sábado, 20 de fevereiro de 2016

Lista de desejos - Fevereiro/2016

Não está em ordem de mais desejado. 
Com a grana que tenho se conseguir algum darei vivas!

VALIS, Philip. K. Dick: Qualquer livro que falte na minha coleção do PKD, está automaticamente na minha lista. Além de VALIS, tem "Clãs da lua Alfa", "Os três estigmas de Palmer Eldrich", "Vozes da rua", "Homem duplo", "A espera do ano passado", "A penúltima verdade", "Espaço eletrônico", "Labirinto da Morte", "A invasão divina" e "A transmigração de Timothy Archer", além dos contos e das edições apenas lançadas em português PT.
Reconhecimento de Padrões, William Gibson: Ouvi dizer que este está bem melhor escrito que o clássico Neuromancer e começa uma nova trilogia. Também me interessa do autor Count Zero.

2001: Odisseia no espaço, Arthur C. Clarke: Reza a lenda que o filme é um dos poucos casos de filme melhor que o livro, mas isso não diminuiu minha vontade de ler esse livro. Se for bom como O fim da infância, tá valendo! Do meso autor me interessa o Encontro com Rama.

A mão esquerda da escuridão, Ursula K. Le Guin: Depois de ler Os Despossuídos e O Mundo de Roccanon, já sei que ela escreve muito bem e minha expectativa aumenta pelo livro ser o mais conhecido dela. Da autora, também me interessa os outros que se passam no mesmo universo que os já citados.
  




Piratas de dados, Bruce Sterling: É um dos autores clássicos do Cyberpunk e depois de ler o livro dele em conjunto com William Gibson (A Máquina Diferencial) acho que Bruce escreve melhor que Gibson.







Selva Brasil, Roberto de Sousa Causo: Recentemente tenho procurado alguma FC do Brasil (sobre o Brasil) e esse se é uma História Alternativa em que Jânio Quadros faz mais merda do que fez na nossa realidade.






Deuses de dois mundos, P. J. Pereira: Uma trilogia brasileira que fala do Brasil, Não é FC, mas Fantasia, mas a abordagem de uma mitologia relegada a marginalidade me interessa, principalmente para saber se a abordagem vai ficar bacana ou não.
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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Resenha #19 - A sombra vinda do tempo (H. P. Loverrcraft)

[SEM SPOILERS]
A sombra vinda do tempo é uma das últimas obras escritas pelo gênio da Literatura Fantástica H. P. Lovercraft. Nessa obra, usou a Ficção Cientifica para nos perturbar. 

A história
A narrativa se dá em forma de uma carta, como um legado, do Dr. Nathaniel Wingate Peaslee, que ficou "fora do ar" por cinco anos de sua vida e quando recobra a si começa a investigar os sonhos que ficaram em sua cabeça com a ajuda de seu filho Wingate. É uma trajetória que resume a vida pregressa e os motivos da expedição de escavação na Austrália onde ele aprofundará sua investigação até limites apavorantes.

Viagem no tempo
A grande sacada do livro é a viagem das consciências no tempo que Lovercraft constrói no livro de forma envolvente. As ciências e o pensamento científico tem um papel de porto seguro para o personagem principal não cair nas loucuras a qual a situação o submete e a forma de carta-depoimento favoreceu o suspense, pela forma como o conteúdo dos mistérios é revelado.

Considerações finais
O autor faz seu Horror com as incertezas do pensamento europeu que via na no progresso científico um chão sólido para pisar, apesar da Primeira Guerra Mundial já ter ocorrido. A leitura é rápida, mas o tom de relato de um cientista, (que escreve como cientista) promete compensar o tamanho do livro que exige atenção pelas frases longas. Porém a forma de relato potencializa o suspense da obra. 

