os contos de tamanho tradicional, a revista também trás minicontos na seção "Histórias para serem lidas durante o bater de asas de uma borboleta" trazendo contos dos autores Amana, Bruno Andrade, Davenir Viganon, Giselle Fiorini Bohn e Tânia Souza. Nesta secção contribuí com três micro contos presentes no livro, "Contos do Gregório ou Pelo direito de acordar metamorfoseado num inseto monstruoso". De uma forma geral a Revista está bem variada nas formas do fantástico e a viagem por estilos e formas diferentes vai agradar ao leitor que busca por coisas diferentes para ler e a secção de microcontos está especial pois adoro essa forma de narrativa. Como em qualquer junção de contos, nem todos vão agradar a todos os leitores mas ninguém poderá dizer que é pela falta de habilidade ou talento dos autores.
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segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Resenha #220 - O Crepúsculo dos Deuses, Perry Rhodan 4 (Clark Daltron)


[As resenhas do blogue não costumam ter spoilers, mas para esta série não teremos esta preocupação. Pois ela será escrita pensando em trocar ideia com os leitores que já leram as obras. Além disso contar o enredo das primeiras histórias não constitui grande prejuízo para quem deseja começar a série, mas de qualquer forma fica o aviso]

Perry Rhodan, comandante da Stardust, descobriu, na Lua, a nave gigantesca dos arcônidas que realizou um pouso forçado. Foi um acontecimento feliz para a humanidade.
Rhodan prestou auxílio aos arcônidas, uma raça em decadência que dominava um império galático que entrara em declínio. Na verdade, prestou um auxílio aos homens, ao empregar o enorme poderio de Árcon para impedir a eclosão da terceira guerra mundial. Já existem muitos homens que compreendem os esforços de Rhodan em prol da união do mundo. Mas falta percorrer um caminho longo até o Crepúsculo dos Deuses, representado pelo abandono do pensamento mesquinho que até então prevalecia...

"O Crepúsculo dos Deuses" é o quarto volume da série Perry Rhodan. Neste volume voltamos ao ritmo de prólogo, pois somos apresentados a muitos personagens e pouco evoluímos na história principal. Perry Rhodan e seu fiel escudeiro, Reginald Bell, são treinados em um aparelho arcônida que aumenta as habilidades cognitivas dos dois, equiparando-os aos arcônidas, ao custo de apenas um dia inconsciente. É nesta janela narrativa que somos apresentados aos mutantes. Seres humanos que receberam habilidades especiais, em decorrência da radiação. Não há muita questão em esconder que eles se unirão a Perry Rhodan. Não há como negar que a ideia dos mutantes desta série, publicado em 1961, é parecida com a dos X-men pela Marvel em 1963, porém os personagens são extremamente diferentes.

John Marshall, é um australiano com poder de ler pensamentos, que é descoberto por alguns policiais após impedir um assalto a banco. Ana Sloane, é uma americana que foi recrutada por Alan D. Merchant por usa habilidade com telecinésia. Rais Tchubai é um químico do Sudão, perdido em uma expedição, quando descobre sua capacidade de teletransporte. Ernest Ellert, um intelectual pobretão da Alemanha tenta convencer seus amigos em uma conversa regada a vinho, que é capaz de viajar no tempo, de forma imaterial, habilidade chamada de teletemporação. Por fim, Tako Takuda, um técnico japonês que trabalha na escavação que planeja colocar uma bomba de hidrogênio abaixo da abóbada energética que proteger Rhodan e a Terceira Potência. Tako acaba sendo vital para evitar o plano iniciado por Merchant e acaba sendo recrutado por Rhodan, junto com Marshall que momentos antes ajuda nosso herói quando este tenta levantar recursos para ajudar os arcônidas.

Então é isso, o episódio quatro soa como um novo prólogo, mas que mostra uma agilidade na trama que abre um novo arco sem ter resolvido de fato a Terceira Potência. Nos vemos no próximo episódio, "Alarma Galático"!


