terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Resenha #122 - Rio 2054 - Os Filhos da Revolução (Jorge Lourenço)


"Rio 2054 - Os filhos da revolução" (2014) é uma distopia (pós)cyberpunk brasileiro escrito pelo jornalista Jorge Lourenço, que mistura diversas influências do cyberpunk num cenário pós-guerra no Rio de Janeiro.

A história se passa no ano de 2054 em um Rio de Janeiro devastado por uma guerra ocorrida há décadas que culminou na tomada do poder por megacorporações que agora gerem a cidade. Cercaram-se em uma área abastada, o Rio-Alfa, chamado popularmente de Luzes, deixando apenas as áreas contaminadas e abandonadas sem qualquer assistência no Rio-Beta (Escombros), acentuando a separação Favela/Asfalto, trazendo o High Tech/Low Life que tanto caracteriza o cyberpunk. 

Miguel, o protagonista, vive nos escombros e se envolve-se numa guerra de gangues de motoqueiros, quando decide salvar a existência de uma androide senciente com quem fez amizade. Juntando-se a gangue do seu amigo Anderson, Miguel acaba descobrindo também habilidade psíquicas que o tornam o único capaz de combater a nova gangue, aparentemente financiada pelas Luzes, que desencadeiam uma guerra de proporções muito maiores que as violentas competições da área dos escombros. As habilidades psíquicas e gangues de motoqueiros são a influência direta do cyberpunk japonês Akira enquanto a androide senciente, é evidentemente de Ghost in the Shell.

O autor consegue fazer essas influências conversarem muito bem entre si, numa trama bastante atraente e ágil. Somando isso a uma boa quantidade de ação e excelentes reflexões sobre a desigualdade social conseguem entregar uma boa ficção científica. Minhas ressalvas, ficam a referência ao personagem Fred e ao Nicolas, chamados quase sempre apenas de "negro", foi uma escolha infeliz pois deixa o livro com cara de romance do século XIX. Outra coisa que pode incomodar o leitor é que o desenvolvimento do Miguel é praticamente nulo, mesmo com a descoberta de poderes e todos os tipos de perigo que ele passa, parece que apenas confirma que o que ele pensava era o certo mesmo. Inclusive seus amigos não demonstram ter qualquer influência nas decisões que Miguel toma e apenas seguem a sua vontade sem muita resistência.

A trama é bem rica em acontecimentos e reviravoltas que, somadas as excelentes cenas de ação deixam a leitura eletrizante. Influência dos melhores mangás do gênero. O autor consegue nos transportar para esse futuro com uma boa construção dessa sociedade desigual. As reflexões sociais, junto com a qualidade da ação, são os pontos altos do livro. A leitura é recomendada e inclusive me pergunto porque o autor não lançou mais outra história, pois ele escreve bem.   
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terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Resenha #121 - Periferia Cyberpunk (org. Raphael Fernandes)


"Periferia Cyberpunk" (2018) é uma coletânea de histórias em quadrinhos que traz valor do quadrinho brasileiro ao mostrar uma versão brasileira da estética cyberpunk em oito histórias que variam em narrativa e traço, sem compartilhar um universo em comum mas firmes na sua proposta geral.

"Só os vilão" mostra um grupo de assalto que habita os esgotos de um rio tóxico radioativo que gerou uma casta de mutantes deformados. Eles buscam um artefato robótico que os daria vantagem para enfrentar o Estado que os segrega mas a arma acaba se voltando contra eles. O traço é bom e os diálogos são fluídos por se distanciarem da linguagem formal.

"Iansã Ferida" a população pobre vive no subterrâneo, quando duas garotas acordam de uma bad trip não conseguem mais acesso para a superfície até que uma amiga da PM, Dendê, tem uma saída. A linguagem informal flui muito bem. O traço aqui é muito bonito e elegante, com ângulos que dão efeitos muito bons e a página que representa o uso de uma nova droga merecia um quadro na parede.

"Um tucano me ensinou a voar" é aspecto cyberpunk aparece muito mais pela essência que pela estética. Usa bem o humor para estampar as paranoias do trabalho e o fracasso do protagonista, que trabalha sem parar e continua sem qualquer perspectiva de melhorar de vida. Toda dor do protagonista é regada pela leveza enganosa do traço de mangá.