Sobre a edição lida para a resenha: A Sombra Vinda do Tempo de H. P. Lovercraft, tem 117 páginas. A edição da Hedra traz um material extra muito bacana, como trechos de um desafio que acabou se transformando no livro que ficam após o texto principal. Também tem um artigo comentando o livro antes do texto principal, mas fica a recomendação de lê-lo apenas depois, uma vez que ele faz comentários que são melhor compreendidos após a leitura.
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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Resenha #18 - A cidade & a cidade (China Mieville)


[SEM SPOILERS]
A cidade & a cidade é uma mistura de Romance Policial com Ficção Cientifica, num estilo que o autor, China Mieville, chamou de New Weird. O estranhamento deste mundo vai se dissipando ao longo da obra e o diálogo que ela faz com nosso mundo mostra que ele é tão ou mais weird que as cidades onde se passam a história.
A história
Acompanhamos o inspetor Tyador Borlú que investiga o assassinato de uma misteriosa mulher na cidade de Beszél. Contudo, Borlú tem motivos para acreditar que o crime foi cometido na cidade vizinha de Ul Qoma. Ai que vem o grande atrativo da história: As cidades de Ul Qoma e Beszél ocupam o mesmo local geográfico. Existem áreas totais, exclusivas de cada cidade, e as áreas cruzadas, onde ambos os cidadãos podem passar porém não podem interagir. Também existe uma polícia especial que vigia e pune todos que atravessam ilegalmente as fronteiras imateriais entre Beszél e Ul Qoma chamada Brecha, e este é um crime considerado pior que o assassinato.
O leitor pode esperar ter respondida muitas questões da vida cotidiana que emergem de um cenário tão estranho quanto esse. Bórlu vai percorrer todos os mistérios do assassinato e das cidades e essa jornada é tão importante quanto a resolução da trama.
Muros invisíveis
A obra tem potencial de abrir o debate social e político ao tratar do tema das cidades. Dialoga com os limites nacionais bizarros de nosso mundo real, tendo em Beszél e Ul Qoma um pouco de cada mas trazendo algo imaginativo o suficiente para não associarmos imediatamente com nenhuma delas. Alguns exemplos são: Os checkpoints e as áreas compartilhadas de Israel e Palestina; As diferenças culturais das duas Alemanhas, que após a queda do Muro de Berlin, ainda guardam ressentimentos entre wesses e osses, ou seja, ainda existe muros invisíveis; e a África do sul que ainda não dissolveu os bantustões. Também podemos falar das grandes cidades como Rio de Janeiro e a divisão entre favela e asfalto, não seria um muro invisível como se fossem duas cidades?
O livro é narrado pelo Inspetor Bórlu e tem a qualidade literária inventiva do autor, pois é escrito como se fosse traduzido do Bész, a língua fictícia do personagem. Assim algumas coisas são traduzidas "errado" e outros termos tem de ser explicados pois só fazem sentido na realidade das duas cidades. 
Os personagens são interessantes, apesar do romance centrar-se mais na investigação e no cenário inusitado que cerca a obra. Borlú começa parecendo um típico funcionário público que deseja se livrar do caso abacaxi mas acaba ficando obcecado em resolver por ser o único capaz de fazê-lo, apesar da pressão cotidiana das cidades e o medo da Brecha apertando o cerco contra ele.
A obra faz, no trato com o cotidiano, um retrato de todas as cidades, o "desver" dos cidadão de Beszél e Ul Qoma não se torna complicado se andarmos no centro movimentado de qualquer grande cidade e olharmos com mais atenção. Um bom exercício de reflexão depois de ler A cidade & a cidade. 

Sobre a edição lida para a resenha:A cidade & a cidade, de China Mieville é a única edição deste livro no Brasil e saiu pela Boitempo em 2014 (286 p.). Está muito bonita e a arte da capa espetacular. A única coisa que estraga é o tamanho grande do autor e o pequeno do título, dá a impressão de que CHINA MIEVILLE é o título, porém seguiram as capas das edições inglesas que são assim também, o que fica estranho pois no Brasil pelo autor ser pouco conhecido. Contudo não julguem pela capa.
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terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Artes inspiradas em Neuromancer - Parte II

Confira imagens bacanas de artistas recentemente inspiraram-se no estilo cyberpunk de Neuromancer. Meses atrás, enquanto relia o livro para uma resenha, deixei umas imagens que buscavam caracterizar os personagens, agora fiz uma segunda parte com uma bela coleção de imagens que ilustram alguns conceitos trazidos no livro. Vale conferir. Clique na imagem para ver os detalhes. Se alguém gostar desta postagem vou trazer outra com visões da cidade, um importante elemento da estética cyberpunk
Accidental Disconnection de Lehanan no Deviant Art: Esta imagem captou a experiencia de conexão no ciberespaço como uma experiencia profunda.