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segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Resenha #219 - A Terra Longa (Stephen Baxter e Terry Pratchett)


"A Terra Longa" é o primeiro volume de uma hexalogia livros escrito pela dupla Terry Pratchett e Stephen Baxter e extrapola uma ideia simples mas muito interessante. A terra é pega se surpresa pelo do "Dia do Salto", quando a nossa terra descobre a existência de inúmeros planos de existência, como se estivessem enfileiradas em ordem. Aparentemente todas as outras estão ausentes de seres humanos. São outras terras para quais qualquer um pode saltar, usando um pequeno aparelho simples que qualquer um pode fazer (e suportar os enjoos e perigos de cair na mata virgem) ou em alguns casos excepcionais, saltadores naturais que não sofrem efeitos de enjoo quando se transportam para outra terra. Esse é o caso de Joshua Valienté, um saltador natural, que é convocado por Lobsang um tibetano que após morrer num acidente de moto, tornou-se uma IA que trabalha para uma grande corporação.

Lobsang, que também tem a habilidade de saltar, além de poder ser carregado em várias plataformas físicas, parte com Joshua numa missão exploratória saltando por milhares de terras, onde os autores concretizam várias possibilidades e destinos para cada terra. A graça do livro é acompanhar essa viagem e conhecer os confins do que chama de Terra Longa. É um daqueles livros que você lê pelo meio e não pelo final (afinal estamos falando do livro 1 de 6) explorando sem pressa cada mundo e os mistérios que se revelam. Esperar por um final revelador depois de 350 páginas vai ser bem frustrante, mas acredito que é uma questão de expectativa e ela é mais frustrada pela provável volume dois que não parece que será lançado pela Bertrand Brasil até que a série de livros vire uma série de TV.
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segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Resenha #218 - Vislumbres de Um Futuro Amargo (Damaris Barradas, Gabriela Colicigno)


"Vislumbres de Um Futuro Amargo" é uma antologia da Agência Magh, agência editoral independente que promoveu essa antologia por financiamento coletivo no Catarse, na qual eu participei. Infelizmente demoro para ler os livros e ainda mais para publicar minha opinião sobre eles, mas isso não diminuiu minha satisfação com a leitura. São seis contos de autores que já tive algum contato prévio.

A introdução de Roberto de Sousa Causo detalha bastante as bases desta antologia e anuncia muito bem os contos. O futuro amargo que nomeia a antologia é uma forma de colocá-la entre a distopia e utopia. São futuros amargos pois mostram a humanidade cometendo os mesmos erros, apesar da alta tecnologia.  

Antônio do Outro Continente (Anna Martino) se passa na Terra e nas colônias espaciais, estabelecidas em satélites artificiais. A autora entrelaça muito bem a simples história de dois jovens que se apaixonam e tem de lidar com as diferenças culturais. O conto é muito competente em desenvolver os personagens e as diferenças na vida cotidiana nas colônias com a Terra. Quando o conto termina, ficamos com vontade de saber como continua a vida, mas como a vida, ela sempre continua. Achei acertado o final, meio repentino.

Corra, Alícia, Corra (Lady Sybylla) Acompanhamos Alícia, em uma verdadeira corrida pela liberdade. Ela vive em uma instalação e nunca viu o exterior, sabendo somente do que Bianca lhe conta. O conto desenvolve bem o mistério, mas é focado na corrida e pelos sentimentos da protagonista. O final é amargo como o título da antologia, que não me deixa mentir.

Waldson Souza (Eletricidade em suas veias) nos brinda com um conto afrofuturista em que acompanhamos uma criatura artificial colocada para viver na Terra, por um membro de uma raça ancestral. O androide é feito com pele negra o que muda as suas vivências no nosso planeta e se torna veículo de reflexões muito relevantes. Tem uma pegada de Homem Bicentenário, de Asimov, mas escrito para leitores deste século. Meu conto favorito do livro.

Eu, algorítimo (Lu Ain-Zaila) Também trilhando o caminho do afrofuturismo, Lu Ain-Zaila traz uma aventura que entrelaça-se com reflexões que poderiam estar em uma crônica. Acompanhamos Aija, uma cyberativista que é perseguida pelos moradores da sua cidade a mando de uma misteriosa entidade cibernética. O conto é interessante tanto pelo desenvolvimento, e as reflexões, quanto pela aventura. Li devorando as páginas.