"Babel de Cristo" mostra a volta de Alexandre ao Rio de Janeiro, de 2054 e recebe o leitor com um Cristo Redentor com um braço protético. A história é bastante clichê. Veterano voltando a ativa ao receber um pedido de uma mãe de um filho desaparecido e no caminho se depara com bandidos armados. O que me agradou foi o cenário numa favela montada no morro do corcovado que sofre uma ocupação da polícia. A referencia ao presidente e aos capacetes dos soldados podiam ser mais incisivas, pois o clima de clichê e aquele cyberpunk que não se leva muito a sério já esta estabelecido.

"Golen Binário" Nuke é uma hacker que vive numa cidade poluída até que forçada a aceitar um trabalho invadindo um sistema, mas seu passado que a tinha aposentado retorna para atormentá-la em um ciclo sem fim. A resolução da trama passa mais tempo explicando a resolução do que desenrolando a trama, mas mesmo assim é uma boa história.

"Condomínio Paradise" segue o desespero de uma mulher sendo expulsa de um edifício que logo fica evidente se tratar de uma área abastada da sociedade, para um exílio no local esquecido e pobre. Quando a mulher chega ao solo ela encontra uma sociedade que aguardava e uma pessoa de seu passado e percebe que sua chegada pode mudar tudo. A cena inicial é bem desenvolvida e angustiante, mas compensa mesmo apressando um pouco o resto do desenvolvimento da história que tem uma virada e resolução muito boas. O roteiro consegue prender  o leitor com uma boa construção de acontecimentos.

"Midriasi" conta sobre uma sociedade pós-apocalíptica que vive em uma cohab num navio cargueiro que obriga os habitantes a utilizar um colírio, mas a protagonista começa a investigar em cima de suas duvidas e chegar a uma revelação sobre o que é a verdade. 

"Fortaleza 2068" é uma típica aventura cyberpunk, cheia de humor, ironias gritantes e violência desmedida na pele do policial brucutu Everaldo que é obrigado a trabalhar com nerd Júnior. O primeiro quadro já mostra essa ironia ao vermos Everaldo acertando vários inocentes  (vinte mortos, segundo seu capitão) enquanto massacrava uma quadrilha de assaltantes. Mais que o dobro das oito vitimas feitas pelo assassino que a dupla persegue. A história consegue divertir e expor com humor a violência desse futuro.

Ficha Técnica.
Só os vilão: Roteiro - Airton Marinho, Arte: Jader Corrêa.
Iansã Ferida: Roteiro - Guilherme Wanke, Arte: Braziliano.
Um tucano me ensinou a voar - Roteiro: Cauê Marques, Arte: Cássio Ribeiro.
Babel de Cristo - Roteiro: Lucas Barcellos, Arte: Jean Sinclair.
Golen Binário - Roteiro: Antonio Tadeu, Arte: Thiago Lima.
Condomínio Paradise - Roteiro: Larissa Palmieri, Arte: Azrael de Aguiar.
Midriasi - Roteiro: Bruna Oliveira, Arte: Akemi, Hayashi.

Fortaleza 2068 - Roteiro: Raphael Fernandes, Arte: Doc Goose.
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terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Resenha #120 - 2001: Odisseia Espacial (Arthur C. Clarke)


"2001" é a obra mais conhecida de Arthur C. Clarke e, graças a adaptação ao cinema, uma das obras de ficção científica mais famosas do cinema. Um dos poucos filmes considerados melhor que o livro. Apesar do filme e do livro serem indissociáveis, o assunto é apenas o livro que traz o que Clarke tem de melhor: Uma história cheia de criatividade que nos leva longe na imaginação e precisão científica apurada.

A história começa 3.000 anos atrás acompanhando um grupo de hominídeos na visão de seu líder, referido como Amigo da Lua, que se depara com o monólito que o ensina habilidades que tornariam o homem a espécie dominante do planeta. O que chama a atenção nessa primeira parte são as descrições da vida cotidiana bem embasadas no conhecimento científico disponível até então. 