Ilustração de MrBrown para o CGHub Neuromancer challenge. A proposta é parecida com a anterior, mostra a conexão do ciberespaço quebrada como em algumas partes no livro.

Entering Cyberspace by Undercurrent-32 on Deviant Art. Bela oposição entre o humano e a máquina, no momento da conexão, um dos pilares do cyberpunk.

Ilustração de marzie_e para o CGHub Neuromancer challenge.

Citação de Neuromancer, de cocco91 no Deviant Art. 

Screaming Fist de Maxim-Lysak no Deviant Art. Aqui o artista captou o desespero do personagem Armitage com o fracasso de uma operação militar que viria a traumatizá-lo.

ICE por BrunoSilva no CG Hub (clique nela para ver melhor). O artista representou o objeto que no ciberespaço da Matrix, atua como proteção para bancos de dados.

Wintermute de scatyricon no Deviant Art: O artista reproduziu o wintermute, a inteligência artificial da familia Tesser-Ashpool.

Fonte: io9
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sábado, 6 de fevereiro de 2016

Resenha #17 - As Crônicas Marcianas (Ray Bradbury)

[SEM SPOILERS]
As crônicas Marcianas são um apanhado de pequenos contos que o autor publicou em revistas pulp entre 1946-58, posteriormente agrupadas e publicadas de forma que juntas constituem uma narrativa linear. Uma visão cotidiana da grande jornada humana colonizando Marte, pelos humanos e também pela visão dos marcianos.

A história
O que liga todos os contos é a colonização humana em Marte. Somos apresentados a diversas histórias que vão desde as primeiras expedições, passando pelas ondas migratórias até seu melancólico desfecho. Nesse meio tempo temos o encontro de um padre com esferas de luz nativas, um casal que reencontra vivo o filho que havia falecido a muitos anos, os sonhos de uma marciana, entre outras histórias.

Epopeia no cotidiano e a solidão
A grandiosidade de um evento como a colonização de um outro planeta é maravilhosamente colocada ao pano de fundo pela visão cotidiana dos homens. Apesar de trazer o ponto de vista alguns marcianos, todos são muito humanos, isso fica evidente já no segundo conto. 
As relações conflitantes com os marcianos beberam muito da colonização das Américas pela violência e preconceito no início e depois nas visões de cidades vazias - marcas de uma cultura desconhecida e perdida - que os personagens são expostos quando percorrem o planeta. As cidades dos humanos também são vislumbradas vazias em certas partes, pois algo que perpassa o livro todo é a solidão, são jornadas solitárias contatas, chegando ao cúmulo do conto que o personagem principal é uma casa vazia. 
O temor da bomba atômica, muito presente naquele período, se faz presente numa critica melancólica e embala as reflexões finais da obra.

Considerações finais
A prosa de Bradbury é algo que se destaca dos outros escritores da Ficção Cientifica por ser muito acima da média. Obviamente, do ponto de vista científico os detalhes técnicos estão muito datados, pelo simles fato de sabermos não existir vida parecida com a nossa e isso faz o livro parecer, a olhos atuais, uma paródia de uma colonização, mas o elemento humano conserva atual hoje e, provavelmente, por muito tempo ainda.

Sobre a edição lida para a resenha: As Crônicas Marcianas de Ray Bradbury. Escritas entre 1946 e 1958, e compiladas posteriormente. A edição lida para esta resenha foi publicada pela Francisco Alves em 1980 e possui 210 páginas. É possível achar essa versão com relativa facilidade em sebos. 
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quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Resenha #16 – Idoru (William Gibson)

[SEM SPOILERS]
Em Idoru, William Gibson nos entrega uma um mundo onde cada pedaço do ciberespaço construído pelos personagens possuem a mesma importância dos espaços físicos, em um ritmo mais lento e reflexivo, que o habitual.