O Pingente (Cláudia Fusco) conta a história pelo ponto de vista de uma inteligência artificial responsável por cuidar de uma criança humana e acompanhar seu desenvolvimento. O conto tem um clima de história de Black Mirror, em que aguardamos o momento em que tudo vai dar muito errado, mas o conto toma a trajetória de um drama mais pé no chão, ao invés de um gore para chocar o leitor no final.

Roberto Fideli (SIA está esperando) tudo começa com uma space ópera em que um desastre numa nave leva os sobreviventes a lutarem pela vida em um planeta inóspito e desconhecido. Acompanhamos essa luta pelo olhar da inteligência artificial embarcada na nave, chamada SIA. O conto prende pelos desdobramentos que mudam tudo na história e a deixam muito interessante, sem ficar forçado. Excelente encerramento!

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segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Resenha #217 - A Abóbada Energética, Perry Rhodan 3 (K.H.Sheer)


[As resenhas do blogue não costumam ter spoilers, mas para esta série não teremos esta preocupação. Pois ela será escrita pensando em trocar ideia com os leitores que já leram as obras. Além disso contar o enredo das primeiras histórias não constitui grande prejuízo para quem deseja começar a série, mas de qualquer forma fica o aviso]

Perry Rhodan, comandante da primeira nave terrena tripulada a pousar na Lua, retornou a nosso planeta. Pousou no Deserto de Gobi onde, valendo-se da super-técnica da nave exploradora dos arcônidas, uma raça vinda da região central da Via Láctea, instalou uma base que vem desafiando os ataques das grandes potências da Terra.
Perry Rhodan conseguiu impedir a terceira guerra mundial, mas ainda não está satisfeito. Quer promover a união da humanidade.
Mas a humanidade ainda não está madura para os planos de Perry Rhodan, Por isso a luta prossegue em torno da Abóbada Energética.

"A Abóbada Energética" é o terceiro volume da série Perry Rhodan, aquela mesma que começamos e não temos nenhuma perspectiva para terminar. Nesta volume voltamos a ter um clima de ameaça mais sério, uma vez que as potências começaram a aprender como lidar com a tecnologia dos arcônidas. Não superá-la mas conseguiram se recobrar das humilhações e do despreparo. Agora estão em condições de alvejar a cúpula de energia com uma barragem de mísseis terra-terra enquanto as potências começam a ensaiar uma união, conforme planejava nosso protagonista. Agora voltamos a ter uma ameaça real contra o protagonista, diferente do episódio anterior, a energia da cúpula além de não ser infinita, não impede o som do impacto das barragem de artilharia atormente os ocupantes da stardust, como era comum nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial.

Por outro lado, Rhodan tem de lidar com sua aliança com os arcônidas que depende da sobrevivência de Crest, que no fim do volume, acorda e dá as orientações necessárias para Thora, ainda aguardando o cumprimento do trato de curar Crest, na nave principal. Thora, é orgulhosa e impulsiva, muito diferente da maioria dos arcônidas, imersa na apatia quase total. Os arcônidas são retratados como um império decadente pela falta de vontade de manter seu império, tendo em algumas das mulheres de sua raça, um resto desta vontade, porém insuficiente para manter o império. Thora é o retrato no mínimo antiquado de uma mulher no comando, principalmente pelo orgulho e impulsividade, enquanto Crest é o velho sábio ancestral, ponderado. Há muito da aristocracia inglesa nos arcônidas, neste primeiro momento.

A impulsividade de Thora não permite ver que as potências terrenas, se juntaram para uma missão espacial de bombardeio a nave dos arcônidas, com uma arma nuclear de fusão a frio, para o qual eles não estavam preparados para se defender. A humanidade ainda não estava classificada baseada nesta descoberta recente, logo as defesas não estavam esperando uma bomba deste tipo. A nave é destruída, enquanto Thora havia chegado na Terra para levar Crest e a tripulação da Stardust. Um final que me surpreendeu na época e me surpreendeu agora, relendo. Foi um bom fim para a parte terrestre da jornada de Rhodan que agora promete iniciar sua jornada aos confins do universo. Que é o mote principal da série.
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