A segunda parte da obra, se passa no então futuro em 2001 e segue o Dr. Heywood Floyd, em uma missão até a base internacional na nossa Lua onde é encontrado o misterioso monólito, referido apenas como ATM-1. A própria tecnologia alcançada pela humanidade em 2001, mostra muito do otimismo que Clarke tinha no desenvolvimento tecnológico, comprovável pelo atual andamento da conquista do espaço. A terceira parte, que dura até o final do livro acompanha a da nave Discovery, pouco tempo depois da missão de Floyd, para explorar a pequena lua de Saturno (Jápeto) passando por Júpiter. Bowman, Poole e o computador HAL 9000, conduzem a nave com mais três membros em estado criogênico. Contudo, há um objetivo secreto, investigar uma nova ocorrência de um monólito igual ao encontrado na Lua. 

As primeiras sequências parecem acumular sem ter uma resolução, mas são muito boas para criar mistério e se mostram partes de uma única jornada de transformação e busca por respostas. Clarke usa bem as descrições dos momentos mais insólitos. Elas exigem da imaginação do leitor, até então bem abastecido de referenciais científicos, passam a acompanhar uma viagem lisérgica ao desconhecido, que é muito difícil de mensurar. Essa mudança no ritmo e da própria forma da narrativa é o que costuma desagradar o leitor desavisado. Para quem puder ler e deixar que a obra lhe abra a mente, o livro é muito recomendado!
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terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Resenha - Revista Quadrante Sul 8

Depois de dois anos, voltamos a falar da Revista Quadrante Sul que resenhamos em outubro de 2016 depois que adquiri os números 4 até 7 após um evento de quadrinhos independentes na cidade de Alvorada (Região Metropolitana de Porto Alegre), o Gibifest. Agora retornamos com mais 3 números da revista e mais 3 números da série de "Peryc, o Mercenário" publicado pelo mesmo selo independente. Você pode acompanhar todas as resenhas dessa série aqui sendo que no primeiro deles explico melhor sobre o que se trata tudo isso. Nessa postagem vamos falar do número 8, com aquela fórmula de sempre: primeiro falo sobre cada história e depois faço um geral da edição.

A capa tem uma arte cyberpunk muito bacana do Matias Streb, parecida com os seres que existem na primeira história. A edição abre com "Silyx: A semente da vida" uma bela Ficção Científica que mostra Garzok, um grifo que tem a missão de levar o frágil Silyx para seu inexorável destino. O traço me agradou bastante e a história trouxe muita coisa em poucas páginas. Em "Enigma: Acerto de Contas" por outro lado prezou mais pela ação com um tipico brucutu que resolve tudo na força, investigando a serviço privado, passando por brigas e gostosas aleatórias. No geral a história parece se levar a sério demais, pois se fosse uma sátira ou tivesse uma inversão se tornaria mais interessante. Na sequência, depois de uma entrevista com o quadrinista Paulo Serpa Antunes, temos "Mandato de uma nova lei", com 2 páginas, que mostra guardas robóticos queimando gibis antigos de um sebo sob alegação de que o próprio sebista disse que não precisa deles pra pagar as contas mas que este não precisa se preocupar pois gibis novos ocupariam o lugar vago nas prateleiras. Uma mensagem de preservar as obras antigas para venda/troca pois elas são importantes também. Antes da história seguinte, ainda temos outra entrevista, desta vez com Gustavo Piqueira sobre seu fanzine Metrópolis.

"Boxing Joe 2" é uma nova história do personagem de Jeronimo Souza que já apareceu na edição 5 onde mostra personagem sendo narrado como se fosse um trailer de um filme. Pois é uma colagem de momentos, contudo parece ser outra história de origem, pois na história anterior Joe é um menino da Nova Zelândia que nasce sem braços e pernas sendo depois abandonado pela mãe, enquanto aqui é o neto de Gorbachov que é um anão que devido a uma doença procura por próteses superavançadas. Por fim temos um quadrinho de duas páginas na linha existencial falando sobre o consumismo desenfreado e uma arte ótima de contra capa de Mestre Shima, num clima noir violento. No geral, a história que mais me agradou foi a primeira e a última, quanto as demais foram medianas. As imagens de capa e contra capa foram as que mais me agradaram até aqui.