A história

Quando Rez, um músico muito famoso, pretende se casar com uma Idoru (artista digital) o mundo das celebridades se agita. Colin Laney tem uma habilidade rara, consegue distinguir padrões em meio a pilhas de dados aparentemente imuteis e desconexos de celebridades, sendo capaz de conhecê-las melhor do que elas. O uso dessas informações pode acabar com carreiras sólidas ou elevar desconhecidos a celebridades. Já Chia é membro de um fã clube da banda Lo/Rez e vai para o Japão descobrir a verdade sobre o casamento.

O mundo das celebridades na era do ciberespaço.

Os interesses dos personagens convergem e se entrelaçam habilmente na escrita de Gibson. Não apenas Laney e Chia, mas também no guarda-costas de Rez, Blackwell e a presidente do fã clube Lo/Rez Zona Rosa, são opostos interessantes aos protagonistas.
Diferente de Neuromancer, onde o Ciberespaço praticamente engoliu o mundo físico, em Idoru, ambos os mundos são de importância equivalente. É um mundo visto por um olhar mais cotidiano, menos fantástico de forma que é menos empolgante, mas assustadoramente realístico pela forma sutil que essa influência do ciberespaço se faz presente, representado pela agência de informação Slitscan. 
As novas profissões/ocupações, assentadas no ciberespaço, também aparecem neste mundo onde não existiam youtubers nem guarda-costas de players online, mas temos a de Laney, por exemplo, que nem o próprio sabe explicar e outras que requerem um pouco de imaginação para entender. Mesmo com alguns detalhes datados, a essência do livro carrega muito do que temos hoje.

Considerações finais

Poderia citar a história como um ponto fraco, mas melhor que julgar, prefiro entregar a subjetividade do provável leitor sobre o que deseja de um livro. Sendo assim, digo que não é comum ver Gibson tirar o pé do freio e nos entregar uma história mais lenta. Apesar dos personagens serem dúbios, como é característico do autor, e do estilo Ciberpunk, as ameaças aos personagens principais não ajudaram a história a deslanchar, ainda que Laney, Chia, Blackwell e Zona Rosa sejam bons personagens. Quem espera ação este livro vai se decepcionar, mas quem gosta de surfar na imaginação de Gibson vai gostar.

Sobre a edição lida para a resenha: Idoru de William Gibson. É a segunda parte da trilogia "Virtual Light", mas teve apenas este título traduzido. Foi escrito em 1996 e a edição lida para esta resenha foi publicada pela Conrad em 1999. Tem 247 páginas.
 
Edições do Japão e do Reino Unido, respectivamente.
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segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Resenha #15 – Fahrenheit 451 (Ray Bradbury)


[SEM SPOILERS]
Uma distopia clássica da Ficção Científica, escrita no pós-2ªGM (1953). Um manifesto contra o autoritarismo para além de sua face política e também uma bela obra da literatura que se mantém, infelizmente, atual.

A estória
No futuro distópico, onde os livros são proibidos e as casas são à prova de fogo, os bombeiros têm a peculiar missão de queimar livros. Montag é um desses bombeiros e começa a entrar nesse mundo proibido através de Clarisse e Faber, enquanto tem de lidar com a desconfiança de seu chefe Beatty e de sua esposa Mildred. Estabelece-se o conflito interno de Montag, um agente da repressão e censura, com um desejo incontrolável de ser livre da alienação.

Autoritarismo do cotidiano
A crítica de Bradbury ao autoritarismo é em sua manifestação cotidiana. A rejeição voluntária ao pensamento livre é caracterizada pelas imagens que rodeiam os personagens o tempo todo. É uma crítica a era da imagem e a automatização acompanhada pelo desprezo a vida. Isso nos é mostrado pela criação de um mundo elaborado, mas com personagens fáceis de entender.

Sobre a edição
A edição lida para a resenha é esta com a capa feia da "Globo de bolso", depois fiquei sabendo da outra com a capa vermelha e preta bem mais bonita, mas ao menos a que tenho tem dois textos do autor após o fim do romance. Um posfacio em que fala mais dos personagens e um "Coda" onde rebate críticas ao livro.

Considerações finais

Se distopias já não são mais novidade, a qualidade da escrita de Bradbury se destaca como uma das melhores encontradas na Ficção Cientifica (a este somo Úrsula Le Guin). Um romance curto que em suas duzentas páginas diz muito mais que as trilogias que temos disponíveis, mas sem nostalgias, por favor, pois como próprio autor fala no posfacio existem várias maneiras de queimar um livro.
Sobre a edição lida para a resenha: Fahrenheit 451 de Ray Bradbury. A edição lida para a resenha é de 2015 editada pela Globo em versão pocket. Possui 214 páginas.
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terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Resenha #14 - Cyberstorm (Matthew Mather)

[SEM SPOILERS]
Cyberstorm de Matthew Mather é a narrativa de uma projeção desastrosa de um caos dos sistemas informatizados do país num quadro onde tudo dá errado. O elemento humano é limitado pelo patriotismo estadunidense, assim como as reflexões sobre a sociedade tem que se adaptar ao quadro tecnológico criado pelo autor.

A estória
Michael Mitchell, um engenheiro que mora com sua esposa, Lauren, e o filho, Luke, em Nova Iorque. Após um churrasco em família com amigos tudo que depende da internet começa a falhar. Começando pelos smartphones, aos sistemas de um supermercado e até o fornecimento de eletricidade e água. Os personagens, pessoas comuns, vão descobrindo pela ausência dos serviços o quão dependente estão da internet. Somando a isso uma nevasca histórica está a caminho impedindo a chegada dos serviços de manutenção e o socorro. Elementos caóticos se completam com o governo isolando a ilha de Manhattan por ameaça de gripe aviária. Esse quadro gera a perda dos laços sociais levando os personagens ao limite.
O catalizador de tudo isso é um ataque cibernético aos sistemas informacionais dos Estados Unidos. A paranoia toma dos personagens por não saberem a origem do ataque. 

Em defesa do Leviatã eletrônico
A narração em primeira pessoa e a divisão em pequenos capítulos correspondentes aos dias confere agilidade a trama que tem bons momentos de tensão. O cenário construído faz a linha do "cinema desastre" (Ainda que não seja cinema, a escrita é bem roteirizada. Tanto é que vai virar filme) que mostra os Estados Unidos frágeis frente as ameaças externas de invasão. O livro explora a tensão entre o estado de paranoia com a frágil tentativa de manter os laços sociais mínimos para a sobrevivência. 
A tecnologia não é estigmatizada como aliada ou inimiga e isso é um ponto forte do livro e os debates (característico da cultura estadunidense) são provocantes. Contudo a posição do autor se manifesta implicitamente na sua habilidade de condução da história. Os argumentos que mostram a liberdade ameaçada pela vigilância na internet estão lá, chegam a vencer do debate, mas os personagens que argumentam são apáticos e frágeis laços sociais são mantidos pelos "perdedores" do debate, quando os personagens que não vêem problema em serem vigiados, restauram de modo emergencial uma pequena amostra da restauração dessa vigilância, com o programa de Damon.

Considerações finais
A escrita é habilidosa em conduzir o leitor as conclusões que o autor deseja e faz um apelo a família. A escrita em primeira pessoa tem o objetivo de conduzir um leitor médio estadunidense como um rato de laboratório dentro da história/projeção de estilo realista. Essa regionalidade faz o livro ficar distante do leitor brasileiro, ou ao menos, nos instiga a adaptar mentalmente essa projeção para nossa cidade. Em Porto Alegre não seria tão emocionante.