Ficha Técnica:
"Silyx: A semente da vida": Adão de Lima Júnior.
"Enigma: Acerto de contas": História de Marcelo Tomazi, Arte de João Paulo Vieira e Letras de Alex Doeppre.
"Mandato de uma nova lei": Léo Ramos.
"Boxing Joe 2": História de Jerônimo Souza, Arte: Jonathan Pires e Letras de Alex Doeppre.
"Placebo": Anderson Ferreira.
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terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Resenha #119 - Rio: Zona de Guerra (Léo Lopes)


Rio: Zona de Guerra é um cyberpunk brasileiro que usa o Rio de Janeiro como cenário para pintar o futuro clássico cyberpunk, onde a alta tecnologia e a baixa qualidade de vida, contudo a separação entre o morro e o asfalto do Rio de Janeiro atual é extrapolada. Nesse futuro próximo a Zona de Guerra é o local onde os mais pobres moram, onde não há Estado e apenas a lei das gangues existe por lá, enquanto a porção rica vive em uma muralha ultravigiada.

A história segue o detetive particular Carlos Freitas que vive na Zona de Guerra, por sua vontade, mesmo podendo habitar a área rica. Após o aparente suicídio de uma mulher, Freitas recebe uma proposta de trabalho de Vivian, uma Femme Fatale, que era amiga da mulher que foi morta. Então, Freitas consegue um passe livre para dentro da zona fortificada e sua investigação vai se chocar com os interesses de uma das megacorporações que domina a cidade.

Ao longo da jornada de Freitas temos muitas cenas de ação, dando um ritmo frenético para o livro, ao longo do mistério que é bom quando caminha para a resolução, o livro é bastante divertido e bom como um filme de ação. Logo, não é tão profundo nas suas reflexões e combinado com o uso de clichês deixam a obra mais rasa do que o suficiente para que ela se leve a sério. No mais Freitas parece deslocado e a vida em um bairro pobre não ganha cores no livro, a população negra na obra é, infelizmente, um clichê coadjuvante ruim e mal feito, sendo que a parte rica foi bem melhor escrita. Isso desequilibra a obra como uma boa obra cyberpunk, mas ainda assim é um excelente livro de ação.






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terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Resenha #118 - O Homem Invisível (H. G. Hells)


O Homem Invisível (1897) de H. G. Wells é um dos clássicos da ficção científica que imortalizou o autor como um dos seus expoentes, ao lado de Mary Shelley e Júlio Verne. A obra é cheia de ação e uma imaginação fora do comum, que é a característica mais importante de um bom escritor de ficção científica.

A história foi publicada em capítulos semanais num jornal inglês. É de se esperar que essa forma busque construir uma expectativa, alimentando o mistério do homem cheio de bandagens, luvas e óculos escuros que se instala numa pousada no vilarejo de Iping, na Inglaterra. O homem é desmascarado e empreende uma fuga que o coloca contra a sociedade. 

Podemos dividir a obra em duas partes. Na primeira, vemos como a sociedade despreza o diferente, mesmo que esse não faça mal algum a eles. Vemos isso pelo olhar dos habitantes do vilarejo com o reservado homem. O homem invisível toma a palavra apenas a partir da metade da obra, onde conta em retrospecto como ficou invisível e seu caminho até o vilarejo de Iping e uma perseguição após esse relato que é recheada de ação. Nessa segunda metade a reflexão deixa de ser sobre a sociedade hipócrita que julga um homem por ser diferente e passa a do homem que faz uma experiência e ganha um poder que o corrompe. Nesse ponto a obra perde consistência pois acaba validando exatamente o que criticava no início, ainda que o questionamento que passa a ser feito seja bastante válido. 

Hells usa a imaginação nas suas descrições das implicações práticas de ser invisível e sua escrita é muito direta o que mostra uma opção em privilegia uma boa história, cheia de criatividade. Os primeiros leitores dessa história leram um capitulo por semana, o que deve ter gerado uma expetativa imensa do público. Ler a obra foi como maratonar uma série na Netflix e se eu pudesse reler (sem saber do mistério, obviamente) faria com as leituras semanais. Quem sabe numa próxima obra de Hells. De qualquer forma recomendo.
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terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Resenha #117 - A Invasão Divina (Philip K. Dick)


"A Invasão Divina" (1981) é a segunda obra da trilogia VALIS de Philip K. Dick, onde ele aplica na forma de ficção os conceitos em VALIS, usando personagens que encarnassem sua forma de enxergar o divino numa ficção científica muito fora do comum.