Livro lido para esta resenha:
MATHER, Matthew. Cyberstorm. Aleph, 2015. 363 p.
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sábado, 2 de janeiro de 2016

Resenha #13 – O fim da infância (Arthur C. Clarke)

[SEM SPOILERS]
O fim da infância é um clássico da Ficção Científica. Arthur C. Clarke trás uma história de uma invasão alienígena sem ocupação militar ou coisa parecida. Os chamados Senhores Supremos trazem uma era de prosperidade material envolta em muito mistério. O curto romance viaja longe no tempo e no espaço sem tirar a Terra e a raça humana do centro da narrativa.

A estória mostra uma invasão alienígena cercada de mistérios. Eles chamados pelos humanos de Senhores Supremos. Eles escondem seus objetivos, bem como se negam a compartilhar sua tecnologia inclusive reusam a mostrar sua aparência. Os personagens são representantes da raça humana, que aprece ser o personagem principal, sendo que o autor alguns “porta-vozes” para tecer a narrativa. Na primeira parte acompanha o secretário-geral da ONU Rikki Storngren, o único ser humano recebido pelo único Senhor Supremo conhecido chamado Karellen. Apesar dos Senhores Supremos acabarem com as guerras e distribuírem recursos em abundância, a sua tutela não é aceita por todos. Na segunda parte, cem anos depois, acompanhamos um grupo de amigos que vive numa Terra tecnologicamente utópica sob o patrocínio dos Senhores Supremos. Algumas perguntas são respondidas ao longo da narrativa e outras são desenvolvidas na terceira parte até a conclusão reveladora e surpreendente.

Universalidade localizada

Principalmente na primeira parte a colonização é um tema implícito frente as suspeitas que cercam a relação entre humanos e senhores. O caráter de exploração da colonização não aparece pelo próprio mistério do qual os senhores se cercam. Contudo o controle implícito, vigilância sutil são uma constante na presença dos senhores. Clarke consegue manter o mistério a té sua derradeira revelação. Na segunda parte, a utopia patrocinada pelos senhores é carregada de dubiedade. A visão do autor se mostra muito racionalizada tendo como problema o tédio da maioria substituindo a desconfiança da fonte de toda essa riqueza. Outra que escapa a vontade do autor é como se dá a realização desta utopia, ainda baseada em moldes de uma família ocidental foram alçadas a condição de padrão universal de riqueza material e cultural, onde a tecnologia rompeu barreiras físicas dentro da Terra, a família ocidental padrão é a única imaginável pelo autor.


Considerações finais
Como o romance é bem curto, sendo que muitas descrições do mundo utópico ficaram rasas. Os temas sociais acabaram sendo tratados on passant pelo autor, contudo só incomodarão aos leitores que pensam mais sobre tais temas. Aos restantes os aspectos da física e astronomia são, nada menos, que uma referência para os entusiastas do assunto. A quem nunca leu, pode aproveitar o clima de suspense bem construído pela obra.
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segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Resenha #12 - A Máquina Diferencial (William Gibson e Bruce Sterling)

[SEM SPOILERS]
A Máquina Diferencial (William Gibson e Bruce Sterling) é a obra de referência do subgênero Steampunk, por toda a estética construção para o livro que se pauta numa História alternativa. A premissa é a de que a Máquina diferencial, de Lorde Babbage, foi concluída e implementada pelo governo britânico culminando numa versão mais acentuada da Revolução Industrial que estudamos na escola. Temos uma grande quantidade dos desdobramentos sociais, políticos, tecnológicos e estéticos, deste mundo envoltos em mistérios intrincados com a tecnologia de computadores.

A estória acompanha três personagens principais: Sybil Gerard, uma prostituta filha de um revolucionário ludita traído que encontra Mick Radley auxiliar de um político Texano que deseja dar um golpe de estado no Texas;e  Edward Mallory, paleontologista famoso que retorna a Londres depois de uma expedição bem sucedida, onde descobre o brontossauro; e Laurence Oliphant, um jornalista misterioso que junta algumas partes do misterioso quebra-cabeça em relação dos cartões perfurados pertencentes a Lady Ada Byron. O mistério envolve inclusive a identidade do narrador onisciente do livro.