A história segue Emmanuel, um menino de dez anos que frequenta uma escola especial onde conhece Zina. Uma menina mais velha que guia Emmanuel em sua jornada para sua verdadeira essência. Ele é deus reencarnado para uma batalha do bem contra o mal. Ele foi trazido a Terra por Herb Asher, do distante planeta de metano CY30-CY30B, quando ajudou Rybys a conseguir tratamento para um câncer terminal, enquanto estava grávida de Emmanuel ainda virgem. 

Asher também está em uma jornada própria, após sua chegada a Terra, sofre um atentado no qual Rybys morre e Emmanuel posto em uma escola interna e passa dez anos em estado criogênico. Congelado, mas consciênte Asher reviveu o seu tempo, diversas vezes, nos domos CY30-CY30B de com Rybys desde que é forçado por Elias Tate a ajudá-la até o atentado.

Emmanuel e Zina, representam a divindade conforme a exegese de Horsolver Fat em VALIS enquanto a Asher é obviamente o próprio autor vivendo em camadas de realidade sem saber se existe uma que não seja um simulacro, sofrendo de visões e buscando salvação em sua musa inspiradora. Dick volta a usar de mais literatura e discrição para expor sua exegese usando personagens ao invés de apenas trazer conceitos, como fez em VALIS, o que fez sua visão ficar precisa mas não teve o peso emocional da história da ruína de Horselover Fat. Assim como seu predecessor, continua sendo uma obra que necessita de um conhecimento prévio de teologia, sendo que aqui Dick usa mais a Tora judaica que a Bíblia cristã. Recomendo a obra para leitores avançados em Philip K. Dick ou, ao menos, para quem já leu VALIS para não ficar de fora das referências.  
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terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Resenha #116 - Guerra do Velho (John Scalzi)


Vamos começar o ano de 2020 falando de um livro ideal pra ler nas férias, se você quer algo rápido e divertido. "Guerra do Velho" (2016) é o primeiro de uma bem sucedida saga de Ficção Científica space opera militar, que bebeu assumidamente do clássico "Tropas Estelares" de Heimlein, mas com uma proposta bem mais leve buscando entreter o leitor, o que faz bem. 

A história acompanha John Perry que aos 75 anos alista-se no Exército de Defesa Colonial, que atua em vários planetas da galáxia. Para os habitantes da Terra, tudo entorno de como esse exército atua é envolto de mistério. Qual a utilidade de idosos de 75 anos para um exército? Que tipo de tecnologia utilizam? Até se alistarem eles podem apenas deduzir e o autor conduz essa curiosidade pelo ponto de vista do protagonista e responde todas essas dúvidas e joga o leitor em ação frenética, onde Perry se mostra um excelente soldado, além disso consegue trazer mais mistérios ao longo da trama.

A construção de mundo é bem interessante e faz querer conhecer mais sobre as diversas criaturas inteligentes que vivem na galaxia, porém a ação frenética não deixa espaço para qualquer debate mais profundo sobre o que é ser humano. Indústria da guerra e dilemas existenciais são apenas tangenciados, deixando bem evidente que o livro é feito para divertir. O mesmo vale para o aprofundamento dos personagens. Eles são bem rasos mesmo, e o fato de que alguns não vivem muito, não me serve de desculpa pois Perry é apenas um bode expiatório para nos apresentar o mundo bem construído. Ainda não sei porque não virou filme, pois a sequência de acontecimentos é linear, de fácil compreensão e tem boas cenas de ação. Pronto para virar filme. Recomendo para quem já sabe o que esperar da obra.
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terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Resenha #115 - VALIS (Philip K. Dick)


"VALIS" (1981) é uma das obras mais importantes de Philip K. Dick. Nela o autor trás as principais ideias teológicas. Aqui Dick é bastante indiscreto com relação a sua relação com suas experiências pessoas, tornando a obra praticamente um relato biográfico de uma revelação divina, ou epifania. Esta experiência marcou sua obra e sua vida até sua morte em 1983.

A história fala de Horselover Fat, um homem atormentado pela morte recente de sua amiga Glória, por suicídio. Fat se vê em uma espiral de culpa que o faz tentar suicídio e o subsequente fim do seu casamento, ao mesmo tempo que tem uma experiência mística. Uma luz rosa que o faz ter consciência de tempos e línguas antigas e uma revelação que acaba salvando a vida de seu filho. 

A obra narra, na visão do próprio autor, a investigação de Fat sobre a luz. A primeira metade do livro traz a parte mais conceitual da investigação de Fat, onde ele desenvolve conceitos teológicos através de uma exegese. Dick não apenas joga os conceitos mas os explica e narra seu desenvolvimento. É uma parte bastante densa, dando ares de tratado filosófico (o que não deixa de ser um romance disfarçado disso) como do ponto de vista dramático mesmo, pelo tempo que Fat passa internado. A segunda metade da história é mais investigativa onde Fat e seus amigos (com quem travam debates que alavancam os conceitos) encontram uma pista em um filme recém lançado, chamado VALIS. Está parte que dura até o fim do livro, temos os momentos surpreendentes que costumamos encontrar em sua obras mas sem a preocupação de entregar uma surpresa. Parece óbvio que aqui Dick estava interessado em expor suas ideias sem se garrar formalmente a forma do romance, ainda que sem abandoná-la de fato.

VALIS não é uma obra que recomendo para leitores iniciantes. Não que estes sejam incapazes de entendê-la ou porque ela não fosse autossuficiente. VALIS traz de forma  amadurecida e lapidada tudo que vimos ao longo de toda a obra de Dick. A questão do gêmeo perdido de "Fluam, Minhas Lágrimas, disse o policial", a teologia básica de "O Deus da Fúria", a percepção de realidade de "Ubik" (e também em praticamente toda sua obra), o uso do I Ching de "O Homem do Castelo Alto", entre outras. De forma que VALIS (e sua chamada trilogia - "Invasão Divina" e "A transmigração de Timothy Archer") se tornam melhor compreensíveis e com os demais conceitos já assimilados em tantas obras excelentes do autor.




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terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Resenha #114 - Pequenas Mortes Cotidianas (Paula Gianini)


"Pequenas Mortes Cotidianas" (2017) de Paula Gianini é um daqueles pequenos achados literários dos quais não podemos desperdiçar. Já tinha contato prévio com os contos da autora o que me deu segurança para começar a ler. Paula entrega um livro de contos bem curtos, sem perder a profundidade e com uma coerência de uma coleção de contos deviam sempre ter. 

O tema morte(vida) estão presentes em toda a obra. A morte aparece na forma de perdas e lutos, que invariavelmente nos modificam. A autora usa as mais variadas formas de nos trazer isso: Pontos de vista inusitados, como animais ou uma doente em coma, outras vezes momentos de desespero em linhas de pensamento fluídas, memórias em momentos limite.

Alguns contos já foram publicados na plataforma EntreContos e deixei os links nos títulos, enquanto comento os contos individualmente. Só lembrando que as versões linkadas, ainda não tinham sido revisadas para o livro. Demais contos da autora na plataforma estão aqui, para vocês apreciarem. Então vamos aos comentários individuais dos contos:

"Mariposa" conta as reflexões da breve vida uma idosa que desperta de um coma de muitos anos mas que não consegue se comunicar. Conto se destaca pela perspectiva da protagonista e o conceito do título bem atrelado ao conto. "Com a ponta dos dedos" narra as primeiras sensações de uma menina interagindo com o mundo. Outro conto que soube explorar bem o ponto de vista. 

"Dejavú" conta sobre uma mulher que repensa suas decisões da juventude quando encontra uma Kombi colorida numa autoestrada. "Passarinhos" é sobre Laura, uma menina com o dom de ressuscitar pequenos animais em uma pequena e cruel cidade distante de tudo. Gosto quando o conto abraça o fantástico de forma despretensiosa. "Quase" inverte o rumo introspectivo do livro, até então, e pinta um retrato bem humorado da baixa auto-estima de uma mulher que não percebeu o tempo passar. 

"Mar de vidro" conta sobre a rotina de uma menina bagunceira sob o ponto de vista de um peixinho de aquário. "Porco no rolete" passeia entre o trágico e o cômico nos traumas de uma vegetariana, agora viúva, que se vê obrigada a prestar pêsames em uma família que presenciou seu evento tragicômico com um porco no rolete. "Bob" conto narra sobre o abandono de um cachorro na visão do próprio. Vejo como a morte se encaixa aqui como a morte da empatia por quem dedicamos amor.