Fazendo jus ao punk, do Steampunk 
O mundo criado por William Gibson e Bruce Sterling, é grande parte do atrativo da obra. Uma mundo movido a tecnologia de vapor e engrenagens mecânicas á partir da Inglaterra, deu muita margem a interpretações glamourosas e luxuosas da estética steampunk. Mas não se engane, é um mundo tão sujo e cheio de personagens marginais como o cyberpunk. Um mundo movido também a carvão que deixa a acidade tão poluída e nublada da fumaça das fábricas como as grandes cidades da China de hoje. Os personagens reclamam da poeira por muito mais tempo que comentam vestuários luxuosos. A Máquina Diferencial faz jus tanto ao vapor quanto ao punk que compõe o subgênero que lhe é atribuído.

O que ajuda e o que pode atrapalhar nesta jornada
Um aspecto que se tornou marca das obras Steampunk é que suas edições primam pela estética. Não refiro-me apenas a capas bonitas, mas a busca por um linguajar da época, mapas, informações adicionais como glossários de termos e personagens, tanto os históricos como os criados para a obra. Isso com certeza ajuda o leitor a imergir neste mundo alavancado pela dupla Gibson e Sterling. Contudo, o leitor pode encontrar dificuldades na leitura caso não conheça um pouco do contexto da Revolução Industrial.

Um dos requisitos para curtir uma história alternativa é conhecer um pouco da história, digamos, "oficial" para poder viajar nos cenários que nunca se concretizaram e poder surpreender-se com eles, por exemplo nos Estados Unidos que se despedaçaram politicamente frente ao poderio do império britânico, que por sua vez é motivador da presença do General Sam Houston na primeira parte da história. O fato do final não fornecer explicação para todos os mistérios da trama também pode decepcionar o leitor. Mesmo aqueles momentos explicados, não o são de modo explicito. Finalmente, apesar do livro não ser imenso é bastante complexo e exige do leitor um fôlego maior para apreciá-lo.
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quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Resenha #11 - O Mundo de Rocannon (Ursula K. Le Guin)

O Mundo de Rocannon (The Rocannon's World) é o primeiro livro de Ursula K. Le Guin. Nesta obra ela consegue em poucas páginas trazer uma história rica onde aborda os mitos e a etnografia de forma profunda sem ser pedante. Esta é uma de suas características mais cativantes, com uma escrita habilidosa, trazer temas complexos de forma prazerosa ao leitor. O livro também é o primeiro do que viria a se tornar o "Ciclo de Hainnish" junto com mais seis livros, incluindo seu mais notório "A mão Esquerda da Escuridão".

A estória
Rocannon é um etnógrafo espacial que faz parte da "Liga de todos os Mundos" sediada no planeta Hain. Ele está em missão num planeta desconhecido não cartografado, que orbita a estrela Formalhaut. O planeta possui várias espécies inteligentes, algumas divididas em senhores e servos e outras em tribos coletivistas. A nave de Rocannon é destruída, por uma força rival a Liga, junto de toda sua tripulação e ele é o único sobrevivente. Começa um jornada para conseguir enviar um pedido de socorro para a liga. Rocannon parte com uma expedição junto com os senhores de Harlam, seus aliados.

Ficção Científica ou Fantasia?
Durante a jornada é fácil achar que estamos em meio a uma aventura de Fantasia, pelos personagens que vivem em um sistema parecido com o feudal uma visão particular que eles tem do viajante espacial. É nesta relação que Le Guin brinca com os mitos que se formam entorno de Rocannon. Existe a justificativa cientifica, pois quando Rocannon está em sua nave FTL ("mais rápida que a luz") no espaço  o tempo passa mais devagar, e suas primeiras visitas ao planeta o fizeram conhecer gerações diferentes dos habitantes do planeta. Existe a explicação mitológica para a existência de Rocannon, o "Olhor", "senhor das estrelas" aquele que guarda uma joia sagrada/amaldiçoada para o povo de Haram, um amigo e aliado de Rocannon.
Nesta primeira obra já temos uma ideia de como a escrita de Le Guin consegue fazer uma simples aventura se destacar das demais do gênero. Sem exibicionismo em relação a ciência, nem a Fantasia. Um romance rápido de e sem excessos. Contudo é difícil de encontrar, mas a leitura compensa.
Ficha técnica
Título: "O Mundo de Rocannon" (The Rocannon's World)
Autor: Ursula K. Le Guin.
Editora: Ediouro
Nº de páginas: 217
Ano: 1977 (1966).
Aquisição: Comprado sob encomenda em um em sebo por 17 reais.
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sábado, 5 de dezembro de 2015