"O espeleólogo", usa o inusitado cenário do Camboja para contar sobre um menino que se espelha no seu avô, detalhando suas lembranças que moldam o seu caráter. "A lagartixa" conta sobre a relação de uma transsexual filha de um político e consigo mesma. "De saltos altos" é uma narrativa insólita de uma mulher que não se vê por completo e depende de outra figura para se completar. "(...)" conta das lembranças fragmentadas de uma mulher que observa o mar e encontra uma garrafa com uma mensagem. A forma narrativa do conto é sensível e brilhante. 

"Ossos Largos" narra uma trajetória de baixa auto-estima com um final tragicômico, que nos relembra que o caminho para melhorar não pode excluir a nós mesmos. "Casal Perfeito" mostra o desmoronamento da hipocrisia de um casamento falido no desespero do marido abandonado. É o único homem protagonista e foi moldado de maneira muito crível. "Inventário" conta sobre acumuladora de objetos que repassa sua vida ao vasculhar sua casa procurando uma caixa com maçanetas. O título condensa bem a ideia se reavaliar, e pensar no que não fez durante a vida.

É necessário advertir ao nosso leitor de Ficção Científica, que é uma obra fora do tema do tema do blogue, contudo o livro é uma boa forma de intercalar entre nossas leituras. Vale a pena não apenas pelo flerte com o fantástico, mas pela qualidade desses contos em tão poucas páginas. A recomendação aqui é colocar esse livro na sua lista entre a leitura daquela nova edição de Fundação e de Duna que vale a pena!
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quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Lançamento do canal Diário de Anarres e primeiro vídeo


Olá pessoal. Hoje é um dia especial, pois o blogue vai finalmente estender-se para outra mídia, mas com outro nome. Estou lançando hoje o canal Diário de Anarres, onde vou fazer em vídeo o que já faço aqui: resenhas de livros. Também pretendo a médio prazo colocar vlogs sobre ficção científica e/ou literatura.

Segue o link para o primeiro vídeo

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terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Resenha #113 - As Fontes do Paraíso (Arthur C. Clarke)


"As Fontes do Paraíso" é uma das obras de Arthur C. Clarke em que ele se mostra mais otimista em relação ao futuro em relação a outras de suas obras clássicas, pois é mostrada uma tecnologia muito avançada, em um futuro relativamente próximo.

A história segue o engenheiro Vannefar Morgan em sua obra mais ousada e grandiosa: um elevador orbital, uma forma de ligar a Terra e o espaço de forma rápida, levando mais cargas/passageiros que os custosos foguetes. O primeiro problema para a realização da obra gira entorno da montanha escolhida para a torre base do elevador. Lá fica o templo budista de Kalidassa, um imperador da antiga Taprobana - equivalente a Sri Lanka e a história de sua construção e intrigas palacianas é contada nos primeiros capítulos.

A história é narrada do ponto de vista de Morgan, principalmente, mas também do jovem imperador Kalidasa, de um diplomata da ONU aposentado e de uma jornalista ambiciosa. Os capítulos são curtos mas as descrições técnicas da tecnologia usada no elevador é muito apurada e bastante baseada na realidade e em teorias existentes. Inclusive um posfácio do autor detalha mais tais fontes. O otimismo do autor em imaginar que em tão pouco tempo a humanidade estaria agregada o suficiente para uma obra deste porte ou para a colonização espacial, como vemos em Marte. 

Clarke atribui em parte esse avanço civilizacional a um evento sem precedentes: o contado com uma inteligência alienígena superdesenvolvida, chamado apenas de Sideronauta, que travou um contato breve mas devastador para as religiões no mundo. Menos para os solitários monges que ocupam a montanha ideal para a obra. O livro conta com capítulos curtos que ajudam a amenizar o ritmo lento da obra. Os debates sobre religião tomam conta da primeira metade da obra enquanto na segunda metade a tecnologia do elevador fica mais em evidência, e é onde o livro é mais interessante. Pessoalmente, acho o debate religioso um pouco inocente, mas de forma nenhuma inútil. A obra é recomendada, contudo, os outros clássicos do autor são bem melhores.
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