Resenha #10 - Fluam, minhas lágrimas, disse o Policial (Philip K. Dick)

[SEM SPOILERS]
"Fluam, minhas lágrimas, disse o policial" (Flow my tears, the policeman said) é uma das obras mais emocionais de Philip K. Dick. Isso não significa que o livro seja meloso, mas intimista com certeza. O autor aborda temas como identidade, drogas e em menor proporção a fama e a governos autoritários.

O mundo onde se desenrola a estória é uma ditadura da polícia, fruto de uma segunda guerra civil nos EUA. Nela, estudantes vivem sob cerco nos esgotos, os negros foram esterilizados e projetos de reprodução de eugênia chegaram a ser tentados. A televisão ganha uma influência na sociedade, onde a tecnologia de carros voadores e viagens interplanetárias são corriqueiras.
Acompanhamos Jason Taverner, uma celebridade, que possui um programa semanal na TV e vários discos gravados, não demora muito para vermos que Jason é um sujeito manipulador e egoísta que usa seu charme para conseguir o que quer. Depois de uma discussão com uma ex-amante que atentou contra sua vida ele acorda em um quarto de hotel, sem documentos. A partir daí, ele descobre que ninguém sabe quem ele é. Todos os conhecidos com quem tenta contado, parecem desconhece-lo. Os registros oficiais mostram que ele nunca existiu e a sua jornada pela busca de sua identidade se inicia. 
Capa da primeira edição brasileira com o tosco nome de: "Identidade Perdida - O homem que virou ninguém"
Identidade e a "resposta" científica
Um dos elementos originais aqui é como Dick aborda a perda da identidade. Em livros como em "Identidade Bourne" de Robert Ludlun, e em muitos filmes temos , na maioria das vezes um personagem principal que perdeu sua memória e busca sua identidade procurando certas pessoas que o conhecem e fugindo de outras. Em "Fluam minhas lágrimas", Taverner sabe quem é, mas o mundo ao seu redor o desconhece. A presença da fama em sua vida e o mundo tomado por uma ditadura policial agravam seu drama.
A busca de Taverner o leva a um dilema constante, não exclusivo deste livro, mas na obra de Dick como um todo: qual o limite entre o real e o irreal? Não nos é oferecido um chão seguro para pisar. Entramos nas dúvidas de Taverner e continuamos a querer saber o que aconteceu. Em certo momento teremos as respostas plausíveis para os questionamentos de Taverner, ouvidas da boca de um cientista. Contudo percebemos o quanto essa resposta deixa um vazio. A ciência aqui é apenas capaz de mostrar "como", mas não o "por que" de tudo ter acontecido daquela forma.
Conclusões
O tom intimista da obra é um prenuncio para o quase autobiográfico VALIS. As pessoas que Jason vai conhecendo, com seus dramas pessoais misturando-se aos dele são mostradas com muita sensibilidade por Dick, isso nos impede de rotular qualquer personagem sumariamente. Este é um efeito que engrandece a obra. Neste ponto, vejo a obra de Dick como uma homenagem aos amigos que perdeu para as drogas e que ele próprio seria vítima quando da sua morte em 1983.
Ficha técnica
Título: "Fluam, minhas lágrimas, disse o policial" (Flow my tears, the policeman said)
Autor: Philip K. Dick.
Editora: Aleph
Nº de páginas: 255
Ano: 2013 (1974).
Aquisição: Comprado na feira do livro de Porto Alegre por 38 reais. É, desisti de procurar em sebos.
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